Duelo
de Titãs
Realizado
sempre a cada dois anos, revezando com o Paris Air Show, o Farnborough
International Airshow, continua sendo um dos mais importantes
eventos aeroespaciais do mundo.
Quem esteve presente na edição de 2004 se recorda
do boato que dava como certo que aquela seria a última
edição do tradicional evento de aviação
britânico. Porém a organização não
apenas confirmou e realizou a edição de 2006 como
provou que Farnborough continua sendo uma das maiores vitrines
do mundo aeroespacial , atraindo um número cada vez maior
de expositores. Neste ano estiveram presentes 1480 expositores
vindos de 35 países. Um aumento de 129 expositores comparado
a última edição realizada em 2004. O número
de delegações também vem aumentado a cada
ano, nesta edição participaram 77 delegações
ligadas ao Defence Export Services Organisation (o setor de defesa
do evento), oriundos de 43 diferentes paises. Sendo que o setor
civil contou com 40 delegações, vindos de 15 paises.
O número de visitantes ligados a todos os setores continua
impressionante, superando nesta edição os 140.000.
Mais impressionante apenas o total de negócios realizados
durantes todos os dias do evento, que passaram dos 40 bilhões
de dólares.
Outro destaque para a edição 2006 foi à melhoria
na infra-estrutura, especialmente a dedicada para expositores
e imprensa, que ganharam salas mais amplas e confortáveis.
Mesmo com o grande número de atendimentos médicos
devido ao forte calor que tomou conta de Londres durante todos
os dias do evento, chegando à casa dos 40ºC - sendo
a maior temperatura dos últimos 90 anos, o centro médico
conseguiu manter um bom atendimento a todos que necessitavam.
Airbus em crise
Há anos não se via uma disputa tão acirrada
entre Boeing e Airbus, ambas chegaram a Farnborough chamando a
atenção de clientes, fornecedores e especialmente
da imprensa. Afinal a Boeing após amargar a segunda posição
no ranking de fabricantes de aviões comerciais, finalmente
voltava a liderança. E do outro lado a Airbus pela primeira
vez em mais de 30 anos de história se deparava com uma
forte crise, causada especialmente pela série de atrasos
no programa A380, que levou a demissão/renuncia de grande
parte diretoria da empresa. Se não fosse o bastante, a
declaração do presidente da ILFC - International
Lease Finance Corp., Steven F. Udvar-Hazy, condenando o programa
A350 ajudou a complicar ainda mais a situação.
Talvez as coletivas mais concorridas eram justamente as da Airbus,
que tentava demonstrar que apesar da apesar da crise a empresa
tem plenas condições de continuar na briga pela
liderança do mercado.
O novo CEO da Airbus, Christian Streiff, reconheceu a crise e
afirmou que a empresa tem trabalhado para resolver a crise e recuperar
o prestigio e confiança junto a clientes e fornecedores.
E ao ser questionado sobre a liderança da Boeing respondeu:
“Como todos sabem a Airbus esta enfrentando uma grave crise
e a concorrência tem se aproveitado desse momento”.
Apesar dos atrasos constantes o programa A380 parece ter entrado
em sua fase final, tendo atingido a marca dos 15.000 vôos
simulados, o triplo necessário para obtenção
do certificado de homologação. E aparentemente os
problemas com os sistemas elétricos, que mostram ser muito
mais complexos do que o previsto, foram superados e o primeiro
A380 deve ser entregue até o final do ano para a Singapore
Airlines.
Mas o grande destaque da Airbus foi o lançamento do “segundo”
programa A350, agora rebatizado de A350 XWB (Extra Large Wide-body),
que tem pro objetivo fazer frente ao bem sucedido programa 787
da Boeing.
Apesar do projeto inicial ter sido considerado por muitos como
uma resposta adequada ao 787, a maior parte dos clientes considerou
o programa muito abaixo das reais necessidades do mercado. O A350
era até então uma versão melhorada do já
veterano A330, não tendo condições de concorrer
em igualdade com o projeto concorrente.
Após escutar todas as sugestões e criticas de potenciais
clientes, a Airbus lançou um avião totalmente novo.
Um dos principais problemas do projeto original era a fuselagem
considerada estreita demais, visando solucionar essa questão
os engenheiros desenharam uma fuselagem 30 cm mais larga do que
a da família 330/340 e 12,75 cm mais larga que a do 787.
Uma peculiaridade do projeto é que a fuselagem será
plana entre as portas dianteiras e traseiras, ao contrário
dos demais aviões que nestas seções tem a
fuselagem cônica.
As asas agora terão enflechamento de 33º, ao contrário
da proposta original que previa 30º, permitindo um aumento
na velocidade que subiu de 0,82 Mach para 0,84 Mach.
