VARIG - 79 Anos De História
 
   
Texto: Edmundo Ubiratan

   No final dos anos 80 e inicio dos anos 90 a VARIG começa a modernizar sua frota, substituindo diversos tipos de aviões que outrora constituíram a linha de frente da VARIG, como os Boeing 707 e 727-200. Apenas os 727 na versão cargueira continua em operação na VARIG.

Os Airbus A300 também foram reexportados, visando à padronização da frota, que atualmente constitui-se apenas de aeronaves Boeing.

Para substituir os A300 e os 707, a empresa trouxe em 1987 seis Boeing 767-200ER, que foram utilizados em rotas internacionais e linhas domésticas com alta demanda. Para ocupar o lugar dos Boeing 727 e dos lendários Lockheed Electra II na ponte-aérea, a VARIG passou a operar os Boeing 737-300, sendo esta a principal aeronave para curtos e médios percursos na frota atual da empresa. Infelizmente na década de 80 VARIG não teve um crescimento como tido nas décadas passadas. Crescimento que possivelmente jamais se repetirá na história da aviação comercial mundial.

O Principio da Crise

O inicio dos anos 90 é marcado por diversos fatores que contribuíram para que para que a indústria do transporte aéreo ingressasse em um longo período de recessão. O principal deles foi à alta dos combustíveis gerada pelo conflito do Golfo em 1991.

Aliado a esses fatos a VARIG perdia em abril de 1990 Hélio Smidt, sendo no mesmo mês eleito um novo presidente o gaúcho Rubel Thomas.

Liderando a VARIG neste difícil período da história da aviação comercial Rubel Thomas continuou a renovação da frota substituindo aos poucos os DC-10-30 pelos MD-11 e 767-300ER. E em 1991 a VARIG aumentou sua frota de longo alcance trazendo o primeiro 747-400, ao qual somaram-se a outros dois no ano seguinte e em 12 de novembro do mesmo ano chegava ao Brasil o primeiro MD-11, matrículado como PP-VOP.

A VARIG cometia seu primeiro grave erro. Especialmente com relação à compra dos 747-400, que foram financiados em Ienes, justamente durante o período que a moeda japonesa sofria grande valorização. O valor do contrato era tão elevado que os vôos com o 747-400 só seriam rentáveis caso a VARIG conseguisse obter mais de 120% de ocupação em todos os vôos! Somava-se aos elevados valores das prestações, a recessão dos transporte aéreo devido a Guerra do Golfo e ainda uma nova escalada no preço do petróleo.

Em 1993 a Cruzeiro do Sul é inteiramente absorvida pela VARIG, passando sua frota de seis Boeing 737-200 e seus funcionários a VARIG. Nesta mesma época, a VARIG lançava novas linhas ao redor do mundo, como Bancoc, Hong Kong, Atlanta, Orlando e Washington, tornando-se ainda mais participativa no âmbito internacional, porém todas as linhas mostraram ser deficitária durante este período, pelos motivos já expostos.

Mais uma vez devido as fortes crises internacionais, a VARIG teve de contornar da melhor forma possível suas dificuldades. Sendo que as linhas que tinham rentabilidade a baixo da desejada foram supridas, os 747-400 foram retirados de serviço em 1994, apenas três anos após terem estreado nas cores da VARIG.

A VARIG Tenta Recuperar o Rumo

No inicio de 1995, a situação administrativa da VARIG era caótica, os inúmeros erros cometidos por Rubel Thomas levaram a VARIG a sua pior crise. Tanto que em abril é assume interinamente a presidência Carlos W. Engels, que tinha como missão reorganizar a empresa, até a escolha de um novo administrador, que ocorreria em janeiro de 1996. Assumindo então Fernando ABS da Cruz Souza Pinto, antigo piloto da empresa e ex-presidente da Rio Sul.

Buscando reestruturar e renovar a imagem corporativa da empresa, a VARIG investiu US$ 16 milhões na substituição da antiga programação visual que foi criada em 1955. O novo padrão criado pela empresa Landor Associates, foi finalmente apresentado em setembro de 1996.

A identidade visual anterior começou a apresentar uma imagem conservadora e a mudança do logotipo teve como objetivo fazer que ele refletisse a nova imagem que a empresa buscava junto ao público. Ao manter a rosa-dos-ventos a VARIG buscava mostrar que é uma empresa tradicional e ao mesmo tempo, moderna e eficiente.

