O canoense Marco Aurelio Spall Maia é
nascido em 1965 e iniciou sua vida política no movimento
sindical, tendo atuado na área por mais de 15 anos. Começou
a trabalhar aos 14 anos como cotista do Senai. Elegeu-se dirigente
do seu sindicato em Canoas, em 1984. Também militou na construção
da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e em grupos de jovens
nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).
Foi reeleito Deputado Federal pelo PT em 2006 com 70.983 votos para
um mandato completo, em 2002 foi o 1º suplente e assumiu em
janeiro de 2005 seu primeiro mandato. Durante a instauração
da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Crise
do Sistema de Tráfego Aéreo na Câmara dos Deputados,
assumiu como relator.
Air onLine: O que é, e quais são
os objetivos da CPI da Crise do Sistema de Tráfego Aéreo?
Marco Maia: Esta Comissão
Parlamentar de Inquérito tem como objetivo "investigar
as causas, conseqüências e responsáveis pela crise
do sistema de tráfego aéreo brasileiro, desencadeada
após o acidente ocorrido no dia 29 de setembro de 2006, envolvendo
um Boeing 737-800, da Gol (vôo 1907), e um jato Legacy, da
americana ExcelAire, com mais de uma centena de vítimas".
É importante lembrar que qualquer CPI possui finalidades
e limitações específicas, ou seja, sua essência
é a de investigar "fatos relevantes para a vida pública
e para a ordem constitucional, legal, econômica ou social
do País", ou seja, não está sob sua competência
o julgamento e a aplicação de sanções,
muito menos a definição e execução de
políticas para qualquer setor da sociedade, funções
de responsabilidade dos outros poderes da República, respectivamente,
do Judiciário e do Executivo.
Air onLine: Em diversas seções
o tema central é deixado completamente de lado, passando
para temas secundários como, por exemplo, o monopólio
das linhas internacionais que existiu até meados de 1990.
Que em nada tem haver com a proposta da CPI. A falta de especialistas
em aviação na comissão não torna o trabalho
mais difícil tendo em vista que nenhum dos deputados envolvidos
tem domínio sobre o tema abordado?
Marco Maia: O tema central em nenhum
momento está sendo deixado de lado, estamos ouvindo técnicos
da área, assim como autoridades da Aeronáutica; as
pessoas envolvidas no acidente entre o Boeing da Gol e o jato Legacy,
como os controladores de vôos, os responsáveis pelos
setores de segurança aérea; já existem requerimentos
convocando os pilotos do Legacy assim como os demais tripulantes
daquela aeronave. Também já vieram ou estão
para vir à CPI, dirigentes sindicais do setor, tanto dos
trabalhadores, quanto das companhias aéreas; atual e ex-presidentes
da Infraero, presidente da ANAC, enfim, a CPI está ouvindo
diversos atores envolvidos com o setor aéreo no país.
Quanto a sua afirmativa de ausência de especialistas na área,
é papel da CPI, e isto estamos fazendo, buscar todas as informações
possíveis dos órgãos sobre o Setor Aéreo
e auxílio de técnicos da área e isto já
fizemos, requisitando funcionários da ANAC, AGU, Polícia
Federal, TCU, Infraero e Aeronáutica para auxiliares nos
trabalhos da CPI.
Air onLine: A investigação
de acidentes aéreos é de responsabilidade do CENIPA,
que tem como objetivo evitar que um novo desastre com características
similares aconteça. Porém, a CPI ela tem se mostrado
punitiva, buscando os responsáveis pela crise desencadeada
após o fatídico acidente envolvendo o avião
da Gol ao invés de buscar soluções para a atual
crise. Essa interferência não pode prejudicar ainda
mais a aviação brasileira?
Marco Maia: Em momento algum estamos
julgando ou pré-julgando pessoas ou instituições,
muito menos punindo, até porque este não é
o papel da CPI, nosso papel é o de investigar. Ao término
dos trabalhos, no Relatório Final, o que queremos apontar
é um diagnóstico do setor aéreo no país
e, se no desenrolar dos trabalhos forem apontados culpados pelo
acidente ou pela crise no setor, não seremos nós,
parlamentares que julgaremos ou puniremos, mas sim o Judiciário.
Air onLine: Este ano uma comissão
da ICAO - International Civil Aviation Organization, deverá
realizar uma inspeção no Brasil, tendo esta visita
o objetivo de verificar os atuais padrões da aviação
brasileira. Com o atual cenário, não é descartada
a chance do Brasil pela primeira vez ser rebaixado de nível
pela organização. Caso isso ocorra às empresas
brasileiras enfrentaram sérias dificuldades para voar ao
exterior, entre outros problemas. O que a CPI pode fazer para evitar
que isso ocorra?
