Nosso antropólogo observa
que, ainda predominantemente masculina, a cultura da aviação
engloba pompa, fascinação pela máquina, dominação
etc. No desenvolvimento da organização aérea,
a separação cultural entre aqueles que voam o avião
e aqueles que gerenciam a organização tornou-se evidente.
Os pilotos, de um lado, formaram um grupo único, com suas
próprias habilidades físicas (como a habilidade ao
lidar com motores), formação (treinamento de vôo),
rito de iniciação (o vôo solo), e até
mesmo estilo de se vestir (a jaqueta de couro e o cachecol, hoje
passando ao quepe).
O vôo humano é sedento de perfeição,
que é perseguida constantemente. Com a ajuda de inventos
de engenharia os aviadores transcendem as limitações
humanas O casamento homem-máquina ou, mais precisamente,
a subserviência do homem à máquina, é
o que permite essa transcendência. Nesses espaço sagrado
os “fatores humanos” são quase uma reflexão
tardia, uma afirmação herética fatal de que
é o mecanismo que deve se adaptar aos seus usuários
humanos. Quem nunca ouviu falar que a parte mais frágil de
um avião é aquela entre o manche e a poltrona do piloto?
A maior parte dos estudos em fatores humanos na aviação
e na cultura do vôo veio dos fisiologistas, ergonomistas e
psicólogos, com alguma contribuição dos lingüistas
e cientistas organizacionais. A medicina aeronáutica contribui
descrevendo o desempenho e limitações de resistência
do organismo humano.
Na maior parte da história da aviação,
os aviões eram operados por um único piloto. Mesmo
quando na cabine de comando havia dois assentos e dois conjuntos
de controles, o aviador à direita era mais um assistente
do que uma parte integral da tripulação. Mesmo hoje
o voador solitário é parte da representação
aceita de vôo, tanto que o vôo solo, verdadeiro rito
de passagem, é a experiência compartilhada de todos
pilotos brevetados.
Mas, hoje, a complexidade e interconectividade da tecnologia
de controle de vôo e de motores, auxílios à
navegação, FMCs e pilotos automáticos requer
o trabalho coordenado de uma tripulação de duas pessoas.
Podemos chamar isso de “a globalização do ‘cockpit’
”. Em determinadas fases do vôo (principalmente aproximação
e pouso) as tarefas como ajustar o trim, aproar a aeronave, controlar
a velocidade aerodinâmica, manter as comunicações
e supervisionar a cabine excedem claramente as habilidades de um
tripulante. Isso conduziu a uma crescente preocupação
com o treinamento e pesquisa de como os pilotos se coordenavam na
cabine, nascendo, assim, o “gerenciamento de recursos de tripulação”
– o CRM. Sabemos, ainda, que a dinâmica do vôo
começa bem antes do passageiro chegar ao check in. Ela é
composta de grande variedade de pessoal operacional envolvido –
pilotos, mecânicos, despachantes, pessoal de rampa –
que executam seu trabalho como parte de um sistema, como uma orquestra.
Distúrbios ou desequilíbrios em uma parte do sistema
podem ter severas conseqüências em outra. Embora de um
ponto de vista aerodinâmico e eletromecânico nós
compreendamos a dinâmica do vôo, de um ponto de vista
de interação social nós estamos apenas começando
a entender como se processa essa dinâmica.
A “Cultura de Segurança” é
geralmente definida como uma combinação de atitudes
e uma comunicação aberta, sincera, às claras.
O erro humano contribui em mais de 70 % de todos os acidentes na
aviação. É geralmente (embora não universalmente)
aceito que pilotos vão inevitavelmente cometer erros e que
a barreira entre erro e acidente é a habilidade em reconhecer,
capturar e corrigir erros, antes que eles se propaguem. Essa habilidade
vem com a experiência, direta ou “o que eu faria se
fosse você”. O compartilhamento entre si de experiências
eleva o conhecimento de meteorologia, manobras etc.
Entretanto, práticas de algumas empresas ao
longo da história da aviação mundial, de punição
a pilotos por erros inadvertidos são barreiras nesse hábito
salutar e os tripulantes tornam-se menos dispostos a compartilhar
suas experiências, principalmente as más. O que, sem
dúvida, os deixa mais propensos a errar novamente. O pior
acidente de aviação da história, a colisão
em pista de dois Boeing 747 em Tenerife (1977), foi atribuída
em parte à vontade de voltar logo para casa do comandante
holandês e de a KLM, sua empresa, habitualmente aplicar sanções,
dentro das leis holandesas, às tripulações
que ultrapassassem seu máximo de horas de serviço.
