Um Sonho Centenário
 
   
Texto: Danielle Fernandes
    Quem nunca ao ouvir o barulho de um avião olhou para cima?
    Ao passar em frente a um aeroporto não olhou para dentro?
Tem quem freqüenta aeroportos com o único intuito de fotografar aviões. Essa paixão pelos ares, máquinas voadoras, o sonho de voar, vem desde os primórdios dos tempos.

Na Grécia antiga, o estudioso Archytas criou um pombo de madeira, capaz de planar aproximadamente 180 metros, julga-se impulsionado por jatos de ar, ainda que não se saiba o que os produzia.
Arquimedes ao descobrir que objetos flutuavam em líquidos, ajudou o monge inglês Roger Bacon a concluir que, se pudessem construir uma máquina com características adequadas o ar suportaria.

Leonardo da Vinci projetou diversas maquinas "voadoras", basicamente com mecanismos simuladores de vôos de pássaros, apesar de nunca ter construído nenhum, acredita-se que tenha sido o primeiro a se dedicar verdadeiramente a este tipo de projeto.

Já em 8 de agosto de 1709, Bartolomeu Lourenço de Gusmão, um jesuíta brasileiro, alçou vôo com um balão de ar quente, na corte de Dom João V de Portugal, em Lisboa.

Os irmãos Montgolfier inventaram um também balão de ar quente, voado em 1793, em Paris, pelo doutor, Francois Pilatre de Rozier, e pelo nobre, Francois d'Arlandes. Voaram oito quilômetros, a uma altura máxima de 26m.
O aperfeiçoamento dos conhecimentos sobre altitude e atmosfera, foi graças aos balões.

Ao longo do século XVIII, o balonismo se tornou bastante comum na Europa, apesar do curso não poder ser controlado pelos aviadores.
Também na França, em 1852, Henri Giffard, inventou o dirigível, controlado por lemes e motores, voou 24 quilômetros. Devido ao controle direcional, além da altitude ser definido pelo aviador, dirigíveis se tornaram uma opção em transporte.

No século XIX muitos inventores tentaram construir planadores. Frank Wenham foi um deles, apesar de seu insucesso, concluiu que seria mais eficiente asas finas, longas e fixas. Para provar construiu o primeiro túnel de vento, em 1871. Provando que poderia ser criada máquinas mais pesadas que o ar, o problema ficou em torno de gerar o empuxo necessário para movimentar a aeronave.

A partir de então, começaram intensivos estudos, chegando à criação de diversos planadores. Lilienthal um dos mais conhecidos pioneiros da aviação, em 1891, fez vários vôos consistentes, documentando detalhadamente seu trabalho.

Ainda no século XIX muitos tentaram criar aviões que por meios próprios decolassem. Entretanto apenas em 13 de setembro de 1906, em seu 14bis, Santos Dumont realizou um vôo completo, percorrendo uma distância de 221 metros na presença de uma comissão especializada e público. Logo após inventou o Demoiselle, primeiro ultraleve e última aeronave desenvolvida por ele.

Alberto Santos Dumont, sexto filho do casal Henrique Dumont e Francisca dos Santos, nasceu aos 20 de julho de 1873, no sitio Cabangu, próximo a Palmira, cidade que hoje leva o seu nome, zona da mata mineira, a 240 km de Belo Horizonte e 220 km do Rio de Janeiro.

Em 1879 sua família mudou para Casal, em Valença (Rio das Flores), aproximadamente a 20 quilômetros de Ribeirão Preto -SP; seu pai possuía uma fazenda de café (Arienduva), - ele que introduziu as locomotivas para transporte de grãos no Brasil, assumindo a construção da Estrada de Ferro Dom Pedro II (Central do Brasil), no trecho da subida da Serra da Mantiqueira - tinha 7 locomotivas e 96 quilômetros de ferrovia para escoamento da safra.

A infância de Dumont foi na fazenda, sendo alfabetizado por sua irmã Virginia. Quando jovem foi para Campinas estudar no Colégio Culto a Ciência, nos colégios Kopke e Morton em São Paulo e na Escola de Ouro Preto. Na adolescência pilotava as locomotivas da fazenda de seu pai, ajudava na manutenção das máquinas, tanto de café como de costura, já se interessava pela engenharia.

Em 1888, em São Paulo em uma exposição de equipamentos franceses pode ver pela primeira vez um balão. Mudou-se para Paris, onde tinha aulas particulares. Seu pai dizia que o futuro do mundo estava na mecânica, e o incentivava a estudar, garantindo-lhe o futuro.

Desde muito cedo, Dumont revelava-se um gênio inventivo.
Em 4 de julho de 1898 construiu, o balão Brasil, o menor balão de hidrogênio (103m²).

Em seguida projetou o seu número 1, com forma alongada, de charuto, com hidrogênio e motor de propulsão a gasolina. O projeto não oferecia riscos de explosão do hidrogênio em contato com o motor da hélice.
Chocou contra árvores, na primeira tentativa, por ter seguido sugestão de terceiros, e decolado a favor do vento.

Realizou o primeiro vôo de um balão com propulsão própria em 20 de setembro de 1898. Sofreu um pequeno acidente no pouso. Em 1899 executou vôos com os dirigíveis número 3 e 4.

Henry Deutsch de La Muerte, no dia 24 de março de 1900, ofereceu um prêmio de cem mil francos a quem partisse de Saint Cloud, contornasse a torre Eiffel e retornasse ao ponto de partida em no máximo 30 minutos. O chamado prêmio Deutsch.

