análise final
10º Dubai Air Show
Ao contrário da maioria dos eventos aeronáuticos,
onde as atenções estão voltadas para
o desempenho dos dois maiores fabricantes de aviões
do mundo: Airbus e Boeing; Este ano no Dubai Air Show
quem brilhou foram às empresas aéreas do
Oriente Médio, quando todos os holofotes apontavam
para o rico e poderoso mundo que surge no deserto.
Dias antes do inicio do evento, a Boeing divulgou um estudo
prevendo que até 2026 as empresas aéreas
ao redor do mundo deverão encomendar 18.200 novas
aeronaves, o que deverá representar US$ 2,8 trilhões
em vendas.
Sendo que apenas o Oriente Médio deve investir
US$ 190 bilhões durante os próximos 19 anos,
tanto na renovação, quanto ampliação
da frota, devendo absorver aproximadamente 1.160 aviões
no período. É previsto que o crescimento
anual no número de passageiros seja de 5,7% e 7,1%
para o transporte de cargas.
Sendo assim havia boas expectativas que a edição
2007 do Dubai Air Show pudesse bater o recorde da edição
anterior, que fechou com pouco mais de US$ 21 bilhões
em vendas, nenhuma das previsões por melhores que
fossem poderiam descrever um cenário com vendas
superando os US$ 100 bilhões.
O primeiro anúncio realizado pela Emirates Airline
deixou todos atônitos. Afinal estávamos diante
de um contrato de US$ 43,3 bilhões feito por uma
única empresa aérea. Jamais uma empresa
aérea em toda a história da aviação
realizou um pedido tão grandioso, nem mesmo nos
áureos tempos da Pan American Airways.
Praticamente todas as grandes vendas vieram de empresas
da região, mostrando uma grande mudança
no cenário da aviação mundial. Até
o inicio da década, a aviação era
dominada basicamente pelas gigantes norte-americanas e
européias, com uma pequena participação
de empresas asiáticas, restrita a duas ou três.
Após os atentados de 11 de setembro de 2001, as
novas regras para imigração nos Estados
Unidos, criaram dificuldades cada vez maiores até
para aqueles em transito, que passaram a necessitar de
vistos especiais. Em questão de cinco anos, os
Estados Unidos deixa de ser o grande “hub”
da aviação mundial, com passageiros e empresas
aéreas buscando alternativas para turismo e conexões.
Aproveitando exatamente esta mudança drástica
no setor é que as empresas do Oriente Médio,
em especial aquelas sediadas no pequeno Emirados Árabes
Unidos, têm apostado na criação de
novos e modernos”hubs” para conexões,
principalmente para passageiros em transito entre as Américas
e a Ásia. Com apoio dos governos locais, grandes
empresas estão transformando o Oriente Médio
em uma opção de negócios e lazer.
Tanto que a aviação executiva que tem uma
participação praticamente inexpressiva em
número de vendas neste tipo de evento, tornou-se
uma das estrelas mais valiosas do Dubai Air Show. Logo
no segundo dia ela mostrou seu poder no evento, com a
assinatura do contrato firme do primeiro A380 VIP. Ainda
que não passe de um luxo extraordinário,
característica marcante dos barões do petróleo,
que ostentam sua riqueza da forma mais exacerbada possível,
a aviação executiva tem ganhado grande importância
na região. Além do grande poder aquisitivo
presente em grande parte do Oriente Médio, que
permite o fretamentos de aviões executivos de maior
porte como as famílias BBJ e ACJ, a globalização
tem levado empresários da região investir
em diversos países. A internacionalização
dos negócios de grandes empresas ou investidores,
faz com que a aviação executiva se mostre
como uma importante ferramenta de trabalho, permitindo
não apenas o rápido deslocamento entre países,
como também grande privacidade.
Apostando neste crescente mercado, a EMBRAER levou para
Dubai o mock-up do Lineage 1000 e do Phenom 300, exibindo
pela primeira vez como será a cabine destes aviões.
Graças a sua presença marcante no segmento
executivo, foram anunciados sete encomendas firmes para
o Lineage 1000,de três clientes: Aamer Abdul Jalil
Al Fahim, Al Jaber Aviation e Falcon Aviation. Outras
importantes encomendas de jatos executivos da Embraer
foram feitas, incluindo sete Legacy 600 e trinta e sete
Phenom (para a Falcon Aviation, Globalia, Invision e DANA
Airlines).
”A região do Oriente Médio continua
se destacando como um importante mercado para a aviação
executiva”, disse Luís Carlos Affonso, Vice-Presidente
da Embraer para o Mercado de Aviação Executiva.
“Promovemos nosso portfólio de jatos executivos
no Dubai Air Show, e os visitantes tiveram a oportunidade
de ver pela primeira vez na região os mock-ups
das cabines do Lineage 1000 e do Phenom 300. Nós
ficamos satisfeitos por ver a grande aceitação
dos nossos jatos e por revelar pedidos firmes de 51 aeronaves,
que totalizaram mais de US$ 623 milhões.”
As tradicionais gigantes da aviação executiva,
Bombardier Aerospace, Cessna e Dassault Falcon, ainda
que de forma modesta se comparada a EMBRAER, obtiveram
contratos importantes. A Cessna também comemorou
bons resultados, com a venda de seis Citation Mustang,
um CJ2+, um CJ3, um XLS+, sete Sovereign e um Citation
X.
A Bombardier Aerospace que enfrenta alguns problemas na
aviação comercial, relacionado ao fraco
desempenho comercial da família CRJ e os recentes
problemas técnicos com o Dash8, praticamente não
apresentou nada para aviação comercial.
