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O
Air onLine nesta edição aborda um tema incomum que
num primeiro momento pode parecer não ter qualquer relação
com uma revista especializada em aviação, mas após
a leitura deste artigo o leitor terá a certeza que durante
quase duas décadas automóveis e aviação
tiveram muito em comum.
A segunda metade da década de 40 trouxe uma nova realidade
aos Estados Unidos, a indústria norte-americana já
havia se recuperado completamente da recessão de 1929 e os
avanços obtidos com a Segunda Guerra Mundial impulsionada
pelas divisas obtidas durante o conflito levaram a sociedade a um
padrão de vida único no mundo. A vitória sobre
os países do eixo trazia um poder único aos Estados
Unidos que se tornou o grande líder mundial. Nascia um novo
estilo de vida, que marcaria especialmente próxima década.
Nesta mesma época a aviação vivia seus anos
dourados, as Fortalezas Voadoras intimavam por seu porte e poder
de fogo, o robusto P-47 Thunderbolt parecia indestrutível,
os ágeis P-51 Mustang voltavam da guerra como grandes heróis,
os P-38 Lightning chamavam atenção por seu duplo estabilizador,
surgiam os primeiros aviões a jato que encantavam a todos
por não possuírem hélices e por sua velocidade.
E a indústria automobilística passava por uma revolução,
os automóveis deixavam de ser bens exclusivos da elite para
se tornarem um dos bens mais cobiçados pela nova sociedade
norte-americana. Ter um automóvel já não era
mais “status” e sim uma necessidade.
Atentas a esta nova realidade, a competente indústria automotiva
norte-americana, iniciou uma reestilização praticamente
em massa dos desenhos de seus automóveis.
Dentre elas estava a Cadillac, famosa por suas inovações,
dentre elas a popularização do motor V8 já
em 1915, que aproveitando esta nova fase e atenta a influencia que
a aviação vinha causando na sociedade lançou
em 1948 o conceito de “aletas” traseiras, que apesar
de serem conhecidas no Brasil como “rabo de peixe” foram
inspiradas no desenho do Lockheed P-38 Lightning.
Tudo começou em meados da década de 1930 quando os
projetistas Bill Mitchell e Franklin Q. Hershey visitaram o Michigan's
Selfridge Field onde a Lockheed desenvolvia justamente o P-38 Lightning.
O projeto do avião chamou atenção da dupla
de designers, especialmente de Hershey, que era um dos projetistas
chefes da General Motors. O desenho além de atraente, possuía
uma interessante solução aerodinâmica, além
de criar uma característica única ao avião.
Estas mesmas características chamaram atenção
de Mitchell que comentou posteriormente quando questionado sobre
as razões de terem se inspirado no P-38: “Nós
vimos que no projeto do avião a linha que nascia no nariz
e se estendia até a ponta da cauda era totalmente fluida”.
Apesar da solução encontrada pela Lockheed não
ter nada de estética, a idéia iria mudar radicalmente
o desenho da maioria dos automóveis quase uma década
depois.
Em 1948, enquanto todos os grandes fabricantes de automóveis
apenas deixavam seus produtos com linhas mais leves para o conceito
da época, a Cadillac lançava um elegante sedã,
com linhas elegantes, aerodinâmicas e modernas. O desenho
observado de perfil passava uma sensação de velocidade,
pois o conjunto se afunilava no final, gerando a sensação
de que o carro se deformava como que se estivesse em altíssima
velocidade. E trazia com ele vestígios daquela impressão
tida com o P-38, como as aletas trazeiras, os detalhes do pára-choque
dianteiro que lembravam os spinners dos motores dos aviões,
frisos cromados laterais e o acabamento nos pára-lamas traseiro
simulavam as entradas de ar dos possantes motores aeronáuticos.
Os pára-lamas traseiros escondiam parcialmente os pneus,
em clara alusão aos trens de pouso retráteis. A boca
do tanque de combustível foi instalada exatamente sob a lanterna
traseira esquerda, o que lembrava o método de abastecimento
utilizado nos aviões, onde o tanque fica nas asas.
Detalhes que chamaram atenção do público e
da indústria que passaram a ter a aviação como
referencia para seus novos projetos.
A década seguinte foi marcada pela introdução
cada vez maior de detalhes inspirados na aviação na
maioria dos automóveis norte-americanos, especialmente nos
Cadillac que se tornaram símbolos desta época.
Em 1950, a Cadillac introduz algumas pequenas modificações
em seus modelos que incluem uma entrada de ar lateral nos pára-lamas
traseiros, inspirada nas entradas de ar dos primeiros aviões
a jato. O uso de cromados se intensifica justamente devido à
maioria dos novos aviões militares possuírem uma fuselagem
basicamente metálica.
Até 1953 os modelos da Cadillac sofreram mudanças
estéticas praticamente imperceptíveis, uma das principais
mudanças ocorria justamente nos modelos ‘53 onde o
detalhe do pára-choque dianteiro inspirado nos spinners dos
motores a pistão, são re-estilizados ganhando um visual
que lembrava o “spinner” dos motores a jato.
O desenho mantinha-se basicamente inalterado para não destoar
do conjunto, pois como o próprio Mitchell disse na época,
caso a algo mude ele não ficará em harmonia com o
restante do conjunto.
Apesar de sofrer pequenas mudanças, o modelo ‘54 trazia
algumas inovações como um pára-brisas envolvente,
que criava um aspecto similar ao dos pára-brisas dos aviões
como o B-47 Stratojet, uma nova grade dianteira com faróis
auxiliares embutidos e pára-choque bipartido, que lembrava
muito os pilones dos motores montados sob as asas.
