análise final
47º International Paris Air Show
Após quatro dias de grandes negócios, o
dia 22 fechou as grandes rodadas de negociações
do Paris Air Show, sendo os últimos dois dias dedicados
basicamente a exibições aéreas.
Durante os dias voltados aos negócios, a atenção
do mercado de aviação comercial ficou dividida
entre o desempenho da Airbus e da Boeing. Mesmo com o
fabricante norte-americano não tendo tradição
de anunciar grandes encomendas no Salão de Le Bourget
ou mesmo em Farnborough, preferindo realizar constantemente
durante o primeiro semestre do ano, era importante verificar
qual seria o número de contratos anunciados pela
Airbus.
O fabricante europeu costumeiramente deixa para assinar
os contratos realizados no primeiro semestre durante este
tipo de evento. Atraindo assim grande atenção
da imprensa mundial. A questão fundamental é
quantos contratos e qual o volume de vendas que ambos
os fabricantes conseguiram no primeiro semestre.
A Boeing chegou a Paris com uma excepcional carteira de
pedidos, somando mais de 380 aviões, enquanto a
rival Airbus tinha apenas 210.
Logo no primeiro dia a Airbus anunciou grandes contratos,
que foram somados dia após dia, totalizando impressionantes
425 pedidos e mais 303 opções de compra.
Enquanto a Boeing anunciou apenas 129 pedidos em carteira,
sendo que aproximadamente a metade foi de pedidos já
realizado, mas que apenas agora tiveram o nome dos clientes
revelados. Estes números mostram que a Airbus fez
valer a vantagem de jogar em casa, conseguindo uma reversão
momentânea na liderança em encomendas no
primeiro semestre do ano, contanto agora com 635 pedidos,
ante 510 da Boeing. É importante lembrar que nem
todos estes contratos serão efetivamente registrados
nas carteiras de encomendas firmes, com entregas confirmadas,
tendo em vista que não raro as empresas cancelam
ou reduzem o numero de aviões encomendados. Em
cifras, baseadas em valor de tabela, a Airbus somou US$98
bilhões em vendas durante o Paris Air Show e a
Boeing pouco mais de US$ 16 bilhões.
Ironicamente, um dos motivos da crise de credibilidade
pela que passa a Airbus, o A350 XWB, obteve um excepcional
resultado de vendas, com 141 pedidos firmes. O resultado
é ainda mais incrível, tendo em vista que
não se chegou a um acordo as negociações
entre, a Airbus e a fabricante de motores GE, para o desenvolvimento
do motor para o modelo. A GE declarou publicamente não
ter sido convencida que deve investir mais de US$1 bilhão
no desenvolvimento do novo motor. Especialmente devido
ao grande desempenho de vendas que vem obtendo o Boeing
787, que deverá entrar em serviço em 2008,
mais de cinco anos antes do primeiro A350 XWB. A GE acredita
que não existe condições que justifiquem
o investimento, propondo apenas desenvolver uma versão
derivada do GEnx, que deverá equipar o 787, ou
ainda uma variante do GP7200, que impulsionará
o A380.
Esse impasse poderá comprometer seriamente o desempenho
de vendas do modelo, que terá como única
opção o motor Rolls-Royce Trent XWB. Caso
não se chegue definitivamente em acordo, grandes
clientes com pedidos para o A350 XWB, prometem rever os
contratos, não descartando cancelá-los.
Ainda que nenhum cliente para o avião tenha entrado
em detalhes sobre o que deverão fazer, é
consenso que nenhum deles vê com bons olhos esta
negativa da GE.
Esse problema é o segundo grande revés para
o modelo, que teve seu projeto completamente refeito,
após criticas de potenciais clientes sobre a concepção
do projeto. As empresas aéreas e companhias de
leasing consideravam a idéia de utilizar a fuselagem
do A330 um erro, já que o novo avião seria
mais estreito que o rival 787 e seria muito menos eficiente
quanto ao consumo de combustível. A idéia
de usar a fuselagem com novas asas e motores virou inclusive
motivo de chacota na Internet, com um vídeo mostrando
dois supostos engenheiros do fabricante europeu analisando
um Dreamliner e adaptando um A330 com motores do concorrente.
Os problemas eram tantos que a European Aeronautic Defence
and Space (EADS), controladora da Airbus, chegou a considerar
a possibilidade de cancelar o programa, que já
apresentava sérios problemas financeiros antes
mesmo de ser lançado. Os resultados alcançados
pelo modelo durante o Paris Air Show, deram certo fôlego
aos executivos da Airbus. Que ainda tem que conviver com
o fantasma do pivô da maior crise pela que passa
o fabricante, o A380. Que ainda que tenha conseguido 13
novos pedidos, ainda sofre com os constantes atrasos.
Em menos de um ano o cronograma de entregas foi adiado
por três vezes, estando hoje quase dois anos fora
dos prazos. A maioria dos executivos da Airbus evitou
comentar sobre os problemas do A380, se limitando a dizer
que acreditam que poderão cumprir o cronograma
atual sem maiores surpresas.
A Airbus ainda fez questão de ressaltar que apesar
do bom comportamento do mercado e do grande numero de
pedidos realizados, a empresa mais do que nunca de ajustar
seus custos. De acordo com Jonh Leahy, diretor comercial
da empresa, afirmou que conseguiram ultrapassar a Boeing
em termos de vendas, mas não em custos, sendo extremamente
necessário colocar totalmente em prática
o Power8, o plano de ajuste de custos adotado há
meses. O ajuste prevê o corte de 10 mil postos de
trabalho na Europa e o fechamento de seis fábricas.
