|
É importante citar que a partir deste
momento não há qualquer prova do que realmente ocorreu
na cabine, sendo que o autor optou por utilizar a possibilidade
mais aceita pela comissão investigadora, dentre os quatro
possíveis cenários criados pela ICAO (International
Civil Aviation Organization) para explicar a seqüência
de erros cometidos pela tripulação do KAL 007.
Os relatórios consultados pelo autor foram “Relatório
C-WP/7764 Destruction of Korean Air Lines Boeing 747 over Sea of
Japan, 31 August 1983: Report of ICAO Fact-Finding Investigation,
de 2 de dezembro de 1983; Relatório C-WP/7809 Final Report
of Investigation as Required by Council Resolution of 16 September
1983: ICAO Air Navigation Commission, de 2 de fevereiro de 1984.
Parte dos relatórios publicados ainda são de caráter
sigiloso, sendo possível em algum dos casos acesso apenas
a parte do material.
O HL-7442 estava equipado com três modernas plataformas
INS - Inertial Navigation Systems, Litton LTN-72R/28, que apesar
de serem o que havia de mais moderno disponível até
então, dependiam que fossem programadas e alinhadas manualmente.
A programação e alinhamento do sistema de navegação
inercial estavam sob a responsabilidade do engenheiro de vôo,
que deveria programar a três plataformas.
Pela lógica sempre se começa o trabalho pelo INS 1,
que é o utilizado pelo 1 piloto e que controla o piloto automático
da aeronave. Para setar os dados que seriam utilizados, o engenheiro
de vôo Kim Eui-Dong inseriu no primeiro INS um cassete que
continha todos os 9 waypoint (Nabie, Nukks, Neeva, Ninno, Nippi,
Nytim, Nokka, Noho e Inkfish) da aerovia R-20 pré-programados
e demais instruções com relação ao perfil
de vôo.
Para que qualquer sistema INS possa realizar corretamente sua navegação,
é necessário informar ao sistema as coordenadas geográficas
sobre as quais a aeronave se encontra no momento. Normalmente utiliza-se
a estação VOR mais próxima, pois permite uma
rápida e segura verificação do sistema com
relação a um ponto conhecido.
Porém apesar da estação VOR Anchorage estar
a pouco mais de 6 quilômetros do aeroporto seu uso não
foi possível, já que naquela noite ela encontrava-se
inoperante devido a trabalhos de manutenção.
Fazendo com que Kim Eui-Dong opta-se por utilizar as coordenadas
da cabeceira 32 que seria utilizada para decolagem.
Inicia-se a seqüência de
erros
Foi então que Kim Eui-Dong cometeu seu primeiro e mais grave
erro, enquanto digitava no teclado as coordenadas ele inseriu a
longitude 149º59’06’’W ao invés da
latitude correta 139º59’06’’W. O que representou
um erro de nada menos que 555km a leste da sua verdadeira posição.
Após inserir as coordenadas era necessário colocar
o sistema no modo desired track / status para acionar a unidade.
Infelizmente ao passar o sistema para este modo, todas as coordenadas
inseridas são apagadas do display que entende que uma verificação
prévia foi realizada antes. Mas não foi o que ocorreu.
Ao finalizar os trabalhos no primeiro INS Kim Eui-Don passou para
INS do 2 piloto, que ao inserir desta vez as coordenadas corretas
fez com que o sistema acendesse uma luz âmbar avisando que
havia algum erro entre as unidades. Como a luz acendeu exatamente
no momento que ele terminou de colocar a latitude, é provável
que ele tenha pensado que o sistema tenha dado o alerta pois ainda
não havia sido imputada a longitude. É possível
que antes de ignorar o sinal de alerta ele tenha conferido os dados
contidos no display com o que possuía em mãos e verificando
a ausência de erros tenha cancelado o aviso para poder inserir
a longitude. Mas mantendo o erro no INS 1, pois ele jamais imaginaria
que o sistema havia acusado o erro baseado na discrepância
entre o INS 1 e 2.
Ao terminar a programação do INS do co-piloto, ele
programou o seu INS inserindo novamente as coordenadas corretas.
Mas desta vez o sistema não poderia acusar nenhum erro, já
que o aviso de erros acabara de ser desligado.
Enquanto Kim Eui-Don realizava os demais checks na cabine, chegou
o Cmte e o co-piloto, que iniciaram os preparativos na cabine para
cumprirem mais este vôo.
