Pan Am - A História
 
   
Texto: Edmundo Ubiratan

Parte I

   Na fria manhã de 4 de dezembro de 1991 milhares de funcionários da Pan American World Airways eram surpreendidos pela notícia que a Pan Am acabava de suspender definitivamente suas operações. Em outras palavras a empresa que durante décadas foi sinônimo de aviação havia falido.

Apesar da Pan Am estar em processo de concordata já haviam onze meses e desde agosto a situação ter deteriorado abruptamente com o fim do acordo com a Delta Airlines, que havia proposto comprar a Pan Am por pouco mais de US$400 milhões e assumir US$389 milhões em dividas, muitos ainda tinham esperanças que mesmo sendo uma empresa muito menor, a Pan Am não deixaria de existir.

Em agosto quando a Delta Airlines saiu do processo de reestruturação, as dividas da Pan Am já alcançavam mais de US$ 2,6 bilhões (em dinheiro de 1991), sendo que suas ações que durante a década de 60 chegaram a valer mais de US$ 70,00 agora valiam míseros 9 centavos e todos os dias a empresa perdia US$ 3 milhões. Naquela manhã de 4 de dezembro, os executivos da Pan Am sabiam que haviam perdido, o presidente Tom Plaskett não havia conseguido os US$12 milhões necessários para honrar compromissos de curtíssimo prazo. Percebendo que a empresa não tinha condições de manter suas operações, mesmo tento um patrimônio de pouco mais de US$1,5 bilhões, o juiz Cornelius Blackshear declarou a falência.

Era o fim de uma era, a empresa que durante décadas praticamente ditou as regras da aviação comercial mundial desaparecia de modo melancólico. Terminava assim uma longa história que começou em 1927.

Surge um gigante

Logo após se formar em Yale em 1921, o jovem Juan T erry Trippe, filho de um grande banqueiro, começou a trabalhar em Wall Street, porém percebia que sua vocação não era para atuar na bolsa de valores. E sentia que a recém surgida aviação comercial era um potencial mercado que se fosse corretamente explorado poderia ser fonte de grandes lucros.

Em 2 de junho de 1927, após conseguir um financiamento de aproximadamente US$ 5 milhões respaldado pelos poderosos William A. Rockefeller e Cornelius Vanderbilt Whitney, criou a Aviation Corporation of América e tornou-se sócio na Colonial Air Transport, que havia ganho a licitação do U.S. Postal Service – correios dos Estados Unidos, para transporte de malotes postais entre New York e Boston.

O jovem Trippe era conhecido por seus colegas por ser uma pessoa era hábil e visionária, mas todos o consideravam também megalomaníaco e extremamente inescrupuloso nos negócios. E percebendo o potencial que havia na recém aberta licitação para transporte de malotes postais entre Miami e Havana – Cuba, Trippe viajou até a Flórida e comprou as recém criadas Atlantic, Gulf, and Caribbean Airways que realizavam vôos ligando a Flórida a Cuba. Graças a influencia de sua família e suas amizades com importantes políticos, não foi difícil para Trippe vencer a licitação do U.S. Postal Service.
Após vencer a licitação, foi criada a Pan American Inc., que fundiu as operações das três empresas criando a Pan American Airways.

Trippe sabia que manter uma empresa aérea não seria uma tarefa fácil, para isso contratou como diretor técnico o holandês André Priester e como consultor Charles Lindbergh, que era tido como o símbolo da audácia americana e que meses depois era promovido a diretor de operações.

As 08:25 do dia 28 de outubro do mesmo anos, decolava de Key West, Flórida, o pequeno Fairchild 71, arrendado da West Indian Aerial Express, com destino a Havana, transportando120Kg de malotes postais.

Conquistando as Américas

Apenas dois anos depois a Pan Am já possuía uma considerável frota de aviões Sikorsky S-38 e Consolidated Commodore que serviam todo o Caribe, México e chegavam até Paramaribo na rota ocidental da América do Sul.

Temendo a investida alemã na América do Sul, que havia estabelecido inúmeras empresas aéreas na região, como o Condor Syndikat e SCADTA - Sociedad Colombo-Alemana de Transportes Aéreos, autorizou a Pan American Airways a realizar vôos entre os Estados Unidos e a América Latina.

Em setembro de 1929, Trippe ao lado de Lindbergh, realizou uma viagem pelas Américas Central e do Sul, negociando com os governos locais a concessão para a realização de serviços aéreos. Incluindo a Colômbia, onde fundou a PANAGRA - Pan American Grace Airways em 1929, para fazer frente a SCADTA.

Ainda em 1929, após a quebra da bolsa, em uma manobra polemica, a Pan American, conseguiu comprar a N.Y.R.B.A. (New York-Rio-Buenos Aires) do empresário norte-americano Ralph ONeill, que estava praticamente falido após a crise da bolsa.

