|
Este é
um tema que já abordamos no Air onLine, mas impressiona o
fato de que a aviação brasileira continua sendo vista
pelo governo brasileiro como algo inútil, sendo tratada com
um descaso assustador.
O interessante é que se fala em soluções de
mercado para a aviação comercial, em falta de recursos
para a aviação militar e poucas vezes lembram de citar
a aviação geral. Infelizmente este discurso vazio
não é restrito ao governo, mas também ao setor
e aos diversos órgãos ligados à imprensa, que
com um prazer divulgam informações infundadas sobre
o setor.
Recentemente, as DAC autorizaram inúmeras novas empresas
aéreas a iniciarem vôos regulares numa prova de que
ninguém no país se preocupa com o real estado da aviação.
Todas estas novas empresas são formadas por empresários
que não tem a menor condição de competir neste
arriscado mercado, onde além dos desafios comuns a aviação,
existe os sérios problemas referentes à falta de uma
política seria para o setor.
Estas novas empresas aéreas possuem quanto muito dois aviões
com idade avançada, poucos recursos financeiros e nenhuma
garantia de possuir condições de continuar voando
por mais de seis meses.
Exemplos de tentativas fracassadas não faltam. Em 2000, poucos
meses antes da Gol Linhas Aéreas começar a operar
surgia no mercado brasileiro a primeira empresa low-cost low-fare
regular do país, a Nacional.
Esta, inicialmente, foi tida como uma grande promessa mas que não
suportou o valor das prestações do primeiro Boeing
737-400 e foi obrigada a optar por utilizar alguns velhos Boeing
737-200. Mas problemas operacionais e a grave crise desencadeada
pelos atentados de 11 de setembro terminaram rapidamente com os
sonhos e metas da recém surgida Nacional.
No mesmo período surgia no mercado cargueiro a Brasmex, que
prometia ser uma importante empresa cargueira brasileira, voando
para inúmeros destinos internacionais.
Inicialmente a empresa trouxe um McDonnell Douglas DC-10 com a promessa
de receber o segundo aparelho em questão de poucos meses.
Infelizmente, em questão de poucos meses, a empresa deixou
de pagar o salário dos funcionários, além do
aluguel do avião que acabou sendo retido no Aeroporto de
Guarulhos.
Empresas como estas apenas surgem para ajudar a denegrir ainda mais
a imagem das combalidas empresas aéreas nacionais.
Alguns, talvez por desconhecimento das dificuldades e desafios do
setor, comemoram o surgimento de novas empresas alegando que é
uma amostra do potencial do mercado brasileiro, e é exatamente
este mercado o responsável pelo início do processo
de “seleção natural” pois assim como na
natureza, apenas os mais fortes sobrevivem.
Não são poucos os casos de empresas aventureiras que
surgiram e em pouco tempo desapareceram, podemos citar rapidamente
AirVias, Transair, Skyjet, Vica, Tropical, Amazônia Linhas
Aéreas, entre outras...
O caso da Tropical é o mais alarmante e vergonhoso da história
recente da aviação brasileira. O Boeing 727 arrendado
pela empresa foi interditado pela Receita Federal no Aeroporto de
Guarulhos, devido à acusações da empresa ser
“laranja” do ex-Governador do Acre Orleir Cameli e por
contrabando.
Apesar do envolvimento de Cameli nunca ter sido provado, o avião
foi repassado à Força Aérea Brasileira e o
processo de devolução à empresa proprietária
causou sérios danos à imagem do Brasil. A aeronave
só foi devolvida após a intervenção
do então embaixador dos Estados Unidos Melvyn Levitsky junto
ao governo brasileiro e a ameaça do aumento das cotas de
risco para aluguel de aeronaves pertencentes a empresas norte-americanas
a empresas brasileiras.
Falta além de competência e seriedade, boa vontade
para tratar com seriedade o assunto.
Autorizar inúmeras empresas aéreas a voarem regularmente
não mostra a saúde do setor, apenas compromete a imagem
do Brasil perante o mundo, ajuda a criar um clima de desconfiança
entre os passageiros e atrapalha seriamente o desempenho de empresas
sérias.
Infelizmente, hoje, a aviação brasileira vive um momento
de incertezas, com apenas duas empresas aéreas vivendo em
situação confortável, mas com limitações.
Enquanto as atenções se voltam apenas aos lucros da
Gol, a posição de líder no mercado doméstico
da TAM, a grave crise da VARIG e a vergonhosa situação
da VASP, aviação comercial continua agonizando sem
qualquer solução a vista.
A situação na aviação geral é
ainda mais grave, pois se já não fosse bastante as
políticas irresponsáveis para com o setor, poucos
lembram da existência do mesmo, e os que lembram, tratam de
imaginar um setor onde os únicos interessados são
milionários que gostam de ostentar exibindo seus aviões.
Poucos lembram que a maioria dos proprietários de aviões
leves são pequenos executivos, empresários, fazendeiros
e profissionais liberais que dependem do avião como ferramenta
de trabalho. Os poucos que utilizam por lazer estão deixando
a aviação de lado devido aos elevados custos.
Temos hoje um emaranhado de leis ultrapassadas, que atrapalham na
formação de novos pilotos, criam regras absurdas e
taxas com valores que só podem ser descritos como irreais.
Se desejarmos citar todos os problemas que atrapalham o desenvolvimento
da aviação geral teríamos que criar uma edição
especial apenas para abordar o assunto.
Temos que resolver o problema da aviação como um todo
e parar de tapar o sol com a peneira. Isso se alguém ainda
se dá ao trabalho de tapar o sol mesmo que com uma peneira.
|