Um descaso, uma Crise...

Texto: Edmundo Ubiratan

   Este é um tema que já abordamos no Air onLine, mas impressiona o fato de que a aviação brasileira continua sendo vista pelo governo brasileiro como algo inútil, sendo tratada com um descaso assustador.

O interessante é que se fala em soluções de mercado para a aviação comercial, em falta de recursos para a aviação militar e poucas vezes lembram de citar a aviação geral. Infelizmente este discurso vazio não é restrito ao governo, mas também ao setor e aos diversos órgãos ligados à imprensa, que com um prazer divulgam informações infundadas sobre o setor.

Recentemente, as DAC autorizaram inúmeras novas empresas aéreas a iniciarem vôos regulares numa prova de que ninguém no país se preocupa com o real estado da aviação.

Todas estas novas empresas são formadas por empresários que não tem a menor condição de competir neste arriscado mercado, onde além dos desafios comuns a aviação, existe os sérios problemas referentes à falta de uma política seria para o setor.

Estas novas empresas aéreas possuem quanto muito dois aviões com idade avançada, poucos recursos financeiros e nenhuma garantia de possuir condições de continuar voando por mais de seis meses.

Exemplos de tentativas fracassadas não faltam. Em 2000, poucos meses antes da Gol Linhas Aéreas começar a operar surgia no mercado brasileiro a primeira empresa low-cost low-fare regular do país, a Nacional.

Esta, inicialmente, foi tida como uma grande promessa mas que não suportou o valor das prestações do primeiro Boeing 737-400 e foi obrigada a optar por utilizar alguns velhos Boeing 737-200. Mas problemas operacionais e a grave crise desencadeada pelos atentados de 11 de setembro terminaram rapidamente com os sonhos e metas da recém surgida Nacional.

No mesmo período surgia no mercado cargueiro a Brasmex, que prometia ser uma importante empresa cargueira brasileira, voando para inúmeros destinos internacionais.

Inicialmente a empresa trouxe um McDonnell Douglas DC-10 com a promessa de receber o segundo aparelho em questão de poucos meses. Infelizmente, em questão de poucos meses, a empresa deixou de pagar o salário dos funcionários, além do aluguel do avião que acabou sendo retido no Aeroporto de Guarulhos.

Empresas como estas apenas surgem para ajudar a denegrir ainda mais a imagem das combalidas empresas aéreas nacionais.

Alguns, talvez por desconhecimento das dificuldades e desafios do setor, comemoram o surgimento de novas empresas alegando que é uma amostra do potencial do mercado brasileiro, e é exatamente este mercado o responsável pelo início do processo de “seleção natural” pois assim como na natureza, apenas os mais fortes sobrevivem.

Não são poucos os casos de empresas aventureiras que surgiram e em pouco tempo desapareceram, podemos citar rapidamente AirVias, Transair, Skyjet, Vica, Tropical, Amazônia Linhas Aéreas, entre outras...
O caso da Tropical é o mais alarmante e vergonhoso da história recente da aviação brasileira. O Boeing 727 arrendado pela empresa foi interditado pela Receita Federal no Aeroporto de Guarulhos, devido à acusações da empresa ser “laranja” do ex-Governador do Acre Orleir Cameli e por contrabando.

Apesar do envolvimento de Cameli nunca ter sido provado, o avião foi repassado à Força Aérea Brasileira e o processo de devolução à empresa proprietária causou sérios danos à imagem do Brasil. A aeronave só foi devolvida após a intervenção do então embaixador dos Estados Unidos Melvyn Levitsky junto ao governo brasileiro e a ameaça do aumento das cotas de risco para aluguel de aeronaves pertencentes a empresas norte-americanas a empresas brasileiras.

Falta além de competência e seriedade, boa vontade para tratar com seriedade o assunto.

Autorizar inúmeras empresas aéreas a voarem regularmente não mostra a saúde do setor, apenas compromete a imagem do Brasil perante o mundo, ajuda a criar um clima de desconfiança entre os passageiros e atrapalha seriamente o desempenho de empresas sérias.

Infelizmente, hoje, a aviação brasileira vive um momento de incertezas, com apenas duas empresas aéreas vivendo em situação confortável, mas com limitações. Enquanto as atenções se voltam apenas aos lucros da Gol, a posição de líder no mercado doméstico da TAM, a grave crise da VARIG e a vergonhosa situação da VASP, aviação comercial continua agonizando sem qualquer solução a vista.

A situação na aviação geral é ainda mais grave, pois se já não fosse bastante as políticas irresponsáveis para com o setor, poucos lembram da existência do mesmo, e os que lembram, tratam de imaginar um setor onde os únicos interessados são milionários que gostam de ostentar exibindo seus aviões.

Poucos lembram que a maioria dos proprietários de aviões leves são pequenos executivos, empresários, fazendeiros e profissionais liberais que dependem do avião como ferramenta de trabalho. Os poucos que utilizam por lazer estão deixando a aviação de lado devido aos elevados custos.

Temos hoje um emaranhado de leis ultrapassadas, que atrapalham na formação de novos pilotos, criam regras absurdas e taxas com valores que só podem ser descritos como irreais.

Se desejarmos citar todos os problemas que atrapalham o desenvolvimento da aviação geral teríamos que criar uma edição especial apenas para abordar o assunto.

Temos que resolver o problema da aviação como um todo e parar de tapar o sol com a peneira. Isso se alguém ainda se dá ao trabalho de tapar o sol mesmo que com uma peneira.