Heródoto Barbeiro
 
   
Por: Solange Galante
    Heródoto Barbeiro, um dos jornalistas mais conhecidos e de maior credibilidade do país, é piloto privado, o que grande parte de seu público desconhece. Esse é um motivo a mais para que apure com seriedade informações sobre aviação. O que deveria ser regra no jornalismo, ou seja, a apuração dos fatos e redação correta das informações, não só sobre aviação mas sobre todas as áreas, origina, infelizmente, distorções lamentáveis. Mas a experiência, disciplina e interesse de Heródoto ajudam, por exemplo, a TV Cultura, onde trabalha, a apresentar uma das coberturas mais sérias e corretas sobre assuntos relacionados à aviação.
Heródoto, jornalista há 22 anos, além da TV Cultura e Rádio CBN de São Paulo escreve artigos para jornais, revistas e Internet, e concedeu essa entrevista exclusiva para o Air onLine:

Air onLine: Como você entrou na área de aviação e qual sua experiência atual?

Heródoto Barbeiro: Entrei por dois motivos: na época, era uma forma de se ficar livre do serviço militar. E segundo porque meu irmão mais novo tornou-se instrutor de uma escola de aviação, a ELA, Escola Livre de Aviação (.....). Como ele era instrutor lá e foi instrutor também no Aeroclube de Praia Grande, passei a voar mais com ele. Isso me entusiasmou para tirar o brevê. Fiz a maior parte do curso com os aviões da ELA, o curso era dado em Jundiaí, voei também em Praia Grande e finalmente tirei o brevê de piloto privado pelo Aeroclube de São Paulo, porque a ELA fechou.

Air onLine: E você ficou só no PP?

Heródoto Barbeiro:
Só. Como na época eu já estava dando aulas de História em cursinho, e fazendo curso de Direito, e acabei não prosseguindo na aviação. Mas minha primeira esposa, na época, também trabalhava na aviação, ela era aeromoça na Transbrasil, depois virou checadora na Transbrasil, então eu ouvia falar de avião em minha casa todo dia.

Air onLine: E você continuou fazendo algum voozinho depois disso?

Heródoto Barbeiro: Eu continuo fazendo algum voozinho, tenho voado com meu irmão por aí, gosto muito de voar, e tenho acompanhado, lendo, um pouco do assunto, faço entrevistas quando tem algum assunto do meio.

Air onLine: Eu reparo que, na TV, o Jornal da Cultura é, dentre os vários que acompanho, o mais ético ao tratar das coisas de aviação, sem sensacionalismo ou pegar pesado quando ocorrem acidentes. Você ajuda a dar consultoria ao jornal?

Heródoto Barbeiro: Ajudo. Apesar de eu não ser um especialista no assunto, gosto mas não sou especialista, eu conheço quem entende, então, toda vez que acontece um acidente aeronáutico ou qualquer coisa relacionada à aviação, a primeira coisa que eu faço é ligar para essas pessoas e ouvir a opinião delas. O mesmo critério jornalístico que, claro, eu uso para qualquer outro assunto. Não me considero especialista em nada, mas acho que para emitir opinião você tem que ouvir especialistas. Mas há certos setores que são mais sensíveis do que outros. Aviação, por exemplo, é um deles. Porque, no imaginário popular, aviação é uma coisa mágica. Se você conversar com os passageiros de avião, a maior parte não sabe como o avião voa. Para a população em geral é uma coisa bem esotérica, se você cai no sensacionalismo, você presta um deserviço a um setor tão importante de transporte, como é o setor aeronáutico. No caso dos acidentes aeronáuticos, que provocam grande comoção, veja o que acontece: cai um ônibus no Peru e mata 30 pessoas, ninguém dá a informação. Se cair um avião na Indonésia e matar 30 pessoas, toda mundo dá a notícia. Outra coisa curiosa: se na Via Dutra batem dois ônibus e acontece um grande acidente, você sabe só o nome da empresa, mas não sabe que ônibus é, que marca é, que modelo é, nada. Quando acontece um acidente aeronáutico, você sabe a marca do avião, a empresa que fabricou, o modelo...

