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Tarde
de sábado, 13 de agosto, céu extremamente límpido
em Araraquara, nenhuma nuvem no céu. Incrível! Vento
norte forte, agosto finalmente chegou, época de pipas e papagaios,
época de “Eu Amo Voar!” Últimos preparativos,
as barraquinhas de comes e bebes estão sendo montadas, alguns
atrasados ainda chegam e a organização tem de arrumar
um cantinho para eles, afinal, quanto mais, melhor!
Um silêncio, nem parece que se trata de um aeroporto, dá
para ouvir a vibração das rajadas de vento gelado
nas orelhas, mas um lindo Cheyenne III, já na final, interrompe
os sons da natureza com seus motores turbo-hélice. Depois
do táxi, é descoberto que o piloto tem plano de vôo
para o dia seguinte, a decolagem está marcada para as 16:00h,
horário de decolagem da Esquadrilha da Fumaça, espaço
aéreo reservado, com todo a honra para aquele Esquadrão.
Por incrível que pareça nada constava no seu Notam.
Eis o primeiro problema a ser enfrentado.
Preparativos exauridos, palco posicionado, barraquinhas parcialmente
montadas, tendas estendidas, espaço dos patrocinadores mais
que guardados. Vamos esperar a noite dar espaço para o dia
em que Araraquara terá, oficialmente um novo filho, e que
filho, nada mais nada menos que o Cmte. Fernando Corrêa Rocha,
piloto de caça na 2ª Guerra Mundial pelo Senta a Pua,
que receberá o título de “Cidadão Araraquarense”.
Será o dia em que a cidade amará voar.
Chegada a madrugadora aurora, relógio desperta, coração
acelerado, é dia de “Eu Amo Voar!”. Céu
azul, a temperatura é agradável, mas o sol ficará
forte, haja protetor solar!
O Aeroporto está movimentado, extra pista, o vai e vem é
no estacionamento e nas áreas ao redor. São 7:00h
da manhã, o departamento de trânsito presente. Guarda
Municipal em seu posto, lá vem o caminhão do Corpo
de Bombeiros. Mais comes e bebes chegando e, incrivelmente, novos
atrasados. 7:30h, os pára-quedistas começam a chegar,
aos montes!
8:30h, um barulho de motor de baixa compressão, um ultraleve
completamente carenado chega; seja bem vindo à festa! Logo
em seguida um barulho de PT-6A, é o Bandeirante do 4o ETA,
os skydivers dão saltos de alegria!
10:00h, o Precursor, # 7 dá seu olá! Tudo em ordem,
ele permite que o restante do Esquadrão decole do Campo de
Fontenelle em Piraçununga. E eles chegam, como um bando de
pássaros alegres, fazendo graça, acordando de vez
a cidade, soltando nos céus a tão famosa fumaça
que deu nome ao esquadrão, verdadeiros fios de prata que
escapam pela saída de ar da turbina aquilatando o céu
dissolvendo-se com o vento como se fosse uma ilusão, mas
que fica gravado para sempre na memória de quem a contempla.
Começa o Eu Amo Voar.
O querido Cmte. Rocha chega, acompanhado de sua esposa, D. Lélia,
e é conduzido, imediatamente, ao saguão do aeroporto
onde aguarda seus convidados, refrescando-se com um copo de refrigerante.
Os convidados começam a chegar, temos mais de 25 aeronaves
espalhadas pelo pátio e gramado. A Marta e o Pedrinho, do
Brazilian Wingwalking, chegam de carro, o Showcat, não pôde
vir. Fernando Botelho faz uma perna do vento maravilhosa com sua
relíquia de cor bordô, outros convidados também
executam suas aproximações. Enfim, de carro ou de
avião, eles vêm saudar o Cmte. Rocha.
Já são 13:00h, diversos saltos de pára-quedas
foram feitos, eles não se cansam! Já está na
hora da solenidade, agora o espaço aéreo é
do Cmte. Rocha!
Sob a sombra de uma frondosa árvore, uma das poucas que sobraram
no aeroporto, no palanque encontram-se diversas personalidades.
O Tiro de Guerra presta suas homenagens e a cerimônia é
iniciada com a música das músicas, o Hino Nacional,
entoado enquanto os pavilhões Nacional, Estadual e Municipal,
descem presos ao corpo de pára-quedistas.