A compra da N.Y.R.B.A., rebatizada como Panair do Brasil, permitia a Pan American voar desde New York até Buenos Aires. Em 1930 a Pan American, já voava para grande parte da América do Sul. Ainda em 1930 Trippe encomendou os hidroaviões Sikorsky S-42, os maiores aviões feitos nos Estados Unidos na época. Em homenagem a seu avô, ex-comandante da Marinha Mercante, Trippe batizou os novos aviões como Clipper, nome da classe de navios que seu avô comandava. A partir de então todos os aviões da empresa foram batizados como Clipper, tornando esta uma das características mais marcantes da Pan American. Outra medida tomada com a chegada dos S-42, foi a mudança no uniforme utilizado pelos pilotos. Trippe sempre achou que os macacões usado até então eram deselegantes e não combinavam com um transporte com tanto prestigio. A solução encontrada foi utilizar os mesmos uniformes usados pela marinha mercantes, muito mais elegantes e que imediatamente foi adotado pela maioria das empresas de aviação. Esta não seria a primeira vez que a aviação iria se guiar pelas atitudes da Pan American.

Após três anos de operações a Pan Americam já era uma das maiores empresas de aviação do mundo, ligava praticamente todo o continente americano e era referencia entre as empresas aéreas. Mas isso não era o bastante, Trippe queria mais.

Negócio na China

Em 1931 encomendou a Martin, os maiores aviões então disponíveis os M-130 e enviou Lindbergh para a China. O objetivo era verificar a viabilidade operacional de voar através do Pacífico. As impressões de Lindbergh não foram as melhores, apesar de viável a linha era extremamente perigosa. Os novos aviões partindo de San Francisco talvez pudessem chegar até o Hawaii, mas não teriam autonomia para continuar a travessia. Era necessário realizar mais uma escala para reabastecimento, o problema era não havia onde. Os locais que poderiam receber os aviões ou eram próximos ou longe demais Hawaii.

Para Trippe não existia o impossível, existia apenas um modo demorado de se conseguir as coisas. Lembrando das histórias de seu avô, ele resolveu ir até a Biblioteca Municipal de New York, pois lá ainda deveria haver antigas cartas de navegação. Se lá não houvesse, saberiam indicar quem as teria.
Após semanas de pesquisas, Trippe encontrou em antigas cartas marítimas, um atol batizado de Wake, que devido seu pequeno tamanho fora esquecido pelas novas cartas marítimas. Imediatamente após a descoberta, Trippe enviou uma expedição para o local indicado nas cartas. O navio New haven após uma semana de buscas encontrou o atol, que como foi posteriormente descrito lembrava uma rosquinha perdida no oceano.

Infelizmente o atol era pequeno demais para poder receber os Clipper, não havia como atracar os aviões, ao menos que eles pudessem pousar no meio do atol. Talvez pudessem pousar, mas definitivamente não haveria como decolar em tão pouco espaço.

Se o avião não pode pousar dentro do atol, basta criar uma abertura, que serviria como entrada e saída do atol. A solução encontrada por Trippe, com certeza hoje deixaria qualquer ambientalista desesperado, as ordens dadas à tripulação do New Haven eram dinamitar uma porção dos corais. Se o atol antes lembrava uma rosquinha agora era uma ferradura. No atol a Pan American construiu um luxuoso hotel para seus tripulantes e passageiros, e uma bem estruturada base de apoio para servir suas aeronaves.
A nova linha partia de San Francisco com destino a Auckland com escalas em Honolulu e Hong Kong. O primeiro vôo foi realizado com um Sikorsky S-42 e decolou de San Francisco com destino a Honolulu em abril de 1935. Em 22 de novembro do mesmo ano a Pan American realizou o primeiro vôo com o maior avião de passageiros até então construído, o Martin M-130, batizado como China Clipper. O vôo com duração de sete dias, tinha como destino final as Filipinas, após passar por Honolulu, Wake, Guam e Hong Kong..
Visando possuir uma maior abrangência na Ásia, Trippe fundou a China National Aviation Corporation – CNAC, que era responsável pelos vôos locais ligando diversos pontos da Ásia.

Com certeza para a Pan American este era um negócio da China.

Desbravando o Atlântico

Ainda em 1935, Trippe encomendava a Boeing o seu mais novo modelo, o Boeing 314, o maior avião construído, um imenso bote voador que era tido por muitos como um hotel alado. Assim que recebeu seus primeiros 314 em 1938, Trippe tratou de colocá-los na prestigiosa linha para a China. Mas dominar o Pacífico e as Américas ainda não era o bastante, faltava ser o rei do Atlântico. Ainda em 1937, foram realizados inúmeros vôos de teste para verificar a viabilidade operacional de uma linha ligando New York a London.
E não havia melhor aeronave do que o 314 para poder ajudar a Pan American em seu objetivo. Em 1939 era inaugurada a linha para a Inglaterra com escalas no Canadá e Irlanda, logo em seguida começava os vôos para Lisboa via Açores.

Em doze anos de operação a Pan American Airways voava para praticamente toda a América, ligava os Estados Unidos a China e a Europa.