O outro lado da história
 
   
Texto: Edmundo Ubiratan
Neste processo também acertaram a compra das ações pertencentes a outros acionistas brasileiros, em um valor total próximo de US$ 8 milhões.

Em 21 de março de 1961 chegavam ao Rio de Janeiro os dois primeiros DC-8, da Panair que foram introduzidos nas linhas da Europa. E em 20 de julho de 1962, chegaram os quatro Caravelle que foram utilizados nas linhas do cone sul.

Porém os acidentes ainda eram freqüentes e na noite de 20 de agosto de 1962 um DC-8 da empresa sofreu um acidente durante a decolagem do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, vindo a colidir com as águas da baia do Guanabara.

Nesta mesma época Paulo Sampaio vislumbrava a aquisição de novas aeronaves, dentre elas o supersônico Super Caravelle ainda em fase de desenvolvimento.


Ato Institucional Número 1

Em 31 de março de 1964, os militares tomam o poder, em 9 de abril, é decretado o Ato Institucional Número 1 (AI-1). Tendo o Congresso Nacional eleito o General Castello Branco para presidente da republica em 15 de abril de 1964. A Panair que já sofria com uma grave crise financeira, agora se tornara inimiga do governo militar.

Mário Wallace Simonsen um dos principais acionistas da Panair era um importante empresário paulistano, dono de mais de 40 empresas dentre eles a TV Excelsior, a maior emissora de televisão do pais, da Comal a maior exportadora de café do Brasil, da Companhia Melhoramentos, o Banco Noroeste entre tantos outros. Era amigo pessoal dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, João Goulart assim como Paulo Sampaio e Celso da Rocha Miranda.

Para os militares os laços da Panair com Juscelino Kubitschek e João Goulart não eram vistos com bons olhos. Assim como as relações que a empresa ainda mantinha com a Pan American, que eram vistas como uma ameaça a soberania nacional.

Entra em cena a VARIG

Em 1964 a VARIG buscava financiamento para a compra de mais alguns Boeing 707. Durante este processo teve seu pedido negado por um banco norte-americano que entrou em contato com o governo brasileiro informando que a VARIG buscava um financiamento para a compra de novos aviões, mas o empréstimo só seria realizado caso o governo federal oferecesse garantias que o valor seria pago, pois a Panair havia feito um empréstimo similar anos antes para a compra dos DC-8 e estava em atraso com pagamento das prestações.

Fato que chamou a atenção do Ministro Eduardo Gomes, que informou ao presidente Castelo Branco que a situação financeira da Panair era critica.

A VARIG jamais poderia prever que ao buscar um financiamento internacional para a compra de novos aviões teria selado o destino na Panair do Brasil.
Ao tomar conhecimento da situação financeira da Panair o governo federal tratou de continuar seu processo de banir seus inimigos políticos. E os executivos da Panair representavam uma ameaça ao governo, pois seus laços com governos anteriores não deixavam duvidas que a empresa era contrária ao regime instaurado.

Em seguida teve inicio a fase mais obscura da história da aviação brasileira.

A VARIG há alguns anos buscava a concessão para voar para a Europa e agora pretendia trazer novos aviões intercontinentais. Nesta mesma época a Cruzeiro do Sul solicitava autorização para trazer novos Caravelle e pedia subsídios para continuar operando na região da amazônia.

Face tais acontecimentos o Ministro Eduardo Gomes reuniu algum dos mais importantes militares da época - dentre os quais quatro colaboraram com este artigo – para decidir como criar a Aerobras.

Após algumas reuniões ficou claro ser impossível naquele momento a criação de uma empresa aérea estatal. As frotas das maiores empresas aéreas nacionais eram completamente heterogêneas, os serviços completamente diferentes dentre diversos outros fatores que tornaram a criação da Aerobras impossível.

Mas ficou claro que era perfeitamente possível banir a Panair, e seus proprietários, especialmente Mário Wallace Simonsen, que era considerado pelos militares como homem do “esquema Jango” no meio de comunicação.

Proposta Irrecusável

Em meados de outubro de 1964 alguns executivos da VARIG e Cruzeiro do Sul foram chamados para uma reunião com o Eduardo Gomes e diversos outros militares. Nesta reunião foi colocada a seguinte situação. O governo federal ciente da importância da aviação comercial para o pais desejava criar a Aerobras, mas face aos mais diversos problemas ela não poderia ser criada. Mas estava certo que a Panair do Brasil seria extinta. A VARIG buscava novos aviões intercontinentais e desejava voar para a Europa. A Cruzeiro desejava novos Caravelle e subsídios para as linhas da amazônia. A Panair podia oferecer o que as empresas pleitavam. Para tanto a VARIG e Cruzeiro tinham uma única opção aceitar a proposta que seria oferecida. Caso contrário por mais impossível que fosse eles iriam criar a Aerobras e extinguir as três empresas.

