Eu Amo Voar
 
   
Texto: Marta Bognar, Mateus Rocha e Rafael Peres
    Tarde de sábado, 13 de agosto, céu extremamente límpido em Araraquara, nenhuma nuvem no céu. Incrível! Vento norte forte, agosto finalmente chegou, época de pipas e papagaios, época de “Eu Amo Voar!” Últimos preparativos, as barraquinhas de comes e bebes estão sendo montadas, alguns atrasados ainda chegam e a organização tem de arrumar um cantinho para eles, afinal, quanto mais, melhor!

Um silêncio, nem parece que se trata de um aeroporto, dá para ouvir a vibração das rajadas de vento gelado nas orelhas, mas um lindo Cheyenne III, já na final, interrompe os sons da natureza com seus motores turbo-hélice. Depois do táxi, é descoberto que o piloto tem plano de vôo para o dia seguinte, a decolagem está marcada para as 16:00h, horário de decolagem da Esquadrilha da Fumaça, espaço aéreo reservado, com todo a honra para aquele Esquadrão. Por incrível que pareça nada constava no seu Notam. Eis o primeiro problema a ser enfrentado.

Preparativos exauridos, palco posicionado, barraquinhas parcialmente montadas, tendas estendidas, espaço dos patrocinadores mais que guardados. Vamos esperar a noite dar espaço para o dia em que Araraquara terá, oficialmente um novo filho, e que filho, nada mais nada menos que o Cmte. Fernando Corrêa Rocha, piloto de caça na 2ª Guerra Mundial pelo Senta a Pua, que receberá o título de “Cidadão Araraquarense”. Será o dia em que a cidade amará voar.

Chegada a madrugadora aurora, relógio desperta, coração acelerado, é dia de “Eu Amo Voar!”. Céu azul, a temperatura é agradável, mas o sol ficará forte, haja protetor solar!

O Aeroporto está movimentado, extra pista, o vai e vem é no estacionamento e nas áreas ao redor. São 7:00h da manhã, o departamento de trânsito presente. Guarda Municipal em seu posto, lá vem o caminhão do Corpo de Bombeiros. Mais comes e bebes chegando e, incrivelmente, novos atrasados. 7:30h, os pára-quedistas começam a chegar, aos montes!

8:30h, um barulho de motor de baixa compressão, um ultraleve completamente carenado chega; seja bem vindo à festa! Logo em seguida um barulho de PT-6A, é o Bandeirante do 4o ETA, os skydivers dão saltos de alegria!

10:00h, o Precursor, # 7 dá seu olá! Tudo em ordem, ele permite que o restante do Esquadrão decole do Campo de Fontenelle em Piraçununga. E eles chegam, como um bando de pássaros alegres, fazendo graça, acordando de vez a cidade, soltando nos céus a tão famosa fumaça que deu nome ao esquadrão, verdadeiros fios de prata que escapam pela saída de ar da turbina aquilatando o céu dissolvendo-se com o vento como se fosse uma ilusão, mas que fica gravado para sempre na memória de quem a contempla. Começa o Eu Amo Voar.

O querido Cmte. Rocha chega, acompanhado de sua esposa, D. Lélia, e é conduzido, imediatamente, ao saguão do aeroporto onde aguarda seus convidados, refrescando-se com um copo de refrigerante.

Os convidados começam a chegar, temos mais de 25 aeronaves espalhadas pelo pátio e gramado. A Marta e o Pedrinho, do Brazilian Wingwalking, chegam de carro, o Showcat, não pôde vir. Fernando Botelho faz uma perna do vento maravilhosa com sua relíquia de cor bordô, outros convidados também executam suas aproximações. Enfim, de carro ou de avião, eles vêm saudar o Cmte. Rocha.

Já são 13:00h, diversos saltos de pára-quedas foram feitos, eles não se cansam! Já está na hora da solenidade, agora o espaço aéreo é do Cmte. Rocha!

Sob a sombra de uma frondosa árvore, uma das poucas que sobraram no aeroporto, no palanque encontram-se diversas personalidades. O Tiro de Guerra presta suas homenagens e a cerimônia é iniciada com a música das músicas, o Hino Nacional, entoado enquanto os pavilhões Nacional, Estadual e Municipal, descem presos ao corpo de pára-quedistas.

