O
norte-americano John Wojick, é formado como ele mesmo diz
“com louvor” em engenharia aeroespacial pela Universidade
do Colorado, em 1980, e obteve seu MBA (Masters of Business Administration)
na Universidade do Colorado, em 1985. Antes de assumir o cargo de
vice-presidente de vendas da Boeing para América Latina e
Caribe, em 2002, foi diretor de vendas da Boeing responsável
pela Continental Airlines, Federal Express, National entre outras
empresas. Entre 1994 e 1996 atuou também as vendas de aeronaves
VIP e usadas, estando envolvido diretamente no então recém
lançado programa BBJ – Boeing Bussiness Jet.
Air onLine: Qual a participação
da Boeing hoje no Brasil e na América Latina? E quais são
as previsões para a região, especificamente o Brasil
para os próximos anos?
John Wojick: O Brasil é o
maior mercado de aviões comerciais da América Latina.
A GOL, uma das linhas aéreas mais lucrativas do mundo, voa
exclusivamente com aviões Boeing 737 e devem adquirir mais
de 100 aviões 737 com base nos já entregues e nos
pedidos realizados. A TAM, maior empresa aérea do Brasil,
recentemente fez um pedido de quatro aviões Boeing 777-300ER
para dar suporte a sua expansão em rotas internacionais.
Durante os próximos 20 anos, a América Latina irá
demandar 1.700 novos aviões. Desse monte, 35% serão
vendidos para o mercado brasileiro, 21% para o mexicano e 44%
para o restante das linhas aéreas do continente. Resumindo,
o Brasil terá uma demanda de 585 aviões, avaliados
em US$ 38 bilhões durante os próximos 20 anos.
Air onLine: A VARIG sempre foi uma das
principais clientes Boeing, atualmente quais as perspectivas da
empresa com relação a nova VARIG?
John Wojick: A Boeing e a VARIG
sempre tiveram um relacionamento próximo. Nós continuamos
a trabalhar com a Varig enquanto eles tentam voltar a atuar de
forma lucrativa.
Air onLine: Recentemente a TAM tradicional
cliente Airbus encomendou quatro 777-300ER, o que favoreceu o
tripleseven em detrimento dos A340? Existem estudos para a venda
de novos modelos para a TAM?
John Wojick: A Boeing está
muito orgulhosa pelo fato da TAM ter escolhido nosso avião
(777-300ER). A eficiência de dois motores, melhorias econômicas,
aliado a interiores de última geração fazem
dele um avião extremamente atraente para rotas de longa
distância. A Boeing vendeu 234 desses aviões para
18 clientes ao redor do mundo e a família 777 obteve 90%
das ordens de 2005 em relação ao A340. O 777-300ER
pode transportar 42 passageiros a mais e tem custos operacionais
19% menores que o A340-600. No entanto, é preciso perguntar
para a própria TAM quais foram os principais motivos para
eles terem selecionado esse avião.
Air onLine: Falando no 777-300ER ele ao
lado do irmão menor o -200LR, são os mais novos
produtos Boeing em operação . Qual a previsão
de novas vendas desses modelos para o Brasil e América
Latina?
John Wojick: Até hoje, seis
clientes encomendaram o 777-200LR, o avião de maior alcance
do mundo. O mercado para o 777-200LR é em torno de 300
aviões – alguns para rotas longas e outros para rotas
muito longas. É um grande avião para qualquer “carrier”
que procura expandir suas rotas e não requer um avião
do modelo 747, como por exemplo, a Aeroméxico que recentemente
começou a operar rotas diretas do México ao Japão
usando um 777-200ER.
Air onLine: Em meados de 2000 a Boeing
afirmou que o mercado global não teria demanda suficiente
para o A380, o que vem se confirmando nos últimos anos.
A Boeing hoje aposta no 747-8, quais beneficios o modelo trara
em relação a versão -400 e qual a previsão
de vendas do modelo a nível global?
