A Ordem do Lince
 
 
 
   
 
Texto: Edmundo Ubiratan
    A criação do Esquadrão HA-1 remota do contrato da Marinha do Brasil para a aquisição das fragatas Classe Niterói, em setembro de 1970. As fragatas Classe Niterói tiveram seu projeto baseado nas Fragatas MK-10 Classe Amazon utilizadas pela Royal Navy, porém tendo diversos tipos de modificações e aperfeiçoamentos. A Marinha do Brasil definiu, entre outros aspectos, com o estaleiro inglês Vosper Thornicroft que o convôo e o hangar deveriam ser projetados para receber o então recém concebido Westland WG-13 Lynx que está em fase de testes até então.

O projeto das novas fragatas contemplava o uso do Sistema de Armas - um novo conceito quanto à operação das suas armas que integrava e interava os sensores e armamentos do navio através de uma central de computadores. O helicóptero embarcado deveria operar totalmente integrado ao sistema de armas de bordo passando a ser uma extensão de armas do navio e sendo uma importante ferramenta para o pleno cumprimento das missões. Desde o princípio, a Marinha previa a aquisição do Westland Lynx que foi concebido sob esse conceito e ainda hoje é considerado o mais moderno e eficiente helicóptero de ataque embarcado já construído. Todo o projeto do Lynx foi norteado prevendo que o helicóptero pudesse ficar até seis meses embarcado e que fosse realmente a extensão aérea das armas do navio. O projeto previa inclusive realização de todos os serviços de manutenção abordo.

Devido à complexidade dessa nova plataforma, era necessária a criação de um novo esquadrão dedicado exclusivamente a sua operação.

Surge o HA-1

Para tal, a Marinha criou, em 15 de maio de 1978, o 1º Esquadrão de Helicópteros de Esclarecimento e Ataque (HA-1), sendo que foi implantado, inicialmente, em 17 de agosto, o Núcleo do Esquadrão que provisoriamente foi instalado em um anexo do hangar do Esquadrão HS-1. A implementação do Núcleo do Esquadrão tinha como objetivo a estruturação inicial do futuro esquadrão, como a criação de sua administração, a formação de uma equipe de manutenção e operação para receber o primeiro lote dos Westland Lynx. A ativação do Esquadrão se deu em 19 de Janeiro de 1979 com a chegada das primeiras aeronaves.

O Westland Lynx recebeu a denominação SAH-11 Lynx ao chegar no Brasil e após o primeiro pouso de um SAH-11 a bordo, em 20 de março do mesmo ano, na Fragata Constituição (F42) e chegada do nono e último aparelho (N-3028) em julho, o Esquadrão HA-1 foi declarado uma unidade operativa.

Em 1996 a Marinha estabeleceu que era necessário ter uma nova aeronave configurada para atur preferencialmente na Guerra Anti-Superfície. Assim, encomendou a Westland nove Super Lynx, e a modernização dos modelos já operados pela força. O Super Lynx, conta com uma série de novos sistemas como o radar Sea Spary 3000, que cobre 360º do horizonte e o Mage MIR 2, um moderno equipamento de Guerra Eletrônica. Apesar desta versão ser empregada prioritariamente na Guerra Anti-Superfície, os Super Lynx do AH-1 também possuem capacidade de lançar armamentos anti-submarino.

Os homens por trás da máquina

A operação dessa sofisticada máquina de guerra exige tripulações e equipes de manutenção muito bem preparadas e adestradas.

Os pilotos após se apresentarem no Esquadrão cumprem um programa de instrução composto por quatro etapas (A, B, C e D), onde piloto, em cada uma delas, aprende diversos aspectos sobre a operação do sistema tático da aeronave. Após o cumprimento desta fase inicial, o piloto se qualifica como POA (Piloto Operativo da Aeronave) apto a cumprir missões exercendo a função de 2P. Após voar em média dois anos e 350 horas de vôo no modelo, obter certificação para vôo por instrumentos (IFR) e estando apto para cumprir todas as missões operativas, como: HIFR (reabastecimento em vôo pairado); VERTREP (ressuprimento por carga externa); Pouso abordo; Esclarecimento e Planos de Ataque, sendo os três últimos realizados tanto diurno quanto noturno, o piloto recebe a qualificação de COA (Comandante Operativo da Aeronave) e está apto a realizar todas as missões do HA-1.

Porém, quando não estão voando, os pilotos do HA-1, assim como a maior parte dos pilotos militares brasileiros, desempenham uma vasta gama de atividades, que vão desde a parte administrativa, passando pela instrução de vôo, supervisão da manutenção da frota de aeronaves até as operações embarcadas. Todos os oficiais aviadores do Esquadrão detêm conhecimentos de um oficial de eletrônica, maquinista, de comunicação, armamentos e até mesmo de intendência.