Mas as maiores mudanças viriam com o modelo ’55, que
trazia uma nova grade sem os faróis axiliares, o pára-choque
continuava bipartido mas com ângulo ainda mais acentuado e
com um spinner mais saliente. A tomada de ar lateral que anteriormente
acompanhava toda a lateral do automóvel passava a ocupar
apenas a metade superior sendo ligada a grade dianteira por um friso
cromado mais estreito do que os utilizados anteriormente.As luzes
de ré passaram a ficar exatamente abaixo das lanternas lembrando
as luzes de navegação e anticolisão.
Em 1956 os modelos ganharam novamente uma grade redesenhada, agora
com detalhes mais estreitos que combinavam mais com o padrão
adotado baseado nos jatos. As aletas traseiras ficaram mais acentuadas
e o escapamento foi totalmente redesenhado. O duto de escape ganhava
destaque na lateral traseira terminando em um bocal retangular no
pára-choque traseiro. A traseira ganhava um visual ainda
mais similar ao dos cada vez mais comuns aviões a reação,
que começavam a chegar também na aviação
comercial. Os escapamentos eram uma nítida relação
à saída dos gases dos novos aviões a jato.
O modelo ’57 sofreu algumas mudanças significativas
como um capô mais baixo, com linhas menos arredondadas, dava
ainda mais destaque aos spinners, que ganhavam uma ponta de borracha
criando um aspecto idêntico ao dos spinners dos aviões
turboélices, foram instaladas na parte inferior do pára-choque
quatro luzes auxiliares, com um desenho que era muito semelhante
à entrada das turbinas do de Havilland Comet. A grade dianteira
também foi modificava sendo envolvida pelo pára-choque.
A saliência do tubo de escape ficava ainda mais marcante,
e os bocais do escapamento passaram a ser verticais, sendo que a
toma de ar lateral passava agora para a parte inferior.
As lanternas agora passaram a ser redondas e montadas horizontalmente
nas aletas, sendo uma continuidade das saliências do tudo
de escape. As aletas ficavam ainda maiores e mais acentuadas, lembrando
muito os novos estabilizadores verticais em uso na maioria dos novos
projetos da indústria aeronáutica.
Devido às baixas vendas do modelo ’57 o modelo seguinte
sofreu uma série de mudanças, que incluíam
um capô mais baixo e com linhas retilíneas, um novo
conjunto óptico dianteiro que contava agora com quatro faróis,
o pára-choque continuava bipartido, mas agora possuía
linhas retas e os spinners ficavam mais discretos. Os faróis
auxiliares passaram a serem retangulares, com menor destaque à
moldura. Na lateral dianteira, logo acima do pára-choque
foi adicionada uma pequena tomada de ar cromada que remetia à
entrada de ar de alguns caças. O teto mais baixo deixava
o pára-brisa ainda mais envolvente e com um visual ainda
mais inspirado na velocidade. A traseira continuava similar a do
modelo ’57 o que a tornou mais harmônica com o restante
do veículo.
Entretanto, a principal mudança viria em 1959, quando os
Cadillac passaram por uma extensa mudança. Ganhando um visual
completamente novo, o que fez dele um dos veículos mais bonitos
da história.
O desenho ainda mais retilíneo deixava o modelo ainda mais
largo, o conjunto óptico ficava mais discreto, enquanto os
quatro faróis auxiliares continuavam incorporados ao pára-choque,
mas ganhando uma moldura extremamente similar as entradas das turbinas
do Comet. O desenho lateral era inspirado nos mais modernos caças
de até então, sendo que o perfil lateral lembrava
muito o desenho de um caça, com destaque para as aletas demasiadamente
exageradas, que para muitos deixaram o carro ridículo.
As aletas realmente eram altas, destoando com a traseira afunilada
que recebia um visual totalmente inovador. A começar pela
instalação das luzes de ré em enormes molduras,
inspiradas na saída de exaustão dos motores a jato,
que eram justamente o acabamento do desenho da lateral. Nas enormes
aletas foram instaladas apenas as lanternas, mantendo a alusão
às luzes de navegação. Sobre o pára-choque
uma grade foi instalada o que para muitos era o auge da ostentação
do modelo, que exagerava em absolutamente tudo.
Mas a versão Eldorado Biarritiz de 1959 é sem dúvida
alguma a mais famosa de todos os modelo até hoje produzidos.
Justamente tentando corrigir os erros das versões anteriores,
os modelos ’61 ganharam aletas mais elegantes, mas passaram
a contar com aletas montadas também na parte inferior, em
clara referência ao 707. A dianteira pouco lembrava as versões
anteriores e já não mais fazia referência a
nenhum projeto aeronáutico, o que já era considerado
uma idéia ultrapassada que durava mais de uma década.
Até meados de 1964 os Cadillac ainda ostentavam as aletas
duplas, cada vez menores e com menos destaque e que já não
tinham qualquer relação com aviação.
Agora eram apenas parte da personalidade dos Cadillac.
Durante o período de 1948 a 1964 a maioria dos fabricantes
utilizavam elementos inspirados na aviação em seus
automóveis, mas em nenhum fabricante este estilo foi tão
marcante quanto nos Cadillac, que por quase duas décadas
projetou seus automóveis inspirados nas constantes evoluções
aerodinâmicas encontradas na aviação.
Uma época em que aviões e automóveis tinham
muito em comum nos Estados Unidos. |