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Sukhoi SuperJet 100

Texto: Edmundo Ubiratan

Desde o fim da União Soviética, em dezembro de 1991, a então poderosa industria aeronáutica soviética entrou em plena decadência. Apesar da crise, o segmento militar conseguiu manter alguns investimentos e continuar seu caminho, exatamente o oposto que ocorreu no segmento civil. Devido à crise instaurada na industria russa e a defasagem de todos os projetos civis, as empresas aéreas que herdaram o espório da gigante Aeroflot, buscaram renovar suas frotas com aviões ocidentais, em sua maioria Airbus e Boeing, sendo que mais recentemente até mesmo aviões EMBRAER e Bombardier voam em empresas de países antes membros da URSS.

Porém, a industria russa pretende reverter esse quadro, dando um novo e importante passo para reerguer sua industria aeronáutica civil.

O mais importante deles ocorreu quando os fabricantes russos Sukhoi, Ilyushin e Tupolev, liderados pela primeira, resolveram desenvolver um avião regional visando atender não apenas o mercado interno, mas também o ocidente. O avião inicialmente batizado como Sukhoi RRJ (Russian Regional Jet) e rebatizado como SSJ 100 (Sukhoi SuperJet 100) em julho de 2006, foi concebido para transportar entre 75 e 110 passageiros a curtas e médias distancias, competindo diretamente com a família E-Jet da EMBRAER e a família CRJ da Bombardier.

Lançado sem receber muito entusiasmo do mercado ocidental, o projeto aos poucos começou a chamar atenção devido seu baixo custo de desenvolvimento e elevada tecnologia envolvida. Mesmo sem projetar nada realmente novo a mais de duas décadas, a industria russa acumulou uma excelente bagagem tecnológica aperfeiçoando seus modelos militares, entre eles o badalado e temido Su-27. Durante a última década a industria militar russa voltou seus olhos para países emergentes, oferecendo o que havia de mais moderno em seu arsenal, conseguindo assim obter uma valiosa experiência no mercado internacional. Afinal, os russos estavam acostumados a uma economia planificada, longe das grandes concorrências existentes no mundo capitalista. Com a abertura do mercado russo as industrias passaram a investir em tecnologia para sobreviverem no selvagem mercado capitalista. Graças a estes avanços, o programa SSJ 100 recebeu um importante apoio, com a entrada da Finmeccanica no negócio, que adquiriu 25% da participação do projeto. Em paralelo, a Boeing logo após suspender o programa 717, buscou um novo parceiro para o segmento regional e se tornou consultora nas áreas de gestão de projetos, certificação, planejamento de mercado do programa SSJ 100, além de prestar serviço de apoio ao cliente.

Com a participação da Boeing e da Finmeccanica, o projeto que originalmente previa participação apenas da industria local russa, passou a contar com a participação de inúmeros parceiros internacionais, reduzindo assim o tempo e o custo do projeto, além de dar maior credibilidade ao programa. O processo de seleção dos parceiros de risco, fornecedores e formação de join venture começaram em meados de 2004 e durou cerca de um ano. Durante este período os representantes dos fornecedores, estiveram em Moscou trabalhando junto com engenheiros da Sukhoi para definir a configuração do avião. Onde ficou claro que um dos maiores problemas era a questão lingüística já que a maior parte dos russos possuem um péssimo inglês, ainda assim apesar dos problemas iniciais, todos envolvidos conseguiram se adaptar a situação. Outro problema encontrado foi à diferença entre o padrão métrico adotado pelos russos e o sistema imperial, amplamente utilizado na aviação ocidental. Como o avião visa o mercado internacional, houve a necessidade de adaptar os engenheiros russos a trabalharem com o sistema imperial, o que inicialmente gerou certos equívocos entre todos envolvidos.