Com as três plataformas INS alinhadas o Cmte Chun Byung-in
inseriu dois novos waypoints, que eram as estações
VOR Cairn Mountain e Bethel. Que seriam utilizados para levar o
jumbo até a aerovia R-20. Agora o sistema inercial contava
com 12 waypoints, sendo o zero o Aeroporto de Anchorage, um Cairn
Mountain, dois Bethel, e de 3 a 12 os waypoints anteriormente inseridos.
A última chance de conferir com exatidão o alinhamento
do INS era o waypoint 3, pois a partir dele todos os demais eram
fixos imaginários distribuídos ao longo do corredor
que os levaria até Seul, distantes um dos outros aproximadamente
550km. O objetivo destes waypoints é apenas servir como referencias
para as devidas correções de proa da aeronave, visando
manter o rumo correto.
Decolando para sua última etapa
Pontualmente as 05:00 o HL-7442 decolava de Anchorage, com tempo
estimado até Seul de 8 horas e 20 minutos. As 05:02 o jumbo
iniciava uma curva para interceptar o VOR Cairn Mountain, o que
permitiria o Cmte. Chun Byung-in relizar a aferição
do alinhamento do INS contra uma estação VOR. Por
normal da Korean Airlines (e da maioria das empresas aéreas)
era expressamente proibido o acoplamento do piloto automático
sem a verificação do alinhamento do INS com uma estação
VOR.
Acredita-se que logo após a decolagem o Cmte. Chun Byung-in
acoplou o piloto automático, sem a necessária confirmação
do correto alinhamento do sistema. Como o KAL 007 tinha sido autorizado
a voar direto até o VOR Bethel, não havia como verificar
o alinhamento utilizando o VOR Cairn Mountain que era agora o último
fixo realmente conhecido, já que Bethel estava a aproximadamente
15 minutos de vôo e o piloto automático estava acoplado.
Visando uma maior economia de combustível o Cmte. Chun Byung-in
inseriu um novo waypoint no INS, que substituiria Bethel e permitiria
chegar mais rapidamente na aerovia R-20. Este novo waypoint distanciava
aproximadamente 351km do waypoint Nabie que passara agora a ser
o terceiro da rota e não mais o quarto.
Mas devido ao erro de 10º no INS1 o novo waypoint estava a
555km a leste de Nabie. As 05:38 quando o avião passou no
través do waypoint Cairn Mountain o segundo originalmente
inserido, o INS1 indicou que eles se dirigiam em direção
ao waypoint recém inserido enquanto os INS 2 e 3 indicavam
que agora eles voavam em direção a Bethel. Os INS
2 e 3 a partir desse momento indicariam sempre um waypoint à
frente do que era apresentado no INS 1.
Neste momento o KAL 007 com seu erro de 10º iniciou uma suave
curva para a direita, enquanto o Cobra Ball 61-2663 aguardava pacientemente
a reentrada do seu alvo. Iniciando assim a contagem regressiva para
o KAL 007 entrar para a história da Guerra Fria.
Logo após o KAL 007 atingir 10.000 pés, o Cmte. Chun
Byung-in deixou a cabine, provávelmente para cumprimentar
os passageiros, procedimento muito comum na Korean Airlines. O que
contribuiu para anular qualquer possibilidade de ser detectado a
tempo o erro do INS 1, já que o co-piloto Son Dong-Hui estaria
monitorando seu próprio INS e o avião acabara de sair
do alcance dos radares do ATC Anchorage.
Para complicar ainda mais, os tempos de vôo entre todos os
waypoints eram praticamente idênticos, reduzindo ainda mais
as chances de um dos pilotos perceber algum erro. Neste instante
para Son Dong-Hui o avião saia do waypoint Nabie e voava
rumo a Nukks enquanto para o INS 1 o avião estaria agora
voando em direção a Nabie.
Na verdade o KAL 007 não voava rumo a nenhum desses fixos
e sim para um falso Nabie, já fora da aerovia R-20. Enquanto
o HL-7442 voava em uma falsa aerovia, o Cobra Ball voava próximo
a ADIZ soviética e era acompanhado pelos sistemas de vigilância
da URSS. Porém a sorte não estava do lado da tripulação
do Cobra Ball, já que por razões desconhecidas até
os dias de hoje, não houve nenhum lançamento. Sendo
que as 00:35 foi emitida uma ordem para regressarem a Shemya, e
as 00:37 ele iniciou uma curva fechada para a esquerda se distanciando
cada vez mais do alcance dos radares soviéticos. Enquanto
o Cobra Ball deixava a área o KAL 007 ingressava no que a
tripulação imaginava ser o waypoint Neeva e o INS
1 o waypoint Nukks, que na realidade era o limite da ADIZ soviética.
