Do céu para os Cadillac
 
   
Texto: Edmundo Ubiratan
    O Air onLine nesta edição aborda um tema incomum que num primeiro momento pode parecer não ter qualquer relação com uma revista especializada em aviação, mas após a leitura deste artigo o leitor terá a certeza que durante quase duas décadas automóveis e aviação tiveram muito em comum.

A segunda metade da década de 40 trouxe uma nova realidade aos Estados Unidos, a indústria norte-americana já havia se recuperado completamente da recessão de 1929 e os avanços obtidos com a Segunda Guerra Mundial impulsionada pelas divisas obtidas durante o conflito levaram a sociedade a um padrão de vida único no mundo. A vitória sobre os países do eixo trazia um poder único aos Estados Unidos que se tornou o grande líder mundial. Nascia um novo estilo de vida, que marcaria especialmente próxima década.

Nesta mesma época a aviação vivia seus anos dourados, as Fortalezas Voadoras intimavam por seu porte e poder de fogo, o robusto P-47 Thunderbolt parecia indestrutível, os ágeis P-51 Mustang voltavam da guerra como grandes heróis, os P-38 Lightning chamavam atenção por seu duplo estabilizador, surgiam os primeiros aviões a jato que encantavam a todos por não possuírem hélices e por sua velocidade.

E a indústria automobilística passava por uma revolução, os automóveis deixavam de ser bens exclusivos da elite para se tornarem um dos bens mais cobiçados pela nova sociedade norte-americana. Ter um automóvel já não era mais “status” e sim uma necessidade.

Atentas a esta nova realidade, a competente indústria automotiva norte-americana, iniciou uma reestilização praticamente em massa dos desenhos de seus automóveis.

Dentre elas estava a Cadillac, famosa por suas inovações, dentre elas a popularização do motor V8 já em 1915, que aproveitando esta nova fase e atenta a influencia que a aviação vinha causando na sociedade lançou em 1948 o conceito de “aletas” traseiras, que apesar de serem conhecidas no Brasil como “rabo de peixe” foram inspiradas no desenho do Lockheed P-38 Lightning.

Tudo começou em meados da década de 1930 quando os projetistas Bill Mitchell e Franklin Q. Hershey visitaram o Michigan's Selfridge Field onde a Lockheed desenvolvia justamente o P-38 Lightning. O projeto do avião chamou atenção da dupla de designers, especialmente de Hershey, que era um dos projetistas chefes da General Motors. O desenho além de atraente, possuía uma interessante solução aerodinâmica, além de criar uma característica única ao avião.

Estas mesmas características chamaram atenção de Mitchell que comentou posteriormente quando questionado sobre as razões de terem se inspirado no P-38: “Nós vimos que no projeto do avião a linha que nascia no nariz e se estendia até a ponta da cauda era totalmente fluida”.

Apesar da solução encontrada pela Lockheed não ter nada de estética, a idéia iria mudar radicalmente o desenho da maioria dos automóveis quase uma década depois.

Em 1948, enquanto todos os grandes fabricantes de automóveis apenas deixavam seus produtos com linhas mais leves para o conceito da época, a Cadillac lançava um elegante sedã, com linhas elegantes, aerodinâmicas e modernas. O desenho observado de perfil passava uma sensação de velocidade, pois o conjunto se afunilava no final, gerando a sensação de que o carro se deformava como que se estivesse em altíssima velocidade. E trazia com ele vestígios daquela impressão tida com o P-38, como as aletas trazeiras, os detalhes do pára-choque dianteiro que lembravam os spinners dos motores dos aviões, frisos cromados laterais e o acabamento nos pára-lamas traseiro simulavam as entradas de ar dos possantes motores aeronáuticos. Os pára-lamas traseiros escondiam parcialmente os pneus, em clara alusão aos trens de pouso retráteis. A boca do tanque de combustível foi instalada exatamente sob a lanterna traseira esquerda, o que lembrava o método de abastecimento utilizado nos aviões, onde o tanque fica nas asas.

Detalhes que chamaram atenção do público e da indústria que passaram a ter a aviação como referencia para seus novos projetos.

A década seguinte foi marcada pela introdução cada vez maior de detalhes inspirados na aviação na maioria dos automóveis norte-americanos, especialmente nos Cadillac que se tornaram símbolos desta época.

Em 1950, a Cadillac introduz algumas pequenas modificações em seus modelos que incluem uma entrada de ar lateral nos pára-lamas traseiros, inspirada nas entradas de ar dos primeiros aviões a jato. O uso de cromados se intensifica justamente devido à maioria dos novos aviões militares possuírem uma fuselagem basicamente metálica.

Até 1953 os modelos da Cadillac sofreram mudanças estéticas praticamente imperceptíveis, uma das principais mudanças ocorria justamente nos modelos ‘53 onde o detalhe do pára-choque dianteiro inspirado nos spinners dos motores a pistão, são re-estilizados ganhando um visual que lembrava o “spinner” dos motores a jato.

O desenho mantinha-se basicamente inalterado para não destoar do conjunto, pois como o próprio Mitchell disse na época, caso a algo mude ele não ficará em harmonia com o restante do conjunto.

Apesar de sofrer pequenas mudanças, o modelo ‘54 trazia algumas inovações como um pára-brisas envolvente, que criava um aspecto similar ao dos pára-brisas dos aviões como o B-47 Stratojet, uma nova grade dianteira com faróis auxiliares embutidos e pára-choque bipartido, que lembrava muito os pilones dos motores montados sob as asas.

