O prenúncio
Desde o final da Segunda Guerra os Estados Unidos
realizavam vôos de reconhecimento próximos ou sobre
a URSS, sendo que o inverso também não era nenhuma
novidade. O primeiro vôo de reconhecimento por parte dos
Estados Unidos contra a URSS aconteceu em 1946 quando aeronaves
Boeing B-29 realizaram diversas surtidas conta a União
Soviética durante a Operation Nanook. Porém este
tipo de missão tornou-se mais freqüente especialmente
no Pacifico após a década de 1960, quando os soviéticos
começaram a dar maior importância ao Extremo Oriente.
Entre 1962 e o inicio a década de 1980 o número
de divisões do exército vermelho na região
saltou de 18 para 47, sendo que neste período mais de 2000
aeronaves de combate foram baseadas na região.
Desde o inicio os Estados Unidos observavam com atenção
esta movimentação na região do Pacifico,
mas após a posse do presidente Ronald Reagan em 1981, os
Estados Unidos começaram aumentar ainda mais a presença
militar na região, para contrapor a expansão soviética
que já era vista como uma séria ameaça.
Devido aos problemas enfrentados durante as negociações
referentes a limitação de armas táticas em
poder de ambos os países, o presidente Reagan após
declarar que a União Soviética era o império
do mal, iniciou em março de 1983 o programa “Guerra
nas Estrelas” e aumentou ainda mais a presença militar
no Oceano Pacifico.
No final de março de 1983 os Estados Unidos iniciaram o
Fleetex ’83, que consistia em um exercício militar
envolvendo três porta-aviões e quase 40 navios norte-americanos
próximos a Península de Kamchatka. O exercício
foi quase que totalmente realizado a poucos minutos de vôo
de Petropavlovsk, a principal base de submarino da marinha da
URSS e portando dentro da área de patrulha dos submarinos
soviéticos.
A intenção da U.S. Navy era exatamente de provocação,
mostrando aos soviéticos que eles estavam ali, muito bem
armados e com capacidade de atacar em poucos minutos o território
soviético.
Se já não fosse bastante esta provocação
com inúmeros navios próximos a águas soviéticas,
no dia 4 de abril, os porta-aviões USS Enterprise e USS
Midway enviaram aviões F-14A Tomcat e A-6E Intruder que
sobrevoaram o arquipélago de Kurilas, já em território
soviético sem qualquer problemas. Este episódio
colocou a defesa aérea soviética em alerta máximo,
pois aviões norte-americanos haviam sobrevoado a URSS sem
terem sido importunados, o que mostrava uma falha imperdoável
da defesa soviética.
Entra em cena o Cobra Ball
No dia 29 de agosto foi notada uma enorme movimentação
na região de Plesetsk, que foi imediatamente associada
aos testes e lançamento de um ICBM. Durante todos os testes
com mísseis balísticos, os soviéticos realizavam
o lançamento a partir de Plesetsk ou Tyuratam sendo que
a queda da ogiva invariavelmente ocorria sobre a Península
de Kamchatka.
Após a confirmação de que um ICBMPL-5 encontrava-se
pronto para o lançamento, por um satélite espião
norte-americano a USAF enviou o seu único RC-135S disponível
no momento para a região o RC-135S 61-2663.
O RC-135S era um avião montado sobre a plataforma do Boeing
135 (primeira versão militar do Boeing 707), com inúmeras
modificações dedicado exclusivamente as tarefas
TELINT (Telemetry Intelligence) que buscava verificar o cumprimento
das conversasões sobre a limitação de armas
estratégicas, o SALT (Strategic Arms Limitations Talks).
O RC-135S, mais conhecido como Cobra Ball I, era capaz registrar
automaticamente a telemetria durante a reentrada na atmosfera
de qualquer ICBM soviético e ainda realizar uma série
de fotografias de todo o evento. O que permitia uma analise minuciosa
de todo o teste realizado. O Cobra Ball I 61-2663 era baseado
na Eislson AFB no Alaska, sob o comando do 24º Strategic
Reconaissance Squadron do 6º Strategic Wing.
Na noite de 30 de agosto, o Cobra Ball 61-2663 foi enviado a Shemya
AFB, uma das bases aéreas dos Estados Unidos no Japão
para aguardar ordens para voar próximo a Península
de Kamchatka, a poucos minutos de vôo do limite da ADIZ
(Air Defense Identification Zone) soviética. O objetivo
era acompanhar e registrar a reentrada do míssil soviético.
Na noite do dia 31 o Cobra Ball 61-2663 decolou para aguardar
a reentrada do ICBM soviético. O padrão da missão
naquele dia consistia em voar a uma altitude de 29.000 pés,
realizando uma série de órbitas em forma de “8”
um pouco além do limite da ADIZ soviética.