Entrando no espaço aéreo
soviético
As 00:51 os radares soviéticos começaram a acompanhar
dois aviões em rotas opostas, o que levou os controladores
que monitoravam os aviões a imaginarem que o KAL 007 poderia
ser outro RC-135S ou um KC-135, que deveria realizar o reabastecimento
do Cobra Ball que já estava na área a mais de oito
horas.
Porém nove minutos depois um dos aviões aproou Shemya
enquanto o segundo voava rapidamente em direção a
Petropavlovsk, o que levou os soviéticos a terem certeza
que o KAL 007 era um outro RC-135S.
Enquanto o KAL 007 voava em direção a Petropavlovsk
o comando da IA-PVO em Khabarovsk foi alertado sobre o intruso,
que imediatamente entrou em contato com os ATC da região
para verificar a existência de vôos militares ou civis
naquela área.
Após obter a confirmação que nenhuma aeronave
militar ou civil soviética encontrava-se naquela região,
foi realizada a primeira tentativa de obter contato com a aeronave
intrusa, sem qualquer sucesso.
As 01:12 os radares do 6981º ESG (Electronic Security Group),
localizado na AFB de Elmendorf a poucos quilômetros de Anchorage,
assim como os sistemas do 6920º ESG localizado em Misawa, próximo
a Tóquio, detectaram um expressivo aumento nas atividades
de comunicação nas redes soviéticas, que acompanhavam
um avião não identificado entrando sobre a ADIZ de
Kamchatka.
Como nenhuma aeronave norte-americana se encontrava na área
naquele momento, foi concluído por ambos ESG que o evento
nada mais era que um exercício de interceptação.
A 01:23 quando o KAL 007 penetrou o ADIZ de Kamchaka as unidades
da IA-PVO foram acionadas para realizarem uma possível interceptação.
Sendo que os primeiros seis MiG-23 decolaram de uma base aérea
localizada ao norte de Petropavlovsk a 01:37. Mas devido a uma tempestade
que atingiu a região dias antes e destruiu grande parte das
antenas do sistema radar que ofereciam cobertura sobre o mar de
Okhotsk, o controle de interceptação de Talinskaya
Bukhta não foi capaz de coordenar os MiG-23, perdendo o KAL
007.
Durante exatos 29 minutos o 747 voou sem ser visto pelo sistema
de vigilância soviético o que causou um verdadeiro
pandemônio na rede de comunicação entre as unidades
da IA-POV e ZA-POV.
Tanto que as 02:04, o KAL 007 abandonava o espaço aéreo
da região de Kamchatka, ingressando em espaço aéreo
internacional.
O destino conspira contra o KAL 007
As 02:44, o KAL 007 voltou a aparecer nos radares soviéticos,
sendo captado por uma estação em Yzhno-Sakhalinks
e pelos sistemas localizados da base aérea da IA-POV em Burevestnik.
Neste mesmo instante, uma estação de inteligência
eletrônica da NSA (National Security Agency) denominada Project
CLEF, localizada em Wakkanai ao norte do Japão, captou uma
mensagem urgente entre a estação radar em Burevestnik
e Khabarovsk. E ainda as comunicações realizadas pelos
três aviões Sukhoi Su-15TM que decolaram da base de
Dolinsk-Sokol as 02:56.
Enquanto os soviéticos tentavam entender e coordenar uma
ação contra a aeronave invasora e os norte-americanos
tentavam descobrir que aeronave seria esta, o KAL 007 entrava em
contato com o controle japonês, tendo o co-piloto Son Dong-Hui
informando que estava na proa de Nokka e voava 31.000 pés
a 555 nós.
Neste momento o 747 voltava a ingressar sobre espaço aéreo
soviético, sobrevoando agora a ADIZ da Ilha de Sakhalin,
sendo que as 03:00 decolava da base aérea de Smimykh um MiG-23
que também deveria acompanhar o KAL 007.
Às 03:06 o Ten. Cel. Gennadi Osipovich, que voava o Su-15TM
“Vermelho 17” sendo vetorado pelo GCI Yuzhno-Sakhalinsk,
reportou que estava pouco atrás do intruso, mas que devido
às densas camadas de nuvens não pode identificar exatamente
qual era a aeronave invasora.
