Nas Suas Asas
 
   
Texto: Rafael Peres
    Dédalo e Ícaro vendo-se ilhados, presos por água por todos os lados sentiram a necessidade da liberdade. Em um grego momento de inspiração, nato de um projetista, Dédalo engenha asas de cera para poderem alcançar, tal como os pássaros marítimos, o continente.

Ciente dos limites estruturais do seu projeto, Dédalo alerta Ícaro sobre a restrição de teto operacional, pois a certa altitude as asas perderiam sua eficácia pelo derretimento da cera, o que resultaria em mudança no perfil aerodinâmico e conseqüente perda da sustenção. Tudo causado pela aproximação excessiva do aerofólio aos raios do Astro Rei.

Muita bem feitas as deduções "empiricamente" intuídas pelo inventor e transmitidas à Ícaro. No entanto, esqueceu-se o grego que as limitações não devem manter-se somente no campo material. Há que se pensar no campo moral.

De que adiantaria alertar Ícaro sobre o risco fatal de perda das asas, se não alertasse sobre risco do subir e não querer descer mais, avançando pela atmosfera, sem limite, alucinado? – Alguma semelhança conosco, aeronautas natos, sempre atentos para a céu, despertando a curiosidade de todos? – Ícaro e Dédalo seguiram para a subida... Dédalo perde Ícaro de vista, o jovem já contaminado pela arte do vôo sem o controle dos seus atos, ignorando todas as leis imposta pela física e pela aduzida moral, avança céu acima. Não há nada mais que fazer, no alto Ícaro continua sua ascensão, as asas instaladas começam a derreter, como previsto. Nosso herói perde o controle, está desestabilizada, as asas se desprendem. Bernoulli dá lugar à Newton. A gravidade o puxa para o centro da Terra e ele cai nas águas do mar que o acolhem para a eternidade.

Apesar de trágico, aí está um dos primeiros relatos da atividade aérea. Segue o homem até hoje aperfeiçoando-a. Sempre.

Possuímos, assim como o Ícaro, desejo incontrolável de atingir o céu, tocá-lo com as pontas dos dedos e sentí-lo com o coração. O Homem através das experiências vividas, mesmo que mitologicamente, pelos personagens acima mencionados tem extintivamente a capacidade de superar obstáculos vencer barreiras, quebrar recordes, ultrapassar metas, mesmo que para isso precise cair e levantar-se novamente, chorar, apanhar, sofrer, magoar-se. Mas, se tudo foi planejado programado, desenhado prevendo estas possibilidades estes fatos mesmo que ocorram levam sempre ao sucesso. É assim e sempre será assim, tudo é aprendizado e nada é absoluto.

Nossos grandes heróis da aviação os inventores das aeronaves, todos os pioneiros desde da Vinci ao Padre Bartholomeu de Gusmão, Richard Pearse, Clement Ader, os estadunidenses Wright, Santos=Dumont, Sikorky, Fokker. Aos heróis da WWII, os heróis de Tarquinia do Esquadrão de caça brasileiro, Senta a Púa! Os inventores do motor à reação, os pilotos que quebraram a barreira do som, os inventores do Fly-by-wire e do FMS, FADEC, EICAS, e ainda todos aqueles que neste momento estão desenvolvendo desde um simples arame para frenagem mais resistente para parafusos até aqueles que desenvolvem os mais avançados softwares para controle de parâmetros de vôo, não nos esquecendo evidentemente à mais recente vitória brasileira o envio ao espaço do primeiro astronauta brasileiro, o Ilustre Coronel Pontes.
Todos estes contribuíram para nossa alegria e não vale a pena cair no erro egoísta em eleger taxativamente, e em absoluto apenas uma pessoa como responsável pelo acerto. Acredito que tudo faz parte de uma coletividade de pensamentos, a teoria do inconsciente coletivo de Carl Gustav Jung, talvez esta se adapte ao que queiro defender. Nem mesmo Santos=Dumont gostaria de tal exclusiva atribuição.

