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Alberto Santos=Dumont
Atualmente, para a maioria dos brasileiros, julho não passa do mês das férias, época de aproveitar o inverno brasileiro, sem nenhum evento importante.Mas no inicio do século passado julho representaria muito mais do que um simples mês de férias e inverno.
 
    Em 20 de julho de 1873, nascia na então Cabangu no interior de Minas Gerais, um dos maiores gênios da humanidade: Alberto Santos-Dumont.

    Para esta edição de julho pensei em criar uma especial em homenagem a um dos mais fascinantes brasileiros, uma pessoa que só pode ser descrita com inúmeros superlativos. Mas foi então que deparei com um grande dilema, como homenagear uma pessoa como Santos=Dumont?

    O primeiro pensamento foi escrever uma pequena biografia. Idéia logo abandonada devido às inúmeras biografias já escritas, que contam em detalhes a vida desse grande pioneiro. Além disso ele não gostava de homenagens, especialmente no final da vida que via este tipo de atitude como um ato contra sua pessoa.

    Foi quando pensei que seria bem mais fácil falar de Santos=Dumont se tivesse convivido com ele.

    Achei que a melhor forma de lembrar o mês em que ele completaria 132 anos seria reescrevendo alguns trechos de cartas e homenagens escritas por amigos e admiradores de Santos=Dumont. Pessoas que tiveram a honra e a felicidade de poder conviver com um gênio que hoje, em seu próprio país, caiu no esquecimento.
    Ironicamente exatamente o que ele desejava já no final da vida, ser alguém anônimo, que não fosse perseguido por todos. Por ironia do destino Santos=Dumont perdeu a vida exatamente três dias após seu aniversário de 59 anos, em 23 de julho de 1932.

    O Air onLine e toda sua equipe, fazem uma pequena e justa homenagem ao aniversário de Alberto Santos=Dumont.
 

“A Europa curvou-se ante o Brasil,
E clamou parabéns em meigo tom;
Brilhou lá no céu mais uma estrela:
- Apareceu Santos-Dumont.

Salve, Estrela da América do Sul,
Terra amada do índio audaz, guerreiro!
A Glória maior do século vinte,
É Santos-Dumont, um Brasileiro!

O Brasil, cada vez mais poderoso,
Menos teme o rugir fero bretão;
É forte nos campos e nos mares,
E hoje nos ares com o seu balão.
  A conquista do ar que aspirava
A velha Europa, poderosa e viril,
Rompendo o véu de ocultava,
Quem ganhou foi o Brasil!

Por isso o Brasil, tão majestoso,
Do século tem a Glória principal:
Gerou no seio o grande herói,
Que hoje tem um renome universal.

Assinalou para sempre o século vinte
O herói que assombrou o mundo inteiro:
Mais alto do que as nuvens, quase Deus,
É Santos-Dumont – um Brasileiro.”
 
Neves, Eduardo - 1902. A conquista do ar: cântico ao arrojado aeronauta Santos-Dumont, a glória do Brasil.
Música em homenagem a Santos-Dumont por suas conquistas com o “mais-leve-que-o-ar”
 
  “Eis um homem jovem e rico que, em vez de usar sua energia e gastar seu dinheiro com prazeres fáceis que se oferecem a todo instante aos afortunados deste mundo, põe toda sua energia e dinheiro a serviço de uma grande idéia e de um grande progresso.

Isso já era bom,, mas o melhor está nas experiências em que ele é tudo – sim, Santos-Dumont é tudo: é o financiador, o engenheiro, o operário e, enfim, o piloto – e nas experiências em que a cada vez arrisca sua vida – é verdade que ele acaba sempre por escapar ao perigo graças a sua prodigiosa habilidade, acompanhada de um incomparável sangue-frio.

Se eu fosse capaz de pecar por inveja, eu hoje invejaria meu amigo Santos-Dumont, que acaba de conquistar, certamente, uma das mais belas glórias que um homem pode ambicionar neste mundo. Ele acaba de realizar, não em segredo ou diante de testemunhas hipotéticas e complacentes, mas à luz do dia, diante de 1.000 pessoas, um soberbo vôo de mais de 60 metros, a três metros de altura, que constitui um passo decisivo na história da aviação.