Às 03:07 o KAL 007 realizou uma curva fechada para a direita
rumo a noroeste, fazendo com que o Ten. Cel. Gennadi Osipovich indaga-se
o GCI a nova proa do invasor, pois agora a aeronave voava diretamente
para o continente. Teoricamente qualquer aeronave invasora realizaria
uma curva para esquerda visando retornar para o espaço aéreo
internacional.
Para o Ten. Cel. Osipovich se existia alguma chance dessa interceptação
ser um exercício esta chance não existia mais. Estava
claro que ele estava exatamente atrás de um maldito RC-135S.
Acredita-se que esta curva tenha sido comandada pelo INS 1 que pode
ter sido re-programado através de remote-load pelo co-piloto
Son Dong-Hui, que tinha como informação em seu INS
que o avião dirigia-se agora rumo ao waypoint Nokka. Sendo
que o novo waypoint inserido Kangnung era uma estação
VOR próxima a Seul. Neste caso o INS 1 tinha a indicação
de estar voando rumo ao waypoint Nytim, fazendo com que o mesmo
entendesse que deveria voar até Seul através do waypoint
Kangnung localizado a mais de 2.400km a sua frente. O que era considerado
impossível para o sistema.
Talvez percebendo que algo estava errado com o INS o co-piloto,
tenha re-programado as 03:08 o INS 1 que agora entendia que estava
voando em direção a Seul através do novo waypoint
Kangnung. Fazendo com que o jumbo realizasse uma suave curva para
a esquerda. As 03:09 o Ten. Cel. Osipovich confirmou a informação
do GCI que agora o alvo encontrava-se a 80º a esquerda do “Vermelho
17”.
Alvo avistado
Às 03:13 o Ten. Cel. Osipovich se aproximou do KAL 007 na
tentativa de identificar a aeronave invasora, tendo informado que
tinha contato visual e radar com o intruso, sendo que um minuto
depois confirmou que estava com um lock-on. Em seguida o “Vermelho
17” iniciou o processo de interrogar eletronicamente a aeronave,
confirmado que não se tratava de uma aeronave soviética,
o Ten. Cel. Osipovich selecionou a arma a ser utilizada caso viesse
a ser solicitado. Agora o KAL 007 tinha apontado para ele um míssil
R-98RM de guiagem semi-ativa com aproximadamente 45Kg de explosivo
em sua ogiva.
03:15 o co-piloto Son Dong-Hui entrava em contato com o ATC Tóquio
solicitando uma ascensão para o FL350, visando uma maior
economia de combustível. As 03:16 o KAL 007 já cruzava
o litoral leste da Ilha de Sakhalin, e dentro de aproximadamente
10 minutos já estaria novamente em espaço aéreo
internacional.
Como o tempo para os soviéticos estava se esgotando, foi
solicitado ao “Vemelho 17” uma nova tentativa de identificar
visualmente o intruso. Acredita-se que devido a escuridão
o Ten. Cel. Osipovich tenha visto apenas a silhueta do jumbo e os
quatro rastros de condensação que saiam de seus motores.
O que poderia levar qualquer um naquela situação julgar
que um 747 era realmente um RC-135S. O único fato que denunciara
que aquele não poderia ser um avião militar voando
alguma missão de espionagem eram as luzes de navegação
acessas. Possivelmente na hora o Ten. Cel. Osipovich tenha imaginado
que aquela tenha sido a forma que a tripulação do
Cobra Ball tenha encontrado para tentar se manter o mais oculto
possível, justamente tornando-se visível para ser
confundido com avião civil. Afinal os soviéticos perderiam
alguns minutos tentando confirmar se aquele era ou não um
avião comercial. Minutos que poderiam ser vitais para a sobrevivência
daquela aeronave.
Desperdiçando a última
chance
03:20 o “Vermelho 17” foi instruído a disparar
uma rajada com seus canhões com o intuído de atrair
a atenção da aeronave. Pois com certeza em Moscou
muitos temiam o que aconteceria caso o episódio de 20 de
abril de 1978 se repetisse. Foi nesta ocasião que o 707 da
Korean Airlines foi abatido por engano. E repetir esse episódio
poderia trazer gravíssimas conseqüências para
os envolvidos ou até mesmo para a URSS.