Mas as maiores mudanças viriam com o modelo ’55, que trazia uma nova grade sem os faróis axiliares, o pára-choque continuava bipartido mas com ângulo ainda mais acentuado e com um spinner mais saliente. A tomada de ar lateral que anteriormente acompanhava toda a lateral do automóvel passava a ocupar apenas a metade superior sendo ligada a grade dianteira por um friso cromado mais estreito do que os utilizados anteriormente.As luzes de ré passaram a ficar exatamente abaixo das lanternas lembrando as luzes de navegação e anticolisão.

Em 1956 os modelos ganharam novamente uma grade redesenhada, agora com detalhes mais estreitos que combinavam mais com o padrão adotado baseado nos jatos. As aletas traseiras ficaram mais acentuadas e o escapamento foi totalmente redesenhado. O duto de escape ganhava destaque na lateral traseira terminando em um bocal retangular no pára-choque traseiro. A traseira ganhava um visual ainda mais similar ao dos cada vez mais comuns aviões a reação, que começavam a chegar também na aviação comercial. Os escapamentos eram uma nítida relação à saída dos gases dos novos aviões a jato.

O modelo ’57 sofreu algumas mudanças significativas como um capô mais baixo, com linhas menos arredondadas, dava ainda mais destaque aos spinners, que ganhavam uma ponta de borracha criando um aspecto idêntico ao dos spinners dos aviões turboélices, foram instaladas na parte inferior do pára-choque quatro luzes auxiliares, com um desenho que era muito semelhante à entrada das turbinas do de Havilland Comet. A grade dianteira também foi modificava sendo envolvida pelo pára-choque. A saliência do tubo de escape ficava ainda mais marcante, e os bocais do escapamento passaram a ser verticais, sendo que a toma de ar lateral passava agora para a parte inferior.

As lanternas agora passaram a ser redondas e montadas horizontalmente nas aletas, sendo uma continuidade das saliências do tudo de escape. As aletas ficavam ainda maiores e mais acentuadas, lembrando muito os novos estabilizadores verticais em uso na maioria dos novos projetos da indústria aeronáutica.

Devido às baixas vendas do modelo ’57 o modelo seguinte sofreu uma série de mudanças, que incluíam um capô mais baixo e com linhas retilíneas, um novo conjunto óptico dianteiro que contava agora com quatro faróis, o pára-choque continuava bipartido, mas agora possuía linhas retas e os spinners ficavam mais discretos. Os faróis auxiliares passaram a serem retangulares, com menor destaque à moldura. Na lateral dianteira, logo acima do pára-choque foi adicionada uma pequena tomada de ar cromada que remetia à entrada de ar de alguns caças. O teto mais baixo deixava o pára-brisa ainda mais envolvente e com um visual ainda mais inspirado na velocidade. A traseira continuava similar a do modelo ’57 o que a tornou mais harmônica com o restante do veículo.

Entretanto, a principal mudança viria em 1959, quando os Cadillac passaram por uma extensa mudança. Ganhando um visual completamente novo, o que fez dele um dos veículos mais bonitos da história.

O desenho ainda mais retilíneo deixava o modelo ainda mais largo, o conjunto óptico ficava mais discreto, enquanto os quatro faróis auxiliares continuavam incorporados ao pára-choque, mas ganhando uma moldura extremamente similar as entradas das turbinas do Comet. O desenho lateral era inspirado nos mais modernos caças de até então, sendo que o perfil lateral lembrava muito o desenho de um caça, com destaque para as aletas demasiadamente exageradas, que para muitos deixaram o carro ridículo.

As aletas realmente eram altas, destoando com a traseira afunilada que recebia um visual totalmente inovador. A começar pela instalação das luzes de ré em enormes molduras, inspiradas na saída de exaustão dos motores a jato, que eram justamente o acabamento do desenho da lateral. Nas enormes aletas foram instaladas apenas as lanternas, mantendo a alusão às luzes de navegação. Sobre o pára-choque uma grade foi instalada o que para muitos era o auge da ostentação do modelo, que exagerava em absolutamente tudo.

Mas a versão Eldorado Biarritiz de 1959 é sem dúvida alguma a mais famosa de todos os modelo até hoje produzidos.

Justamente tentando corrigir os erros das versões anteriores, os modelos ’61 ganharam aletas mais elegantes, mas passaram a contar com aletas montadas também na parte inferior, em clara referência ao 707. A dianteira pouco lembrava as versões anteriores e já não mais fazia referência a nenhum projeto aeronáutico, o que já era considerado uma idéia ultrapassada que durava mais de uma década.

Até meados de 1964 os Cadillac ainda ostentavam as aletas duplas, cada vez menores e com menos destaque e que já não tinham qualquer relação com aviação. Agora eram apenas parte da personalidade dos Cadillac.

Durante o período de 1948 a 1964 a maioria dos fabricantes utilizavam elementos inspirados na aviação em seus automóveis, mas em nenhum fabricante este estilo foi tão marcante quanto nos Cadillac, que por quase duas décadas projetou seus automóveis inspirados nas constantes evoluções aerodinâmicas encontradas na aviação.
Uma época em que aviões e automóveis tinham muito em comum nos Estados Unidos.
 
 

Index