Às vésperas do Natal de 1978,
o piloto Jay E. Prochnow e um colega decolaram do aeroporto de
Oakland (Califórnia) para uma missão arriscada:
entregar dois Cessna 188 Agwagon, monomotores agrícolas,
para um cliente na Austrália. Os hoppers dos aviões
foram usados como tanques extras, aumentando a autonomia dos Cessnas
para 22 horas. Para a navegação, além de
bússola e cartas, os únicos auxílios seriam
os NDB (Non-Directional Beacon) entre as inúmeras ilhas
do Pacífico. Jay instalou também um ADF (Automatic
Direction Finder) em seu avião. As escalas seriam Honolulu
(no Havaí), Pago Pago (ilhas Samoa) e Norfolk (ilha australiana),
antes do destino, Sidnei.
Após partirem de Pago Pago, o segundo Cessna teve uma pane
e foi obrigado a amerrissar. Seu amigo estava bem e Jay decidiu
prosseguir mesmo sozinho, no dia seguinte, para cumprir sua parte
na viagem. A jornada até a ilha de Norfolk (1.475 milhas
náuticas adiante) levaria cerca de 15 horas diante da previsão
de ventos do oeste.
Jay decolou das ilhas Samoa na madrugada de 21 de dezembro. Pouco
após a pequena ilha de Ono-I-Lau iniciou-se um trecho de
850 milhas náuticas sem auxílio à navegação
exceto a bússola, antes de captar o sinal do NDB de Norfolk.
Passaram-se algumas horas. O ADF de Jay captou e identificou o
NDB de Norfolk e o ponteiro apontava para a frente. Jay voava
agora sob jurisdição do ATCC (Air Traffic Control
Centre) Auckland Oceanic. Aproximava-se a hora estimada de chegada
(ETA), 16 horas local, mas ele não avistava a ilha. Passaram-se
mais 30 minutos e os ponteiros ainda indicavam Norfolk adiante.
Jay sintonizou dois outros NDBs, na tentativa de plotar sua posição,
mas o fixo resultante lhe mostrou que algo estava errado. O ponteiro
do ADF parecia apontar a esmo. O que o piloto não sabia
era que a ponteiro estava frouxo e não mais apresentava
indicações confiáveis.
O avião tinha apenas mais sete horas de autonomia e Jay
não mais sabia o que fazer. Estava perdido no meio do Pacífico
e com o sol prestes a se pôr em poucas horas. Suas chances
de ser encontrado eram mínimas. Se fosse obrigado a amerrissar,
suas chances de sobrevivência também seriam nulas.
Ele declarou emergência ao ATCC Auckland através
do rádio HF. Um avião de busca foi colocado de prontidão
mas levaria horas para chegar ao local provável onde o
Cessna estaria voando. Socorro por mar demoraria ainda mais.
Corrida contra o tempo
Naqueles instantes dramáticos a tripulação
do ZK-NZS, um DC-10 que cumpria o vôo TE 103 da Air New
Zealand, recém-decolado do aeroporto Nadi (Ilhas Fiji)
e rumando para Auckland para um vôo de três horas,
tomou ciência do caso ao captar por HF o diálogo
entre o piloto do Cessna e o Centro de Controle. O comandante
Gordon Vette, piloto veterano na companhia, juntamente com seu
co-piloto Arthur Dovey e o engenheiro de vôo Gordon Brooks,
decidiram ajudar Jay. O jato tinha combustível suficiente
para permanecer muitas horas no ar e, de comum acordo com os 88
passageiros a bordo, o Cmte. Vette desviou o DC-10 da rota e iniciou
uma busca em coordenação com o ATCC. Além
de piloto, ele também tinha licenças de navegador,
função que ainda exercia quando voava nos DC-8 da
companhia. Entre os passageiros estava outro navegador da Air
New Zealand, Malcolm Forsyth, que foi à cabine de comando
prestar auxílio também.
Os tripulantes do DC-10 contataram Jay pelo HF e pediram a ele
detalhes como altitude, velocidade, consumo de combustível,
posição estimada. Agora restavam apenas quatro horas
de combustível para o Cessna. Apesar disso tudo, Jay mostrou-se
calmo. Vette mantinha seus passageiros informados do progresso
da busca e pediu a eles ajuda para vasculhar o espaço aéreo
em busca do pequeno avião.
