A República Popular da China é
um país com características únicas, a começar
por ser uma nação com uma das civilizações
mais antigas do mundo e o único com existência contínua,
nem mesmo o Egito ou a Grécia mantiveram sua civilização
original. Ainda que a China tenha passado por inúmeras dinastias
e mais recentemente tenha sofrido uma revolução cultural,
as origens do país continuam as mesmas. Outra característica
interessante é o fato de ser o único país que
o comunismo prosperou, de forma um bastante peculiar é verdade,
ainda assim levou a China a ser atualmente o país que mais
cresce. De acordo com alguns analistas econômicos, é
muito provável que em 2025 a China seja o segundo país
mais rico e influente do mundo, atrás apenas dos Estados
Unidos. Além disso, é o país mais populoso,
com mais de 1.3 bilhão de pessoas, ou seja, quase 25% da
população da Terra tem cidadania chinesa.
Este crescimento colossal tem atraído capital de toda parte
do mundo, elevando de maneira jamais vista a economia do país,
até hoje, nenhum país obteve índices de crescimento
tão expressivos. Parte desse interesse mundial pela China,
é ligado justamente a sua imensa população,
um mercado que poderá gerar trilhões de dólares
aos investidores de toda parte. Porém, a China não
parece disposta a entregar todo esse bolo para investidores externos,
tanto que tem investido cada vez mais na compra de títulos
de tesouros de países como os Estados Unidos, em infra-estrutura
e especialmente em tecnologia própria. Enquanto atraem centenas
de grandes fabricantes todos os anos para seus territórios,
a China exige que o governo detenha 51% do controle do capital,
que é sempre uma joint-venture entre uma empresa nacional
e uma multinacional. Com isso, o governo consegue manter domínio
absoluto sobre a industria local, podendo controlar salários,
investimentos e acima de tudo obter tecnologia vital para o crescimento
e sustentação da economia do país. Mesmo sabendo
que grande parte da tecnologia transferida para o gigante asiático
será, sem meias palavras, copiada, os grandes conglomerados
ocidentais fazem vistas grossas, pois estão mais interessados
em lucrar a curto prazo, com a mão-de-obra barata e com o
gigante mercado disponível. Porém, parece que a China
não é tão benevolente com seus investidores,
afinal, porque entregar seu mercado a organizações
internacionais, se o mercado pertence a eles?
Justamente visando afastar o fantasma da dependência externa,
a China deu um importante passo rumo à independência
no mercado de aviação comercial. Hoje, um dos maiores
mercados de aviões comerciais está justamente no sudeste
asiático, os quatro maiores fabricantes mundiais disputam
palmo a palmo o crescente mercado local. Somente o mercado chinês
é estimado em US$ 289 bilhões em vendas até
2020.
A China que até então vinha apenas comprando material
externo, inicialmente equipamentos Soviéticos e nas duas
últimas décadas aviões ocidentais, resolveu
entrar na briga. Ainda que tenha produzido localmente alguns aviões
comerciais, como o Shanghai Y-10, que era basicamente uma engenharia
reversa do 707. Porém, o projeto não foi adiante e
nenhum posterior teve a preocupação de atender as
exigências das empresas aéreas locais, a maioria servia
apenas como justificativa governamental para manter a indústria
aeronáutica funcionando.
Após o lançamento do Xinzhou-60 em meados da década
de 1990, a indústria local obteve relativo êxito industrial
e comercial, produzindo um avião localmente utilizando equipamentos
fornecido pelos principais fabricantes do mundo, exatamente como
fazem as indústrias ocidentais. A CVIC (China Aviation Industry
Corporation), empresa estatal dedicada à aviação,
formada pelo consórcio entre a CVIC I e CVIC II, é
responsável pela produção de diversos aviões
militares chineses, como os Xian JH-7, J-10, J-11, como também
produz componentes para diversas empresas ao redor do mundo. Uma
das primeiras empresas a utilizar o potencial tecnológico
e humano chinês foi à extinta McDonnell Douglas, quando
sub-contratou a SAIC (Shanghai Aircraft Industries Corporation),
empresa que havia desenvolvido o Y-10, para produzir a seção
do nariz, portas do trem de pouso e estabilizadores horizontais
da família MD-80, o que efetivamente começou em 1979.
Visando obter maior participação no mercado chinês,
a McDonnell Douglas licenciou a SAIC para produzir o MD-82 em 1985.
Foram produzidos trinta e dois aviões nesta primeira fase,
que atenderam unicamente o mercado chinês. Anos mais tarde
a própria SAIC foi contratada pela Boeing para produzir diversos
componentes para praticamente todos os modelos em produção,
incluindo o 787 Dreamliner.
Em 2002, a EMBRAER firmou uma joint venture com a HAI (Harbin Aircraft
Industry Co. Ltd.) e a HAFEI (Hafei Aviation Industry Co. Ltd.),
ambas empresas controladas pela AVIC II, para montagem final da
família ERJ 145 destinados ao mercado chinês. Ainda
que com uma cadência de produção bem abaixo
do registrado na matriz brasileira, o ritmo de venda e produção
do ERJ 145 chinês esta dentro das previsões do mercado,
visto que a aviação comercial chinesa é dominada
por aviões de grande capacidade.