“O maior erro que nós poderíamos cometer
é alcançar a Boeing em receita e não
alcançá-la em termos de custos. O desempenho
dessa semana faz com que sejamos pressionados a ultrapassá-la,
sendo o Power8 fundamental” disse Leahy.
Por outro lado os sindicatos alegam que justamente por
ter obtido um excepcional desempenho de vendas, o plano
de demissão é completamente desnecessário,
visto que a tendência da empresa é crescer.
Lidar com o aumento de vendas, se manter líder
em encomendas e entregas, cumprir os prazos de entrega
para o A380, solucionar o impasse sobre o motor do A350
XWB e por em prática o plano de redução
de custos, será um grande desafio para a gigante
européia.
Enquanto do outro lado do Atlântico Norte, a Boeing
estuda aumentar o ritmo de produção para
atender a demanda, especialmente pelo Dreamliner, que
apesar de desacreditado no inicio do programa, se converteu
no maior fenômeno de vendas de toda a história
da aviação. Um dos planos esta em ampliar
a planta da unidade de Seatlle, possibilitando a criação
de uma segunda linha de montagem para o 787, permitindo
ainda aumentar o ritmo de produção do 737
e 777. Especialmente agora que o fabricante espera receber
novos e vultuosos pedidos das empresas norte-americanas,
entre o final deste ano e o primeiro semestre de 2008.
O maior obstáculo para aumentar a produção,
especialmente do 787, é na complexa logística
que envolve o projeto, praticamente 80% da produção
e montagem do novo modelo é terceirizada e realizada
em diferentes pontos do planeta. Para poder aumentar o
ritmo de produção a Boeing tem que contar
com o apoio e capacidade de crescimento de todas as empresas
envolvidas.
Outro duelo envolvendo as gigantes tem sido a concorrência
para a compra de novos aviões reabastecedores da
força aérea norte-americana, num contrato
orçado em mais de US$ 40 bilhões. Que pode
ultrapassar facilmente a cifra dos US$ 100 bilhões,
pois poderá incluir o fornecimento de aviões
tanque aos aliados dos Estados Unidos.
Para a EADS, especialmente para a Airbus, este contrato
representa a chance de entrar no bilionário mercado
de defesa dos Estados Unidos. Já para a Boeing
representa também a chance de recuperar sua imagem
diante do Pentágono, que ficou seriamente abalada
após os escândalos de corrupção
e espionagem, envolvendo este e outros contratos.
Durante o Paris Air Show 2007, as duas empresas deixaram
de lado o discurso promovendo a qualidade técnica
de seus modelos e partiram para um confronto direto e
completamente comercial. Onde foi abordado até
os subsídios dado a ambas por seus respectivos
países.
Apesar da Boeing ser favorita, até porque fornece
todos os aviões de reabastecimento em uso pela
USAF, a Airbus é parceira da Northrop-Grumman,
também tradicional fornecedora de aviões
e sistemas de armas as forças armadas dos Estados
Unidos.
Alguns acreditam que a parceria entre ambas é estritamente
para atender exigências de Washington e dar peso
ao fabricante europeu, junto à sociedade norte-americana.
A Boeing afirma que o A330MRTT oferecido pela Airbus é
grande demais, consome muito combustível e não
pode operar sem restrições em algumas bases.
Além de afirmar que a Airbus não tem tradição
no fornecimento de aeronaves militares, assim não
garantindo o necessário suporte exigido por aeronaves
militares.
A Airbus que dispunha de um A310 MRTT em exposição,
realizou inúmeras passagens sobre o evento, numa
forma de chamar atenção para sua gama militar.
E em resposta as criticas proferidas pela rival, afirmou
que o 767 oferecido é um avião ultrapassado
e que a versão tanque vem sofrendo atrasos no programa
de entregas.
Acreditava-se que a USAF poderia optar por comprar aviões
de ambas as concorrentes, mas em nota a força aérea
divulgou não ter orçamento necessário
para este tipo de compra.
Outro importante destaque foi à expressiva melhora
da aviação comercial brasileira, que ficou
evidente na confirmação da TAM para as quatro
opções de compra dos 777-300ER e da assinatura
de uma carta de intenções para o Embraer
195 por parte da BRA.
Apesar da crise aérea, o mercado brasileiro tem
despontado no cenário internacional, especialmente
agora depois do final da novela VARIG. E tais pedidos
reforçam o potencial da aviação comercial
brasileira, que vem obtendo excelentes resultados nos
últimos dois anos. A Embraer ainda que não
tenha anunciado grandes contratos, vêm mantendo
um excelente ritmo de crescimento, especialmente no segmento
executivo.
Ainda que sem chamar grande atenção, a indústria
russa mostrou que após 16 anos do fim da URSS,
vem se modernizando e oferecendo grandes opções
ao mercado, sobretudo no segmento militar. E ainda que
sem expressão alguma no mercado comercial, existem
grandes chances das industrias russas e ucranianas obterem
uma fatia do segmento regional e cargueiro. É cedo
para prever como a industria russa vai se portar no disputado
e complexo mercado civil, mas espera-se que tenhamos grandes
novidades para a edição 2009 do Paris Air
Show.