O DC-10 e o Cessna se comunicavam com dificuldade pelo HF mas
esperava-se que logo conseguissem contato em VHF, cujo máximo
alcance de transmissão é de 200 milhas náuticas.
Jay começou a chamar repetidamente na freqüência
de emergência em VHF (121.5 MHz) para estabelecer o ponto
exato de contato. Quando começasse a captar sua transmissão,
Gordon Vette saberia que estaria a cerca de 200 milhas náuticas
do Cessna.
O sol estava se pondo e Vette teve uma outra idéia. Pediu
para Jay voar em direção ao sol e reportar sua proa:
274 graus. O DC-10 fez o mesmo: 270 graus. Isso colocava o Cessna
à esquerda e ao sul do DC-10.
Mas sua posição seria oeste ou leste em relação
ao jato? Um sextante em cada avião poderia medir a altitude
angular precisa do céu acima do horizonte e a diferença
de altitudes poderiam ser usadas para clarear a situação
mas, na falta de sextantes, Vette instruiu Jay para esticar o
braço e medir a distância entre o horizonte e o centro
do sol usando o punho e os dedos. Como a cabine do Cessna era
pequena demais, ambos pilotos esticaram seus braços na
distância de cerca de 30 cm à frente de seus olhos
e contaram o número de dedos. No caso de Jay a leitura
deu quatro dedos e, na de Vette, dois, o que deixava o Cessna
mais próximo do sol, ou seja, ele estava a sudoeste.
A diferença na medida de dois dedos entre Vette e Jay representava
uma distância aproximada de 240 milhas náuticas entre
eles pois cada dedo equivalia a pouco mais de dois graus, e cada
grau, 60 milhas náuticas, assim: 4 graus X 60 milhas resultava
em 240 milhas. Estando corretos os cálculos, as duas aeronaves
estabeleceriam contato por VHF muito brevemente. De fato, pouco
depois o Primeiro Oficial Dovey captou a voz de Jay na freqüência
de 121.5 MHz.
A seguir, Vette instruiu Jay para virar sua cauda para o sol e
voar para o leste, em direção ao DC-10. Eles estariam
agora voando diretamente para cada um e estimavam que em cerca
de 80 minutos o DC-10 estaria diretamente sobre o Cessna. O próximo
problema para os dois aviões seria se reconhecerem. Com
o sol baixo no horizonte não seria fácil. Também
não havia condições meteorológicas
para haver rastros de condensação. A tripulação
do DC-10 resolveu alijar um pouco de combustível. Aproximadamente
doze toneladas de querosene do DC-10 se foram, deixando uma trilha
de cerca de 30 milhas (48 km). Mas o piloto do Cessna não
conseguiu ver o rastro.
Jay permanecia calmo e já estava conformado em amerissar
no Pacífico, mesmo sem estar ao alcance das equipes de
salvamento. Cansado, ele lutava para se manter acordado. Estava
no ar por 19 horas e ainda tinha três de autonomia, talvez
um pouco mais, pois voara durante algum tempo com potência
reduzida e mistura pobre.
A tripulação do DC-10 solicitou que Jay precisasse
o horário GMT do pôr do sol. Os controladores de
Norfolk também fariam o mesmo, que seria aproximadamente
às 19 horas local. Os dois tempos foram comparados. Ao
se completar os cálculos e correções, observou-se
uma diferença e 22 minutos e meio. Esse tempo, considerando-se
a rotação da Terra (um grau a cada quatro minutos),
colocava Jay a 5,6 graus a leste de Norfolk. Na latitude 30oS,
5,6 graus de longitude representavam cerca de 290 milhas náuticas
de Norfolk. A uma velocidade de cruzeiro de 110 nós, ele
poderia alcançar seu destino em menos de três horas,
caso encontrasse um rumo direto.
Por isso, Vette e sua tripulação não pensavam
em desistir. Eles determinaram que o Cessna estaria a pouco mais
de 200 milhas náuticas pois a soma de suas altitudes era
41 mil pés. O alcance do VHF em milhas náuticas
é igual à raiz quadrada da altitude em pés
multiplicada por 1.15. A altitude do DC-10 era 33 mil pés.
A do Cessna, oito mil pés. Raiz quadrada de 33.000 + 8.000
= 202 X 1.15 = 232 milhas náuticas.