Estamos no Centenário da Aviação. Centenário do vôo do 14-BIS. O vôo do pioneiro Alberto Santos=Dumont. Homem digno que para o bem da humanidade registrava todos seus inventos como domínio público, e o que ganhava dividia. Quem faz isso? Ele já praticava a política de participação nos lucros em pleno início dos anos de 1900.

Vivemos todo o fervor da aviação brasileira ser catalisado por essas comemorações, estamos no momento de refletir que há 100 anos atrás, um homem voava, compunha a tríplice do vôo, decolava, mantinha-se em nível e pousava usando seus próprios meios propulsivos. Época de pensar que em 100 anos um aeronave de tecido voava e hoje verdadeiros Leviatãs compostos de alumínio, titânio, Glare, fibra de carbono, Kevlar, fibra de vidro, conseguem da mesma maneira que o 14-BIS, realizar as mesma tríplice du petit Santos=Dumont.

Esses gigantes denominados por Boeing 747-8, Airbus A-380, chegando ao Antonov 225 Myria, que, somente com o peso da tinta empregada em sua pintura consegue ser dezenas de vezes mais pesado que o pioneiro 14-Bis e voam da mesma maneira, com os mesmo princípios físicos com a mesma massa de ar, através de mesmo fator: o homem, seja ele o projetista, o engenheiro, o piloto o mecânico, enfim, todos ávidos por verem o mais pesado que o ar sustentado pelo ar, tendo o fascínio dos olhos e da alma estampada a cada decolagem.

O avanço é espantoso. Somente 100 anos após Santos=Dumont, o que nos espera os próximos 100 anos?

Parabéns ao centenário do Vôo, parabéns ao brasileiro Santos=Dumont pela conquista. O título de primeiro vôo documentado é seu e de sua equipe, mas sabemos muito bem que trata-se de uma conquista da humanidade, de toda a comunidade cientifica da época, que dedicava todo seu tempo à tentativa de voar. As idéias estavam pela atmosfera à espera de serem pegas e empregadas, era vontade de todos que aos poucos foi se sublimando, substanciando-se até hoje nos desenhos de aeronaves que voarão pela primeira vez daqui a ainda muitos anos.

O avião sempre existiu, não houve um inventor na concepção materialista que estamos habituados. Ele sempre existiu nos pensamentos dos homens, sempre estávamos nas suas asas e sempre estaremos prontos para que em suas asas possamos ainda desenvolver tecnologias que possam declarar a nova ordem mundial do vôo.

Que venham novos pioneiros, que venham novos missionários da alegria que nos contagia que faz os olhos se estalem as pernas se amoleçam, faz com que sentimos a sensação que pisamos em um espelho de água e não afundemos. Que faz termos a sensação que o tempo parou, que o momento é uno e exclusivamente nosso, aquele momento em que as manetes estão comandando plena potência nos motores e a velocidade de "rodar" a aeronave é alcançada, aquela sensação de amor ao vôo, paixão de vôo enaltecida nestes último século.

Vamos unidos com um mesmo objetivo: Voar, sentir aquele vazio do G negativo. O momento em que escutamos som do coração pulsando, a circulação sendo sentida nas mãos, a cabeça cheia de explosões nervosas nos emocionando, é o momento. Momento este que devemos aos pioneiros, especialmente à Santos=Dumont, o pioneiro da tríplice do vôo, homem que merece todo nosso respeito e que devemos agradecer, neste dia 23 de outubro, por pensamento, por tudo que a nós é proporcionado.

O que daremos em troca: trabalharemos nestes 100 anos que virão para que, posteriormente, também termos nossos nomes escritos em textos como estes.

Eu amo voar e sempre amarei, para sempre, isto sim é absoluto. Sempre estarei nas suas asas.
Amo e o amor é sublime e faz despertar em nossos nervos nossas forças mais desconhecidas.

Que venham mais 100 anos, eu estou pronto.
Vamos, nas suas asas, voar para o mais azul firmamento?
 
 

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