John Wojick: Sim. A Boeing afirmou
que o mercado para aviões maiores que o 747, como o A380,
é pequeno, um mercado de nicho. A Boeing prevê que,
nos próximos 20 anos, o mercado de aviões desse
tipo será de 325 aviões. Além disso, a Boeing
antevê que o mercado para cargueiros 747 e outros ainda
maiores deve ser de 340 aviões. Consideramos esse mercado
pequeno para justificar um grande investimento no desenvolvimento
que um avião do porte do A380 requer. Mas o tamanho do
mercado é suficientemente grande para justificar o investimento
e as vendas em um avião derivado de um que já existe,
o que é o caso com o 747-8 Intercontinental para passageiros
e o cargueiro 747-8.
Air onLine: Como esta o andamento do programa
787?
John Wojick: Tecnologicamente avançado,
o 787 irá usar 20% menos combustível por assento
que outros de tamanho similar, irá proporcionar às
linhas aéreas um aumento de 45% de receita de carga e para
os passageiros haverá inovações que incluem
um novo interior com mais umidade, assentos, corredores e janelas
mais largos, assim como outras conveniências. Até
o momento 38 clientes realizaram 473 pedidos/compromissos de compra
pelo avião, fazendo do 787 o avião com maior sucesso
de lançamento.
O programa 787 está progredindo muito bem. Em janeiro,
a Boeing transportou as maiores peças do avião até
a fábrica de seu parceiro Global Aeronautica, em Charleston,
na Carolina do Sul, Estados Unidos, completando o primeiro ciclo
de produção, usando o Dreamlifter, cargueiro derivado
do 747-400 e especialmente modificado para este transporte. Temos
algumas etapas importantes em 2007, como a montagem final do avião,
sua apresentação e o primeiro vôo teste. Iremos
entregar o primeiro 787 a All Nippon Airways - ANA em maio de
2008.
Air onLine: O 787 tem sido um grande sucesso
de vendas, apesar do ceticismo inicial do mercado, ainda assim
o modelo não conseguiu grandes vendas nos USA. Este fato
deve-se a crise vivenciada pelas maiores empresas dos USA? Qual
a previsão de vendas do modelo para a América Latina
e o Brasil?
John Wojick: Desde a criação
do 787, o mercado tem estado ansioso para receber o novo avião,
o que não é surpresa, já que a Boeing procurou
envolver seus clientes desde o projeto do avião.
Nossas campanhas de vendas do 787 estão progredindo bem.
Estamos felizes com os pedidos que temos dos cinco continentes
e clientes com modelos de negócio variados – charter,
linha aérea regular, empresa de baixo custo, etc; e cada
um desses clientes está focado em crescimento e expansão
com viagens ponto-a-ponto para mais destinos em todo o mundo.
Vários clientes na América do Norte pediram o 787,
incluindo Air Canada, Continental Airlines, Northwest Airlines
e Aeroméxico.
O grande interesse pelo avião e a demanda que temos visto
em 2006 deve continuar em 2007.
Air onLine: O 787 além de contar
com tecnologia revolucionária, criou um novos sistema de
produção na Boeing. Quais as principais vantagens
da produção de partes do avião em diversos
pontos do planeta? Os ganhos com redução nos custos
de produção não estão ameaçados
pelo constante aumento no preço do petroleo, que elevara
demasiadamente o valor do transporte?
John Wojick: O 787 terá
50% de material composto, incluindo parte das maiores seções
do avião – fuselagem, cauda e asas. Coordenando fornecedores
em todo o mundo, a Boeing conseguiu os melhores parceiros para
o trabalho. Nós vamos focar no que fazemos melhor –
somos os líderes do projeto, iremos integrar todas as partes
e cuidamos de vendas, desenvolvimento dos requerimentos do avião,
design da estrutura e arquitetura de sistemas, integração
total, montagem final, certificação, entrega e suporte
pós venda. Essas são as áreas nas quais somos
especialmente qualificados para agregar valor aos nossos clientes.
Para transportar as maiores seções do 787 Dreamliner
dos fornecedores espalhados pelo mundo até a nossa fábrica
em Everett, no estado de Washington, para montagem final, a Boeing
utilizara o Dreamlifter. Mover as partes do avião dessa
maneira pode economizar de 20 a 40% em comparação
com o método tradicional de transporte por navio, além
de reduzir o prazo de entrega dos aviões. Esse tipo de
economia irá permitir que a Boeing recupere seu investimento
inicial na modificação do 747 durante os primeiros
anos de produção do 787.
