Parte I
A história da maior empresa aérea
da América Latina remota do início da aviação,
quando em 1921 desembarcou no Porto de Recife um ex-oficial do
Serviço Aeronáutico alemão, Otto-Ernst Meyer
Labastille. Mesmo sendo contratado pela têxtil Irmãos
Lundgren, Otto-Ernst Meyer buscou no mesmo ano de sua chegada
ao Brasil o apoio necessário para formar uma empresa de
transporte aéreo. Não encontrando o apoio necessário
para a formação de sua empresa aérea entre
os empresários pernambucanos no ano de 1924, Otto-Ernst
mudou-se para a cidade do Rio de Janeiro.
Onde buscou novamente apoio para à concretização
de seu sonho, dessa vez em associação com outros
dois ex-oficiais do Serviço Aeronáutico alemão.
Apesar de seus esforços e do apoio potencialmente maior
que o encontrado em Recife, a segunda tentativa também
não obteve sucesso.
Neste mesmo ano era fundada na Alemanha a Condor Syndikat pelo
engenheiro e piloto Fritz Hammer, por Peter von Bauer e pelas
empresas Aero Lloyd e Schlubach Teimer. O objetivo da Condor Syndikat
era estabelecer ligação aérea entre Estados
Unidos e Colômbia, via América Central.
Obstinado com a idéia de fundas uma empresa aérea,
Otto-Ernst mudou-se novamente em 1925, dessa vez para Porto Alegre,
onde travou contato com empresários e políticos
de destaque na sociedade gaúcha da época. Onde conseguiu
reunir o apoio necessário para dar os primeiros passos
que visavam à formação de uma empresa de
transporte aéreo. Ainda em 1925, Fritz Hammer liderou uma
viagem experimental entre a Colômbia e Palm Beach, na Florida,
utilizando dois hidroaviões Dornier Wal, um dos quais tinha
a matrícula D-1012 e batizado de Atlântico. Além
de analisar a viabilidade da rota, a viagem serviu também
como “tour” promocional da indústria aeronáutica
alemã no continente americano.
Com a conclusão das gestões iniciais, Otto-Ernst
Meyer parte para a Alemanha em novembro de 1926, visitando os
escritórios da Condor Syndikat em Hamburgo, com o objetivo
de adquirir material aeronáutico e pessoal necessário
para operá-lo e mantê-lo.
As negociações culminaram em um acordo pelo qual
21% das ações da nova empresa de transporte aéreo
passavam a pertencer a Condor Syndikat.
Em troca, esta cedia um dos seus Dornier Do J ‘Wal’
e o pessoal imprescindível à operação
da aeronave. Embarcando no Porto de Hamburgo, o Dornier Do J ‘Wal’
“Atlântico” chegou a Buenos Aires no dia 17
de novembro de 1926, dois dias depois foi trasladado por Fritz
Hammer e dois outros tripulantes até Rio Grande.
O ministro dos Transportes ficou impressionado com Fritz Hammer,
pois em 26 de janeiro de 1927 outorgou a Condor Syndikat autorização
para operar um serviço de transporte aéreo dentro
do território nacional por um prazo de 12 meses. A curta
autorização era devido ao fato de a Condor Syndikat
não ser uma companhia aérea brasileira. Na última
semana de janeiro, o Atlântico regressou a Porto Alegre
para efetuar um evento que entraria para a história da
Aviação Comercial sul-americana.
Às 08:30 da manhã do dia 3 de fevereiro de 1927,
o Atlântico decolou das águas do rio Guaíba
com destino a Rio Grande. Levando a bordo a Srta. Maria Echenique,
João Fernandes Moreira, Guilherme Gastal e João
Oliveira Goulart (sendo os dois últimos os dois primeiros
passageiros regulares da Aviação Comercial brasileira
por terem pagado suas passagens) mais 12 malas postais. Esse vôo
entrou para a história, pois registrava a abertura do que
posteriormente passou a ser conhecido como a Linha da Lagoa e
o início da aviação comercial brasileira.
Com o nome provisório de Companhia Rio Grandense de Transportes
Aéreos, o nascimento da primeira empresa brasileira de
transporte aéreo estava às vésperas de ocorrer.
Nasce a Estrela Brasileira
No dia 1º de abril de 1927, foi convocada a primeira assembléia
preparatória, e no dia 7 de maio foi realizada a assembléia
geral da constituição definitiva da nova empresa
- fundada com o nome de Sociedade Anônima Empresa de Viação
Aérea Rio Grandense. Contando com 550 acionistas residentes
em Porto Alegre e outras cidades do estado. O corpo de diretores
ficou assim formado: Otto Ernst Meyer (Diretor Administrativo),
Rudolf Cramer von Clausbruch (Diretor Técnico), Fritz Hammer,
Major Alberto Bins (Diretor do Conselho Fiscal), e os Conselheiros
Carlos Albrecht Jr., Max Sauer e o Barão von Duddenbrock.
Em cumprimento aos acordos acertados entre a Condor Syndikat e
a VARIG, no dia 15 de junho de 1927, tanto a Linha da lagoa como
o “Atlântico” foram transferidos para a VARIG.
Naquele mesmo dia, um decreto presidencial autorizava a VARIG
a operar em todo o estado do Rio Grande do Sul, litoral catarinense
e mediante aprovação do governo uruguaio, até
a cidade de Montevidéu.
A repercussão das primeiras semanas de atividade do “Atlântico”
foi enorme. A VARIG transportou até o final daquele primeiro
ano, com a ajuda de um Dornier Merkur recebido em outubro um total
de 668 passageiros.