Em 1997 a VARIG ingressa no Star Alliance, com a finalidade de integrar as malhas de vôos, sistemas de reservas e programas de milhagens das companhias associadas e estabelecer padrões de qualidade no atendimento a seus passageiros.

O Segundo Erro

Novos programas de incentivo ao turismo interno e à captação de novos clientes foram lançados, destacando-se o Voa Brasil, que oferecia descontos de até 50% em vôos domésticos noturnos, o que possibilitou que usuários do transporte rodoviário passassem a utilizar o transporte aéreo a um custo equivalente ao de uma viagem de ônibus leito.

Sendo este o segundo grave erro da história da empresa, pois todas as empresas aéreas nacionais apostaram na redução dos preços, porém a guerra tarifária iniciada mostrou-se devastadora para todas.

Ainda em 1997, o Smiles, programa de milhagem do Grupo VARIG, foi estendido à ponte aérea e aos vôos do programa Voa Brasil.

Com a crise econômica mundial que se desencadeou em 1997, a VARIG foi obrigada a traçar novos planos para uma adequação rápida ao mercado. Iniciando um processo de racionalização da frota e malha de rotas, deixando de voar para alguns destinos deficitários. Em 1999 os McDonnell Douglas DC-10-30 e os Boeing 747-200 e 747-300 foram substituídos pelos Boeing
MD-11.

As fortes ações de reestruturação adotadas pela companhia nas áreas operacional, organizacional e financeira para adequá-la ao dimensionamento do mercado, foram os principais fatores que permitiram à empresa reduzir custos e alavancar a receita nas linhas domésticas e internacionais. Posicionando a companhia para um melhor desempenho no segundo semestre de 1999.

Porém a desvalorização do Real, somada a guerra tarifária instaurada, levou a VARIG a fechar o ano de 1999 no vermelho, fazendo com que a Fundação Ruben Berta a demitisse Fernando Pinto, que foi substituído pelo engenheiro Ozires Silva, ex-presidente da Embraer, em 28 de janeiro de 2000.

A VARIG é Dividida em Três

Na mesma data os acionistas da VARIG, em Assembléia Geral Extraordinária na sede da Empresa em Porto Alegre, aprovaram mais um passo da reestruturação parcial das empresas do grupo, segundo proposta da FRB-Par Investimentos (holding criada para administrar os investimentos da Fundação Ruben Berta) sem alteração da composição acionária.

Com a reestruturação, foram criadas três companhias:
   VARIG que ficou responsável pela administração da VARIG Brasil, VARIG Logística (VARIG LOG) e Pluna Uruguay;
   VARIG Participações em Transportes Aéreos (VPTA), que administra os investimentos na Rio Sul, Nordeste e Rotatur;
   VARIG Participações em Serviços Complementares (VPSC), que é responsável pela administração nas empresas Tropical de Hotéis, VARIG Travel, Amadeus e SATA (Serviços Auxiliares de Transporte Aéreo).

Mesmo com a forte crise gerada pelos atentados terroristas aos Estados Unidos em setembro de 2001, a VARIG recebeu em setembro seu primeiro 737-800 equipado com winglets, seguindo de outro no mês de outubro. E em 3 de novembro de 2001, a VARIG recebe seu primeiro Boeing 777-200ER, matriculado como PP-VRA, seguido duas semanas depois por outro avião do mesmo modelo. Entrando em serviço no dia 15 de novembro do mesmo ano na linha Rio de Janeiro - São Paulo - Londres – Kopenhagen, o novo avião trazia dentre outras inovações internet a bordo, além de possuir uma configuração extremamente confortável.

Novamente a VARIG se torna pioneira ao ser primeira empresa aérea do hemisfério sul a operar o 777 e a terceira empresa aérea do mundo a disponibilizar internet a bordo de um avião comercial.

Em março de 2002 em virtude das comemorações dos 75 anos, a VARIG "adesivou" um de seus 737-300 que voa na ponte-aérea com uma série de números 75.

A iniciativa inaugurava um novo conceito de mídia que visava estampar propagandas na fuselagem de seus aviões. O aproveitamento das fuselagens começou no 7 de abril de 2002 com o “envelopamento” de um 737-300 que opera na Ponte Rio-São Paulo com o anúncio da Telesp Celular divulgando seu novo serviço ZAAAP-VPN.

