VARIG - 79 Anos De História
 
   
Texto: Edmundo Ubiratan

Década de 1940. Problemas e soluções.

   Assim, para amenizar as dificuldades que certamente viriam, a VARIG arrendou do Sindicato Condor (posterior Cruzeiro do Sul) dois aviões Focke-Wulf Fw-58C, que estavam sendo produzidos sob licença nas instalações da Aviação Naval da Ponta do Galeão no Rio de Janeiro.

Paralelamente a VARIG iniciou a busca de novos aviões para complementar a frota, mas no dia 28 de fevereiro de 1942, o Junker Ju-52/3m, acidentou-se gravemente logo após a decolagem do seu campo de pouso em Porto Alegre, tendo sido esse o primeiro acidente com perdas humanas na VARIG.

Para repor essa perda, utilizou um trimotor italiano Fiat G.2 que originalmente pertencia ao Ministério da Aeronáutica Italiano. Após alguns meses a VARIG conseguiu adquirir da Companhia Juta Fabril um biplano inglês de Havilland DH-89A Dragon Rapide. Seria o Dragon Rapide o responsável pela expansão da rede de linhas da VARIG para além do estado do Rio Grande do Sul, inaugurando no dia 5 de agosto de 1942 a primeira linha internacional realizada por um empresa brasileira, ligavando Porto Alegre à Montevidéu. Inicialmente contando com uma freqüência de dois vôos semanais.

Prevendo os problemas estariam por vir devido a Segunda Guerra Mundial devido a sua origem alemã Otto-Ernst Meyer, apresentou sua renúncia ao cargo de Diretor-Gerente em dezembro de 1942. O Governo do estado do Rio Grande do Sul como acionista majoritário indicou ao cargo Érico de Assis Brasil. No entanto, sua morte duas semanas depois da nomeação o impediu que fizesse algo pela VARIG. Imediatamente uma nova reunião foi convocada pelos acionistas e Ruben Martin Berta, o braço direito de Otto-Ernst Meyer foi nomeado o novo Diretor-Gerente da VARIG. Que obteve a árdua tarefa de conduzir a VARIG através dos difíceis obstáculos que já se apresentavam, tarefa que ele desempenhou com enorme habilidade.

A Era Berta

Uma das primeiras providências tomadas por Ruben Berta foi à padronização da frota com um único tipo de avião, sanando assim os problemas de ordem logística. Em abril de 1943 a VARIG recebeu da Defense Supplies Corp. dois Lockheed Electra L.10E, que haviam pertencidos anteriormente a Panair do Brasil. Dois anos mais tarde receberia diretamente dos Estados Unidos outros seis. Configurados para transportar até dez passageiros os Lockheed Electra L.10 permitiram uma progressiva expansão da rede de linhas para as principais cidades da região sul do Brasil.

Desde que assumira o cargo de Diretor-Gerente da VARIG, Ruben Berta desenvolvia uma idéia arrojada que iria beneficiar toda a empresa, ao mesmo tempo em que protegia a VARIG de uma possível estatilização, que era uma das metas do governo Vargas.

Com tal propósito, aproveitando a Assembléia Geral, realizada em 29 de outubro de 1945, Berta sugeriu aos acionistas a transferência de metade das ações da VARIG para uma fundação de funcionários, por ele mesmo idealizada. Era uma idéia audaz para a época, visto que era quase inexistente caso similar no Brasil e no exterior.

O projeto tornou-se realidade quando foi lavrada a escritura pública da Fundação dos Funcionários da VARIG, em 7 de dezembro de 1945. Ruben Berta era um adepto da corrente do capitalismo social inspirado na encíclica papal Rerum Novarum, que alertava para os problemas do capitalismo, como um abismo social cada vez maior entre os ricos e os pobres. Com a fundação Ruben Berta faria da VARIG uma empresa voltada para seus funcionários.

O fim da Segunda Guerra em 1945 trouxe diversas mudanças a VARIG e a empresas de todo o mundo. Visando a expansão das linhas aéreas e equipar a frota com as mais modernas aeronaves disponíveis na época, a VARIG iniciou a negociação com o governo norte-americano visando à aquisição de um lote de quatro Douglas C-47B que encontravam estocados em Natal.
Adquiridos por valores entre US$30 e 35 mil (valores de 1945), o primeiro C-47 da VARIG chegou a Porto Alegre na segunda semana de dezembro de 1945.

A VARIG expande os horizontes

Os últimos anos da década de 40 assistiram um novo processo de expansão na VARIG, tanto em sua rede de linhas aéreas que já chegavam a São Paulo e ao Rio de Janeiro, como em sua frota de aeronaves.
Em 1947 a VARIG comprou um único monomotor Nooruyn Norseman VJ, utilizado principalmente no transporte de malotes postais. E em 1948, os primeiros Curtiss C-46A/D entravam em serviço em algumas linhas da empresa.