Air onLine: A Boeing hoje tem investido
em novos modelos executivos expandindo a família BBJ. Como
a empresa ve o crescimento deste segmento para os próximos
anos, especialmente relacionado aos modelos widebody?
John Wojick: Nós vemos um
crescimento continuo para toda a linha de aviões VIP, desde
o BBJ baseado no Next-Generation 737 até os aviões
executivos maiores – widebody -, como o 747-8 e o 787 VIP.
Somente no ano passado, vendemos 14 aviões BBJ e 11 aviões
VIP widebody. Os aviões maiores incluem quarto VIP 747-8,
três VIP 787-9 e quarto VIP 787-8 . Dos últimos,
a Boeing Business Jets coordenou a compra de dois aviões
787-8 VIP de empresas de leasing para clientes VIP.
Air onLine: O Brasil conta com a terceira
maior frota de aeronaves executivas do mundo, qual a previsõe
de venda de novos modelos BBJ para o país?
John Wojick: A Boeing não
divulga previsão de vendas privadas para determinadas regiões
e clientes.
Air onLine: A Boeing estudou no final
da década de 1990 o lançamento do C-17 civil, porém
o projeto não foi adiante. Existem novos estudos para o
lançamento de uma nova aeronave cargo além do recém
lançado 777F?
John Wojick: A Boeing revisa continuamente
sua linha de produtos junto a seus clientes mas, no momento, o
cargueiro 777F é nossa mais recente oferta ao mercado.
Air onLine: O número de aeronaves
convertidas como cargo é crescente, concorrendo diretamente
com aviões novos. Como a Boeing tem lidado com esta situação
e quais as expectativas de participação da Boeing
no mercado de conversões?
John Wojick: O mercado de carga
aérea tem crescido constantemente nos últimos 30
anos e, durante esse tempo, a frota de cargueiros Boeing 747 cresceu
e hoje representa 50% da capacidade de carga mundial, tendo se
tornado padrão do mercado. Além disso, a Boeing
utilizou recursos significativos para estudar o mercado de carga
aérea, resultando na produção do “Boeing
World Air Cargo Forecast”, um estudo publicado a cada dois
anos, que é visto por muitos nesse segmento como a pesquisa
definitiva.
Durante os últimos dois anos, os cargueiros têm sido
parte significativa dos pedidos de novos aviões da Boeing
(em 2006 foram 81 cargueiros, que representam 8% do total de aviões
e 18% do valor total vendido). Os grandes cargueiros 747-400F,
747-8F e 777F têm sido os principais modelos pedidos. Novos
aviões constituirão metade da demanda dos próximos
20 anos e a outra metade será suprida por aviões
convertidos e combinados carga e passageiros.
No segmento de cargueiros médios e pequenos, a demanda
tende para a conversão de aviões de passageiros.
Na categoria de cargueiros de tamanho médio, a Boeing prevê
que mais de dois terços dos aviões serão
convertidos, e na categoria de pequenos, a vasta maioria será
de aviões modificados.
Seguindo em frente, continuamos otimistas em relação
à demanda por nossos cargueiros novos 747-8 e 777, com
um mercado menor projetado para o 767. Nós também
vemos uma demanda significativa para o 747-400 BCF (Boeing Converted
Freighter) assim como para o 767 BCF, ambos modificados por programas
gerenciados e criados pela Boeing, com trabalhos conduzidos por
empresas parceiras. A LAN e suas subsidiárias no Brasil
e no México são clientes que possuem o 767F e 767BCF,
assim como a TAMPA da Colômbia.
Air onLine: A Boeing tem algum estudo
em andamento para um futuro substituto do 737?
John Wojick: A Boeing constantemente
conduz uma gama de estudos para o desenvolvimento de futuros projetos
para continuar sempre competitiva, mas não temos planos
para substituir o 737. O desafio de melhorar a comprovada eficiência
econômica, de desempenho e a confiabilidade do 737 é
uma tarefa intimidadora e que demandará inovações
consideráveis. O avião 737 é extremamente
capaz e eficiente, nossos estudos indicam que será difícil
conseguir uma melhora significativa. Continuaremos estudando projetos
de aviões sucessores, mas, enquanto isso, o 737 continua
sendo um sucesso de vendas e a Boeing continua investindo em melhorias
no avião e em seu processo de produção.
