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Quem
nunca ao ouvir o barulho de um avião olhou para cima?
Ao passar em frente a um
aeroporto não olhou para dentro?
Tem quem freqüenta aeroportos com o único intuito de
fotografar aviões. Essa paixão pelos ares, máquinas
voadoras, o sonho de voar, vem desde os primórdios dos tempos.
Na Grécia antiga, o estudioso Archytas criou um pombo de
madeira, capaz de planar aproximadamente 180 metros, julga-se impulsionado
por jatos de ar, ainda que não se saiba o que os produzia.
Arquimedes ao descobrir que objetos flutuavam em líquidos,
ajudou o monge inglês Roger Bacon a concluir que, se pudessem
construir uma máquina com características adequadas
o ar suportaria.
Leonardo da Vinci projetou diversas maquinas "voadoras",
basicamente com mecanismos simuladores de vôos de pássaros,
apesar de nunca ter construído nenhum, acredita-se que tenha
sido o primeiro a se dedicar verdadeiramente a este tipo de projeto.
Já em 8 de agosto de 1709, Bartolomeu Lourenço de
Gusmão, um jesuíta brasileiro, alçou vôo
com um balão de ar quente, na corte de Dom João V
de Portugal, em Lisboa.
Os irmãos Montgolfier inventaram um também balão
de ar quente, voado em 1793, em Paris, pelo doutor, Francois Pilatre
de Rozier, e pelo nobre, Francois d'Arlandes. Voaram oito quilômetros,
a uma altura máxima de 26m.
O aperfeiçoamento dos conhecimentos sobre altitude e atmosfera,
foi graças aos balões.
Ao longo do século XVIII, o balonismo se tornou bastante
comum na Europa, apesar do curso não poder ser controlado
pelos aviadores.
Também na França, em 1852, Henri Giffard, inventou
o dirigível, controlado por lemes e motores, voou 24 quilômetros.
Devido ao controle direcional, além da altitude ser definido
pelo aviador, dirigíveis se tornaram uma opção
em transporte.
No século XIX muitos inventores tentaram construir planadores.
Frank Wenham foi um deles, apesar de seu insucesso, concluiu que
seria mais eficiente asas finas, longas e fixas. Para provar construiu
o primeiro túnel de vento, em 1871. Provando que poderia
ser criada máquinas mais pesadas que o ar, o problema ficou
em torno de gerar o empuxo necessário para movimentar a aeronave.
A partir de então, começaram intensivos estudos, chegando
à criação de diversos planadores. Lilienthal
um dos mais conhecidos pioneiros da aviação, em 1891,
fez vários vôos consistentes, documentando detalhadamente
seu trabalho.
Ainda no século XIX muitos tentaram criar aviões que
por meios próprios decolassem. Entretanto apenas em 13 de
setembro de 1906, em seu 14bis, Santos Dumont realizou um vôo
completo, percorrendo uma distância de 221 metros na presença
de uma comissão especializada e público. Logo após
inventou o Demoiselle, primeiro ultraleve e última aeronave
desenvolvida por ele.
Alberto Santos Dumont, sexto filho do casal Henrique Dumont e Francisca
dos Santos, nasceu aos 20 de julho de 1873, no sitio Cabangu, próximo
a Palmira, cidade que hoje leva o seu nome, zona da mata mineira,
a 240 km de Belo Horizonte e 220 km do Rio de Janeiro.
Em 1879 sua família mudou para Casal, em Valença (Rio
das Flores), aproximadamente a 20 quilômetros de Ribeirão
Preto -SP; seu pai possuía uma fazenda de café (Arienduva),
- ele que introduziu as locomotivas para transporte de grãos
no Brasil, assumindo a construção da Estrada de Ferro
Dom Pedro II (Central do Brasil), no trecho da subida da Serra da
Mantiqueira - tinha 7 locomotivas e 96 quilômetros de ferrovia
para escoamento da safra.
A infância de Dumont foi na fazenda, sendo alfabetizado por
sua irmã Virginia. Quando jovem foi para Campinas estudar
no Colégio Culto a Ciência, nos colégios Kopke
e Morton em São Paulo e na Escola de Ouro Preto. Na adolescência
pilotava as locomotivas da fazenda de seu pai, ajudava na manutenção
das máquinas, tanto de café como de costura, já
se interessava pela engenharia.
Em 1888, em São Paulo em uma exposição de equipamentos
franceses pode ver pela primeira vez um balão. Mudou-se para
Paris, onde tinha aulas particulares. Seu pai dizia que o futuro
do mundo estava na mecânica, e o incentivava a estudar, garantindo-lhe
o futuro.
Desde muito cedo, Dumont revelava-se um gênio inventivo.
Em 4 de julho de 1898 construiu, o balão Brasil, o menor
balão de hidrogênio (103m²).
Em seguida projetou o seu número 1, com forma alongada, de
charuto, com hidrogênio e motor de propulsão a gasolina.
O projeto não oferecia riscos de explosão do hidrogênio
em contato com o motor da hélice.
Chocou contra árvores, na primeira tentativa, por ter seguido
sugestão de terceiros, e decolado a favor do vento.
Realizou o primeiro vôo de um balão com propulsão
própria em 20 de setembro de 1898. Sofreu um pequeno acidente
no pouso. Em 1899 executou vôos com os dirigíveis número
3 e 4.
Henry Deutsch de La Muerte, no dia 24 de março de 1900, ofereceu
um prêmio de cem mil francos a quem partisse de Saint Cloud,
contornasse a torre Eiffel e retornasse ao ponto de partida em no
máximo 30 minutos. O chamado prêmio Deutsch.