Uma das grandes inovações para a industria russa foi o uso do software IBM/ Dassault Systèmes Catia V5, que é amplamente empregado no ocidente, onde todo o projeto é realizado no computador, dispensando inclusive a construção de um mock-up, que é reproduzido digitalmente e em 3D. A KnAAPO (Komsomolsk-na-Amur Aircraft Production Association) também esta empregando o Unigraphics, que tem função similar ao Catia.

Os ensaios em túnel de vento ainda contam com o uso do CFD (Computational Fluid Dynamics), software que analisa o fluxo de ar em toda a superfície da aeronave, auxiliando nas analises de dados mais complexos, como no comportamento do fluxo de ar nos pilones do motor.

Digno de nota é o fato que ainda que tenha inovado no campo de projetos, foi mantida a terceirização de parte dos serviços com centros de pesquisas aeroespaciais, agregando assim grande experiência a estes centros.

Antes de contar com parceiros estrangeiros, o programa previa três variantes, o RRJ-60, RRJ-75 e RRJ-95, sendo que cada número designava a capacidade de cada modelo. Logo após o inicio dos trabalhos a série RRJ-60 foi abandonada devido sua pequena capacidade, passando as demais serem designadas SSJ 100-75 e SSJ 100-95, sendo que a versão mais longa será a primeira a ser lançada. Atualmente se estuda uma versão mais longa com capacidade para 110 passageiros designada SSJ-110. De acordo com contrato fechado com a Boeing, caso seja produzia uma versão maior que 100 passageiros, o avião obrigatoriamente terá que, no mínimo, ser finalizado na sua linha de produção nos Estados Unidos.

Baseada no princípio de maximizar a simplicidade de construção de componentes e sistemas, proporcionando aos futuros operadores baixo custo de operação e manutenção, optou-se por manter a configuração planejada desde o inicio de um avião de asa baixa com motores montados sob as asas.

O grande diferencial em relação aos concorrentes diretos está na cabine mais larga, que foi configurada no padrão 2+3 assentos por fileira. De acordo com a Sukhoi esta configuração permite um melhor aproveitamento do espaço interno, oferecendo mais conforto aos passageiros. A empresa alega que a configuração 2+2 adotada pela EMBRAER no E-Jet é ideal para aviões com capacidade até 70 passageiros, visto que acima dessa configuração o avião se torna mais longo. Enquanto a configuração padrão adotada pelo Boeing 737 e Airbus A320 de 3+3 torna o avião muito grande e pesado, sendo ideal para capacidades superiores a 110 assentos. Curiosamente a configuração adotada pela Sukhoi foi durante anos, a mais utilizada no segmento regional, com os modelos Fokker 28-70/-100, DC-9/MD-80/90 e mais recentemente com o Boeing 717. Na configuração padrão de classe única o SSJ 100-95 pode acomodar 95 passageiros, podendo ser também configurado com duas classes com 86 assentos. Os compartimentos de bagagem possuem capacidade total de 775.8 pés cúbicos, consideravelmente amplos para o segmento.

Serão oferecidos dois modelos, a Standart e a versão LR (Long Range). O primeiro na configuração padrão de classe única, o peso máximo de decolagem é 93.740 libras, com alcance máximo de 1.646nm. Já a versão LR (Long Range) terá peso máximo de 101.150 libras e alcance de 2.421nm.

Algo curioso no SSJ 100 é que embora a Rússia tenha uma grande experiência na utilização de materiais avançados como: titânio, ligas de alumínio e fibra de carbono, muito pouco desses materiais foram empregados no projeto. O principal motivo foi à redução nos custos de produção e operação, que seriam muito maiores no caso de empregar maciçamente estes materiais no avião. Chegou-se a cogitar a participação da Alenia Aeronáutica, empresa do grupo Finmeccanica, no fornecimento de grandes seções produzidas em ligas de carbono, o que reduziria o custo de produção, porém, o custo de manutenção para o operador continuaria muito alto.

