Air Venture - Oshkosh 2006
 
 
 
 
 
Texto: Fernando Valduga

    Air onLine no Centro do Universo da Aviação

Esta era a manchete estampada no jornal oficial do maior evento aeronáutico do planeta: “You’re at the Center of the Aviation Universe”. E não são palavras apenas para chamar a atenção das pessoas. O Air Venture vem sendo considerado o maior evento em aviação do mundo há vários anos. Este ano não foi diferente. Foram mais de 10.000 aviões presentes, sendo observados por mais de 700 mil visitantes de mais de 60 países. E nem só de festa vive o Air Venture. Este ano mais de 800 expositores trouxeram várias novidades para os amantes da aviação e para aqueles que trabalham no meio.

Todo ano, Oshkosh celebra aniversários especiais ou datas significativas que marcaram a história da aviação. Este ano a celebração principal era para a aeronave Cessna 172, comemorando 50 anos do primeiro vôo, simplesmente o avião mais produzido na história e também o que mais pessoas ensinou a voar. Para celebrar esta data, mais de 500 Cessnas podiam ser vistos no Cessna Base Camp, incluindo o primeiro 172 construído.

Mas sem sombra de dúvida, o que mais encanta o público presente são os Warbirds, ou pássaros de guerra, sendo eles antigos ou os mais modernos da atualidade. E Oshkosh não decepciona ninguém. Mais de 300 aviões de guerra marcaram sua presença este ano, inclusive com uma reunião de bombardeiros jamais vista em um Air Venture. Mesmo com a presença sentida da Super Fortaleza B-29 “Fifi” (que teve problemas nos motores), este ano tivemos três B-17 (Aluminum Overcast, Yankee Lady, Thunderbird), um B-24 “Diamond Lill”, cinco B-25 Mitchell e um Lancaster que veio do Canadá especialmente para o Big Bombers Reunion. Junto com eles estava presente uma das armas mais poderosas do arsenal norte-americano, o bombardeiro supersônico estratégico B-1B Lancer, que chegou na terça de manhã e partiu na sexta-feira, com direito a decolagem em pós-combustão e várias passagens baixas. Na sexta-feira e no sábado, durante o período da tarde, os bombardeiros decolavam um atrás do outro e após várias passagens, chegavam num vôo de formação e acontecia o Wall of Fire, um grande espetáculo pirotécnico, que literalmente levantava uma parede de fogo na frente do público.

Além dos bombardeiros, vários outros pássaros de guerra compareceram. Da época da Segunda Guerra Mundial podiam ser vistos no evento mais de vinte Mustangs, quatro Spitfires, cerca de trinta T-6s, mais uns quinze T-28s, um P-38 Lighting, dois Avengers, dois F4U Corsairs, um P-40, vários C-47 e até um Junkers Ju-52. Da guerra da Coréia, um MiG 15 e um MiG 17, com insígnias polonesas, um F4 Fury e dois F-86 Sabre. Dos aviões da atualidade: três A-10 Thunderbolts, três F-16 Fighting Falcon, dois F-15 Eagle, quatro T-38 Talon, três F/A-18F Super Hornet, um QF-4E Phantom II, um helicóptero HH60J Jayhawk da Guarda Costeira, um T-1 Jayhawk, vários T-6 Texan II, dois T-37 Tweet, na quinta-feira chegou o avião de transporte C-17 Globemaster III e para completar a imensa lista, dois F-22 Raptor, que marcaram a história de Oshkosh com uma das apresentações mais aguardadas de todos os tempos.

Raptors over Oshkosh

Na quinta-feira de manhã cedo, o locutor oficial já anunciava que por volta das 14 horas e 40 minutos, dois F-22 Raptor, vindos diretamente da Langley AFB, Virginia, fariam várias passagens para delírio do público. Na hora prevista, dois Raptors apareceram sobre o público, no FL 015, juntamente com um KC-135 da ANG, recebendo uma reserva de combustível para as passagens com pós-combustão. Às quinze horas os dois caças stealth começaram um espetacular “show”. Enquanto uma aeronave fazia as passagens na frente do público, o outro F-22, voando num nível mais alto, demonstrava a agilidade de suas manobras. Curvas apertadas, praticamente sobre todos eixos, e em baixas velocidades, mostravam para todos presentes a excelente capacidade de combate desta magnífica aeronave, que possui todas credenciais necessárias para substituir os atuais caças de superioridade aérea F-15. Graças aos motores com empuxo vetorado, as curvas feitas pelo F-22, eram impossíveis de serem feitas por qualquer outra aeronave na atualidade.

Para completar, o público foi brindado com algumas passagens do esquadrão de demonstração da United States Navy, os Blue Angels, com sete aeronaves F/A-18 Hornet. Uma das aeronaves, o F-18 #7 ficou em exposição estática nos três primeiros dias do evento. Harrison Ford, chairman da organização Young Eagles, esteve presente ao evento, participando de entrevistas e também para apresentar o filme Air Force One, que foi exibido no Theather in the Woods, área reservada para eventos. O ator norte-americano, que também é piloto e tem seu próprio jato executivo, teve a honra de fazer um vôo com o F-18D dos Blue Angels. Mas segundo o próprio ator, ele não aproveitou muito o vôo, tendo “apagado” várias vezes durante o passeio devido a enorme carga “G” a qual os pilotos são exigidos nas manobras mais radicais.

