A era do jato
Na primeira metade da década, a USAF
– Força Aérea dos Estados Unidos havia realizado
uma grande encomeda para novos bombardeiros a jato e a Boeing
desenvolvia agora um novo avião de reabastecimento capaz
de abastecer os então modernos bombardeiros B-52 e foi
autorizada pelo The Pentagon a oferecer o novo avião à
empresas aéreas. Surgia o Boeing 707 [Leia
mais] que em 1955 recebeu uma encomenda de 20 unidades para
Pan American que também comprou 25 unidades seu principal
concorrente: o Douglas DC-8.
A compra chocou a indústria de transporte aéreo,
pois a Pan American ainda tinha diversas encomendas para os Douglas
DC-6 e DC-7.
Neste mesmo período, a Pan American adota uma nova identidade
corporativa e cria a famosa “blue meatball" (almôndega
azul), apelido carinhoso para o globo estilizado em azul que passaria
a ser a marca mais conhecida dos Estados Unidos após a
Coca-Cola. Entre as mudanças estava também a adoção
da forma contraída do nome da empresa, que passava agora
a ser chamada apenas de Pan Am.
Devido a inúmeros atrasos no programa DC-8, a Pan American
recebeu apenas 18 unidades tendo cancelado o restante. Jamais
a Douglas receberia um pedido da Pan American novamente. Ao mesmo
tempo que cancelava os pedidos na Douglas, Trippe aumentada a
encomenda para 130 Boeing 707. Jamais uma empresa havia comprado
tantos aviões.
Em 1957, o Douglas DC-7C realizava o primeiro serviço “non-stop”
entre Nova Iorque e Londres. E em 1958 a Pan American iniciou
os vôos com o primeiro 707 batizado como Clipper
America, como já era tradição. O primeiro
vôo partiu de Nova Iorque: um vôo sem escalas por
9 horas até chegar a Paris. Agora cruzar o Atlântico
era considerado algo comum e os famosos navios transatlânticos
perdiam definitivamente espaço para os aviões que
cruzavam o oceano em poucas horas, voando a grandes altitudes,
longe das temidas turbulências.
O próximo passo foi substituir os aviões a pistão
nas rotas de curto e médio curso, onde a Pan Am encomendou
os Boeing 727 e 737.
Aviões maiores e mais rápidos
Em 1962, a Pan Am em parceria com a IBM cria o PANAMAC, o primeiro
computador dedicado a realizar reservas de vôos. O sistema
foi um sucesso absoluto e era utilizado tanto para a realização
de reservas de passagens quanto de hospedagem no Hotel Intercontinental.
Durante a década de 1960 os jatos passaram a dominar a
aviação mundial, e o sonho de conquistar o espaço
povoava a mente da maior parte das pessoas. Estaríamos
perto à próxima jornada?
Sempre pensando muito à frente de seu tempo, Trippe começa
a estudar as possibilidade de viabilizar vôos espaciais,
tanto que a Pan Am patrocinou o famoso filme 2001 – Uma
Odisséia no Espaço, de 1968. A Pan Am, por vários
anos, divulgou que um dia realizaria vôos espaciais, mas
apenas agora, quase 40 anos depois, é que este tipo de
vôo começa a ser viabilizado.
Em 1964, a Pan Am inicia um serviço de helicóptero
que transportava seus passageiros desde seu recém construído
edifício sede: o Pan Am Building, no centro de Manhattan,
até os principais aeroportos de Nova Iorque.
Enquanto os cidadãos do mundo sonhavam com o espaço,
a indústria pensava em uma forma de cruzar ainda mais rápido
o Atlântico. Os vôos supersônicos pareciam ser
a próxima revolução no transporte aéreo.
Na Europa surgia o Concorde e nos Estados Unidos a Boeing estudava
o modelo 2707. Pensando novamente em sair na frente de seus concorrentes,
Trippe encomenda o Concorde e estuda comprar também os
2707. Com uma iminente crise e os elevados custos que este tipo
de avião traria, a Pan Am cancela todas as encomendas para
o Concorde. Foi a pá de cal no projeto, em seguida todas
as empresas seguem a Pan Am e cancelam seus pedidos. Afinal, a
aviação vivia a era do que é bom para a Pan
Am é bom para o mundo.
Mas vendo que o crescimento do mercado era constante, Trippe mais
uma vez inova encomendando o Boeing 747, o maior avião
de passageiros da história [Leia
Mais], duas vezes maior que o 707. O novo avião podia
voar mais longe e proporcionar muito mais conforto a seus passageiros.
Grande erros
Este foi o primeiro grande erro de Trippe, megalomaníaco
e prepotente, ele não percebeu que mesmo com o crescimento
médio anual o 747 estava no mínimo 10 anos adiantado.