Não é difícil imaginar que os executivos de ambas empresas também foram ameaçados de morte caso resolvessem contar o que sabiam.

Diante de tal situação nem mesmo a pessoa mais honesta do mundo iria negar tal pedido. Se aceitassem conseguiriam o que desejavam, se não além de perderem as empresas, perderiam a vida.

Execução do Plano

Durante os meses de novembro e dezembro o ministério da aeronáutica, a VARIG e a Cruzeiro trabalharam nos detalhes da operação.
Como a VARIG já planejava voar a algum tempo para a Europa ela já tinha grande parte das informações necessárias para estabelecer tais linhas. A única linha que demandou maiores estudos foi à linha para Beirute.
A Cruzeiro não teria maiores dificuldades, pois iria receber apenas as linhas da amazônia e os Caravelle que ela já operava.

O Ministério da Aeronáutica acertava os detalhes burocráticos com os paises para os quais da VARIG iria iniciar seus vôos. Os acordos foram feitos sob sigilo, mas em momento algum os governos dos paises envolvidos souberam que a Panair estava com os dias contados.

Enquanto isso a Panair continuava enfrentando graves problemas, sem uma solução a vista.

No final de janeiro de 1965, praticamente estava finalizado todo o processo que envolveu alguns executivos de ambas empresas e alguns poucos funcionários, além de um seleto grupo de militares.

Para os pilotos da VARIG que sabiam que em breve iriam voar para a Europa, a empresa alegou apenas havia conseguido a autorização e que tal operação era estratégica para empresa e por tanto não esta informação seria divulgada até ordens superiores. Na Cruzeiro divulgaram que a empresa iria receber novos aviões.

10 de fevereiro de 1965

Em 10 de fevereiro de 1965 a Panair era informada que suas operações haviam sido suspensas. E naquela mesma tarde, os funcionários da VARIG foram informados que a empresa iria voar para a Europa, o que pegou a todos de surpresa. Até então apenas a diretoria da VARIG sabia que naquele dia a empresa seria uma das herdeiras da Panair.

Os executivos da Panair sempre sustentaram que a falência da empresa foi armação do Ruben Berta. O que não é verdade. A opção dada era clara: Opção Um: aceitar a proposta e crescer. Opção Dois: Não existia a opção dois. Tanto a Panair, como a VARIG e Cruzeiro foram vitimas do regime militar. Só que duas tiraram a sorte grande, enquanto a outra foi assassinada.

A Panair do Brasil sem dúvida alguma tinha uma péssima gestão e passava por uma gravíssima crise, que possivelmente a levaria ao colapso. Os acidentes eram freqüentes e não havia dinheiro em caixa para a realização de uma completa reestruturação e renovação de frota. A empresa que outrora foi o orgulho do país, era agora uma empresa problemática e inimiga do governo. A relação entre Paulo Sampaio e Getúlio Vargas durante as eleições de 1950 possivelmente não foram esquecidas pelo Eduardo Gomes. A amizade entre Celso Rocha Miranda e Juscelino Kubitschek não era bem vista por Castelo Branco. E o apoio dado por Mário Wallace Simonsen ao Jango foi um erro gravíssimo que fez dele o inimigo número um do governo naquele momento. Suas empresas foram perseguidas e quando não destruídas foram prejudicadas pelo regime militar. Todos os seus bens foram cassados dia 22 de março de 1965, em depressão Mario Simonsen faleceu dois dias depois em Paris.

O fechamento da Panair do Brasil envolveu apenas uma disputa política e ideológica. A amizade dos sócios da empresa com antigos políticos foi o maior responsável pela falência da Panair do Brasil.

Este artigo foi escrito baseado nos relatos obtidos com pessoas diretamente envolvidas no caso. Sendo eles; militares, ex-funcionários da VARIG e Cruzeiro do Sul. A verdade absoluta e incontestável talvez jamais seja conhecida. Mas este artigo traz a tona uma nova visão sobre os motivos que levaram o Ministro Eduardo Gomes a decretar o fim da Panair.