Sem dúvida este é um dos episódios
mais conhecidos e contraditórios da história da
aviação brasileira. Conheça o que levou o
governo federal suspender as operações da Panair
do Brasil e como isso aconteceu.
Na tarde do dia 10 de fevereiro de 1965, um telegrama do Ministério
da Aeronáutica chegou aos escritórios da Panair
do Brasil no Rio de Janeiro, a mensagem era direta e assustadora.
O certificado de operação da Panair havia sido cassado
pelo então Ministro da Aeronáutica Eduardo Gomes,
devido à empresa encontrar-se em uma gravíssima
crise financeira, uma situação considerada insustentável.
A partir deste momento, todos sabem o que aconteceu, mas os fatos
que antecederam permanecem desconhecido pela maioria.
Dentre as histórias contadas, uma diz que no inicio da
década de 1960 o presidente da VARIG Ruben Berta procurou
Celso da Rocha Miranda e exigiu a transferência imediata
das ações da Panair para alguém de sua confiança.
Simplesmente ordenava que os proprietários da Panair entregassem
a empresa a VARIG, caso contrário esta faria de tudo para
destruir a concorrente. Qualquer pessoa com um mínimo de
inteligência saberia que ninguém em plena consciência
diria tamanho absurdo. Mesmo exigir a venda já seria algo
duvidoso, agora exigir a transferência das ações
sob ameaça beira a loucura das teorias de conspiração.
Outra da conta que o Ruben Berta teria enviado um telegrama ao
então presidente Castelo Branco exigindo que ele desse
um fim na Panair e transferisse a empresa a VARIG. É praticamente
impossível se ter acesso a um telegrama, mais impossível
se torna obter acesso a um telegrama enviado a um chefe de estado.
A maioria das histórias mostram que a VARIG teria exigido
que o governo federal fechasse a Panair, com o intuito de herdar
suas linhas para a Europa.
A Panair do Brasil
Para entender o processo é necessário voltar um
pouco na história da Panair, dos seus proprietários
e do país.
A história da Panair começou em 1927 quando o norte-americano
Ralph O'Neil, habilitou-se para uma concorrência promovida
pelo Departamento de Correios dos EUA para o transporte aéreo
de malas postais na América do Sul. Após algumas
tentativas fracassadas de parcerias com empresas já estabelecidas,
O'Neil funda nos EUA a New Yorl - Rio-Buenos - Aires Lines Inc
e aconselhado pelo Ministro Victor Konder, ele buscou maneiras
de criar uma empresa subsidiária de acordo com a legislação
brasileira.
As empresas brasileiras até então faziam parte de
uma disputa internacional para o controle do transporte aéreo
sul-americano, onde a Alemanha e França já haviam
se estabelecido.
Em 15 de outubro de 1929, o governo brasileiro autorizava a Nyrba
Lines Inc. a operar em território brasileiro, e o primeiro
vôo na linha Rio de Janeiro - Buenos Aires aconteceu em
23 de dezembro de 1929.
Em 24 de Janeiro de 1930, o Decreto nº19.074, autorizava
a Nyrba do Brasil S.A. a operar em todo o território brasileiro,
podendo estender suas linhas a Argentina e Uruguai, mediante a
autorização desses paises.
O primeiro golpe contra a recém fundada Nyrba aconteceu
quando a Pan American Airways Inc. que também havia obtido
autorização para voar em território brasileiro,
ganhou a concorrência dos Correios dos EUA. E a crise de
Wall Street iniciada ainda em 1929 fez com que a Nyrba entrasse
em uma grave crise financeira.
Sem condições para manter suas operações
a Nyrba foi vendida a Pan American Airways em 19 de agosto de
1930. No dia seguinte a Panam recebia da Direção
Geral dos Correios dos EUA a exclusividade para transportar malas
postais em toda a costa oriental da América do Sul. Assim
no dia 17 de outubro de 1930 a razão social da Nyrba do
Brasil S.A. foi alterada para Panair do Brasil S.A, decolando
pela primeira vez em 29 de novembro do mesmo ano.
Era o inicio de uma acessão jamais vista até então
entre as empresas aéreas brasileiras, em pouquíssimo
tempo a Panair viria a se tornar uma das maiores empresas aéreas
brasileira.
No anos 1940 as empresas aéreas em todo o mundo passavam
por dificuldades decorrentes da Segunda Guerra Mundial. No Brasil
a situação era ainda mais difícil especialmente
as subsidiarias de empresas estrangeiras, como para o Sindicato
Condor que devido sua origem alemã atravessava uma grave
crise além de ser alvo de suspeitas de ligação
com o regime nazista. A Panair apesar de ter origem norte-americana
também sofria com os tempos de guerra, o que vinha dificultando
suas operações.
