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O
século XXI experimenta um caminho inusitado, de início
sutil ainda no final do século passado, e muito mais nítido
agora: a volta às origens. Há quem enxergue um teor
bíblico nisso: "Vieste do pó e ao pó retornarás...".
E, biblicamente, como se as sete pragas do Egito estivessem ressurgindo
com força descomunal, a Natureza mostra toda sua força
à Humanidade, esta filha ingrata...
Antes que aconteça um grande Dilúvio – em algumas
partes do mundo, é exatamente essa a impressão, de
que o planeta Terra vai assumir sua identidade de Planeta Água
– os seres humanos auto-designados "geração
consciente" começaram a não só se preocupar
em preservar a natureza mas também conhecê-la melhor,
antes que se acabe ou justamente para que não se acabe.
Essa geração "natureba", "naturalista"
e "ecologista" preocupa-se com a alimentação,
com a preservação do meio ambiente, com a pureza da
água, com a redução radical da poluição
(em todas as suas variáveis). E sabe que é a natureza
que tem o poder de aliviar o estresse e dar qualidade à vida
ao mais engajado ser humano do século XX.
O século que se findou no ano 2000 – ou 2001, como
muitos defendem – experimentou um avanço tecnológico
inimaginável pelas gerações que o viram nascer.
Os centenários homens e mulheres que tiveram o privilégio
de comemorar "Feliz 1900!" que o digam! Do lampião
a gás à luz fria, dos bondes puxados a burros ao trem
bala, passando pelo revolucionário plástico, pelo
versátil náilon, pela transmissão de voz e
imagem sem válvulas, os exemplos são infinitos.
Há pouco mais de cem anos cozinhava-se com banha de porco
e manteiga estava em tudo, o leite era grosso, não aguado,
torresmo era consumido sempre, e quase não se falava de colesterol
e obesos mórbidos não eram tão freqüentes,
pois ninguém ficava comendo quilos de pipoca diante de TV
horas a fio e crianças brincavam na rua, não diante
de computadores. Hoje, na era em que gordura animal é sinônimo
de enfarte em potencial e crianças urbanas acham que o leite
vem da caixinha, não da vaquinha, o ser humano suspira de
saudades da goiaba doce colhida no pé e do mergulho no rio
cristalino.
Assim, toda tecnologia, todo progresso, toda comodidade da vida
moderna não foi o suficiente para o ser humano se sentir
plenamente saudável, feliz, VIVO! E é quando a Mãe
Natureza o chama de volta, para não ser esquecida e para
agasalhá-lo.
A aviação como passaporte
a esse reencontro
Desde a conquista dos céus na leveza do mais-leve-que-o-ar
e na velocidade do mais-pesado-que-o-ar, pouco mais de cem anos
atrás, a aviação não deixou de progredir
em tecnologia. Depois do monomotor, o bimotor, o trimotor, o quadrimotor...
os bimotores gigantescos, que voam praticamente sozinhos, as rodas
dando origem a manches, e joysticks quase sensíveis ao pensamento
do piloto. Cabines pressurizadas, mais altitude, mais velocidade,
conforto, sofisticação...
Inserida nesse movimento "reverso", de busca da Natureza,
a aviação, paralelamente, foi desenvolvendo também
aparelhos menos sofisticados, embora mais duráveis. Aqui,
tecnologia não é voar a 51 mil pés ou a Mach
.3. Não é aquela sopa de letrinhas do FMS, MFD, PFD,
GPS, ACARS etc. Tecnologia apenas para substituir o bambu, a corda,
o tecido com dope, a seda e as rodas de bicicleta pelo titânio,
pelos materiais compostos, pelo aço. Esses aparelhos de vôo
mais lento e menor altitude têm o perfil exato do filho que
retorna à casa da Mãe Natureza.
Anualmente instalada no parque do Ibirapuera, em São Paulo,
a feira de esportes e turismo de aventura, a Adventure Sports Fair,
novamente lembrou os visitantes que esse reencontro com o natural
dá-se em três planos ou elementos: a terra, a água
e o ar. Especificamente falando de aviação, podemos
buscar no passado mais do que uma volta à Natureza mas uma
volta aos tempos em que o cidadão comum podia alcançar
a glória através do vôo.
Desde as primeiras tentativas de vôo do ser humano, inicialmente
com os balões, administrar os três elementos foi fundamental.
Voar no céu envolto por aquele elemento desconhecido, o ar,
já custou a vida de muitos pioneiros antes que a pressurização
rompesse o limite de altitude de vôo. Os ventos, então,
teimavam em levar os aerostatos aonde nem sempre se queria ir...
na aterrissagem, o desafio era um chão bem duro. E, para
complicar, os pioneiros insistiam em querer sobrevoar o mar –
no mínimo, a queda poderia ser menos fatal e, no máximo
seria a glória vencer os oceanos e mares voando.
Lado a lado com bandeirantes, navegadores solitários e desbravadores
em geral do passado, os pioneiros da aviação foram
aventureiros natos, ousados, destemidos. Naqueles tempos, apareciam
nas primeiras páginas de jornais e revistas, davam autógrafos,
tinham as roupas rasgadas pelos fãs... desafiavam os elementos
com máquinas frágeis, pouco potentes, que temiam ventos
fortes. Mas foram com elas que países ficaram mais próximos,
correspondências chegaram antes, mantimentos tornaram-se acessíveis
mesmo durante catástrofes naturais.
A Natureza era desafiada mas também era amiga. Montanhas
aterrorizavam pelo tamanho, mares infindáveis pareciam querer
engolir os pequenos objetos alados, até a imensidão
do gelo impunha um respeito ainda maior. As nuvens não eram
mais flocos de algodão da imaginação infantil.
Mais justamente nesse cenário grandioso o ser humano se sentia
mais vivo, mais integrado à Natureza e, por que não
admitir, mais poderoso.
Hoje, é dessa maneira que o ser humano tecnológico
do século dos dois "X" volta ás suas origens.
Pilotos comerciais não raras vezes são vistos, em
suas folgas, em aviões rudimentares, fazendo piruetas sem
intenção de competição, apenas por puro
prazer. Ou então perseguem com planadores os mesmos urubus
que atrapalham seu pouso quando em um Boeing ou um Airbus, pois
sabem o quanto essas aves podem ajudá-los em seu vôo
à vela. Outros pilotos preferem abrir mão da luxuosa
primeira classe dos grandes paquidermes alados e aventuram-se espremidos
em monomotores pelos quatro cantos do planeta. Sem contar o trabalho
que dá montar uma asa delta para algumas horas de planeio
sobre vales ou praias.
Essa é uma aviação que, apesar de suas limitações,
apesar de infelizmente não ser acessível a todos devido
aos custos, tal como aconteceu com o rádio diante da TV,
o cinema diante do DVD, a máquina de escrever diante do computador,
sempre terá seus adeptos. Pois aproxima o ser humano da Natureza
e o faz reviver as mesmas aventuras do início da aviação,
embora hoje com menores riscos.
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