Não há palavras para descrever como todos os presentes ficaram emocionados e felizes em ver a homenagem justa realizada ao Cmte Rocha, do Senta Púa. Ele estava feliz, com todos os familiares reunidos, a esposa, as duas filhas, a neta Maria, netos e bisnetos, amigos e autoridades .Estavam presentes representantes de todos os segmentos importantes da comunidade civil e aeronáutica, pessoas que valorizam e reconhecem a importância deste nosso amigo herói, que tanto fez pelo país e quiseram contribuir para a sorte da cidade de Araraquara em recebê-lo como cidadão.

Agora, em suma, a trajetória deste respeitável membro da aviação nacional. Pinceladas de uma longa história...
O Comandante Rocha foi um extraordinário jovem que o seio da Terra Adorada recebeu no dia 12 de julho de 1921 na cidade de São Paulo. Na verdade, um infante guerreiro que só foi nascer em São Paulo, mas que orgulhosamente cresceu na Morada do Sol. Um jovem que, em seu âmago, possuía o espírito mais nobre e elevado de um verdadeiro guerreiro e herói.

Desde cedo, já um rapaz de muita sabedoria e grande eloqüência ao falar, era estudioso e determinado, que com uma chama viva dentro de si, o faria honrar as palavras do nosso Hino Nacional, “[...] verás que um filho teu não foge a luta”, quando ao ver navios brasileiros sendo atacados pelos alemães nas costas brasileiras, sendo um destes o encouraçado Araraquara, decidiu, dentro de si, defender sua pátria e seu estandarte de todo o coração, sentindo um dever, como filho gentil, de honrar o pendão brasileiro. Rocha já nascera para ser um pássaro. Já possuía o desejo de lançar-se sobranceiramente aos céus. Em 1942, enquanto cursava o segundo ano de direito, juntou um grupo de amigos apaixonados por aviões e, aproveitando-se do projeto do jornalista Assis Chateaubriant, “Pilotos para o Brasil”, conseguiu 10 bolsas para estudar na mais conceituada escola de pilotos de São Paulo, a do Renato Pedroso. Fernando Corrêa Rocha foi o primeiro a conseguir seu brevê. Nesse período, as autoridades americanas haviam oferecido formar pilotos brasileiros nas escolas militares americanas e o recém-criado Ministério da Aeronáutica iniciou uma seleção de jovens e, como o Fernando Corrêa Rocha já possuía sua carteira como piloto civil e já por falar muito bem o inglês, foi um dos primeiros a conseguir sua bolsa para estudar nos Estados Unidos e formar-se como piloto militar. Fernando trancou a matrícula na faculdade de Direito e seguiu para os Estados Unidos. Lá fez o curso completo de piloto militar, tendo recebido a “Silver Wing” em 4 de fevereiro de 1944, na famosa escola de Eagle Pass. Famosa por ter sido a escola dos lendários “Tigres Voadores” do General Chennand. Com a “Silver Wing”, Fernando tinha credenciais para ser oficial aviador americano no posto de Segundo Tenente, mas a sua convocação pelo Ministério da Aeronáutica o transformou em Aspirante Aviador da reserva convocada da Força Aérea brasileira. Ao invés de voltar para o Brasil, ele e mais dois companheiros, Prates e Pereyron, receberam ordem para permanecer em Eagle Pass para fazer um curso especializado em aviões de caça. É que no Brasil, já havia sido criado o Primeiro Grupo de Aviação de Caça, e os pilotos escolhidos iam ser mandados para o Panamá, para iniciar o treinamento com instrutores americanos. Em Eagle Pass, os 3 companheiros fizeram os primeiros treinamentos táticos em aviões Curtis P-40, os tais famosos “Tigres Voadores”. O treinamento completo para combate, foi feito em Harding Field em Boston Rouge na Louisiana e durou cerca de 5 meses. Já, então, no avião P-47 Thunderbolt, no qual iria lutar na guerra, foi escalado para voar na esquadrilha amarela; a mais aguerrida e corajosa esquadrilha do Primeiro Grupo de Caça.