|
De
todas as indústrias, a aviação comercial é
uma das mais jovens, tendo aproximadamente a mesma idade que a indústria
eletrônica de consumo e sendo apenas um pouco mais velha que
a indútria de computadores pessoais e softwares. Sua evolução
está ligada às comunicações (o correio
aéreo), e algumas das empresas aéreas que assim começaram
ainda existem hoje (nos EUA, a United e a American Airlines são
bons exemplos).
A aviação, junto com (e talvez mais
do que) as telecomunicações, têm alterado a
interconexão moral do mundo. Cem anos atrás, mães
podiam encorajar seus filhos a terminar suas refeições
lembrando-nas das massas famintas da China – hoje, basta ligar
a TV e ver as mesmas massas, ao vivo. A miséria dos povos
carentes está a apenas algumas horas de vôo dos povos
mais ricos. Pela virtude da viagem quase-instantânea que a
aviação hoje fornece, uma guerra distante é
uma realidade no noticiário das oito horas – porque
correspondentes, diplomatas e organizações de ajuda
já voaram para lá para entrar ao vivo no último
plantão noticioso. Tempo e espaço são controlados
e censurados com maior dificuldade.
O Prof. Allen W. Batteau,
da Wayne State University (Detroit, Michigan, EUA), elaborou, em
abril de 2.000 um estudo denominado Antropologia da Aviação
e da Segurança de Vôo. “Antropologia?”
– é provável que você pergunte, acrescentando
ainda: “Antropologia não é aquela ciência
que tenta entender os pigmeus da África ou os yanomanis da
Amazônia? Ou, na pior das hipóteses, as ‘tribos’
urbanas das grandes metrópoles?” Bem, a verdade é
que, cada vez mais, a Antropologia também está se
globalizando e, mais do que isso, ajudando-nos a entender porque
na quase centenária aviação fatores aparentemente
insignificantes ainda causam problemas sérios e até
fatais.
Essa alteração
do alcance pessoal e social é talvez o desafio fundamental
da Antropologia na aviação e outras tecnologias contemporâneas.
A Antropologia, aqui, tem uma missão muito mais urgente que
apenas cutucar os sótãos empoeirados da humanidade,
embora os antropólogos ainda freqüentemente suspirem
por lugares “fora de estrada” para fazer seu trabalho
de campo.
O Prof. Allen Batteau comenta que, em seu
início, a Antropologia focava a humanidade como um todo,
tanto em sua evolução histórica quanto em sua
diversidade contemporânea. Enquanto existiu e era forte o
modelo geográfico-social de empresa colonial, esta mantendo-se
sempre informada sobre suas longínquas colônias, a
Antropologia mudou do estudo da humanidade para uma sociologia comparada,
economia comparada, ciência política comparada e humanismo
comparado, de povos tribais. Mas os últimos cem anos têm
visto uma maior evolução da cultura, anunciando a
morte do colonialismo e um aumento da sensibilidade de numerosos
povos, desejosos para estarem informados sobre tudo, antes de serem
transformados em demografia, serem guardados em bancos de dados
e reconstituídos no World Wide Web.
Hoje, os relacionamentos núcleo-periferia
e relações metrópole-interior, uma vez associadas
com distâncias geográficas, estão caindo junto
com as fronteiras. Cultura e etnicidade são descompostas
e reembrulhadas como veículos para vender estilos de vida,
pois, na prática, nada está mais restrito a um povo
ou a uma região geográfica. Assim, você pode
decorar sua casa em estilo indiano, alimentar-se seguindo à
cozinha tradicional chinesa, usar roupas no melhor corte francês,
beber vinho português etc. E, de repente, trocar tudo pelo
artesanato e culinária senegalês, mesmo residindo em
São Paulo, BraZil. Justamente porque todas as culturas e
todos os povos estão ao nosso alcance.
Voltando à nossa aviação:
a Antropologia de hoje tem se preocupado menos com os ritos de iniciação
de tribos longínquas e mais, por exemplo, com a segurança
de duzentos corpos abarrotados dentro de um cilindro de alumínio
solto a 35 mil pés de altitude, lembrando que esses corpos
são oriundos dos mais diversos legados culturais e tecnológicos.
O estudo do Prof. Allen Batteau comenta que, se a tecnologia fosse
uma máquina autônoma, não deveria haver falhas
que causassem catastrófes. Ela poderia parar, mas nunca quebrar.
Se a vida humana fosse puramente social não haveria acidentes
industriais. Haveria desentendimentos pessoais, e haveria guerra,
mas não haveria destruição de vida humana em
uma escala industrial. A característica única das
civilizações é que elas definem e são
definidas por seus legados tecnológicos.
Particularmente as viagens aéreas comerciais
unem os elementos do mundo contemporâneo de maneira jamais
vista antes. Viagens de longa distância desafiam quaisquer
suposições antropológicas relativas a sociedades,
culturas e sua evolução. No que isso influencia as
operações e o gerenciamento de vôo?
Hoje, a grande ameaça para a segurança
de vôo é menos o antes perigoso céu, repleto
de deuses ferozes e meteorologia indecifrável e mais os...
próprios passageiros! O Douglas DC-3, introduzido em 1935,
revolucionou a indústria de transporte aéreo porque
pela primeira vez conseguiu-se obter o equilíbrio entre velocidade,
segurança e utilização com lucro, na operação
com passageiros. As empresas aéreas não precisavam
mais sobreviver dos contratos de correio aéreo e da cartelização
patrocinada pelo governo. O DC-3 foi à primeira aeronave
projetada especificamente para uma operação viável
com passageiros, e continua sendo um grande sucesso. Com mais de
13.000 aviões DC-3 / C-47 construídos pela Douglas
Aircraft Corporation, muitos dos quais após a Segunda Guerra
Mundial foram convertidos para serviço civil, centenas ainda
permanecem em serviço, muitos provendo vôos charters
em países do Terceiro Mundo.
O balanço entre economia, conforto e conveniência
aos passageiros e segurança é mais delicado do que
se imagina. Isso engloba tudo que participou da evolução
das viagens aéreas: mais passageiros a bordo para mais lucro.
Mas são também mais passageiros reclamando por conforto.
Como entretê-los e acomodá-los convenientemente e com
toda segurança? Qual será o custo, para empresa e
passageiros, a partir dessa necessidade? Hoje, a segurança
requer portas blindadas na cabine de comando. Que custo será
repassado para os passageiros? Valerá a pena para a segurança
mas também para o bolso? E quais as condições
para as próprias tripulações envolvidas?
A civilização industrial contém
muito mais interdependências que as anteriores (agrícola,
por exemplo). Assim como um automóvel tem mais peças
para falhar do que um carro de boi, em uma civilização
industrial há muito mais oportunidades das coisas darem errado.
Como indústria que é, a aviação comercial
concentra problemas, contradições e benefícios
que são realmente básicos na indústria. Todos
meios de transportes experimentam desastres, mas apenas o acidente
aéreo e os grandes desastres de trens dão manchetes
internacionais. Todas indústrias têm quedas econômicas,
mas poucas podem rivalizar com o os prejuízos da indústria
aeronáutica. Todas as indústrias começam suas
carreiras com alguma medida de capitalização pública
ou desapropriação privada; entre as companhias aéreas
dependentes de suportes do setor público, particularmente
nas nações menores, isso foi essencial para a sobrevivência.
Todas as indústrias devem equilibrar o balanço entre
custo, segurança e serviço e na aviação
comercial esse balanço é excepcionalmente delicado.
Essas características estão, de fato, interconectadas.
|