Se um gerente supuser que o erro do piloto é sempre intencional,
haverá então pouca oportunidade para os pilotos aprenderem
técnicas de gerenciamento de erros a partir de seus colegas
pilotos: ninguém vai admitir já que cometeu um erro.
No caso do CRM, é assumido que no comando do
convés de vôo, comunicação e performance
nas tarefas estão em rigoroso “equilíbrio homeostático”
(De “homeostase”: Capacidade do corpo para manter um
equilíbrio estável a despeito das alterações
exteriores; estabilidade fisiológica.). A disciplina de CRM,
tanto no cockpit quanto dentro da corporação, é
projetada, segundo outro antropólogo, Westrum (1988 Cockpit
Automation. In Wiener, Earl L., and D. C. Nagel, eds., Human Factors
in Aviation, páginas 433-461. San Diego. Academic Press.
Westrum, Ronald, and Anthony Adamski) para promover “imaginação
requerida (necessária)”, criando equipes coesivas com
maior potencial adaptativo do que indivíduos únicos.
A equipe de trabalho no cockpit é reconhecida como essencial
para a segurança; entendendo essa equipe de trabalho do ponto
de vista da adaptação (para diversas condições
de vôo) , essa medida calibrada de diversidade no cockpit
contribui com um vôo seguro. Mais uma vez usamos um dos maiores
exemplos: a colisão em pista dos dois Boeing 747 em Tenerife,
que matou 583 pessoas, tem sido associada ao colapso desse equilíbrio.
A ciência dos sistemas identifica modos separados
de equilíbrio neutro, estável e instável: o
último destes está singularmente sujeito a colapsos,
porém é freqüentemente associado com sistemas
de alto desempenho. Há outros acidentes onde a degradação
do CRM teve parte. Entre eles se inclui o vôo 052 da Avianca
(Boeing 707) em La Guardia em 1990 (falha ao declarar uma emergência
de combustível) e o vôo American 965 (Boeing 757) em
Cali, 1995 (proa indevida e falha de comunicação com
o ATC). Além de também o vôo 140 da China Air
Lines (Airbus A300) em Nagoya (1994) (confusão na hora de
cancelar uma inadvertida seleção de TOGA).
Observe a barreira cultural usando esses acidentes
como exemplo: diálogo em inglês entre controladores
espanhóis e pilotos holandeses (Tenerife) ou controladores
colombianos e pilotos norte-americanos (Cali), tripulantes técnicos
venezuelanos e controladores norte-americanos (Avianca) ou entre
pilotos de Taiwan e uma tecnologia de gerenciamento de vôo
de origem européia. Enquanto a aviação comercial
é freqüentemente citada como um exemplo de sistema altamente
confiável, alguém pode citar como hipótese
que quando as fronteiras culturais são introduzidas na situação
operacional, ele se torna um “sistema vulnerável”,
isto é, um estado de equilíbrio instável. Tecnologias
como o glass cockpit e aeronaves com fly-by-wire são fronteiras
culturais.
E é preciso lembrar que a comunicação
extrapola as palavras em si: entonação, sotaques etc
têm igual poder comunicativo e servem inclusive para prender
a atenção dos pilotos, no caso de fala dos controladores.
Nem tudo pode ser substituído por sinais digitais. As palavras
em uma elocução na ATC como “Desça para
o nível de vôo 230” (Em inglês "Descend
to flight level 230") admite apenas uma interpretação
possível e assim pode plausivelmente ser substituída
por uma sinal digital. Entretanto, qualquer um que tenha escutado
os controladores de tráfego aéreo trabalhando irá
reconhecer que sua pronúncia será freqüentemente
falada ritmicamente: : "De-scend’ to flight’ lev’l
two’ three oh’" que pode ser atenuado como “Could
you...” (“Pode você...”: no caso de inclusão
desses termos para reforço) e usualmente pode incluir alguma
forma de aperto de mãos verbal. Esses truques são
usados pelos controladores para focar a atenção e
ter certeza de que os pilotos estão ouvindo. |