Dragão Chines

Texto: Edmundo Ubiratan

A República Popular da China é um país com características únicas, a começar por ser uma nação com uma das civilizações mais antigas do mundo e o único com existência contínua, nem mesmo o Egito ou a Grécia mantiveram sua civilização original. Ainda que a China tenha passado por inúmeras dinastias e mais recentemente tenha sofrido uma revolução cultural, as origens do país continuam as mesmas. Outra característica interessante é o fato de ser o único país que o comunismo prosperou, de forma um bastante peculiar é verdade, ainda assim levou a China a ser atualmente o país que mais cresce. De acordo com alguns analistas econômicos, é muito provável que em 2025 a China seja o segundo país mais rico e influente do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Além disso, é o país mais populoso, com mais de 1.3 bilhão de pessoas, ou seja, quase 25% da população da Terra tem cidadania chinesa.

Este crescimento colossal tem atraído capital de toda parte do mundo, elevando de maneira jamais vista a economia do país, até hoje, nenhum país obteve índices de crescimento tão expressivos. Parte desse interesse mundial pela China, é ligado justamente a sua imensa população, um mercado que poderá gerar trilhões de dólares aos investidores de toda parte. Porém, a China não parece disposta a entregar todo esse bolo para investidores externos, tanto que tem investido cada vez mais na compra de títulos de tesouros de países como os Estados Unidos, em infra-estrutura e especialmente em tecnologia própria. Enquanto atraem centenas de grandes fabricantes todos os anos para seus territórios, a China exige que o governo detenha 51% do controle do capital, que é sempre uma joint-venture entre uma empresa nacional e uma multinacional. Com isso, o governo consegue manter domínio absoluto sobre a industria local, podendo controlar salários, investimentos e acima de tudo obter tecnologia vital para o crescimento e sustentação da economia do país. Mesmo sabendo que grande parte da tecnologia transferida para o gigante asiático será, sem meias palavras, copiada, os grandes conglomerados ocidentais fazem vistas grossas, pois estão mais interessados em lucrar a curto prazo, com a mão-de-obra barata e com o gigante mercado disponível. Porém, parece que a China não é tão benevolente com seus investidores, afinal, porque entregar seu mercado a organizações internacionais, se o mercado pertence a eles?

Justamente visando afastar o fantasma da dependência externa, a China deu um importante passo rumo à independência no mercado de aviação comercial. Hoje, um dos maiores mercados de aviões comerciais está justamente no sudeste asiático, os quatro maiores fabricantes mundiais disputam palmo a palmo o crescente mercado local. Somente o mercado chinês é estimado em US$ 289 bilhões em vendas até 2020.

A China que até então vinha apenas comprando material externo, inicialmente equipamentos Soviéticos e nas duas últimas décadas aviões ocidentais, resolveu entrar na briga. Ainda que tenha produzido localmente alguns aviões comerciais, como o Shanghai Y-10, que era basicamente uma engenharia reversa do 707. Porém, o projeto não foi adiante e nenhum posterior teve a preocupação de atender as exigências das empresas aéreas locais, a maioria servia apenas como justificativa governamental para manter a indústria aeronáutica funcionando.

Após o lançamento do Xinzhou-60 em meados da década de 1990, a indústria local obteve relativo êxito industrial e comercial, produzindo um avião localmente utilizando equipamentos fornecido pelos principais fabricantes do mundo, exatamente como fazem as indústrias ocidentais. A CVIC (China Aviation Industry Corporation), empresa estatal dedicada à aviação, formada pelo consórcio entre a CVIC I e CVIC II, é responsável pela produção de diversos aviões militares chineses, como os Xian JH-7, J-10, J-11, como também produz componentes para diversas empresas ao redor do mundo. Uma das primeiras empresas a utilizar o potencial tecnológico e humano chinês foi à extinta McDonnell Douglas, quando sub-contratou a SAIC (Shanghai Aircraft Industries Corporation), empresa que havia desenvolvido o Y-10, para produzir a seção do nariz, portas do trem de pouso e estabilizadores horizontais da família MD-80, o que efetivamente começou em 1979. Visando obter maior participação no mercado chinês, a McDonnell Douglas licenciou a SAIC para produzir o MD-82 em 1985. Foram produzidos trinta e dois aviões nesta primeira fase, que atenderam unicamente o mercado chinês. Anos mais tarde a própria SAIC foi contratada pela Boeing para produzir diversos componentes para praticamente todos os modelos em produção, incluindo o 787 Dreamliner.

Em 2002, a EMBRAER firmou uma joint venture com a HAI (Harbin Aircraft Industry Co. Ltd.) e a HAFEI (Hafei Aviation Industry Co. Ltd.), ambas empresas controladas pela AVIC II, para montagem final da família ERJ 145 destinados ao mercado chinês. Ainda que com uma cadência de produção bem abaixo do registrado na matriz brasileira, o ritmo de venda e produção do ERJ 145 chinês esta dentro das previsões do mercado, visto que a aviação comercial chinesa é dominada por aviões de grande capacidade.