Em 18 de abril de 1930, voaria na VARIG pela primeira vez o Junkers
F-13 matriculado como P-BAAF (posterior PP-VAF), seguido pelo
P-BAAG (posterior PP-VAG), tornando assim possível o aumento
do número de cidades servidas, entre elas Livramento, Santa
Cruz, Cruz Alta e Santana do Livramento.
Logo nos primeiros anos de existência a VARIG já
encontrava alguns problemas. A fragilidade dos dois hidroaviões,
muitas vezes fazia com que um ou outro fosse retirado de serviço
para reparos, além do próprio cenário político
da época.
As primeira mudanças
O Sindicato Condor se retira da VARIG em 1930, recebendo de volta
o "Gaúcho" no dia 25 de junho e o Atlântico
no dia 2 de julho. Durante algum tempo a VARIG teve de operar
exclusivamente com dois monoplanos Klemm L.25 que havia adquirido
em novembro de 1929, reduzido a um quando outro foi perdido após
um acidente em setembro de 1930. Tais fatos fizeram com que a
VARIG fosse buscar apoio no Governo gaúcho para expandir
suas operações.
Meses depois o Governo do Rio Grande do Sul cumpre um contrato
de subvenção, celebrado em maio de 1930, subscrevendo
1.200:000$000 (mil e duzentos contos de réis), sendo vendida
nesse ato 1.050 ações da empresa ao Governo do Rio
Grande do Sul.
A VARIG recebeu também do governo, dois aviões,
um Morane Saulnier MS130 matriculado em 8 de janeiro de 1931 com
o prefixo P-BAAC e um Niuport Delage 641 registrado com P-BAAD.
Em 1931 a VARIG executava a maioria dos seus serviços com
um Dornier Merkur arrendado da Condor Syndikat e um Junkers A-50
Junior, recebido dia 8 de janeiro do mesmo ano.
Em março de 1932, após sofrer uma modesta reorganização
a VARIG conseguiu receber em 18 de abril dois Junkers F13 e outros
dois Junkers A50 Junior.
Com recursos financeiros limitados, uma demanda de tráfego
extremamente modesta como conseqüência dos eventos
políticos e econômicos que marcaram profundamente
o Brasil na primeira metade da década de 30 e utilizando
aeronaves que mal apresentavam algum lucro, a VARIG manteve suas
operações restritas ao estado do Rio Grande do Sul.
Consumindo ainda mais seus escassos recursos a VARIG foi obrigada
a construir em várias localidades instalações
imprescindíveis para a operação de suas aeronaves.
As linhas da VARIG ficavam assim limitadas a operar nas cidades
de Porto Alegre, Pelotas, Cruz Alta, Santana do Livramento, Bagé,
Santa Cruz, Palmeira e Santa Maria e as linha sazonais até
as cidades litorâneas de Torres e Tramandaí.
Apesar das dificuldades, Otto-Ernst Meyer continuou lutando pela
sobrevivência da VARIG, habilmente auxiliado por um jovem
que ele contratara logo após a fundação da
empresa, Ruben Martin Berta. A verdade era que todos os funcionários
se desdobravam em muitos para garantir a existência da VARIG
e não eram incomuns as ocasiões em que o próprio
pessoal da administração ajudava embarcando malas
ou em trabalhos dentro das oficinas.
Expandindo a frota
Os resultados financeiros de 1935 e 1936 foram suficientemente
positivos para permitir a compra de novos aviões.
Em outubro de 1936, foi adicionado a frota um Messerschimitt Me-108B
"Taifun", que infelizmente não chegou a operar
na empresa devido a um acidente ocorrido durante o pouso em 24
de novembro de 1936.
Em 1937 a VARIG recebe um Messerschimitt M.20b "Aceguá",
que possuía capacidade para até 10 passageiros tornando-se
o maior avião da empresa e propiciando o prolongamento
da linha até a Uruguaiana.
Vendo-se na obrigação de suspender a linha Porto
Alegre - Rio Grande em 1938, devido às baixas taxas de
ocupação Otto-Ernst Meyer, junto ao Departamento
de Aeronáutica Civil buscou uma solução a
fim de não deixar Rio Grande completamente sem comunicação
aérea com Porto Alegre. Após alguns estudos a VARIG
fechou um acordo com a Viação Férrea do Rio
Grande do Sul com o intuito de conjugar horários, assim
estabeleceu com resultado o primeiro tráfego mútuo
avião-trem do Brasil e um dos primeiros do mundo. Adquirindo
a passagem, o passageiro completava o trecho Porto Alegre-Pelotas
de avião e após desembarcar em Pelotas um automóvel
o levava até a estação onde o passageiro
embarcava em um trem que o levaria até a cidade de Rio
Grande. Esse sistema foi um grande sucesso incentivando a VARIG
a implantar um sistema semelhante levando o passageiro até
Montevidéu ou Buenos Aires.
Em maio de 1938 a VARIG adquiriu um Junkers Ju-52/3m da South
African Airways. Entrando em serviço em 6 de Julho do mesmo
ano o Junkers Ju-52/3m "Mauá", um trimotor de
fuselagem metálica tornou-se o maior avião da empresa,
com capacidade de transportar até 17 passageiros.
No entanto um período difícil começava a
apontar ao horizonte com o início da Segunda Guerra Mundial.
Contanto unicamente com aviões de origem alemã a
VARIG começou a sentir as dificuldades em importar material
aeronáutico alemão.