Boeing 747 - Eternamente o Jumbo
 
   
Texto: Edmundo Ubiratan
Parte I

    O maior avião de transporte de passageiros do mundo; Mais de 1.300 aviões construídos; 3,6 bilhões de pessoas transportadas. Desde seu primeiro vôo em 1969 foram mais de 64 bilhões de quilômetros voados, o equivalente a 74 mil viagens de ida e volta a Lua. O maior histórico de confiabilidade e segurança da história da aviação. O avião mais conhecido do planeta.

Dados surpreendentes como esses só podem pertencer a um impressionante avião, que resumiu seu nome a três caracteres numéricos, 7-4-7 conhecido carinhosamente pela maioria de seus passageiros e tripulantes como Jumbo.

O projeto do 747 teve início na década de sessenta, após a Boeing perder o contrato para a construção do CX-HSL (Cargo, Experimental, Heavy-Lift System), um super avião de transporte para a USAF (Força Aérea dos Estados Unidos), capaz de transportar até 750 soldados totalmente equipados.

Devido às características do projeto, os engenheiros da Boeing visitaram inúmeras companhias aéreas, pois o novo avião indiretamente incorporava várias características de um avião comercial.

Paralelamente a Boeing trabalhava no desenvolvimento de um avião supersônico para o transporte de passageiros, o B-2707, que devido à crise mundial do petróleo no final da década de 60, levou o Congresso norte-americano suspender as ajudas financeiras do projeto, levando a Boeing a cancelar o desenvolvimento do B-2707.

Após a Lockheed vencer o programa CX-HSL, com seu C-5A Galaxy, a Boeing presidida na época por William “Bill” Allen, aproveitando que a Pan American Airways buscava um novo avião, com maior capacidade que seus 707, iniciou estudos para aplicações civis do seu projeto militar.

O desenvolvimento

Em agosto 1965 Joseph Sutter reuniu sua equipe para iniciar estudos para o desenvolvimento do programa 747, que teve participação importante da Pan American Airways, na época tinha Juan T. Trippecomo presidente. No tempo em que sendo a Pan American Airways a maior empresa aérea do mundo fazia com que toda a indústria do transporte aéreo vivesse à era do "o que é bom para a Pan Am é bom para o mundo".
Durante todo o desenvolvimento do projeto, Sutter esteve presente todos os dias, exceto uma única vez que passou o Natal com a família.

Anunciado oficialmente no dia 13 de abril de 1966, por ocasião da encomenda de vinte e cinco exemplares pela Pan Am, a um valor de US$ 500 milhões, a equipe formada por mais de 50.000 mil funcionários iniciou o desenvolvimento do 747.

Como inicialmente pensava-se que aviões como os 747 seriam usados principalmente no transporte de cargas, a fuselagem foi projetada para que fossem acomodados em seu interior, dois contêineres de 2,45 x 2,45m, lado a lado.

Visando facilitar a carga e descarga a cabine foi colocada num andar superior, deixando todo o piso principal livre para cargas. Além de possibilitar que o nariz pudesse ser completamente aberto, facilitando as operações.

Inicialmente a área atrás da cabine de comando seria usada para alojar os equipamentos e sistema da aeronave, mas Juan T. Trippe impressionado com o tamanho do espaço disponível teve a idéia de usar esta região para criar um lugar reservado aos prestigiados passageiros da primeira classe. A sugestão foi imediatamente aceita pela Boeing que desenvolveu várias configurações para esse local, as idéias para aproveitamento desse espaço iam de uma simples sala de estar com um bar, passando por uma academia de ginástica, cinema e até um mini cassino foi sugerido.

Outras idéias favorecendo a primeira classe sugiram ao longo do desenvolvimento do avião, como a instalação de um nariz feito de vidro para melhorar a visão dos passageiros. Idéia jamais aprovada pela equipe de projetistas da Boeing.

Após mais 75 mil projetos de engenharia e mais de 15 mil horas de testes no túnel de vento, a Boeing finalmente conseguiu chegar à configuração final do avião, que se tornaria um dos maiores mitos da indústria aeronáutica moderna e seu avião mais famoso, o 747 "Jumbo Jet".