Marco Maia: A CPI está levantando
o máximo possível de informações referentes
ao setor, com o objetivo de identificar onde estão os pontos
de estrangulamento dos diversos atores envolvidos no sistema de
tráfego aéreo brasileiro, que levam a esta crise no
setor, com atrasos nos vôos, falta de informação
aos usuários e a falta de um novo marco regulatório
para o setor. Ao término dos trabalhos queremos apontar diagnósticos
e soluções para os problemas enfrentados, para que
o setor aéreo no País continue sendo respeitado internacionalmente
como sempre foi, até o acidente de setembro do ano passado.
Air onLine: Um dos problemas enfrentados
pela aviação brasileira há mais de duas décadas
é a elevada carga tributária, muito acima da média
mundial e a falta de investimentos no setor. Na CPI até o
momento não foi abordada esta questão. A CPI poderia
auxiliar o setor criando a possibilidade das empresas, sejam aéreas
ou operadores particulares, a debater tais problemas com o Governo?
Marco Maia: A questão específica
da carga tributária ainda não foi abordada na CPI,
o que não quer dizer que este assunto não possa entrar
em pauta no decorrer dos trabalhos. Se os demais colegas tiverem
interesse em discutir este assunto na Comissão, pautaremos.
Air onLine: Em praticamente todas as seções,
sejam na Câmara ou no Senado, fica claro que para a CPI, a
crise no sistema aéreo é de responsabilidade da Aeronáutica.
Porém, não é novidade para ninguém do
setor que há mais de 15 anos as Forças Armadas tem
sofrido com diversos contingenciamentos no orçamento, que
tem contribuído de forma direta para o sucateamento de grande
parte dos sistemas de vigilância radar do país. Não
seria o caso do deputados envolvidos na CPI tentarem buscar uma
solução para este grave problema que atualmente afeta
inclusive a segurança e soberania brasileira?
Marco Maia: Mesmo com o contingenciamento,
o atual Governo está investindo mais no setor do que a gestão
anterior. Nos dois últimos dois anos do Presidente Fernando
Henrique Cardoso foram investidos R$ 753.762.028,00 no setor, enquanto
nos dois primeiros anos do Governo Lula foram R$ 839.220.249 e,
do início do governo até este ano, já foram
investidos R$ 2.354.927.835,00. Apesar dos investimentos vultosos,
ao longo dos trabalhos da Comissão fui me convencendo de
que o setor necessita ainda de mais investimentos pensando no futuro
do setor no País.
Observe a tabela comparativa:
| Ano |
Orçamento |
Contingenciamento |
Investimento |
| 2000 |
407.029.182,00 |
zero |
407.029.182,00 |
| 2001 |
350.055.600,00 |
6.693.000,00 |
343.362.600,00 |
| 2002 |
411.798.293,00 |
1.398.865,00 |
410.399.428,00 |
| 2003 |
455.844.954,00 |
85.733.611,00 |
370.111.343,00 |
| 2004 |
470.465.413,00 |
1.356.507,00 |
469.108.906,00 |
| 2005 |
496.611.556,00 |
61.218.616,00 |
435.392.940,00 |
| 2006 |
531.694.804,00 |
1.224.069,00 |
530.470.735,00 |
| 2007 |
549.843.911,00 |
zero |
549.843.911,00 |
| Todos os valores expressos em Reais (R$) |
Air onLine: Os atrasos verificados desde
outubro de 2006 estão ligados não apenas a operação
padrão dos controladores, mas especialmente a falta de investimentos
em infra-estrutura, como na manutenção e aperfeiçoamento
dos auxílios a navegação, problemas ligados
à pavimentação dos pátios, pistas de
táxi e rolagem. Todos esses, de responsabilidade da INFRAERO,
empresa sob controle da União, que tem investido de forma
bastante incoerente na reforma e construção de terminais
de passageiros, priorizando muitas vezes aeroportos secundários
ou ainda áreas de comércio ao invés de projetos
realmente importantes. Não é o caso da CPI estender
a investigação para os atuais projetos da INFRAERO
e ainda seus administradores?
Marco Maia: Diferente do que alguns
setores da imprensa e da própria oposição,
esta CPI não está se furtando de investigar a INFRAERO.
A Comissão já ouviu o atual e seus ex-presidentes
e o Secretário de Finanças da Aeronáutica,
Sr. Elmar Dieguez Barreiro (21 de junho), sobre os investimentos
no setor, obras em aeroportos, etc. Inclusive uma comitiva da CPI
foi até o Aeroporto de Congonhas, em São Paulo conferir
o andamento das obras neste aeroporto, no qual os passageiros vem
enfrentando problemas há tempos.
