P-47 Thunderbolt
 
 
 
   
 
Texto: Rafael Ap. de Lima Peres
    Uma prancheta, um lápis, de repente uma intuição. Assim nascem todos os projetos. Desenhos e formas que a princípio são materializadas, às vezes, até no papel de pão, outras no verso de um impresso e, na falta deste, até mesmo em um lenço de tecido. Traços que brotam no projetista em momentos inesperados, seja sobre pressão ou na descontração. Nesta situação com certeza saem traços com maior prazer, é lógico. Projetos que brotam em uma pescaria, em uma caminhada e, às vezes, em um sonho.

Com certeza não foi diferente com o P-47 Thunderbolt. Projetado pela Republic Aviation Corporation, sendo uma evolução do desenho do P-35 e do XP-43, por Alexander Kartveli, nos idos do ano de 1941. Verdadeira obra de arte esculpida e moldada com muito intelecto e bom senso, com muito lápis, muita borracha, pitadas de esquadros, entre outros instrumentos de cálculos e medidas. Métodos um pouco diferentes de ilustres criadores como Michelangelo e Aleijadinho, mas muito parecidos, ou melhor, derivados de da Vinci, este sim precursor dos engenhos aeronáuticos, todavia, mantendo toda a essência e brilhantismo de todos os inventores, projetistas, artistas, enfim, de todo criador que se empenha para criar um engenho que ajude no progresso da sociedade.

Foram produzidas 15.683 unidades, destas 67 foram disponibilizadas ao 1o Grupo de Aviação de Caça da FAB (Força Aérea Brasileira), o magnífico Senta a Púa, integrante daquele esquadrão estadunidense, atuando com sucesso nos céus italianos no combate às tropas inimigas.

Neste cenário, já que exercício mnemônico só pode ser conferido aos Jambocks, vamos dando asas à imaginação. Vamos compor a paisagem, o horizonte, os cúmulos gorduchos demonstrando sinais de turbulência, as montanhas a perder de vista, aquela colcha de retalhos que se confere ao solo arado e cultivado por diversos tipos de culturas. Exigindo um pouco mais, podemos aos poucos sentir o ar, o vento, ver a esquadrilha amarela, o Jambock B-5, e, infelizmente, a Guerra, Flak! Enormes bolhas negras de fumaça e estilhaços! O Thunderbolt desvia com vigor, debochando da afronta e, em ato contínuo, inicia um mergulho digno de peixes pescadores, à velocidade próxima à do som. Mais Flak! Novamente ignorado, curva estonteante... Nossa que G positivo! A estrutura das asas sustenta modestos 1.528 quilos de massa, ou seja, seu peso vazio, além de armamento e combustível, fazendo o conjunto pesar até 6.623 quilogramas! Imaginem tudo isso multiplicado pela respectiva força G em que o aparelho foi submetido na manobra. Uma primazia! Atitude recuperada, bomba lançada. Nova ascensão, o mergulho é inevitável. Flak! Passou por perto... alvo na mira, gatilho acionado. Ponto 50 em ação. A lei da ação e reação aplicada aos disparos das oito metralhadoras fazem a aeronave perder velocidade, mas quem perde mais são os tedescos. Menos um depósito de munições disfarçado de estábulo, menos veículos a serviço do ideal nazista. Estão todos, agora, com toda sua lataria e mecânica transpassadas por .50 mm. Última ascensão para dispersão. Perfeito. Missão cumprida! Agora é só retornar para Pisa.

No flare, homem e máquina, por instantes, parecem hesitar em tocar a pista, talvez seja essa uma explicação subjetiva ao efeito solo que surge neste momento único e interminável em que a aeronave flutua de acordo com a teoria, sem Bernoulli, mas com Newton. Pousar é imperativo, o combustível uma hora irá acabar.
Máquina para as oficinas, homem para o acampamento. Naquelas, o ambiente ressoa a martelos e máquinas rebitadeiras. Neste, ouvimos gritos de “Adelfi!”, bem como toda descontração juvenil. De um lado, o descanso edificante para o corpo e mente do Senta a Púa, do outro, o descanso dos P-47, tendo sua robustez lubrificada, concertada e revisada. Tudo cuidadosamente e com muito carinho feito pelos mecânicos, verdadeiros “Anjos da Guarda”, como denomina nos dias de hoje o respeitável Esquadrão de Demonstração Aérea da FAB, a querida Esquadrilha da Fumaça. Anjos que ainda não foram para seus leitos, seguindo pela noite batendo suas asas com toda a presteza para a recuperação dos Jambocks metálicos.

Já diante de mais um amanhecer italiano, encontramos o acampamento banhado por uma luz azul, o céu ainda ostenta algumas estrelas. Os primeiros raios de sol tentam discretamente transpor as montanhas para deixar cor púrpura-alaranjada alguns cúmulos que habitam o firmamento.
Aeronave pronta, pilotos no despertar, é possível ver a fumaça que sobe dos sistemas de calefação, improvisados, mas eficientes dos pilotos. A movimentação aumenta, briefings intermináveis de Nero Moura, transmitindo instruções para mais um bem sucedido dia de missões a serem cumpridas com o sucesso de costume.