Graças aos conhecimentos e experiências acumuladas ao longo dos anos, especialmente quanto à produção de grandes estruturas para terceiros, a AVIC I deu um importante passo ao lançar em 2002 o programa do primeiro avião comercial “made in China”. Ainda que o avião não passe de uma cópia do MD-80, que foi ligeiramente modernizado, o avião batizado de ARJ21, tem se transformado num divisor de águas para a indústria aeronáutica civil do país. Mesmo mantendo a mesma fuselagem utilizada no MD-80, o avião ganhou novas asas, dotadas de alguns refinamentos aerodinâmicos e winglets, além de um cockpit equipado com novos aviônicos. Tais mudanças vão muito além das já adotadas pela indústria local, que na maioria dos casos apenas adaptava projetos ocidentais, as necessidades e realidades chinesas. Com o lançamento do ARJ21, a AVIC buscou parceiros ocidentais como a Liebherr Aerospace para fornecimento do conjunto de trens de pouso, a General Electric para motores, a Rockwell Collins responsável pela suíte de aviônicos.

Ao basear seu projeto em um modelo consagrado e fora de linha como a família MD-80, a China evitou o risco de constrangimentos internacionais por se apropriar de um projeto existente e ainda conta com toda experiência obtida com o modelo nos mais de 30 anos de operação ao redor do mundo.
A Boeing, atual proprietária da McDonnell Douglas poderia buscar nos organismos internacionais meios para barrar o desenvolvimento do ARJ21, alegando que o mesmo se baseia em um de seus modelos, que mesmo descontinuado é protegido por leis internacionais. Contudo, se o fabricante norte-americano entrar com uma ação contra a AVIC correrá sérios riscos de ver sua produção inteira parar por falta de peças, devido ao fabricante chinês ser responsável pelas produção de uma série de componentes utilizados pela Boeing. Além disso, o mercado chinês, poderia se fechar para os produtos Boeing, agravando ainda mais a situação deles. Isso para não falar que ambos os países envolvidos poderiam entrar numa séria e perigosa crise diplomática.

Como o ARJ21 visa atender exclusivamente o mercado asiático, atuando num nicho não explorado pela Boeing, esta optou por fazer vistas grossas ao programa, até porque ele pode barrar o crescimento da EMBRAER e Bombardier na região, o que não seria mau.

Sabendo da posição delicada da Boeing, a China tem investido na continuidade do projeto e já acumula mais de 140 pedidos, todos de empresas chinesas, para o modelo. Porém, as grandes empresas aéreas locais não tem demonstrado interesse em operar o avião, especialmente devido a pequena capacidade do modelo. O que não significa que não possam apoiar o desenvolvimento de um avião de grande capacidade e longo alcance.

E exatamente neste ponto a situação pode fugir do controle das “vistas grossas” ocidentais. Se até agora a investida chinesa não tem comprometido o mercado dominado pela Airbus e Boeing, o lançamento de um avião com capacidade similar ao A330 ou 767 pode abalar o cenário internacional.

No inicio deste ano, a AVIC e a Baosteel, formaram uma proposta de criar ainda neste mês de março um consórcio empresarial com objetivo de dotar o gigante asiático com a capacidade para fabricar grandes aviões comerciais com tecnologia própria.

De acordo com diversos jornais locais, como o Shanghai Daily, a AVIC propôs a Assembléia Nacional Popular, apoio legal para o desenvolvimento e produção de uma nova família de aviões comerciais de grande porte.

Ainda que o Governo e a imprensa chinesa, por ele controlada, não costume dar maiores informações sobre os assuntos internos do País, sabe-se que o projeto deverá consumir entre US$ 6,85 bilhões e US$ 8,17 bilhões. Valor próximo ao gasto no desenvolvimento do Dreamliner, com o diferencial que aproximadamente metade do valor será injetado pelo Estado. A forte presença do Estado na indústria chinesa representa seu grande trunfo com relação ao mercado ocidental, que vê o fato como seu maior pesadelo. Para a maior parte do setores que investem na China, os ganhos em curto prazo compensam as eventuais perdas futuras, exatamente por isso o imenso crescimento chinês tem chamado atenção de milhares de investidores externos. Porém, o mercado de aviação é visto por todos os países como estratégico para segurança nacional, especialmente para os Estados Unidos e os membros da União Européia.

Caso a China obtenha recursos e lance um avião de grande porte no mercado, ele provavelmente terá menor custo que seus pares ocidentais, devido aos elevados subsídios e a mão-de-obra extremamente barata na China. O Ocidente estará diante de um verdadeiro Dragão Chinês, pois terá de lidar com a forte concorrência lançada, sem no entanto abalar as relações comerciais e diplomáticas com o gigante asiático.

Resta saber se a indústria aeronáutica norte-americana, canadense, européia e brasileira estão prontas para o desafio, não apenas tecnologicamente, mas sobre tudo comercialmente. Sendo que neste ultimo caso vale de tudo, de apoio governamental até espionagem industrial, dois outros aspectos que a indústria chinesa também leva vantagem.

O desafio foi lançado com o ARJ21, batizado pela AVIC como Xiangfeng, ou em português Vôo da Fênix.