Um dos destaques entre os caças da USAF foi o F-4E (QF-4E), baseado em Tyndall AFB, pertencente ao 82nd Aerial Targets Squadron, também chamado "Team Target". A aeronave ficou em exposição estática até a quinta-feira, dia 27, quando então decolou de volta para base de Tyndall, efetuando uma decolagem com pós-combustão total.

Na área da aviação civil e comercial, os destaques ficaram por conta de um Lockheed 12A Electra Junior, pintado com as cores da TWA. Outra aeronave que ficou exposta da Aeroshell Square foi um belo exemplar de um Ford Tri-motor todo metálico, restaurado pela própria Ford Motor Company. Um DC-3 “Duggy” o sorriso nos céus, veio para animar principalmente as crianças. Numa pintura amarela, com um grande sorriso pintado no nariz, a aeronave ajuda crianças a conhecerem mais sobre a paixão de voar. Durante os shows, foi usado para levar o Liberty Parachute Team, equipe que tradicionalmente abre os shows em Oshkosh descendo com a bandeira norte-americana ao som do hino nacional dos Estados Unidos.

Um Sikorsky S-38, de nome Carnaúba, voltou para Oshkosh este ano. Esta aeronave já passou pelo Brasil, em 1998, pilotado por Sam Johnson, quarta geração da família Johnson, que em 1935 fazia vôos com esta aeronave para Fortaleza, procurando novos fornecedores de palmeiras de carnaúba, árvore que produz ceras para polir assoalhos. Em 2004 esta aeronave participou de um documentário: Carnaúba: A Son’s Memoir, contando a história da família Johnson. Este documentário pode ser visto no museu da EAA, junto com outra réplica do S-38.

Falando em museu, o Museu da EAA recebeu uma nova aeronave: a Space Ship One, que no ano passado foi a primeira aeronave tripulada e civil a chegar ao espaço. Estava exposta praticamente ao lado da Voyager, que também foi projetada pelo mesmo criador da Space Ship One, o mago da aerodinâmica Burt Rutan. O Museu será abordado numa futura matéria.

Eclipse certificado

Outro marco da aviação foi registrado no Air Venture 2006: a certificação da FAA para o primeiro VLJ (Very Light Jet), o Eclipse 500. No dia 27 de julho, logo no início da tarde, o administrador da FAA, Marion Blakey entregou para o presidente e CEO da Eclipse Aviation, o Certificado de Tipo provisório para o Eclipse 500 VLJ. O prejeto, que iniciou a mais de sete anos atrás, encontrou no Air Venture um canal de divulgação do andamento do projeto. Nas palavras do administrador da FAA, no momento da entrega do certificado, fica clara a importância da aeronave: “O que eu tenho em minha mão é provavelmente o mais significativo pedaço de papel da América atualmente, um pedaço de papel que com certeza vai mudar a cara da aviação”. A aeronave Eclipse ainda vai exigir mais algumas horas de testes, principalmente na parte dos aviônicos, devendo receber o certificado final no dia 30 de agosto de 2006. O primeiro Eclipse de produção saiu da linha de montagem no dia 23 de julho e voou direto para o Air Venture. O segundo ficou pronto no dia 26 e na sexta-feira, dia 28, já estava também em Oshkosh. Um Boeing 727 foi fretado pela companhia, para transportar cerca de 170 funcionários para participarem, todos com uma camiseta feita especialmente para a cerimônia, e acompanharem a entrega do certificado. Nos próximos anos, é esperado que mais de 2.500 pessoas já estejam com seus “jatinhos” executivos Eclipse voando pelo mundo todo.

Uma outra aeronave podia ser vista junto aos três Eclipses do stand, um L-39 Albatross, especialmente preparado para treinar os futuros pilotos e proprietários do novo VLJ. Todo painel do L-39 foi transformado, deixando o avião militar com uma aparência mais executiva. Os novos proprietários do Eclipse podem voar até Albuquerque, no Novo México, sede da Eclipse Aviation, e fazer todo treinamento no L-39, antes de receber a aeronave final.

Outros Very Light Jets também apareceram por Oshkosh este ano. Um deles já esteve presente no ano passado, o HondaJet, aeronave que possui duas turbinas montadas sob as asas, encaixadas em pylons. A Honda anunciou durante o evento a sua parceria com a Piper Aircraft, para explorar as novas oportunidades no mercado de aviação geral e também na parceria nas vendas e serviços do HondaJet nos Estados Unidos.

O terceiro VLJ apresentado foi o Diamond D-Jet, que fez sua primeira apresentação em público apenas 10 dias após seu primeiro vôo em Ontário, no Canadá. O protótipo voou apenas 10 horas de teste, até sua chegada em Oshkosh. Desenvolvido para levar até 5 passageiros e podendo ser pilotado por apenas um piloto, o D-Jet deverá ter um preço de venda de 1,38 milhão de dólares. A aeronave deverá ser certificada para operar até 25.000 pés. A aeronave poderá ser pilotada por pessoas que possuem cerca de 500 horas de vôo e que desejam se locomover a jato.