Graças aos conhecimentos e experiências acumuladas
ao longo dos anos, especialmente quanto à produção
de grandes estruturas para terceiros, a AVIC I deu um importante
passo ao lançar em 2002 o programa do primeiro avião
comercial “made in China”. Ainda que o avião
não passe de uma cópia do MD-80, que foi ligeiramente
modernizado, o avião batizado de ARJ21, tem se transformado
num divisor de águas para a indústria aeronáutica
civil do país. Mesmo mantendo a mesma fuselagem utilizada
no MD-80, o avião ganhou novas asas, dotadas de alguns refinamentos
aerodinâmicos e winglets, além de um cockpit equipado
com novos aviônicos. Tais mudanças vão muito
além das já adotadas pela indústria local,
que na maioria dos casos apenas adaptava projetos ocidentais, as
necessidades e realidades chinesas. Com o lançamento do ARJ21,
a AVIC buscou parceiros ocidentais como a Liebherr Aerospace para
fornecimento do conjunto de trens de pouso, a General Electric para
motores, a Rockwell Collins responsável pela suíte
de aviônicos.
Ao basear seu projeto em um modelo consagrado e fora de linha como
a família MD-80, a China evitou o risco de constrangimentos
internacionais por se apropriar de um projeto existente e ainda
conta com toda experiência obtida com o modelo nos mais de
30 anos de operação ao redor do mundo.
A Boeing, atual proprietária da McDonnell Douglas poderia
buscar nos organismos internacionais meios para barrar o desenvolvimento
do ARJ21, alegando que o mesmo se baseia em um de seus modelos,
que mesmo descontinuado é protegido por leis internacionais.
Contudo, se o fabricante norte-americano entrar com uma ação
contra a AVIC correrá sérios riscos de ver sua produção
inteira parar por falta de peças, devido ao fabricante chinês
ser responsável pelas produção de uma série
de componentes utilizados pela Boeing. Além disso, o mercado
chinês, poderia se fechar para os produtos Boeing, agravando
ainda mais a situação deles. Isso para não
falar que ambos os países envolvidos poderiam entrar numa
séria e perigosa crise diplomática.
Como o ARJ21 visa atender exclusivamente o mercado asiático,
atuando num nicho não explorado pela Boeing, esta optou por
fazer vistas grossas ao programa, até porque ele pode barrar
o crescimento da EMBRAER e Bombardier na região, o que não
seria mau.
Sabendo da posição delicada da Boeing, a China tem
investido na continuidade do projeto e já acumula mais de
140 pedidos, todos de empresas chinesas, para o modelo. Porém,
as grandes empresas aéreas locais não tem demonstrado
interesse em operar o avião, especialmente devido a pequena
capacidade do modelo. O que não significa que não
possam apoiar o desenvolvimento de um avião de grande capacidade
e longo alcance.
E exatamente neste ponto a situação pode fugir do
controle das “vistas grossas” ocidentais. Se até
agora a investida chinesa não tem comprometido o mercado
dominado pela Airbus e Boeing, o lançamento de um avião
com capacidade similar ao A330 ou 767 pode abalar o cenário
internacional.
No inicio deste ano, a AVIC e a Baosteel, formaram uma proposta
de criar ainda neste mês de março um consórcio
empresarial com objetivo de dotar o gigante asiático com
a capacidade para fabricar grandes aviões comerciais com
tecnologia própria.
De acordo com diversos jornais locais, como o Shanghai Daily,
a AVIC propôs a Assembléia Nacional Popular, apoio
legal para o desenvolvimento e produção de uma nova
família de aviões comerciais de grande porte.
Ainda que o Governo e a imprensa chinesa, por ele controlada,
não costume dar maiores informações sobre
os assuntos internos do País, sabe-se que o projeto deverá
consumir entre US$ 6,85 bilhões e US$ 8,17 bilhões.
Valor próximo ao gasto no desenvolvimento do Dreamliner,
com o diferencial que aproximadamente metade do valor será
injetado pelo Estado. A forte presença do Estado na indústria
chinesa representa seu grande trunfo com relação
ao mercado ocidental, que vê o fato como seu maior pesadelo.
Para a maior parte do setores que investem na China, os ganhos
em curto prazo compensam as eventuais perdas futuras, exatamente
por isso o imenso crescimento chinês tem chamado atenção
de milhares de investidores externos. Porém, o mercado
de aviação é visto por todos os países
como estratégico para segurança nacional, especialmente
para os Estados Unidos e os membros da União Européia.
Caso a China obtenha recursos e lance um avião de grande
porte no mercado, ele provavelmente terá menor custo que
seus pares ocidentais, devido aos elevados subsídios e
a mão-de-obra extremamente barata na China. O Ocidente
estará diante de um verdadeiro Dragão Chinês,
pois terá de lidar com a forte concorrência lançada,
sem no entanto abalar as relações comerciais e diplomáticas
com o gigante asiático.
Resta saber se a indústria aeronáutica norte-americana,
canadense, européia e brasileira estão prontas para
o desafio, não apenas tecnologicamente, mas sobre tudo
comercialmente. Sendo que neste ultimo caso vale de tudo, de apoio
governamental até espionagem industrial, dois outros aspectos
que a indústria chinesa também leva vantagem.
O desafio foi lançado com o ARJ21, batizado pela AVIC como
Xiangfeng, ou em português Vôo da Fênix.