Porém neste mesmo instante o KAL 007 foi autorizado pelo
ATC Tóquio a subir para 35.000 pés, o que foi prontamente
atendido. Neste instante enquanto o jumbo iniciou a subida perdendo
lentamente velocidade, o Su-15TM disparou quatro rajadas, que passaram
muito mais baixo do que o 747 neste momento. A perda de velocidade
do KAL 007 fez com que o “Vermelho 17” quase ultrapassasse
o jumbo.
Profundamente irritado pela mudança de altitude da aeronave
invasora, e agora mais do que nunca com a certeza de estar perseguindo
um RC-135S, o Ten. Cel. Osipovich informou que a ordem para abater
o avião já deveriam ter sido dada.
Às 03:23 o Ten. Cel. Osipovich informou que estava quase
emparelhado com o alvo, e solicitava instruções, avisando
que estava reduzindo a velocidade e que neste momento o intruso
estava a 70º a esquerda.
No mesmo instante o co-piloto Son Dong-Hui informava ao ATC Tóquio
que já se encontrava no FL350.
O vôo KE 007 chega ao final
Exatamente as 03:27 já se encontrava diretamente atrás
do KAL 007 e recebia autorização para destruir o alvo.
Tendo reportado em seguida que havia lançado o míssil.
Segundos depois o míssil atingia o cone de cauda do 747,
causando imediatamente uma despressurização explosiva
na cabine principal. Menos de 10 segundos depois foi lançado
um outro míssil, desta vez um R-98TM guiado por infravermelho,
que atingiu o motor 2 do jumbo. As 03:27:45 o Ten. Cel. Osipovich
informava ao GCI que o alvo fora destruído.
Porém não foi o que aconteceu naquele instante. Com
seus sistemas hidráulicos seriamente danificados, com uma
severa descompressão ocorrendo, que ocasionava uma perda
imediata de altitude e a perda dos motores da asa esquerda e praticamente
todos os comandos desta asa a cabine do 747 tornou-se um inferno.
Inúmeros avisos sonoros e luminosos dispararam, os controles
se tornaram inúteis e extremamente difíceis de serem
controlados e o Boeing agora iniciava uma lenta curva para a esquerda
fora de controle e com uma razão de descida cada vez maior.
Neste momento do co-piloto Son Dong-Hui transmitiu a última
mensagem do KAL 007, informando que havia sofrido uma descompressão,
com perda de controle e voava sem motores. A transcrição
desta ultima mensagem jamais foi possível devido ao enorme
chiado e inúmeras interferências sofridas possivelmente
por uma pane elétrica.
O KAL 007 continuava sua lenta queda, estando a mais de quatro minutos
numa espiral descendente, que era acompanhada pelos radares de Wakkanai
e pelos sistemas radar soviéticos.
Ainda sem a confirmação da destruição
do alvo, o GCI solicitou a dois MiG-23 que se encontravam na área
para confirmarem a destruição da aeronave, às
03:38 um dos MiG informou que não tinha visual com absolutamente
nada e solicitava vetoração para regressar a Smirnykh.
Finalmente as 03:39 o KAL 007 mergulhava nas frias águas
do Mar do Japão, encerrando assim os 12 longos minutos de
agonia vivido por todos os 269 ocupantes do jumbo.
Na manhã daquele primeiro dia de setembro de 1983 as diversas
agências de inteligência dos Estados Unidos perceberam
que a agitação ocorrida naquela madrugada não
era um exercício militar. Os únicos que perceberam
imediatamente que os soviéticos tinham acabado de derrubar
uma aeronave foi os cinco homens que guarneciam a estação
do Project CLEF, e mesmo assim apenas após o Ten. Cel. Osipovich
informar que havia lançado o míssil e que o alvo fora
destruído.
Apesar de estar claro em todas as gravações que os
soviéticos, incluindo o Ten. Cel. Osipovich tinham a mais
absoluta certeza de terem derrubado um RC-135S, os Estados Unidos
não iriam perder a chance de acusar a URSS de terem novamente
derrubado uma aeronave civil.
Com certeza esse foi um dos episódios mais marcantes da Guerra
Fria e foi um dos marcos para fortalecer o discurso político
de Ronald Reagan que acusava a URSS de ser o império do mal.
Enquanto a URSS acusava a Korean Airlines de realizar vôos
de reconhecimento para o governo norte-americano.
Existem dezenas de teorias consipiratórias para explicar
este evento, desde que a Korean Airlines dispunha inúmeros
Boeing 747-200B dotados de equipamentos de reconhecimento, até
que os pilotos conseguiram pousar o 747 em segurança, sendo
que os sobreviventes se encontram até os dias de hoje presos
na Russia.
|