Terceiro Erro

Porém o ano de 2002 mostrava-se ser muito mais do que o ano que a empresa comemorava Bodas de Diamantes, a partir de agosto a VARIG entra em uma gravíssima turbulência. Após abandonar o cargo, Ozires Silva é substituído por Armin Lore, ex-executivo do Unibanco, que entre as ações praticamente liquida a dívida com o Unibanco gerando um serío problema de caixa na VARIG. Devido a forte crise vivida pelo setor aeronáutico em todo o mundo, somada a crise interna, a VARIG visando reduzir os custos e melhorar o aproveitamento da frota, realizou a integração operacional e administrativa da Rio Sul e Nordeste.

A administração polemica de Lore, fazem com que sua administração seja a mais curta da história da VARIG até então, abandonando o cargo menos de três meses após assumi-lo. Em seguida assume interinamente a presidência Manuel Guedes, que encontra a difícil missão de reduzir as dividas e evitar o arresto de grande parte da frota.

As negociações com as empresas de leasing chegam pela primeira vez a um estado crítico. A norte-americana GECAS, divisão de leasing da General Eletric, se mantém irredutível e retoma praticamente todos aviões que tem arrendados a VARIG. Imediatamente a VARIG perde mais de 10 aviões, incluindo todos os Boeing 767-200 e 737-700.

Pressões Políticas

O recém empossado governo Lula tenta buscar uma saída para a crise da VARIG e da TAM, que vêem acumulando constantes perdas desde os atentados 2001. A solução apresentada em fevereiro de 2003, previa a fusão de ambas empresa, a notícia choca o mercado e é tida pelo Governo como a melhor solução para a crise. A proposta previa inicialmente o compartilhamento dos vôos, que daria um novo fôlego a VARIG que continuava tendo seus aviões retomados pelas empresas de leasing, e ajudaria a TAM a reverter à imagem de empresa insegura, gerada após os inúmeros incidentes com seus Fokker 100.

Meses depois, devido a disputadas sobre a participação de cada empresa após a fusão, foi anunciado que a seria criada uma empresa responsável pelo gerenciamento dos vôos compartilhados. A proposta apresentada não agradou aos credores, ao Governo e a maior parte dos consumidores. O CADE – Conselho Administrativo de Defesa Econômica, após analisar a proposta concluiu que ela criava uma situação de monopólio e seria prejudicial aos interesses do consumidor, dando prazo para que o compartilhamento encerra-se em maio de 2004.

Enquanto a VARIG anunciava diversas soluções durante o compartilhamento dos vôos com a TAM, a situação interna da empresa deteriorava-se a cada dia. As disputas internas por poder chegaram a ponto da VARIG ter mais de cinco presidentes em menos de dois anos.

A Fundação Ruben Berta, que vinha sofrendo inúmeras acusações por partes dos credores, Governo e funcionários, de ser o principal entrave na solução para a crise da VARIG, tentando passar credibilidade ao mercado contrata o que ela mesmo chamou de “time de notáveis”, que era composto por renomados executivos como, Marcos Azambuja, Eleazar de Carvalho, Omar Carneiro da Cunha e David Zylbersztajn. Sendo que os dois últimos assumiriam a presidência da VARIG e da Fundação respectivamente.

A nova diretoria percebendo a gravidade da situação financeira da VARIG, em junho de 2005 tenta uma arriscada manobra para socorrer a empresa, solicitando a 8ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro a recuperação judicial da VARIG. Tornando a VARIG a primeira empresa a solicitar proteção na nova lei. O que foi tido pelo mercado como uma perigosa manobra, pois não se conhecia ainda qual as reais condições impostas pela nova lei. A VARIG passou a ter 60 dias para apresentar um plano de recuperação financeira, que deveria ser aceito por seus credores para obter a homologação judicial.

Enquanto a nova direção da empresa trabalhava na elaboração da proposta, surpreendentemente a Fundação Ruben Berta anuncia a demissão do “time de notáveis”, pegando de surpresa a todos. A justiça carioca entendendo que a Fundação não tinha qualquer interesse em salvar o grupo, a afasta definitivamente da administração da VARIG.

Para substituir a presidência, foi nomeado Marcelo Bottini, que é visto pelo mercado como um dos melhores presidentes que a VARIG já teve em seus 79 anos e que desde então vem buscado solucionar da melhor forma possível à caótica situação financeira da VARIG.

Assim como todos os brasileiros, torcemos para que uma solução viável seja encontrada e que a VARIG possa comemorar em 2027, cem anos de excelentes serviços prestados ao Brasil. Mas até o fechamento desta edição não havia qualquer definição sobre o futuro da VARIG.