Para tal, empregou tão-só, como havia sido previsto, os meios conhecidos, mas empregou-os da melhor maneira, com uma extraordinária simplicidade de execução.

Santos-Dumont acaba de dar uma terrível lição de iniciativa e de energia a muitos engenheiros registrados, que passaram tolamente – e por preconceito – ao largo do progresso, se bem que eles dispusessem dos meios materiais de execução de que Santos, por sua vez, não dispunha.

Nosso amigo, porém, não foi jamais tentado a ser engenheiro; é um homem que quer o que quer com uma tenacidade sem par, e que experimenta, ademais, até conseguir, - e ele conseguiu!

Oh, agora, os imitadores não tardarão a surgir!

Aposto mesmo, de bom grado, que muitos dentre eles declararão que o que Santos-Dumont fez ‘não é mau’, e que, se as numerosas ocupações deles lhe tivessem permitido, eles teriam feito o mesmo. Mas não...! ‘Pois, meus senhores,’ retrucarei ‘vocês não fizeram. E agora,’ direi ainda ‘se alcançarem amanhã experiências bem sucedidas, serão sempre mais ou menos plagiadores e lucrarão, sem abrir suas bolsas e sem cansar seus cérebros, com os resultados obtidos por um outro, à custa de muita luta e dinheiro.’

Já eu, após a experiência de Bagatelle de 23 de outubro, tendo visto o que vi, predigo que a questão vai andar a passos largos, mais rápido mesmo do que eu esperava nos meus sonhos mais otimistas.

Santos-Dumont fez 60 metros em 23 de outubro, mas são esses 60 metros que eram os mais difíceis”
 
Archdeacon, Ernest - 1906. Carta escrita em virtude da conquista da Taça de Aviação Archdeacon em 23 de outubro de 1906. Prêmio destinado ao primeiro vôo controlado do “mais-pesado-que-o-ar”.
 
  “Conheci na intimidade, este homem excepcional. Sua elegância em todas as coisas tornava-o irresistível. Sua coragem era proverbial; quanto à coragem seria necessário tê-lo visto ocupando a barquinha de vime, ao lado de um motor, de escapamento livre, que vomitava chamas sob um balão primitivo cheio de hidrogênio... Seguíamos nosso amigo com interesse, pois ele dispunha de respeitável elemento: a rapidez de realização. Esta rapidez era uma espécie de milagre. Auxiliado por um excelente mecânico, Chapet, construía em oito dias o que nos custaria três meses de esforços. Como podia ele executar seus estudos, suas experiências? Nunca desvendei tal mistério, mas eu o imagino perfeitamente, passando suas noites a enegrecer o papel, antes de levar ao hangar, que lhe servia de atelier, o projeto que ele executava sem perda de um minuto. Este homem de sociedade era um artesão de uma consumada habilidade. Não dispondo de instrumentos adequados, ele modelava a matéria como uma fada manobrando sua varinha de condão; e as soluções que escolhia eram sempre as melhores. Sua construção, apesar de primitiva, era exatamente o que devia ser adotada na época. Enquanto nós perdíamos um tempo precioso em ajustamentos inúteis, nosso amigo serava bambus, reunia-os com chapas de zinco, construía sua máquina, experimentava-a, modificava-a em algumas horas e, finalmente, nos deixava boquiabertos ante os resultados obtidos. Contavam-se sobre nosso amigo brasileiro várias lendas. Diziam que possuía uma fortuna imensa! Ora, esta fortuna era somente uma situação remediada. Mas como explicar o gesto desse homem que distribuía prêmios concedidos a performances a instituições de caridade? Estas liberdades não podiam, aos olhos do publico, apoiar-se senão sobre uma fortuna fabulosa. Nada disso: Santos-Dumont era própria generosidade, a elegância ianata, a bondade e a retidão. Dava sem contar e sem prever, movido por uma virtude irresistível... Não deixou como herança senão o seu nome gravado em nossos corações. Os que conheceram não puderam deixar de amá-lo”  
Voisin, Gabriel - 1952. Carta publicada na revista “Europe-Amérique Latine”. Voisin foi amigo e admirador de Santos-Dumont desde os primórdios da aviação.