DIA 21
 
47º Paris Air Show
Atualizado em: 27 de junho

análise final
47º International Paris Air Show

Após quatro dias de grandes negócios, o dia 22 fechou as grandes rodadas de negociações do Paris Air Show, sendo os últimos dois dias dedicados basicamente a exibições aéreas.

Durante os dias voltados aos negócios, a atenção do mercado de aviação comercial ficou dividida entre o desempenho da Airbus e da Boeing. Mesmo com o fabricante norte-americano não tendo tradição de anunciar grandes encomendas no Salão de Le Bourget ou mesmo em Farnborough, preferindo realizar constantemente durante o primeiro semestre do ano, era importante verificar qual seria o número de contratos anunciados pela Airbus.

O fabricante europeu costumeiramente deixa para assinar os contratos realizados no primeiro semestre durante este tipo de evento. Atraindo assim grande atenção da imprensa mundial. A questão fundamental é quantos contratos e qual o volume de vendas que ambos os fabricantes conseguiram no primeiro semestre.

A Boeing chegou a Paris com uma excepcional carteira de pedidos, somando mais de 380 aviões, enquanto a rival Airbus tinha apenas 210.

Logo no primeiro dia a Airbus anunciou grandes contratos, que foram somados dia após dia, totalizando impressionantes 425 pedidos e mais 303 opções de compra. Enquanto a Boeing anunciou apenas 129 pedidos em carteira, sendo que aproximadamente a metade foi de pedidos já realizado, mas que apenas agora tiveram o nome dos clientes revelados. Estes números mostram que a Airbus fez valer a vantagem de jogar em casa, conseguindo uma reversão momentânea na liderança em encomendas no primeiro semestre do ano, contanto agora com 635 pedidos, ante 510 da Boeing. É importante lembrar que nem todos estes contratos serão efetivamente registrados nas carteiras de encomendas firmes, com entregas confirmadas, tendo em vista que não raro as empresas cancelam ou reduzem o numero de aviões encomendados. Em cifras, baseadas em valor de tabela, a Airbus somou US$98 bilhões em vendas durante o Paris Air Show e a Boeing pouco mais de US$ 16 bilhões.

Ironicamente, um dos motivos da crise de credibilidade pela que passa a Airbus, o A350 XWB, obteve um excepcional resultado de vendas, com 141 pedidos firmes. O resultado é ainda mais incrível, tendo em vista que não se chegou a um acordo as negociações entre, a Airbus e a fabricante de motores GE, para o desenvolvimento do motor para o modelo. A GE declarou publicamente não ter sido convencida que deve investir mais de US$1 bilhão no desenvolvimento do novo motor. Especialmente devido ao grande desempenho de vendas que vem obtendo o Boeing 787, que deverá entrar em serviço em 2008, mais de cinco anos antes do primeiro A350 XWB. A GE acredita que não existe condições que justifiquem o investimento, propondo apenas desenvolver uma versão derivada do GEnx, que deverá equipar o 787, ou ainda uma variante do GP7200, que impulsionará o A380.

Esse impasse poderá comprometer seriamente o desempenho de vendas do modelo, que terá como única opção o motor Rolls-Royce Trent XWB. Caso não se chegue definitivamente em acordo, grandes clientes com pedidos para o A350 XWB, prometem rever os contratos, não descartando cancelá-los. Ainda que nenhum cliente para o avião tenha entrado em detalhes sobre o que deverão fazer, é consenso que nenhum deles vê com bons olhos esta negativa da GE.

Esse problema é o segundo grande revés para o modelo, que teve seu projeto completamente refeito, após criticas de potenciais clientes sobre a concepção do projeto. As empresas aéreas e companhias de leasing consideravam a idéia de utilizar a fuselagem do A330 um erro, já que o novo avião seria mais estreito que o rival 787 e seria muito menos eficiente quanto ao consumo de combustível. A idéia de usar a fuselagem com novas asas e motores virou inclusive motivo de chacota na Internet, com um vídeo mostrando dois supostos engenheiros do fabricante europeu analisando um Dreamliner e adaptando um A330 com motores do concorrente.

Os problemas eram tantos que a European Aeronautic Defence and Space (EADS), controladora da Airbus, chegou a considerar a possibilidade de cancelar o programa, que já apresentava sérios problemas financeiros antes mesmo de ser lançado. Os resultados alcançados pelo modelo durante o Paris Air Show, deram certo fôlego aos executivos da Airbus. Que ainda tem que conviver com o fantasma do pivô da maior crise pela que passa o fabricante, o A380. Que ainda que tenha conseguido 13 novos pedidos, ainda sofre com os constantes atrasos. Em menos de um ano o cronograma de entregas foi adiado por três vezes, estando hoje quase dois anos fora dos prazos. A maioria dos executivos da Airbus evitou comentar sobre os problemas do A380, se limitando a dizer que acreditam que poderão cumprir o cronograma atual sem maiores surpresas.