Mas manteve sua importante posição no segmento
executivo, em especial nas categorias super médio
e de grande porte, anunciando o contrato firme para cinco
Challenger 605 e um Global 5000. A surpresa foi o modesto
desempenho da tradicional família Learjet, praticamente
sinônimo de aviação executiva, que
vendeu apenas um Learjet 45XR. Analistas atribuem o baixo
volume de vendas do Learjet ao enorme sucesso obtido pelo
Phenom 300.
A Dassault Falcon, que oferece apenas aviões de
longo curso, manteve sua posição com a assinatura
de um contrato firme para quatro Falcon 7X, com opção
de outros três para um cliente saudita.
A participação conjunta dos quatro fabricantes
demonstra o crescente mercado executivo no Oriente Médio,
que pode se tornar um dos maiores do mundo, especialmente
na categoria de jatos. Devido ao potencial econômico
da região não faltam compradores para aviões
de maior faixa de preço e muito menos, aeroportos
preparados para receber qualquer tipo de avião.
Mesmo sabendo que a aviação comercial passa
apenas por uma boa fase, situação que pode
mudar a qualquer momento, e que provavelmente será
difícil bater o recorde desta edição
nos próximos anos, a industria comemorou vendas
recordes, jamais imaginadas até então.
Como é costume a Airbus aproveita este tipo de
evento para anunciar suas vendas, ao contrário
da Boeing que opta por anúncios ao longo do ano.
Ainda assim o fabricante europeu surpreendeu ao anunciar
seu contrato com a Emirates Airline, que passou dos US$20.2
bilhões, apenas em contrato firme. Muito mais importante
que o valor das vendas, foi à conquista da Emirates
como cliente do A350 XWB. Mesmo que a Emirates opere basicamente
com uma frota composta por aeronaves de maior capacidade,
era certeza no mercado que a empresa árabe tinha
interesse em ampliar sua frota com capacidade entre 200
e 280 assentos. Obviamente havia apenas dois competidores,
o fenômeno de vendas Dreamliner e o A350 XBW, que
ainda hoje enfrenta o ceticismo de alguns, visto que o
projeto chegou muito tarde ao mercado. O anuncio que a
Emirates havia escolhido o A350XWB da um enorme fôlego
ao projeto, que ganha um cliente estrategicamente importante,
aumentando a credibilidade do programa.
O mais impressionante é que a Emirates não
descarta operar também o Boeing 787-10. Dando a
Boeing uma injeção de animo, mesmo que seu
avião seja o mais vendido da história, ter
a Emirates como cliente é um excelente negócio;
Já que possui excelentes condições
financeiras e uma ambiciosa meta para expansão
de seus negócios. Acredita-se que a Emirates deve
se tornar uma das principais empresas aéreas do
mundo em curto espaço de tempo. Sendo uma das melhores
opções para viajantes que desejam ir da
Europa ou América para a região da Ásia-Pacífico
e vice-versa.
Ter seus produtos voando em uma grande empresa é
importante, ter ele em uma das mais influentes empresas
aéreas do mundo é questão de sobrevivência.
E para a Emirates Airline o céu é o limite,
ao menos para suas aeronaves, já que para seus
executivos ele pode ser ultrapassado. A empresa não
confirma e nem desmente que esteja de olho no milionário
mercado dos vôos espaciais, podendo se tornar uma
forte concorrente da Virgin Galactic.
Com menor participação no evento que a Emirates,
a Qatar Airways está disposta a não perder
a oportunidade de entrar no seleto grupo das gigantes
globais. Para isso vem investindo na renovação
e ampliação da frota, expansão da
rede de linhas internacionais e buscando novos parceiros
ao redor do mundo. O serviço de bordo de ambas
é praticamente uma utopia para os passageiros acostumados
com as empresas ocidentais, especialmente as do continente
americano. Do conforto das poltronas, as opções
de entretenimento, passando pelo serviço de bordo,
tudo é inacreditável. Ainda que com planos
mais modestos, as demais empresas da região como
a Saudi Arabian Airlines, Etihad Airways, Royal Jordanian,
entre outras, buscam renovar e ampliar sua frota para
manter ao menos uma posição favorável
na região do Golfo.
Mesmo com excelentes índices e contratos grandiosos,
a industria tem ciência de que o Oriente Médio
é um palácio de cristal, que pode explodir
com a menor das brisas. A região Golfo Pérsico
ainda hoje enfrenta graves crises políticas e convive
com a iminência de uma guerra que pode eclodir a
qualquer momento. Para isso basta uma mudança política
que pode ocorrer após um rápido golpe de
estado ou mesmo por uma sucessão de direito. Não
faltam casos de países no Oriente Médio
que mudaram completamente sua posição em
relação aos vizinhos e ao mundo após
uma mudança no poder. O maior de todos os riscos
esta no fanatismo religioso, que ameaça a estabilidade
local e mesmo mundial. No hipotético caso de uma
guerra, pode levar todos estes vultuosos investimentos
a ruína em questão de horas. Especialmente
porque ao contrário da maioria dos contratos assinados
em outras ocasiões, que prevêem que às
entregas ocorram entre dois e cinco anos, muitos dos contratos
assinados em Dubai só serão entregues em
2019. Fato considerado inédito por todo o mercado.
“Em toda nossa história vendemos aviões
para entregarmos em cinco anos em média. Aqui muito
dos contratos são para oito ou nove anos, nunca
vi nada assim”, afirmou Scott Carson, Diretor Executivo
da Boeing para aviões comerciais, em entrevista.
Ainda assim hoje os holofotes da indústria aeronáutica
focam o faraônico potencial do Golfo, que com as
imensas obras realizadas em Dubai, Abu Dhabi e em Doha
colocam esta pequena região do Oriente Médio
em posição de destaque na econômica
global. Esperamos rever todo este entusiasmo na edição
2009 do Dubai Air Show.