Air onLine: A Embraer vem obtendo excelentes
resultados no mercado de até 110 assentos. A Boeing recentemente
cancelou o programa 717 que seria o concorrente direto da família
E-jet. Onde o 717 errou para não ter sido um grande sucesso
de vendas, visto que o mercado para este tipo de aeronave tem
mantido um ritmo de crescimento constante.
John Wojick: A Boeing decidiu focar
no desenvolvimento de aviões maiores no momento. Enquanto
há potencial de vendas para jatos regionais em termos de
números, as margens de lucro são menores para estes
tipos de aviões. Também deve ser notado que a Boeing
oferece um avião de 100 assentos muito competente, o 737-600,
operado com muito sucesso pela WetJet, empresa de baixo custo,
do Canadá.
Air onLine: A Boeing atualmente acusa
a Airbus de receber inúmeros incentivos dos países
sócios do consórcio. Enquanto a Airbus acusa a Boeing
de favorecimento em contratos militares. Como esta este embate?
John Wojick: Até termos
mais detalhes, não podemos comentar sobre o financiamento
para o A350. Só podemos reafirmar nossa posição
de que a Airbus deveria se apoiar no mercado comercial, de acordo
com as regras da OMC, para financiar e desenvolver seus produtos.
A Boeing apóia os esforços dos representantes de
comércio dos Estados Unidos na OMC para acabar com os subsídios
inconsistentes da Airbus, principalmente a ajuda para lançamento.
Isso está comprovado desde que a Airbus-EADS tem indicado
repetidamente que tem condições de desenvolver o
novo A350 XWB sem financiamento de terceiros.
Tanto a Boeing como o Governo dos Estados Unidos têm constantemente
demonstrado sua preferência por uma solução
negociada – mas também por um processo da OMC para
acabar com a ajuda para lançamento, caso seja necessário.
Air onLine: Para finalizar, quais as previsões
de venda da Boeing a nível mundial para os próximos
anos e qual a participação de cada modelo nesta
previsão?
John Wojick: A Boeing prevê
um mercado de US$ 2,6 trilhões para novos aviões
comerciais durante os próximos 20 anos. Estes novos aviões
irão acomodar um aumento de 4,9% no tráfico anual
de passageiros e um aumento de 6,1% no de carga. A Boeing antevê
a necessidade de, aproximadamente, 27.200 novos aviões
comerciais (passageiros e cargas), dobrando a frota mundial até
2025. A grande maioria desses novos aviões será
da categoria narrow-body de 100-240 assentos. Com base no valor
dos aviões, o maior Mercado será a região
Ásia-Pacífico, com 36% do total de US$ 2,6 trilhões
– um resultado da demanda entre empresas asiáticas
por mais aviões wide-body. A América do Norte será
responsável por 28% do total e a Europa por 24%. O valor
dos aviões que irão para as linhas aéreas
na América Latina, Oriente Médio e África
irá representar 12% do total, entre 2006 e 2025.
Durante os próximos 20 anos, as linhas aéreas irão
receber, aproximadamente:
• 3.450 aviões regionais – até 90 assentos
• 16.540 aviões narrow-body – entre 100 e 240
assentos, duas classes
• 6.230 aviões de wide-body – entre 200 e 400
assentos, três classes
• 990 aviões equivalentes ao 747 ou maiores –
mais de 400 assentos, três classes
Junto com a frota atual de aviões comerciais, os novos
aviões somarão 36.000 até 2025. Nossa perspectiva
de mercado atual prevê que os aviões narrow-body
e wide-body, na categoria de 100 até 400 assentos, serão
responsáveis por quase todo o crescimento de viagens aéreas
nos próximos 20 anos. A estratégia de produtos da
Boeing é focada nesse marcado crescente, oferecendo uma
família de aviões que dão maior eficiência
e maior lucro aos clientes, permitindo vôos non-stop, ponto
a ponto com a freqüência desejada pelos passageiros.