Air onLine: ...quantos anos tinha o avião...

Heródoto Barbeiro: Eu vejo aqui nas laudas aqui na CBN, ‘um 737-300 bateu...’ e pergunto (a quem redigiu): ‘Mas você sabe o que é um 737-300?’ ‘Não sei, mas está escrito aqui...’ E digo ‘Então, porque você vai repetir isso? Diga só ‘um avião bimotor’ e tal, para simplificar.

Air onLine: Inclusive, recentemente, naquele pouso forçado do Robinson 22 na Marginal, em uma emissora a repórter aérea insistentemente falou que era um ‘Esquilo-Robinson 22’...

Heródoto Barbeiro: Ah, eu vi, foi na Record, ela falava que era um “Esquilo”, eu ouvi várias vezes... mas isso é aquele negócio: como tem um grande impacto, então as pessoas vão chutando, sem saber do que se trata, e vão mandando bala...

Air onLine: Para concluir, Heródoto, qual sua opinião sobre a situação da aviação comercial atualmente, no Brasil? Está em crise? Não está em crise...?

Heródoto Barbeiro: Não, não está em crise. Estão em crise algumas empresas, mas porque a aviação é um setor dinâmico extremamente dinâmico, eu acho que um dos mais dinâmicos da economia, então, quando você não tem uma atualização, você fica para trás. Agora, você pega uma empresa tradicional, como por exemplo a Varig, ela começa a distribuir notícias como se estivesse sendo atacada a nacionalidade, a bandeira do Brasil, entendeu? Quando, na verdade, é só você olhar para outros países do mundo, onde outras empresas foram para o brejo e nem por isso aconteceu nada. Houve uma época em que a Pan American era a bandeira dos Estado Unidos. Ela faliu, e ninguém impediu que falisse! Então, porque vou ter que pegar dinheiro público e aplicar na empresa? Nada contra a Varig, mas também nada a favor, também. Vou até te contar um fato rapidinho: outro dia fui dar uma palestra na PUC no Rio, fui pegar a ponte aérea e o vôo da Varig atrasou uma hora. Eu iria sair de São Paulo às oito, o vôo saiu às nove e meia. Chegando lá, iria pousar no Santos Dumont, mas ele estava fechado, e o avião acabou indo para o Galeão. Tudo bem, uma questão fortuita. Aí o comandante diz assim a todos a bordo: “O nosso desembarque vai demorar de 10 a 15 minutos porque a nossa escada elétrica está com defeito. Aí, no dia seguinte, fiz um comentário na CBN dizendo o que tinha acontecido e acrecentando “provavelmente, se tivesse tido algum problema na turbina, não teriam dito para nós...” Daí uma pessoa lá da Varig me enviou uma carta me esculhambando, dizendo que eu estava fazendo campanha contra a empresa, que eu era anti-nacionalista, coisas desse tipo. Quer dizer, eu quero ser atendido como cliente, como passageiro. Não me interessa que empresa é, claro que algumas tem mais admirabilidade que outras, é óbvio, mas isso não é só em relação a companhias aéreas, quando você vai comprar um carro 1.0 é tudo igual mas você compra aquele que te cativa mais. Mas crise, não há. Vou contar outra: viajei para Brasília noutro dia e fiquei sentado perto do portão e chamaram para embarque um vôo para Belo Horizonte pela BRA. Eu fiquei contente em ver os tipos que estavam na fila, umas cem pessoas na fila para embarcar e tinha muita gente humilde, e fiquei contente com aquilo. Falam em inclusão digital, etc, e a inclusão do transporte aéreo? Tem gente que pegava um ônibus e ficava dias na estrada.

Air onLine: Uma vez eu voei pela Transbrasil para Brasília e tinha uma senhora sentada a meu lado, bem humilde também que iria fazer uma conexão para o Piauí, pois a filha dela pagou a passagem para a mãe ir pela primeira vez de avião para lá. A senhora estava muito contente.

Heródoto Barbeiro: Não é verdade? Isso era um conforto só para nós da classe média. Agora, quando você percebe que as pessoas mais humildes estão tendo acesso a isso, essa informação ninguém fala.
 
 

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