Korean 007 - Destino: Seul
Poucas horas antes da decolagem do 61-2663, estava sendo preparado
em Nova Iorque o vôo KE 007, da Korean Airlines com destino
a Seul, com escala em Anchorage no Alaska. O vôo KE 007
mais conhecido pelos passageiros como KAL 007, era um dos vôos
mais rentáveis da empresa coreana, sendo que a maior parte
dos passageiros eram homens de negócios e turistas norte-americanos.
Um dos principais atrativos eram o valor relativamente mais baixo
das passagens e o excelente serviço oferecido. O que fazia
com que a maioria dos passageiros, ou todos, esquecer que a Korean
era tida como uma das empresas com maior índice de acidentes
e incidentes do mundo.
Anos antes um 707 da empresa foi derrubado após voar sobre
território soviético, felizmente o piloto conseguiu
pousar com segurança em um lago congelado, mesmo com a
aeronave seriamente danificada.
As 23:50 do dia 31 de agosto a tripulação do 747-200B,
matrícula HL-7442, que assumia o vôo KAL 007 fechava
as portas do avião que contava com 240 passageiros abordo.
Destes 75 eram cidadãos sul-coreanos, 23 chineses de Taiwan,
12 chineses de Hong Kong, 6 tailandeses, 28 japoneses, 61 norte-americanos,
10 canadenses e 4 australianos. Dentre os passageiros norte-americanos
estava o senador Lawrence McDonald.
As 00:07 do dia 01 de setembro decolava de Nova Iorque o HL-7442
para cumprir sua primeira etapa do vôo até Seul.
Exatamente as 03:30 o jumbo tocava a pista do aeroporto de Anchorage
para uma escala afim de trocar a tripulação, reabastecer
e limpar o interior da aeronave, o tempo total estimado era de
50 minutos.
Um casal de norte-americanos com seus dois filhos desembarcariam
também.
Em Anchorage o KAL 007 prepara-se
para entrar para a história
Enquanto os passageiros aproveitavam a escala para comer ou caminhar
após o longo vôo, a nova tripulação
assumia o vôo. A etapa final até Seul estaria agora
sob a responsabilidade do conceituado e respeitado Cmte. Chun
Byung-in, ex-piloto de caça da ROKAF - Republic of Korea
Air Force, que voava na Korean Airlines desde 1972, possuindo
mais de 10.000 horas de vôo, das quais mais de 3.600 eram
em comando no Boeing 747. O Cmte. Byung-in possuía um currículo
invejável, tendo inclusive sido escolhido em três
ocasiões para ser o piloto reserva de vôos presidenciais.
Ele era tido pelos colegas como alguém que buscava sempre
a perfeição, sendo que sempre tentava realizar os
vôos com o menor tempo possível e com a maior economia
de combustível possível. Mas nesta noite parte de
suas atitudes passariam a ser questionadas até os dias
de hoje.
O co-piloto Son Dong-Hui assim como o Cmte. Byung-in era um dos
mais experientes da empresa, e também havia passado pela
ROKAF, e apesar de estar apenas há quatro anos voando pela
Korean Airlines, ele detinha mais de 9.000 horas de vôo,
sendo que mais de 3.400 eram no 747.
O engenheiro de vôo Kim Eui-Dong era um experiente profissional,
com mais de 4.000 horas de vôo, sendo que mais de 2.600
eram como “Flight” de 747.
Enquanto a equipe de limpeza finalizava os trabalhos na aeronave,
o Cmte. Chun Byung-in se dedicava a supervisionar e analisar as
tarefas que antecediam o vôo. Uma das primeiras atitudes
do Cmte ao verificar que os ventos na aerovia internacional R-20
eram significativamente mais fracos que o previsto, foi atrasar
o vôo em 40 minutos visando aproveitar os ventos mais fortes
previstos para mais tarde. Além de realizar outras mudanças
no vôo que achava serem necessárias, dentre elas
a redução na quantidade de combustível que
deveria ser abastecido o avião. Esta atitude foi posteriormente
vista pela comissão de investigação como
imprudente e arriscada. Pois haviam sérios riscos da aeronave
ter de alternar em algum aeródromo no Japão por
falta de combustível.
Após o preenchimento do novo plano de vôo, o Cmte
Chun Byung-in e os demais membros da tripulação
embarcaram para certificarem que tudo estava corretamente conforme
planejado. Enquanto o co-piloto Son Dong-Hui realizava o check
externo, o Cmte. vistoriava o trabalho da equipe de comissários
e o engenheiro de vôo Kim Eui-Dong estava na cabine preparando
o vôo.