Completo Caos
 
   
Texto: Edmudo Ubiratan

    Caos!

Esta foi à palavra repetida em todos os aeroportos brasileiros durante o feriado de finados.

Porém ela define muito mais do que apenas o atraso sofrido por quase a totalidade dos vôos naquele feriado, ela reflete o atual estado da aviação brasileira. Um enorme e assustador caos.

A operação padrão dos controladores de vôo traz a tona um importante debate, o estado de sucateamento de todo o sistema aeronáutico brasileiro.
Durante mais de sessenta anos a aviação civil brasileira foi controlada pela Aeronáutica, que apesar das enormes dificuldades sempre realizou um brilhante trabalho, mesmo que não tenha agradado a todos.

Desde o final do regime militar o sistema de tráfego aéreo brasileiro e toda a infra-estrutura aeronáutica foi jogado de lado pela política brasileira, que passou a ignorar completamente toda aviação brasileira, da civil a militar.

Não apenas o setor civil vem sofrendo com o descaso, as forças armadas a cada ano perdem mais do orçamento enquanto deputados federais e senadores continuam aumentando constantemente seus já elevados salários.
Após a criação do Ministério da Defesa, o país assistiu a ascensão de inúmeros ministros e sem o menor conhecimento sobre defesa e aviação. Talvez os dois mais emblemáticos tenham sido o ex-Ministro José Viegas e o atual Ministro Waldir Pires. O primeiro esboçava parcos conhecimentos sobre defesa, apesar de ter atuado por vários anos representando o Brasil em reuniões sobre o tema ao redor do mundo. A situação que não era boa desde o governo Fernando Henrique deteriorou rapidamente com a crise da VARIG e os inúmeros equívocos cometidos pelo Ministério da Defesa, que entrou em um assunto empresarial tentando evitar a crise gerada pela falência da empresa. Porém, as soluções encontradas levaram a substituição imediata do ministro Viegas, que teve na crise da VARIG o golpe final para que militares e mesmo empresários cobrarem sua saída.

Demonstrando total incapacidade de lidar com uma crise de tal importância, o governo nomeia interinamente o vice-presidente José Alencar, que passava a exercer dois cargos de extrema importância no país. Devido às sérias, mas obvias limitações que representava ter como ministro um vice-presidente, em 2006 foi nomeado para assumir o Ministério da Defesa o então ministro do Controle e Transparência e chefia a Controladoria Geral da União – CGU, Waldir Pires.

Que mesmo tendo vasta experiência como Ministro, não tem a menor vocação ou conhecimento sobre assuntos ligados à defesa. Com a crise do “apagão aéreo”, como ficou conhecida a operação padrão realizada pelos controladores de vôo, o Ministro mostrou sua total incompetência a frente da Defesa. Não raro foram as vezes que ao ser questionado sobre a crise, realizou declarações superficiais ou usou fraseologia aeronáutica que não domina para no final em nada responder as questões colocadas.

Tal despreparo já vinha sendo notado desde o trágico acidente com o Boeing 737 da Gol, no final de setembro. Na ocasião o Ministro chegou a afirmar que houve uma colisão e que se acreditava que a culpa era do Legacy! No momento que as equipes de busca não haviam sequer encontrado os destroços do Boeing.

Atuação similar veio da Agencia Nacional de Aviação Civil – ANAC, que desde sua criação vem tendo uma atuação vergonhosa. Sendo que no citado acidente, a diretora da agencia Denise Abreu declarou horas após o acidente que havia ocorrido uma colisão e que o Legacy voava em nível errado. Posteriormente demonstrando total falta de ética e mesmo respeito a mesma respondia de forma mal educada e estúpida questionamentos realizados por familiares vitimas do acidente.

A ponto de sua saída da ANAC ser solicitado formalmente por inúmeros familiares, o que acabou ocorrendo por pressões internas.

O país vem assistindo uma série de equívocos na aviação sem tomar nenhuma atitude para reverter esse caso. A própria imprensa de forma geral tratou a crise do tráfego aéreo como uma “molecagem” de alguns controladores de vôo.

Na maioria dos telejornais via-se apenas as longas filas causadas pelo atraso da maioria dos vôos, mas nenhuma cobertura sobre o real motivo da operação padrão.

As poucas matérias a respeito limitavam-se a dizer que a crise era culpa da ausência de oito controladores do CINDACTA I e que o governo deveria contratar em regime de urgência mais sessenta controladores.
Restou apenas responder de onde virão estes controladores, já que a formação desses profissionais requer no mínimo quatro anos e grandes investimentos.

O problema do controle de trafego aéreo vai muito além da falta de controladores, chegando ao total sucateamento de grande parte dos sistemas de controle, como inúmeros radares que operam no limite de sua capacidade e não raro apresentam problemas pela falta de manutenção causada pela obsolencia dos aparelhos e a indisponibilidade de peças de reposição.

As soluções encontradas pelo Governo Brasileiro, ANAC e Ministério da Defesa beiram o ridículo. Entre as medidas tomadas, uma das mais estapafúrdias foi a proibição da aviação geral e executiva de voar nos horários de pico, compreendido das 07:30 às 12:30 e das 17:00 às 20:00. A aviação geral, que a anos vem sofrendo com o descaso das autoridades brasileiras, parece ter recebido agora uma careta de um nariz de palhaço para demonstrar a consideração das autoridades com esse importante segmento da aviação nacional.

Outra solução encontrada para resolver a crise foi culpar o excesso de aviões no ar. Simples assim.

Entre tantas mazelas restam algumas questões, como para onde esta sendo destinado o dinheiro arrecadado com a taxa de uso de alguns auxílios rádio e do serviço de controle de tráfego aéreo?

E para finalizar, porque uma semana após a crise nos aeroportos o governo federal anuncia que ira cortar 8% do orçamento 2007 destinado ao Controle de Tráfego Aéreo?

- Caos! Um completo caos ...

 
 

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