Uma particularidade dos pilotos do HA-1 é que todos estão aptos a operar como 1P, pilotando a aeronave, quanto como tático na posição de 2P. É o único esquadrão a operar desta forma no mundo, sendo que em alguns países a posição do 2P não possui controles de vôo, apenas o painel com os sistemas de armas.

Apesar dos pilotos do HA-1 terem um amplo conhecimento sobre toda a aeronave, essa dinâmica não permite que os pilotos sejam especializados em uma única atividade.

Talvez este seja um dos pontos mais polêmicos dentro da Marinha, pois apesar da organização atual permitir que o Esquadrão se desloque com uma pequena equipe, os pilotos acabam tendo uma sobrecarga de atividades.

Há vários anos a Marinha estuda dedicar ao menos um oficial não aviador exclusivamente para a posição de tático, visto que esta atividade requer uma grande especialização devido a sofisticação da suíte de aviônicos do Super Lynx, dentre eles o poderoso radar Sea Spray 3000 e principalmente o Mage MIR 2.

Apesar de não ser uma posição oficial, a Marinha do Brasil acredita que o ideal seria que o Esquadrão HA-1 tivesse uma organização similar a adotada pela Royal Navy (Marinha Britânica), onde existe os pilotos, que se dedicam exclusivamente a pilotagem, os oficiais não aviador dedicado a função de TACO (Tactical Officer) e por fim um grupo de oficiais engenheiros que cuidam exclusivamente a manutenção. O maior empecilho para a adoção deste sistema são os constantes cortes no orçamento das Forças Armadas, que exigem que a Marinha e seus esquadrões se adaptem da melhor maneira possível à realidade brasileira. Outro grande entrave é que uma mudança desse porte na organização do HA-1 exige uma completa reestruturação em toda a Aviação Naval.

Mas mesmo sofrendo como toda a Marinha com as constantes reduções de verba, o HA-1, ainda é uma das maiores prioridades da Aviação Naval, especialmente devido sua importância para a Escolta.

Mesmo sendo um esquadrão dedicado a reconhecimento e ataque, o HA-1, realiza uma série de outras missões como transporte de pessoal, missões SAR, espotagem de tiro, recolhimento de torpedos e alvos aéreos, adestramento de tripulações embarcadas nas escoltas como dos controladores táticos, transporte de tropas, incursão de grupos de operações especiais e até mesmo instrução de vôo. Pois devido sua diminuta frota de Super Lynx, a Aviação Naval não dispõem de meios sejam eles financeiros ou de equipamentos para montar um esquadrão dedicado exclusivamente à instrução de Super Lynx.

A instrução para os Super Lynx são divididos em duas etapas, simuladores e vôos reais. Os vôos em simulador são realizados na Inglaterra devido a um convenio com a Royal Navy e os vôos reais são realizados no próprio esquadrão. Todos os pilotos são enviados em média a cada três anos para a Royal Navy, para realizar uma série de vôos em simulador, onde são treinados basicamente vôos em emergência, como a perda do rotor de cauda. Apesar de terem uma média geral de horas de vôo e de simulador abaixo dos pilotos da Royal Navy, os pilotos brasileiros conseguem manter excelentes índices de adestramento, comparado até mesmo aos da própria Royal Navy.

Visando obter um maior desempenho de seus pilotos e mecânicos, o Esquadrão possui o CBT (Computer Basic Trainner) um moderno e importante centro de treinamento, onde é possível conhecer em detalhes todos os sistemas do Super Lynx.

O CBT é dotado de um poderoso software que exibe em três grandes monitores LCD os mais diversos sistemas do Super Lynx, contando com animações gráficas, efeitos sonoros, vistas 3D de praticamente todos os componentes e esquemas completos e animados. O uso do CBT permitiu um salto significativo na instrução e aperfeiçoamento das equipes de manutenção que podem conhecer o Super Lynx nos seus mínimos detalhes de forma interativa e até mesmo divertida.

Os pilotos podem simular diversos tipos de vôos em um sistema similar ao do popular Flight Simulator, que visa basicamente à interação e com os mais diversos sistemas de navegação e guerra eletrônica do Super Lynx. Obviamente a complexidade de vôo é muito próxima a do real, exigindo assim um grande conhecimento para poder voar nesta plataforma que apesar de simples tem se mostrado de grande valia para a instrução dos pilotos, reduzindo os custos e aumentando significativamente a capacitação técnica.

Após conhecer o dia-a-dia dos homens que formam o Esquadrão HA-1, podemos ter certeza que o profissionalismo e dedicação de todos envolvidos torna plenamente possível a realização do lema escrito numa pá de rotor localizada no portaló do Esquadrão “Invenire Hostem et Delere” (Encontrar o Inimigo e Destruí-lo).
 
 

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