Após experiências com o seu número 4, Dumont
tentou ganhar o prêmio com o número 5. Em 13 de julho
de 1901, fez a primeira tentativa, mas uma falha no motor o fez
chocar-se contra as árvores do parque de Edmond de Rothschild.
A segunda tentativa foi em 8 de agosto, contornou a torre Eiffel,
na volta o balão estava perdendo hidrogênio, com a
perda as cordas de suspensão foram cortadas pela hélice,
Dumont teve que parar o motor. Colidiu-se então com o telhado
do Hotel Trocadéro. Como se amarrou à quilha do dirigível,
ficou suspenso, dependurado no hotel, o que o salvou.
Com 29 minutos e 30 segundos o número 6 cruza a linha de
chegada em 19 de outubro de 1901, porém o regulamento previa
também o pouso antes de 30 minutos. Dumont fez em 30 minutos
e 29 segundos, o que causa polêmica. No dia 4 de novembro
foi declarado vencedor, o prêmio que então estava em
129 mil foi distribuído entre sua equipe.
Para corridas entre dirigíveis, fez o número 7. Por
superstição com o número e mês de agosto
não fez o 8. O número 9 ficou conhecido pelas diversas
apresentações e pelo menor tamanho.
Tentou participar da corrida de dirigíveis de Saint-Louis,
nos Estados Unidos, mas o sabotaram inutilizando o invólucro
do seu dirigível número 7.
Em 1906 foi instituída Taça Archdeacon, para um vôo
mínimo de 25 metros, e o Prêmio Aeroclub de França
de 1500 francos para vôo de 100 metros, ambos com aparelho
mais pesado que o ar e propulsão própria.
Fez um vôo de 60 metros em Bagatelle, em 23 de outubro de
1906, conquistando a Taça Archdeacon. Conquistou o Prêmio
Aeroclub a 220 metros, estabelecendo o primeiro recorde, em 12 de
novembro de 1906.
A insatisfação com os modelos de 15 a 18, que eram
respectivamente: com asa de madeira, misto de dirigível e
avião, e deslizadores aquáticos, o fez criar uma nova
serie, menor e mais aprimorada, os Demoiselles.
Obteve o primeiro brevê de aviador, em janeiro de 1909, fornecido
pelo Aeroclube da França.
Em 18 de setembro do mesmo ano, fez seu ultimo vôo, em uma
de suas aeronaves, entretanto não coloca as mãos nos
comandos, em cada uma segurava um lenço que soltou ao passar
sobre uma multidão.
Começou a sofrer de esclerose múltipla, encerrou as
atividades de sua oficina em 1910, e retirou-se do convívio
social.
O Aeroclube da França o homenageou com a construção
de dois monumentos: o primeiro, em Bagatelle em 1910, onde realizou
o primeiro vôo com o 14-Bis, e o segundo, em 1912, em Saint-Cloud,
em comemoração do vôo do dirigível número
6, ocorrido em 1901.
Com o inicio da primeira guerra, em agosto de 1914, seu sonho se
transformou em pesadelo, os aviões começaram a ser
usados em combates, com metralhadoras e disparos de bombas.
Nessa época Dumont foi preso sob a acusação
de espionagem para colaboração com os alemães,
devido aos seus aparelhos de observação astronômica.
O governo Francês pediu desculpas formalmente depois de esclarecido
o incidente.
Decidiu voltar ao Brasil, em 1915, sua saúde piorava. Foi
morar em Petrópolis. "A Encantada", casa de sua
projeção e construção, tem diversas
peculiaridades, viveu lá até 1922. Funciona agora
como museu. Voltou à França e passou a não
ter morada fixa.
Anésia Pinheiro Machado, que fizera um vôo do Rio de
Janeiro a São Paulo, durante as comemorações
do centenário da independência do Brasil, foi condecorada
por Santos-Dumont, em 1922. Neste mesmo ano, no Cemitério
de São João Batista no Rio de Janeiro, mandou erguer
um túmulo para si, e para os pais, uma réplica do
Ícaro de Saint-Cloud.
Apelou para a Liga das Nações, em janeiro de 1926,
para que impedissem a utilização de aviões
na guerra. Em seu retorno ao Brasil o navio Cap. Arcona seria recebido
festivamente no Rio de Janeiro, mas o hidroavião da empresa
Condor Syndikat, que fora batizado com seu nome, e faria a recepção
sobrevoando o navio, sofreu um acidente sem sobreviventes. Abalado,
retorna a Paris.
O Aeroclube da França o condecora, em junho de 1930, com
o título de Grande Oficial da Legião de Honra da França.
Em 1931 foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras.
De volta ao Brasil, em 1932, com a revolução constitucionalista,
Dumont pediu que os brasileiros não lutassem entre si, não
só veio o conflito como usaram aviões no combate.
Dumont, aos 59 anos, vivia com seu sobrinho Jorge Dumont Villares
no Guarujá, aproveitou-se de sua ausência, e por grande
angustia, que pode ter sido causada devido à visão
de aeronaves batalha, suicidou-se.
Neste ano em que comemoramos o centenário da aviação,
vendo aviões dos mais variados tipos, tamanhos e aplicações,
vamos não só admirar a máquina, e sermos felizes
pela oportunidade de voar, realizando um feito que muitos dos nossos
antepassados sonharam e não puderam afetuar, mas também,
prestar todas as homenagens que pudermos e sermos realmente gratos
por todos os sonhadores, idealizadores e inventores dessas tão
fantásticas máquinas que mexem com a imaginação
de todos, que fazem nossos olhos voltarem para os céus, nossos
corações bater mais forte e em nossos rostos se estampar
um sorriso. |