Em busca da nacionalização
Em 7 de janeiro de 1943, assume o cargo de Diretor-Presidente
da Panair do Brasil o Sr. Paulo Sampaio, que dava inicio ao processo
de nacionalização e buscava uma solução
para a crise que a empresa vivia. Em outubro de 1943, 42% das
ações já estavam sob controle brasileiro.
Em 1945 a Panair iniciou um processo de negociação
com diversos paises europeus para o estabelecimento da primeira
linha ligando o Brasil a Europa. Tendo no final obtido autorização
para voar para a Inglaterra, Alemanha Oriental, França,
Suíça, Itália e Portugal.
No dia 30 de março de 1946 chegava ao Rio de Janeiro o
primeiro L-49Constellation e em 11 de abril do mesmo ano era realizado
o primeiro vôo ligando o Brasil a França.
Em 1950 acontecia a primeira eleição para presidente
após a “Era Vargas”, onde concorriam além
do próprio Getúlio Vargas o Brigadeiro Eduardo Gomes.
O presidente da Panair, Paulo Sampaio não escondia seu
apoio e admiração a Getúlio Vargas, que acabou
ganhando as eleições.
Nesta época, Paulo Sampaio iniciava um processo para colocar
a Panair na vanguarda da aviação mundial, para isso
foram encomendados quatro de Havilland Comet II, seis Douglas
DC-6B e dez Convair 440, além de ampliar a capacidade técnica
da empresa. O que trouxe inúmeros avanços e iniciava
a geração de uma grande divida.
Primeiros Problemas
A encomenda dos Comet II, gerou um inúmeros conflitos internos,
pois ia contra os interesses da Panam e seus parceiros. Fazendo
com que a Panam acenasse com a possibilidade de romper seus laços
com a Panair.
Para agravar ainda mais a situação, o Import-Export
Bank negou o financiamento para compra dos Douglas, o que deixou
a Panair em situação delicada, especialmente depois
dos acidentes ocorridos com os Comet, que levaram a empresa a
cancelar os pedidos do jato inglês. Em seu lugar vieram
quatro Douglas DC-7C e quatro DC-6B arrendados dlo Lóide
Aéreo utilizados nas rotas transatlânticas em substituição
aos já cansados L-49 Constellation, que passaram a voar
apenas nas linhas do cone sul.
Foi quando os primeiros problemas começaram a ocorrer,
em janeiro de 1956 a Panair foi surpreendida por uma grave. Paulo
Sampaio tentou recorrer ao governo federal para por fim a greve
alegando ser esta uma greve abusiva. E acusava o Deputado Carlos
Lacerda de persegui-lo e acusá-lo injustamente no jornal
Tribuna da Imprensa e na Câmara dos Deputados.
Segundo Sampaio este movimento havia sido orquestrado pela Pan
América Airways, que não aceitava o modo como a
Panair estava sendo conduzida.
Os problemas se agravam
Mas os problemas estavam apenas começando, em 28 de junho
de 1950, o Constellation matricula PP-PCG, bateu na aproximação
para Porto Alegre, matando todos os seus ocupantes.
Em seguida, outro Contellation o PP-PDA bateu em aproximação
noturna para Congonhas em 1953, matando todos as 17 pessoas abordo.
Em junho de 1955, o PP-PDJ outro Constellation, colidiu com uma
colina próxima ao aeroporto de Assunção durante
uma aproximação noturna, matando 19 pessoas.
Até 1960 a Panair havia investido mais de US$ 4 milhões
em suas oficinas, possuía uma dívida de de US$ 8
milhões com a Panam e um passivo de US$ 17 milhões,
todos em valores de 1960. Além disso as linhas da Amazônia
eram deficitárias e os vôos para a Europa voavam
muitas vezes com menos da metade dos assentos ocupados.
Vendo que a VARIG já entrara na era do jato em 1959, e
a Cruzeiro do Sul estava próxima de fazer o mesmo, a Panair
buscou financiamento junto ao um banco norte-americano para a
compra de sete DC-8 e quatro Caravelle. Visando a nacionalizaçam
completa da Panair seus atuais acionaistas Mário Wallace
Simonsen e Celso da Rocha Miranda iniciaram um processo de negociação
com a Pan American para a compra de sua participação
na Panair. Tendo todo o apoio do então presidente Jânio
Quadros. A Pan American aceitou vender sua participação
na Panair por pouco mais US$ 8 milhões, que deveria ser
pagos ao longo de sete anos com juros de 6% ao ano.