Piloto sob a asa, mecânicos dando os últimos retoques. Em instantes, homem e máquina se unirão. Um fenômeno surreal, cheio de energia e emoção, invisível aos olhos, mas sentido pelo coração. Uma união fiel entre piloto e avião, sacramentada pelos laços de afinidade entre a capacidade e a vontade natas do aviador, entre o “desejo” da aeronave em voar, desejo este almejado pelo seu projetista. Um momento sagrado... Como se fosse em um filme, o piloto de caça, já sentado no cockpit, ao mentalizar sua missão, em meio aos procedimentos do check-list, traz à sua mente inconscientemente, na velocidade do pensamento, tudo que já executou por toda sua jovem vida, e tudo que ainda tem de fazer. Tudo se projeta em sua tela mental, conferindo ao aviador mais ânimo e mais vontade de vencer a empreitada a que fora designado.

Já não é mais possível divisar o que é avião e o que é homem. O que se vê é um só ideal patriota e humano, ideal brasileiro e mundial. Um anseio da humanidade de ver um mundo livre dos propósitos alemães e tedescos. Divisamos um ideal de paz, paradoxalmente materializado em equipamento bélico pronto para ter seu motor acionado. Neste momento, os pássaros cessam seus cantos, em respeito ao Thunderbolt, em virtude desta maravilhosa união aludida, bem como aos ideais de trazer a paz de volta à sociedade mundial. O tempo, apesar de não parar, concede a impressão de estar bem mais lento. É o momento! Os calços são retirados, passo embandeirado, mistura rica, acelerador levemente avançado... Magnetos "On"!

Como se fosse uma orquestra, todo esse conjunto homem-máquina inicia sua música, sua sinfonia. Um estampido grave, digno de surdos: A primeira explosão nos cilindros, constada pela fumaça negra que brota pelos escapamentos.

Com o aumento das rotações, o motor soa a trombones enérgicos, que, crescentemente, começam a conferir um som de turbilhonamento de ar à hélice que também vai ganhando velocidade, cortando o ar que ao escorrer pelas superfícies aerodinâmicas também ganha um som apitado de instrumentos de sopro. Que regência!

O Cmte. Rocha, rememorando estes momentos, descreve-os com mais precisão e exatidão, ele refere-se ao motor, ao “energizer”, além do som da partida como uma ambulância desesperada de uma forma muito saudosa. Nos tempos hodiernos, poderíamos dizer que este motor lhe “dá asas” como naquela campanha publicitária. Descreve a ligação íntima entre homem e máquina, mencionando que só há vôo desde que o piloto tenha sido fabricado para o avião e vice-versa.

“Agora, você sabe, que esse motor, ele começava com a rotação dele, ou melhor, a partida dele, era um energizer, você apertava o energizer ‘nhi, nhi, nhi, nhi...’ e aquele negócio ia assim, parecia que era uma ambulância. Nessa hora, você começa a imaginar uma porção de coisas assim, menos tranqüilizantes, aí você aperta o engage. Aí começam aqueles dois mil e tantos cavalos: Papapapapa... e quando começa a pipocar o avião e tal, você recebe dentro de você uma energia que é causada por aquele motor que está começando a funcionar e tal, você já é outro homem. Aquela intranqüilidade que o energizer provocava que parecia o som de uma ambulância longínqua que vinha se aproximando ‘hhoooooooo...!’. Aquilo te dava uma impressão meio mórbida, mas quando você aperta o engage e começa a rodar aqueles dois mil e tantos cavalos, aí você sentia no sangue, sentia no seu ser a potência do avião, você apertava os seus ombros, se sentia apertado por aqui (pela cintura) e tudo mais. Você se sentia uma parte integrante da máquina, e é exatamente nessa hora em que se o sujeito não se sentir uma parte integrante, mas sim um estranho, ele está roubado (perdido)!”

Que bonito!

Aceleração e rotação estabilizadas, é hora do táxi, cumprido com charme e elegância, um gentlement. Alinhado na pista, chegou a hora da corrida. Cavalaria descarregada, que assustador. Lá vão eles para a próxima missão.

Pode parecer difícil imaginar todas estas cenas, com todos os detalhes, mas vale a pena. Trata-se do avião que mais orgulhou a Força Aérea Brasileira, que ajudou nossos nobres pilotos a conquistarem medalhas de honra, que nem mesmo os próprios pilotos da Força Aérea dos Estados Unidos conquistaram. Aeronave que abreviou a guerra, graças ao mutualismo dos pilotos, a coragem, a vontade, a motivação e a perseverança digna de brasileiros. Aviadores de empenho irmanal junto aos seus colegas de países aliados. Todos estes, durante aqueles anos intermiáveis de guerra, abraçaram a causa com todo o espírito de união entre as nações aliadas. Apoio necessário. Reciprocidade de propósitos entre os aliados que resultou no enfraquecimento das forças inimigas resultando, finalmente, no dia em que a guerra terminou.

Neste dia, prontos novamente para decolagem, com aquele constante ideal de por fim à barbárie nazi-fascista, já enfraquecida àquela época e na iminência de ter seu fim anunciado, seguem os P-47 Jambock, ou Thunderbolt, se assim soar melhor, para mais uma missão.

Aceleração indo a pleno, motor vibrando de alegria, ávido para por novamente todo o conjunto em vôo, encontramos o então 2o Ten. Fernando Correa Rocha, pronto para voar. Toda aquela energia mencionada, sentida apenas pela alma, agora em seu ápice, aguardando a autorização para decolar, aqueles pensamentos mil, pipocando na cabeça, pensamentos de todos os tipos. São tantos que não é possível saber quem está trabalhando mais, o motor, com seus pistões comprimindo a milhares de rotações por minuto, ou o cérebro com seus neurônios, realizando milhões de sinapses pelo mesmo período. Que ansiedade! Por isso que o tempo dá a impressão de estar parado.