Após encomendar 25 jumbos a um custo unitário de
21 milhões de dólares (em valores de 1966) Trippe
comete seu segundo grande erro e deixa em 7 de maio de 1968 a
presidência da Pan Am. O cargo agora seria ocupado por seu
vice-presidente e amigo Harold Gray.
Poucos podiam imaginar, mas apesar de Trippe achar que havia cumprido
sua missão, ele acabava de condenar a Pan Am a pena de
morte.
Menos de 18 meses após assumir a Pan Am, Gray morre de
câncer e é substituído por Najeeb Halaby,
ex-chefe do FAA. Em janeiro de 1970 a Pan Am começa a voar
com seu maior orgulho, o Boeing 747. Porém, a taxa de ocupação
fica muito abaixo do esperado fazendo com que os custos de operação
cheguem a níveis impraticáveis.
E como diz o ditado “desgraça pouca é bobagem”,
em 1973 o mundo assiste horrizado o primeiro “Oil Shock”,
que elevou o preço do barril de petróleo a níveis
jamais imaginados. Contabilizando resultados cada dia piores,
o conselho administrativo da Pan Am demite Halaby por ser considerado
um executivo sem estratégias para lidar com crises. O conselho
nomeia para a presidência o autoritário e arrogante
General William Seawell, que endurece de forma drástica
as relações entre a empresa e seus funcionários.
Estes começam a ficar descontentes com o atual tratamento
dado pela querida Pan Am. Para a maioria a Pan Am representava
a conquista de um sonho, a realização de uma vida.
Apesar da crise, a Pan Am continuava comprando novos 747, recebendo
os recém lançados 747-200 e 747SP de longo alcance.
Com o 747SP a Pan Am quebrou inúmeros recordes, incluindo
o mais longo vôo sem escalas até então realizados.
No final da década de 1970, a Pan Am começava a
dar sinais de recuperação, os resultados continuavam
a mostrar uma melhora.
Novamente o destino conspira contra a empresa. A falta de linhas
domésticas começam a ser sentidas especialmente
devido ao crescimento das mesmas, que agora começavam a
pleitear linhas internacionais. Tentando encontrar uma solução
urgente para o problema, Seawell consegue arrumar mais um problema
ao comprar em 1980 a National Airlines de Miami por US$ 374 milhões.
Não poderia ter sido pior. As empresas não tinham
qualquer sintonia, o que acabou gerando inúmeros problemas,
desde brigas entre funcionários até administrativos
e em seguida o Governo norte-americano desregulamentou o mercado.
A Pan Am acabara de jogar US$ 374 milhões pelo ralo, havia
comprado uma empresa problemática para conseguir algo que
agora teria de graça.
Devido a esta compra desastrada, Seawell foi demitido em 1981
e em seu lugar assumia Ed Acker, ex-executivo da Air Florida.
Bomba relógio
Em abril de 1981, morre Juan T.Trippe, o que para muitos foi um
prenuncio do fim. Agora a Pan Am estava largada a própria
sorte, e sorte era algo que ela não podia contar tendo
Acker no comando.
As dívidas aumentavam assustadoramente, a empresa começava
a apresentar resultados negativos jamais vistos. Tentando pagar
suas dívidas a Pan Am vende sua sede a seguradora MetLive.
Para os que não acreditavam no fim da Pan Am, esta ação
foi suficiente para terem certeza que algo muito sério
estava acontecendo. Enquanto a empresa desmoronava Acker viajava
todos os fins de semana com sua esposa para uma ilha do Caribe
utilizando um dos aviões da Pan Am. Enquanto Acker mergulha
no mar do Caribe, a empresa mergulha em um abismo. No primeiro
ano de sua administração a Pan Am havia perdido
US$ 1 bilhão. E como se não fosse o bastante, em
1985 a empresa enfrentou sua primeira greve.
Mas isso tudo parecia não passar de uma bobagem quando
Acker anunciou que havia vendido por míseros US$ 750 milhões
a divisão do Pacifico para a United Airlines, que até
então possuía poucas linhas internacionais. Não
poderia ser pior, mas era. No pacote estavam inclusos 18 Boeing
747 e todos os Lockheed Tristar. Em poucas palavras a Pan Am acabava
de perder um braço. Segundo Acker o dinheiro seria usado
para renovar a frota, adquirindo novos Airbus A310 e A320. (sendo
que os últimos jamais chegaram a ser encomendados).
Nada poderia ser pior. Haviam vendido a segunda mais importante
divisão da empresa, para viabilizar a renovação
da frota de curto e médio curso.