Vou recomendar no Relatório Final o tema do investimento.
Temos a preocupação de garantir todos os recursos
necessários para acompanhar o crescimento da demanda. Se
a demanda continua crescendo, é claro que vai ser necessário
elevar o investimento para evitar um “apagão aéreo”
no país.
Air onLine: Em 2006 foi criada a ANAC, atendendo
uma antiga reivindicar do setor que solicitava a desmilitarização
da aviação civil. Desde então o que tem ocorrido
são gastos exorbitantes da ANAC com passagens aéreas,
ao invés da criação de uma política
mais clara e simples para a aviação. Neste caso não
seria a ANAC uma das responsáveis pela atual crise?
Marco Maia: A busca pelos
responsáveis pela atual crise no sistema aéreo brasileiro
é um dos objetivos desta CPI. Com certeza, os problemas enfrentados
pelo setor atualmente não são isolados e muito menos
devem-se a um determinado órgão, pessoa ou gestão.
Acredito que são vários setores e agentes envolvidos
na questão. Por enquanto é cedo para responsabilizar
"A", "B" ou "C", mas com certeza as
responsabilidades serão apontadas assim como serão
indicadas sugestões de melhorias para o sistema aéreo
brasileiro.
Air onLine: Muito se tem falado do modelo
de gerenciamento do tráfego aéreo brasileiro, abordando
basicamente o fato do mesmo estar sob responsabilidade do Comando
da Aeronáutica e a possibilidade de criar um sistema civil
independente. O que se tem analisado para a formação
deste novo cenário, onde a Aeronáutica passa a ser
parte do sistema e não mais a única responsável
pelo mesmo?
Marco Maia: A desmilitarização
é um assunto que está na pauta da CPI e tema abordado
em quase todas as reuniões. Estamos levantando todas as questões
pertinentes ao assunto para que o Relatório Final possa apontar
soluções reais para o setor.
Quando se fala em desmilitarização é preciso
delimitar o que isto significa, o que seus defensores querem: a
desmilitarização do controlados de vôo, a desmilitarização
do comando ou a desmilitarização do sistema como um
todo? A resposta para estes questionamentos é o que estamos
buscando com a CPI.
Air onLine: Ainda falando no sistema de
tráfego aéreo, nos Estados Unidos temos um sistema
eficiente que cada setor, nível de vôo ou mesmo tipo
de aeronave é controlado por centros independentes. Existe
alguma proposta por parte da comissão ou mesmo de apenas
algum membro para a criação de um sistema baseado,
por exemplo, no modelo norte-americano?
Marco Maia: Atualmente, pelas informações
que nos chegam através, principalmente da imprensa, até
mesmo os Estados Unidos vêm enfrentando problemas de congestionamento
no tráfego aéreo, o que os obriga a discutir, por
exemplo, uma revisão das tarifas aéreas, a fim de
regular o mercado. Demonstrando que não há uma configuração
ideal que atenda as necessidades de todos os países. Sendo
assim, e levando em consideração de que a atual estrutura
de gestão do sistema aéreo brasileiro ainda é
nova e segue em fase de implantação, a partir da criação
do Ministério da Defesa e da Agência Nacional de Aviação
Civil, há uma preocupação maior, no momento,
em fazer com que esta nova estrutura ajuste-se e possa funcionar
de maneira à bem atender os passageiros.
Air onLine: Para finalizar qual sua expectativa
com relação a CPI, para que ela não acabe sem
mudar absolutamente nada. Para não reforçar a opinião
da imensa maioria dos brasileiros é que toda CPI que acaba
em "pizza"?
Marco Maia: Estamos trabalhando com
o firme propósito de não desviar o foco das investigações.
Os diversos exemplos de CPI's, que em um passado recente, desviaram
o seu foco, acabaram produzindo resultados insignificantes, desgastando
seus membros e a instituição legislativa junto à
sociedade e não é isto que queremos com esta CPI.
Ressalto que este relator, e boa parte dos integrantes desta Comissão,
estamos trabalhando com o propósito de recuperar a credibilidade
das CPIs, enquanto ferramenta que apresente resultados efetivos
para a sociedade.
Tenho a certeza de que esta CPI, seguindo "o plano de vôo
traçado", e estamos atentos a isto, apresentará
contribuições concretas para que a economia nacional
volte a voar em "céu de brigadeiro" e para que
mais brasileiros possam viajar com tranqüilidade, pontualidade
e segurança.