Não há palavras para descrever como todos os presentes
ficaram emocionados e felizes em ver a homenagem justa realizada
ao Cmte Rocha, do Senta Púa. Ele estava feliz, com todos
os familiares reunidos, a esposa, as duas filhas, a neta Maria,
netos e bisnetos, amigos e autoridades .Estavam presentes representantes
de todos os segmentos importantes da comunidade civil e aeronáutica,
pessoas que valorizam e reconhecem a importância deste nosso
amigo herói, que tanto fez pelo país e quiseram contribuir
para a sorte da cidade de Araraquara em recebê-lo como cidadão.
Agora, em suma, a trajetória deste respeitável membro
da aviação nacional. Pinceladas de uma longa história...
O Comandante Rocha foi um extraordinário jovem que o seio
da Terra Adorada recebeu no dia 12 de julho de 1921 na cidade de
São Paulo. Na verdade, um infante guerreiro que só
foi nascer em São Paulo, mas que orgulhosamente cresceu na
Morada do Sol. Um jovem que, em seu âmago, possuía
o espírito mais nobre e elevado de um verdadeiro guerreiro
e herói.
Desde cedo, já um rapaz de muita sabedoria e grande eloqüência
ao falar, era estudioso e determinado, que com uma chama viva dentro
de si, o faria honrar as palavras do nosso Hino Nacional, “[...]
verás que um filho teu não foge a luta”, quando
ao ver navios brasileiros sendo atacados pelos alemães nas
costas brasileiras, sendo um destes o encouraçado Araraquara,
decidiu, dentro de si, defender sua pátria e seu estandarte
de todo o coração, sentindo um dever, como filho gentil,
de honrar o pendão brasileiro. Rocha já nascera para
ser um pássaro. Já possuía o desejo de lançar-se
sobranceiramente aos céus. Em 1942, enquanto cursava o segundo
ano de direito, juntou um grupo de amigos apaixonados por aviões
e, aproveitando-se do projeto do jornalista Assis Chateaubriant,
“Pilotos para o Brasil”, conseguiu 10 bolsas para estudar
na mais conceituada escola de pilotos de São Paulo, a do
Renato Pedroso. Fernando Corrêa Rocha foi o primeiro a conseguir
seu brevê. Nesse período, as autoridades americanas
haviam oferecido formar pilotos brasileiros nas escolas militares
americanas e o recém-criado Ministério da Aeronáutica
iniciou uma seleção de jovens e, como o Fernando Corrêa
Rocha já possuía sua carteira como piloto civil e
já por falar muito bem o inglês, foi um dos primeiros
a conseguir sua bolsa para estudar nos Estados Unidos e formar-se
como piloto militar. Fernando trancou a matrícula na faculdade
de Direito e seguiu para os Estados Unidos. Lá fez o curso
completo de piloto militar, tendo recebido a “Silver Wing”
em 4 de fevereiro de 1944, na famosa escola de Eagle Pass. Famosa
por ter sido a escola dos lendários “Tigres Voadores”
do General Chennand. Com a “Silver Wing”, Fernando tinha
credenciais para ser oficial aviador americano no posto de Segundo
Tenente, mas a sua convocação pelo Ministério
da Aeronáutica o transformou em Aspirante Aviador da reserva
convocada da Força Aérea brasileira. Ao invés
de voltar para o Brasil, ele e mais dois companheiros, Prates e
Pereyron, receberam ordem para permanecer em Eagle Pass para fazer
um curso especializado em aviões de caça. É
que no Brasil, já havia sido criado o Primeiro Grupo de Aviação
de Caça, e os pilotos escolhidos iam ser mandados para o
Panamá, para iniciar o treinamento com instrutores americanos.
Em Eagle Pass, os 3 companheiros fizeram os primeiros treinamentos
táticos em aviões Curtis P-40, os tais famosos “Tigres
Voadores”. O treinamento completo para combate, foi feito
em Harding Field em Boston Rouge na Louisiana e durou cerca de 5
meses. Já, então, no avião P-47 Thunderbolt,
no qual iria lutar na guerra, foi escalado para voar na esquadrilha
amarela; a mais aguerrida e corajosa esquadrilha do Primeiro Grupo
de Caça. |