A Airbus ainda fez questão de ressaltar que apesar do bom comportamento do mercado e do grande numero de pedidos realizados, a empresa mais do que nunca de ajustar seus custos. De acordo com Jonh Leahy, diretor comercial da empresa, afirmou que conseguiram ultrapassar a Boeing em termos de vendas, mas não em custos, sendo extremamente necessário colocar totalmente em prática o Power8, o plano de ajuste de custos adotado há meses. O ajuste prevê o corte de 10 mil postos de trabalho na Europa e o fechamento de seis fábricas. “O maior erro que nós poderíamos cometer é alcançar a Boeing em receita e não alcançá-la em termos de custos. O desempenho dessa semana faz com que sejamos pressionados a ultrapassá-la, sendo o Power8 fundamental” disse Leahy.

Por outro lado os sindicatos alegam que justamente por ter obtido um excepcional desempenho de vendas, o plano de demissão é completamente desnecessário, visto que a tendência da empresa é crescer. Lidar com o aumento de vendas, se manter líder em encomendas e entregas, cumprir os prazos de entrega para o A380, solucionar o impasse sobre o motor do A350 XWB e por em prática o plano de redução de custos, será um grande desafio para a gigante européia.

Enquanto do outro lado do Atlântico Norte, a Boeing estuda aumentar o ritmo de produção para atender a demanda, especialmente pelo Dreamliner, que apesar de desacreditado no inicio do programa, se converteu no maior fenômeno de vendas de toda a história da aviação. Um dos planos esta em ampliar a planta da unidade de Seatlle, possibilitando a criação de uma segunda linha de montagem para o 787, permitindo ainda aumentar o ritmo de produção do 737 e 777. Especialmente agora que o fabricante espera receber novos e vultuosos pedidos das empresas norte-americanas, entre o final deste ano e o primeiro semestre de 2008. O maior obstáculo para aumentar a produção, especialmente do 787, é na complexa logística que envolve o projeto, praticamente 80% da produção e montagem do novo modelo é terceirizada e realizada em diferentes pontos do planeta. Para poder aumentar o ritmo de produção a Boeing tem que contar com o apoio e capacidade de crescimento de todas as empresas envolvidas.

Outro duelo envolvendo as gigantes tem sido a concorrência para a compra de novos aviões reabastecedores da força aérea norte-americana, num contrato orçado em mais de US$ 40 bilhões. Que pode ultrapassar facilmente a cifra dos US$ 100 bilhões, pois poderá incluir o fornecimento de aviões tanque aos aliados dos Estados Unidos.

Para a EADS, especialmente para a Airbus, este contrato representa a chance de entrar no bilionário mercado de defesa dos Estados Unidos. Já para a Boeing representa também a chance de recuperar sua imagem diante do Pentágono, que ficou seriamente abalada após os escândalos de corrupção e espionagem, envolvendo este e outros contratos.

Durante o Paris Air Show 2007, as duas empresas deixaram de lado o discurso promovendo a qualidade técnica de seus modelos e partiram para um confronto direto e completamente comercial. Onde foi abordado até os subsídios dado a ambas por seus respectivos países.

Apesar da Boeing ser favorita, até porque fornece todos os aviões de reabastecimento em uso pela USAF, a Airbus é parceira da Northrop-Grumman, também tradicional fornecedora de aviões e sistemas de armas as forças armadas dos Estados Unidos.

Alguns acreditam que a parceria entre ambas é estritamente para atender exigências de Washington e dar peso ao fabricante europeu, junto à sociedade norte-americana.

A Boeing afirma que o A330MRTT oferecido pela Airbus é grande demais, consome muito combustível e não pode operar sem restrições em algumas bases. Além de afirmar que a Airbus não tem tradição no fornecimento de aeronaves militares, assim não garantindo o necessário suporte exigido por aeronaves militares.

A Airbus que dispunha de um A310 MRTT em exposição, realizou inúmeras passagens sobre o evento, numa forma de chamar atenção para sua gama militar. E em resposta as criticas proferidas pela rival, afirmou que o 767 oferecido é um avião ultrapassado e que a versão tanque vem sofrendo atrasos no programa de entregas.

Acreditava-se que a USAF poderia optar por comprar aviões de ambas as concorrentes, mas em nota a força aérea divulgou não ter orçamento necessário para este tipo de compra.

Outro importante destaque foi à expressiva melhora da aviação comercial brasileira, que ficou evidente na confirmação da TAM para as quatro opções de compra dos 777-300ER e da assinatura de uma carta de intenções para o Embraer 195 por parte da BRA.

Apesar da crise aérea, o mercado brasileiro tem despontado no cenário internacional, especialmente agora depois do final da novela VARIG. E tais pedidos reforçam o potencial da aviação comercial brasileira, que vem obtendo excelentes resultados nos últimos dois anos. A Embraer ainda que não tenha anunciado grandes contratos, vêm mantendo um excelente ritmo de crescimento, especialmente no segmento executivo.

Ainda que sem chamar grande atenção, a indústria russa mostrou que após 16 anos do fim da URSS, vem se modernizando e oferecendo grandes opções ao mercado, sobretudo no segmento militar. E ainda que sem expressão alguma no mercado comercial, existem grandes chances das industrias russas e ucranianas obterem uma fatia do segmento regional e cargueiro. É cedo para prever como a industria russa vai se portar no disputado e complexo mercado civil, mas espera-se que tenhamos grandes novidades para a edição 2009 do Paris Air Show.