Outra mudança no projeto é o emprego em larga escala
de materiais compostos. É previsto que mais de 60% da fuselagem
seja construída utilizando novas ligas metálicas
e materiais compostos, sendo que grande parte já é
empregada no A380. E seguindo a tendência mundial as janelas
deverão ser maiores que as atuais. Apesar do projeto estar
ainda na fase inicial de desenvolvimento, a Airbus confirmou o
lançamento de três versões, com capacidade
variando entre 270 e 350. O primeiro a voar deverá ser
o A350-900, em meados de 2012 e terá capacidade para até
314 passageiros, seguido do A350-800 em 2013 e finalmente do A350-1000
previsto para entrar em serviço apenas em 2015.
A primeira encomenda do A350 XWB veio da Singapore Airlines, que
encomendou 20 aviões, com opção para outros
20, além de encomendar mais 19 A330-300.
A Airbus fechou Farnborough com 182 novos pedidos, sendo um mix
de todas as famílias, incluindo o ACJ.
Boeing volta a liderança
A Boeing aproveitou o evento para apresentar as evoluções
obtidas no programa 787. Uma delas foi o anuncio logo no primeiro
dia da a conclusão dos trabalhos de construção
da Wing Box que será utilizada em diversos testes, entre
eles de resistência e fadiga de material. “Além
de determinar a força da estrutura, os testes que faremos
irão ajudar a verificar os métodos analíticos
que usamos para calcular a quantidade de carga que a estrutura
terá que carregar. Desta forma nós temos certeza
que a estrutura terá o desempenho previsto durante seu
desenho. Nós analisamos a asa por quanta carga a estrutura
consegue agüentar e quando e onde irá quebrar. As
cargas que provocam falhas são equivalentes a mais de 150%
da carga máxima que estas asas terão que carregar
na prática, mesmo em caso de emergência.”,
disse Mike Bair, vice-presidente e gerente geral do programa 787
da Boeing.
Durante o processo de validação e certificação
a Boeing irá conduzir testes estruturais em duas fuselagens
em tamanho natural do 787. Esses programas de testes, como o realizado
na Wing Box, irão demonstrar o desempenho da estrutura
através de múltiplas utilizações normais
com carga. Devido os painéis de superfície superior
e inferior e as longarinas da asa serem totalmente feitas de material
composto , a Boeing irá testar a estrutura para validar
os métodos de reparo que foram desenvolvidos para os materiais
usados no 787.
A Wing Box é uma das maiores seções do avião
e foi projetada por um time composto por engenheiros da Boeing,
Mitsubishi Heavy Industries e Fuji Heavy Industries, tendo sido
construída pelas duas últimas.
Dias antes do inicio do evento, a Boeing divulgou estudos sobre
o mercado de aviação comercial prevendo que haverá
a necessidade de aproximadamente, 27.200 novos aviões nos
próximos 20 anos. O que dobraria a frota mundial até
2025, um mercado de aproximadamente US$ 2,6 trilhões .
De acordo com o estudo grande maioria desses novos aviões
serão da categoria narrow-body com capacidade entre 100
e 240 assentos. Com base no valor atual dos aviões, o maior
mercado será da região Ásia-Pacífico,
com 36% do total de US$ 2,6 trilhões – um resultado
da demanda entre empresas asiáticas por aviões wide-body.
A América do Norte será responsável por 28%
do total e a Europa por 24%. Enquanto a América Latina,
Oriente Médio e África devem absorver 12% do total,
entre 2006 e 2025.
Logo no primeiro dia de evento a Boeing anunciou que a indiana
Lion Air confirmou as opções para trinta Boeing
737-900ER, que serão entregues entre 2010 e 2012, num total
de mais de 2.2 bilhões de dólares. A empresa foi
cliente lançador do modelo em julho de 2005, tendo na ocasião
firmado contrato para 30 aeronaves, que serão entregue
a partir do próximo ano.
Outro grande pedido partiu da ILFC que anunciou a encomenda de
seis 737-800, dois 777-300ER e dois 787, numa operação
de aproximadamente 1.7 bilhões de dólares. A Pegasus
Aviation Finance Company, anunciou a aquisição de
seis 787-8 enquanto a ACG - Aviation Capital Group, uma subsidiária
do Pacific LifeCorp, realizou o pedido de 14 Boeing Next-Generation
737-800, num negocio estimado em mais 1.9 bilhões. A Emirates
Skycargo, que há anos vem crescendo no cada vez mais concorrido
e importante mercado de carga aérea anunciou a encomenda
de dez 747-8, que deverão ser entregues em meados de 2010.
Por fim, mesmo sendo um avião ultrapassado diante de seus
competidores diretos, o 747-400ER Cargo, conseguiu ainda duas
encomendas vindas da LoadAir Cargo, com sede no Kuait.
No total a Boeing anunciou a venda de 75 aviões, num total
de US$ 9,65 bilhões. Apesar do desempenho modesto, a Boeing
contabiliza atualmente mais de 520 pedidos firmes.