Após experiências com o seu número 4, Dumont tentou ganhar o prêmio com o número 5. Em 13 de julho de 1901, fez a primeira tentativa, mas uma falha no motor o fez chocar-se contra as árvores do parque de Edmond de Rothschild. A segunda tentativa foi em 8 de agosto, contornou a torre Eiffel, na volta o balão estava perdendo hidrogênio, com a perda as cordas de suspensão foram cortadas pela hélice, Dumont teve que parar o motor. Colidiu-se então com o telhado do Hotel Trocadéro. Como se amarrou à quilha do dirigível, ficou suspenso, dependurado no hotel, o que o salvou.
Com 29 minutos e 30 segundos o número 6 cruza a linha de chegada em 19 de outubro de 1901, porém o regulamento previa também o pouso antes de 30 minutos. Dumont fez em 30 minutos e 29 segundos, o que causa polêmica. No dia 4 de novembro foi declarado vencedor, o prêmio que então estava em 129 mil foi distribuído entre sua equipe.

Para corridas entre dirigíveis, fez o número 7. Por superstição com o número e mês de agosto não fez o 8. O número 9 ficou conhecido pelas diversas apresentações e pelo menor tamanho.

Tentou participar da corrida de dirigíveis de Saint-Louis, nos Estados Unidos, mas o sabotaram inutilizando o invólucro do seu dirigível número 7.

Em 1906 foi instituída Taça Archdeacon, para um vôo mínimo de 25 metros, e o Prêmio Aeroclub de França de 1500 francos para vôo de 100 metros, ambos com aparelho mais pesado que o ar e propulsão própria.

Fez um vôo de 60 metros em Bagatelle, em 23 de outubro de 1906, conquistando a Taça Archdeacon. Conquistou o Prêmio Aeroclub a 220 metros, estabelecendo o primeiro recorde, em 12 de novembro de 1906.

A insatisfação com os modelos de 15 a 18, que eram respectivamente: com asa de madeira, misto de dirigível e avião, e deslizadores aquáticos, o fez criar uma nova serie, menor e mais aprimorada, os Demoiselles.
Obteve o primeiro brevê de aviador, em janeiro de 1909, fornecido pelo Aeroclube da França.

Em 18 de setembro do mesmo ano, fez seu ultimo vôo, em uma de suas aeronaves, entretanto não coloca as mãos nos comandos, em cada uma segurava um lenço que soltou ao passar sobre uma multidão.
Começou a sofrer de esclerose múltipla, encerrou as atividades de sua oficina em 1910, e retirou-se do convívio social.

O Aeroclube da França o homenageou com a construção de dois monumentos: o primeiro, em Bagatelle em 1910, onde realizou o primeiro vôo com o 14-Bis, e o segundo, em 1912, em Saint-Cloud, em comemoração do vôo do dirigível número 6, ocorrido em 1901.

Com o inicio da primeira guerra, em agosto de 1914, seu sonho se transformou em pesadelo, os aviões começaram a ser usados em combates, com metralhadoras e disparos de bombas.

Nessa época Dumont foi preso sob a acusação de espionagem para colaboração com os alemães, devido aos seus aparelhos de observação astronômica. O governo Francês pediu desculpas formalmente depois de esclarecido o incidente.

Decidiu voltar ao Brasil, em 1915, sua saúde piorava. Foi morar em Petrópolis. "A Encantada", casa de sua projeção e construção, tem diversas peculiaridades, viveu lá até 1922. Funciona agora como museu. Voltou à França e passou a não ter morada fixa.

Anésia Pinheiro Machado, que fizera um vôo do Rio de Janeiro a São Paulo, durante as comemorações do centenário da independência do Brasil, foi condecorada por Santos-Dumont, em 1922. Neste mesmo ano, no Cemitério de São João Batista no Rio de Janeiro, mandou erguer um túmulo para si, e para os pais, uma réplica do Ícaro de Saint-Cloud.

Apelou para a Liga das Nações, em janeiro de 1926, para que impedissem a utilização de aviões na guerra. Em seu retorno ao Brasil o navio Cap. Arcona seria recebido festivamente no Rio de Janeiro, mas o hidroavião da empresa Condor Syndikat, que fora batizado com seu nome, e faria a recepção sobrevoando o navio, sofreu um acidente sem sobreviventes. Abalado, retorna a Paris.

O Aeroclube da França o condecora, em junho de 1930, com o título de Grande Oficial da Legião de Honra da França. Em 1931 foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras.

De volta ao Brasil, em 1932, com a revolução constitucionalista, Dumont pediu que os brasileiros não lutassem entre si, não só veio o conflito como usaram aviões no combate.

Dumont, aos 59 anos, vivia com seu sobrinho Jorge Dumont Villares no Guarujá, aproveitou-se de sua ausência, e por grande angustia, que pode ter sido causada devido à visão de aeronaves batalha, suicidou-se.

Neste ano em que comemoramos o centenário da aviação, vendo aviões dos mais variados tipos, tamanhos e aplicações, vamos não só admirar a máquina, e sermos felizes pela oportunidade de voar, realizando um feito que muitos dos nossos antepassados sonharam e não puderam afetuar, mas também, prestar todas as homenagens que pudermos e sermos realmente gratos por todos os sonhadores, idealizadores e inventores dessas tão fantásticas máquinas que mexem com a imaginação de todos, que fazem nossos olhos voltarem para os céus, nossos corações bater mais forte e em nossos rostos se estampar um sorriso.
 
 

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