Os C-46A/D além de transportarem passageiros em uma “classe de luxo”, se adaptaram perfeitamente ao transporte de cargas, eliminando uma carência que vinha sendo sentida há algum tempo. Ainda no final da década de 40 eram desativados dois Junkers F-13. Os C-46/AD, também possuíram uma cabine mista para o transporte de passageiros e carga.

Nos primeiros anos da década de 50, a VARIG iniciou sua expansão de linhas para o interior dos estados de Santa Catarina e Paraná. Sendo que em 1951, já servia a 14 cidades no Rio Grande do Sul, seis em Santa Catarina, seis no Paraná, além de São Paulo, Rio de Janeiro e Montevidéu.

Em maio de 1952 a VARIG adquiriu a Aero Geral, com sede em Santos e que vinha enfrentando sérias dificuldades financeiras. As linhas da Aero Geral se estendiam por todo o litoral brasileiro até a cidade de Natal.

Em termos de equipamentos a compra quase não trouxe benefícios. Mas essa aquisição proporcionou à VARIG uma porta de expansão para o Nordeste, aumentando consideravelmente sua influência como empresa de transporte aéreo. Tornando-se uma das grandes empresas aéreas nacionais, ao lado da Cruzeiro do Sul, Panair do Brasil, VASP e do consórcio Real/Aerovias. Nesta mesma época, passou a oferecer tarifas mais baixas para o transporte de cargas, obtendo um substancial aumento de sua parcela neste mercado. Em 1955, a malha de rotas domésticas da VARIG atendia a 20 cidades. A compra da Aero Geral era apenas um prenúncio de eventos ainda mais importantes que ocorreriam nos próximos 13 anos.

Entre 1948 e 1949 a Cruzeiro do Sul realizou 30 vôos experimentais entre o Brasil e os Estados Unidos, utilizando dois quadrimotores Douglas DC-4. O investimento necessário para o estabelecimento da nova rota necessitava, no entanto de apoio oficial que foi negado. Sem condições de levar o projeto adiante, a Cruzeiro do Sul abandonou a idéia.
Após desistência da Cruzeiro do Sul em estabelecer uma linha ligando a cidade do Rio de Janeiro a New York, o governo brasileiro indicou a VARIG para a formação daquela linha.

Próximo destino: New York

Imediatamente iniciaram-se negociações para aquisição de três quadrimotores Lockheed L-1049G Super Constellation. Um moderno avião de transporte de passageiros que acabara de entrar em serviços em outras companhias de transporte aéreo no mundo. Após a assinatura do contrato de compra com a Lockheed, a VARIG deu início a diversas providências a fim de implantar toda a infra-estrutura necessária para operação da linha Rio de Janeiro - New York.

O Super Constellation significou uma total mudança na filosofia adotada pela empresa até então, onde os serviços de bordo, vendas e manutenção tiveram de ser completamente reformulados.

Apesar de poderem transportar até noventa e nove passageiros, a VARIG optou por configurá-los para apenas sessenta e seis passageiros, o que lhe conferiu instalações extremamente luxuosas e confortáveis.
Com um conforto sem similar na aviação comercial brasileira e que pouquíssimas companhias internacionais conseguiam igualar. A configuração adotada contava com oito camas tipo beliche e luxuosas poltronas que em nada devia aos modernos aviões atuais.

Curiosamente foi devido à existência desses beliches, que a presidência da VARIG relutante aceitou contratar as primeiras mulheres para seu quadro de comissários. Como muitos dos sessenta e seis passageiros nos vôos Rio de Janeiro - New York eram mulheres e crianças, concluiu-se que seria mais agradável que esses passageiros fossem atendidos por comissárias. Mas alguns atribuem que essa mudança tenha ocorrido devido a empresas internacionais que concorriam com a VARIG na mesma linha contarem com comissárias. Sendo assim o Super Constellation o primeiro avião da VARIG a contar com uma equipe mista de comissários e comissárias.

O serviço de bordo foi completamente reformulado. Foram contratados os serviços do austríaco “Barão Max von Stuckart” que ganhou fama à frente do lendário restaurante carioca Vougue.

O Barão Max von Stuckart não só deu uma nova e completa organização a então modesta instalação da cozinha onde eram preparados os alimentos destinados ao serviço de bordo, como proporcionou um toque de requinte e sofisticação ao serviço de bordo. Dando em pouquíssimo tempo à VARIG a merecida fama de oferecer o melhor serviço de bordo do mundo.