Mas tendo Acker no poder, a máxima "se algo pode dar
errado pode ter certeza que acontecerá do pior modo e na
pior hora", era verdade. Agora ele propunha uma redução
salarial para arrecadar fundos para comprar a falida Braniff.
Apenas após mais esse absurdo é que o conselho administrativo
o demitiu no início de 1988, felizmente a tempo de evitar
esta compra desastrosa. Isso é, se algo poderia piorar
mais a trágica situação financeira e moral
da Pan Am.
Em seu lugar entrou Tom Plaskett, que tinha como missão
fazer com que a Pan Am voltasse a crescer. Para isso, Plaskett
reduziu as medidas de segurança anti-terrorismo, contrariando
as recomendações do governo norte-americano. A medida
surtiu efeito, pois além de evitar constrangimentos para
os passageiros, ajudou a empresa a cortar gastos. Após
poucos meses a Pan Am aumentava significativamente sua participação
no Atlântico Norte e crescera para 16% do mercado. Agora
parecia haver uma luz nas trevas que se encontravam as finanças
da empresa.
Mas mais uma vez o destino estava contra a Pan Am. Enquanto o
mundo se preparava para mais um Natal, no dia 21 de dezembro de
1988 um pedaço de explosivo plástico, montado em
um Walkman Sony, explodiu dentro do bagageiro de um dos 747 da
empresa enquanto ele sobrevoava Lockerbie, um pequeno vilarejo
escocês. O Clipper Maid of the Sea,
explodiu em pleno ar matando todos as 259 pessoas abordo mais
11 no solo.
Após extensa investigação ficou provado que
o atentado só ocorreu porque a Pan Am descumpriu as recomendações
de segurança anti-terror. A empresa foi condenada a indenizar
as famílias de todas as vitimas e viu seus cofres perderem
mais de US$ 300 milhões.
A Pan Am entra em coma
O Maid od the Sea levou com ele a útima
chance de recuperação da Pan Am, que desde o atentado
via seus jumbos voarem vazios. Os Clippers
que durante décadas foram sinônimos de requinte e
modernidade voavam agora sujos e com pintura gasta, tão
gasta quanto a imagem da Pan Am.
Em janeiro de 1991 é deflagrada a Guerra do Golfo, as empresas
aéreas de todo mundo sentem a elevação do
preço do petróleo e a redução do número
de passageiros.
A Pan Am não poderia suportar mais gastos e muito menos
perder mais passageiros. Em março os vôo para Heathrow
em Londres são repassados a United Airlines na esperança
de conseguir algum dinheiro extra. A Pan Am voaria agora apenas
para London Gatwick, um destino, menos nobre, menos procurado
por passageiros norte-americanos.
Em agosto, vendo que não poderia mais suportar o caos financeiro,
a Pan Am vende o que restou da divisão do Atlântico
para a Delta Airlines, que se compromete a participar da recuperação
financeira. A Pan American World Airways agora estava fadada a
voar apenas para a América Latina.
Eutanásia
A cada dia a Pan Am perdia mais de US$ 3 milhões, não
havia mais condições de recuperar a empresa. A Delta
após realizar a contabilidade nas contas da Pan Am, constata
que é completamente inviável investir no que restou
da Pan Am.
Na ensolarada tarde de 4 de dezembro de 1991, o 727-200 Clipper
Goodwill, que realizava o vôo PA 436, procedente
de Bridgetown, foi informado que aquele seria o último
vôo da Pan American World Airways. O comandante Mark Pyle,
após receber a informação, solicitou permissão
para realizar uma passagem baixa sobre o Aeroporto de Miami, por
ironia do destino, justamente a cidade onde surgiu a Pan Am.
Em uma exceção jamais dada até então,
o controle Miami autorizou a passagem sobre a pista 12. Neste
instante algum vôo que estava nas proximidades disse solenemente
“Adeus Clipper, foi bom voar
com companhia”.
Após pousar, o Clipper iniciou
um longo e demorado táxi, tendo sido recepcionado por caminhões
de bombeiros, que desenhavam um arco de água. Uma tradicional
maneira de marcar despedidas na aviação.
Enquanto taxiava, milhares de funcionários recebiam perplexos
a notícia, passageiros e muitos funcionários não
sabiam como voltariam para casa. Para os funcionários iniciava-se
uma longa e demorada batalha para conseguir receber ao menos parte
do que lhes era devido.
Ao cortar os motores o Comandante Pyle encerrava uma das mais
belas páginas da história da aviação.
Uma história repleta de pioneirismo, de grandes disputas
políticas, inovações tecnológicas,
de um tempo em que a aviação viveu a era “Do
que é bom para a Pan Am é bom para o mundo”.