A seguir, o comandante neozelandês lembrou que o link de
comunicação por VHF poderia ser utilizado para localizar
o Cessna e começou a empregar uma técnica chamada
aural boxing. Vette pediu para que o monomotor orbitasse e seu
piloto mantivesse contínuo contato por rádio enquanto
o DC-10 voasse em linha reta, em direção ao círculo
de 200 milhas de alcance do VHF.
Vette raciocinou que se ele marcasse os pontos nos quais ele estabelecesse
e perdesse contato rádio com o Cessna, ele poderia localizar
o monomotor. Ele voou seu DC-10 ao longo do trajeto 1–2
da figura 4. Ele adquiriu contato VHF com o Cessna no ponto 1
e perdeu contato no ponto 2 e marcou este ponto, no qual girou
90 graus à esquerda e começou o padrão do
aural boxing. Após voar nessa nova direção
por um período razoável, novamente curvou 90 graus
à esquerda e voou nesse rumo por um curto período
antes de curvar mais uma vez 90 graus (para um rumo paralelo e
contrário ao rumo iniciado a partir da perda do contato
em 2). Retomou contato e anotou o ponto como 3. Ele seguiu adiante
até sair de novo do círculo e perder contato (ponto
4). Agora, tinha quatro pontos anotados e duas retas. A posição
do Cessna seria então estabelecida dividindo ao meio as
linhas transversais e anotando o ponto onde os setores se cruzavam.
Lá estaria o centro de transmissão do VHF, ou seja,
o Cessna. A posição de Jay foi estimada em 30oS
171oE. O DC-10 rumou para lá mas o Cessna, não foi
imediatamente encontrado, pois o aural boxing tinha suas limitações:
dependia de uma contínua transmissão em VHF, onde
um silêncio poderia ser considerado perda de contato –
30 segundos de erro na mesma direção poderia contribuir
para 10 milhas náuticas de diferença a 600 nós
de velocidade no solo.
Jay estava no ar por 20 horas e meia e estava exausto. Tudo o
que ele precisava agora, mais do que qualquer outra coisa, era
sorte. E foi então que o piloto do Cessna gritou pelo rádio
que havia visto uma luz na superfície do mar. A pedido
do Cmte. Vette, Jay informou sua proa ao mirar a luz: “310o”.
Tratava-se do Penroad, uma plataforma petrolífera que estava
sendo rebocada da Nova Zelândia para Singapura. Verificada
a posição do Penroad, o ATCC Auckland avaliou a
do Cessna como 31oS 179o21´E, ou seja, ele estaria a 600
milhas náuticas a leste de Norfolk, muito distante do que
se estimava. Mas, em comunicação direta com o Penroad,
o Cmte. Vette descobriu que o ATCC havia cometido um engano e
a posição correta do navio era 31oS 170o21´E,
um erro de nove graus que, felizmente, indicava que Jay estava
mais perto de Norfolk do que supunham. O Cessna estaria a apenas
150 milhas náuticas de seu destino, cerca de uma hora e
vinte minutos de vôo. Apesar do risco de pane seca, pois
ele já estava no ar há 22 horas, tendo esgotado
seu alcance estimado inicialmente, Jay decidiu prosseguir.
O DC-10 diminuiu sua velocidade e desceu para 10 mil pés
para aumentar suas chances de avistar o Cessna. Quase ao mesmo
tempo em que a tripulação técnica, o chefe
dos comissários também avistou o monomotor. Ele
estava à frente e à esquerda, subindo para ganhar
altura suficiente para planar mais em caso de pane seca. Jay também
avistou o DC-10 e Vette o instruiu a segui-lo. O Cessna foi alcançado
também pelo Lockheed Orion da Força Aérea
Neozelandesa, que o acompanhou voando em ala, atento à
possibilidade de amerrissagem. Tendo cumprido sua missão,
o DC-10 rumou para Auckland.
À meia noite, hora local, oito horas atrasado e com os
tanques praticamente vazios, Jay pousava em segurança em
Norfolk. O Cessna havia voado durante 23 horas e cinco minutos.
Jay havia estendido a autonomia do Cessna em cinco por cento devido
à sua calma e profissionalismo e o controle do consumo
em cruzeiro.
O vôo TE 103 chegou a Auckland às 01:29 hora local,
três horas e 54 min atrasado, mas ninguém reclamou.
Pelo contrário, a tripulação do DC-10, que
havia envolvido todos os ocupantes na procura pelo Cessna, foi
condecorada por seu esforço.