Apartir do solo, a altura da cauda do 747 é de 19.58 metros, o equivalente à altura de um edifício de cinco andares. Ao taxiar o piloto encontrava-se a quase nove metros acima do solo. As enormes asas com 59,60 metros podem alojar até 198 mil litros de combustível e em seu interior passam 217 quilômetros de fios.

Em configuração de classe única, o 747 pode acomodar mais de 500 passageiros em sua imensa área interna de 56,30 metros e os porões podem carregar mais de 27 toneladas de cargas, podendo ser carregados ou descarregados em poucos minutos.

Mas devido às dimensões do avião iniciou-se um movimento “anti-jumbo”, que alegava que um acidente com um avião dessas proporções causaria o mesmo número de vitimas que todos os acidentes ocorridos em qualquer ano.

Com o objetivo de reduzir qualquer tipo de risco a Boeing incumbiu uma equipe de cinco coordenadores para analisar todos os itens do projeto, tipos de falha e como reduzir ao máximo a possibilidade de acidentes. A questão segurança foi prioridade máxima no desenvolvimento do programa 747.

Em junho de 1966, a Boeing adquiriu uma área de 3.156.550m² junto ao aeroporto de Paine Field em Everett, a 50km de Seattle, no estado de Washington, EUA, onde construiu o maior hangar do mundo, com mais de 5,6 milhões de m³, exclusivamente para construir o maior avião comercial do planeta. Anos mais tarde este hangar foi ampliado para incluir também a produção dos modelos 767 e posteriormente do 777.

Com o intuito de agilizar e facilitar os trabalhos a Boeing decidiu sub empreitar a produção de diversos componentes do seu novo avião. A produção dos primeiros deles foi iniciada em setembro de 1967 e a primeira seção completa vinda da unidade de Wichita, Kansas chegou à nova fábrica no dia 21 de novembro, antes mesmo do término da construção da gigantesca fábrica, de 200 milhões de dólares (em quantia da época).

O Primeiro vôo

Menos de três anos após o inicio do desenvolvimento do 747, o primeiro exemplar batizado como "City of Everett" e matriculado como N7470 fez seu roll-out em Paine Field em 30 de setembro de 1968. Durante a cerimônia os coordenadores e executivos das primeiras empresas clientes despejaram alguns litros de champanhe, na fuselagem do avião, comemorando o sucesso do modelo, que já havia recebido encomendas de inúmeras companhias aéreas.

Ainda durante o evento houve vôos rasantes realizados pelos 707, 727 e 737 que eram os modelos em produção até então.

O vôo inaugural aconteceu na fria manhã do dia nove de fevereiro de 1969, sob o comando do comandante Jack Waddell, o co-piloto Brien Wygle e o engenheiro de vôo Jess Wallick. Às 11 horas de 38 minutos, diante de centenas de funcionários da Boeing, jornalistas e convidados decolava para um breve vôo de 16 minutos o maior avião ocidental até os dias de hoje. Provando que a exorbitante quantia de US$1 bilhão gasta durante o desenvolvimento do modelo havia sido bem aplicada.

Logo após o pouso Waddel definiu as qualidades do 747 com as seguintes palavras "este avião é a resposta ao sonho de cada piloto”.

Boeing não construiu nenhum protótipo, apenas cinco exemplares para testes e homologação. O "City of Everett" junto com as outras quatro unidades foram incorporados aos extensos programas de certificação exigido pela FAA (Federal Aviation Administration). O Certificado de Tipo foi emitido pela FAA no dia 30 de dezembro do mesmo ano, após serem realizados 1.013 vôos que ao todo duraram 1.400 horas e consumiram a exorbitante quantia de 28 milhões de dólares - em dinheiro da época.

Durante os vôos de teste o motor original Pratt Whitney JT-9D, foi trocado nada menos do que 55 vezes, mas mesmo assim o motor foi aprovado como a motorização do modelo –100.

Dos cinco modelos de teste, quatro foram reconfigurados pela Boeing e entregues a cliente, exceto o “City of Everett" que se tornou demonstrador do modelo. Recentemente o “City of Everett” foi enviado ao Museu do Vôo, localizado ao lado das instalações da Boeing em Everett.