Uma das primeiras joint venture formadas no programa SSJ 100, foi estabelecida entre a russa NPO Saturn (empresa formada após a fusão da Rybinsk e Lyul'ka-Saturn) e a francesa Snecma, que estabeleceram a PowerJet. A nova empresa foi constituída aproveitando a já bem sucedida experiência da Snecma no consórcio CFM International, responsável pela produção dos motores que equipam a totalidade da frota de Boeing 737 (excluindo a série -200) e é oferecido como opção para a família Airbus A320.

Assim como ocorreu na CFM International, a PowerJet terá um único motor, o SaM146, que terá potencia entre 13.500 e 17.500 libras de empuxo e estará de acordo com as normas ambientais estabelecidas pelo CAEP VI (Committee of Aviation Environmental Protection Sixth Session) da ICAO.

Pelo acordo estabelecido, a Snecma será responsável pela construção do núcleo do motor e sistemas de transmissão. Sendo ainda responsável pelo sistema FADEC (Full Authority Digital Engine Control), integração do conjunto e vôos de teste. A NPO Saturn deverá construir apenas os componentes do compressor e turbina de baixa pressão, naceles, sistema de reverso e ensaios de bancada.

Durante os testes em solo os motores SaM146 confirmaram que o grupo propulsor poderá impulsionar uma versão alongada de até 120 assentos.

A participação do grupo francês Safran, proprietário da Snecma, tem sido bastante presente no SSJ 100, sendo que a Messier-Dowty, uma das empresas do grupo será responsável pelo desenvolvimento e construção do trem de pouso que deverá ser constituído em titânio. Já a Thales esta trabalhando no desenvolvimento da arquitetura do cockpit, sendo ainda responsável pela integração de sistemas de aviônicos e validação da cabine.
Outros grandes grupos participam do projeto como a alemã Liebherr responsável pelos sistemas de controle de vôo, e as americanas Honeywell (APU), Parker Aerospace (sistemas hidráulicos) e Hamilton Sundstrand (sistema elétrico).

No dia 26 de setembro passado, a Sukhoi realizou em sua unidade instalada na remota cidade de Komsomolsk-on-Amur, o roll-out do SSJ 100-95, num evento que provavelmente foi o maior já realizado pelas industrias locais. Milhares de funcionários, executivos, membros do governo russo, investidores e jornalistas, acompanharam o cerimonial de apresentação do modelo. O avião apresentado é o segundo da linha de produção, sendo que o primeiro foi enviado para o TsAGI (Tsentralniy Aerogidrodinamicheskiy – Instituto Central de Pesquisas Aerodinâmicas), para realizar ensaios estáticos.

A previsão é que o primeiro vôo ocorra no primeiro trimestre deste ano, com a homologação ocorrendo no terceiro trimestre.

Já foram confirmadas 98 encomendas firmes, sendo quinze SSJ 100-75 e oitenta e três SSJ 100-95, além de outras 73 opções de compras. Os atuais clientes do modelo são: Aeroflot, AirUnion, Dalavia, Transaero, Itali Airlines, Armavia e FLC.

Ainda que sua base de clientes seja basicamente composta por empresas do leste europeu, a Sukhoi, pretende obter novos contratos ao redor do mundo. De acordo com o fabricante o SSJ 100-95 terá um custo aproximado de US$ 25 milhões, cerca de 15% a menos que os aviões fabricados pela EMBRAER.

Ainda que seja o primeiro avião civil produzido na Rússia, a experiência da Sukhoi em projetar aviões simples, baratos e eficientes, aliada a tecnologia e experiência comercial de empresas ocidentais, faz do SSJ 100 um grande projeto. Um avião que pode colocar a Rússia pela primeira vez em destaque no mercado de aviões civis. Um país que há 16 anos atrás estava aniquilado financeiramente, passava por graves crises políticas e que até hoje desponta como berço de grandes nomes da engenharia aeroespacial, tem de tudo para ser um dos lideres no segmento comercial. Basta fazer as escolhas certas.