Uma
prancheta, um lápis, de repente uma intuição.
Assim nascem todos os projetos. Desenhos e formas que a princípio
são materializadas, às vezes, até no papel
de pão, outras no verso de um impresso e, na falta deste,
até mesmo em um lenço de tecido. Traços que
brotam no projetista em momentos inesperados, seja sobre pressão
ou na descontração. Nesta situação com
certeza saem traços com maior prazer, é lógico.
Projetos que brotam em uma pescaria, em uma caminhada e, às
vezes, em um sonho.
Com certeza não foi diferente com o P-47 Thunderbolt. Projetado
pela Republic Aviation Corporation, sendo uma evolução
do desenho do P-35 e do XP-43, por Alexander Kartveli, nos idos
do ano de 1941. Verdadeira obra de arte esculpida e moldada com
muito intelecto e bom senso, com muito lápis, muita borracha,
pitadas de esquadros, entre outros instrumentos de cálculos
e medidas. Métodos um pouco diferentes de ilustres criadores
como Michelangelo e Aleijadinho, mas muito parecidos, ou melhor,
derivados de da Vinci, este sim precursor dos engenhos aeronáuticos,
todavia, mantendo toda a essência e brilhantismo de todos
os inventores, projetistas, artistas, enfim, de todo criador que
se empenha para criar um engenho que ajude no progresso da sociedade.
Foram produzidas 15.683 unidades, destas 67 foram disponibilizadas
ao 1o Grupo de Aviação de Caça da FAB (Força
Aérea Brasileira), o magnífico Senta a Púa,
integrante daquele esquadrão estadunidense, atuando com sucesso
nos céus italianos no combate às tropas inimigas.
Neste cenário, já que exercício mnemônico
só pode ser conferido aos Jambocks, vamos dando asas à
imaginação. Vamos compor a paisagem, o horizonte,
os cúmulos gorduchos demonstrando sinais de turbulência,
as montanhas a perder de vista, aquela colcha de retalhos que se
confere ao solo arado e cultivado por diversos tipos de culturas.
Exigindo um pouco mais, podemos aos poucos sentir o ar, o vento,
ver a esquadrilha amarela, o Jambock B-5, e, infelizmente, a Guerra,
Flak! Enormes bolhas negras de fumaça e estilhaços!
O Thunderbolt desvia com vigor, debochando da afronta e, em ato
contínuo, inicia um mergulho digno de peixes pescadores,
à velocidade próxima à do som. Mais Flak! Novamente
ignorado, curva estonteante... Nossa que G positivo! A estrutura
das asas sustenta modestos 1.528 quilos de massa, ou seja, seu peso
vazio, além de armamento e combustível, fazendo o
conjunto pesar até 6.623 quilogramas! Imaginem tudo isso
multiplicado pela respectiva força G em que o aparelho foi
submetido na manobra. Uma primazia! Atitude recuperada, bomba lançada.
Nova ascensão, o mergulho é inevitável. Flak!
Passou por perto... alvo na mira, gatilho acionado. Ponto 50 em
ação. A lei da ação e reação
aplicada aos disparos das oito metralhadoras fazem a aeronave perder
velocidade, mas quem perde mais são os tedescos. Menos um
depósito de munições disfarçado de estábulo,
menos veículos a serviço do ideal nazista. Estão
todos, agora, com toda sua lataria e mecânica transpassadas
por .50 mm. Última ascensão para dispersão.
Perfeito. Missão cumprida! Agora é só retornar
para Pisa.
No flare, homem e máquina, por instantes, parecem hesitar
em tocar a pista, talvez seja essa uma explicação
subjetiva ao efeito solo que surge neste momento único e
interminável em que a aeronave flutua de acordo com a teoria,
sem Bernoulli, mas com Newton. Pousar é imperativo, o combustível
uma hora irá acabar.
Máquina para as oficinas, homem para o acampamento. Naquelas,
o ambiente ressoa a martelos e máquinas rebitadeiras. Neste,
ouvimos gritos de “Adelfi!”, bem como toda descontração
juvenil. De um lado, o descanso edificante para o corpo e mente
do Senta a Púa, do outro, o descanso dos P-47, tendo sua
robustez lubrificada, concertada e revisada. Tudo cuidadosamente
e com muito carinho feito pelos mecânicos, verdadeiros “Anjos
da Guarda”, como denomina nos dias de hoje o respeitável
Esquadrão de Demonstração Aérea da FAB,
a querida Esquadrilha da Fumaça. Anjos que ainda não
foram para seus leitos, seguindo pela noite batendo suas asas com
toda a presteza para a recuperação dos Jambocks metálicos.
Já diante de mais um amanhecer italiano, encontramos o acampamento
banhado por uma luz azul, o céu ainda ostenta algumas estrelas.
Os primeiros raios de sol tentam discretamente transpor as montanhas
para deixar cor púrpura-alaranjada alguns cúmulos
que habitam o firmamento.
Aeronave pronta, pilotos no despertar, é possível
ver a fumaça que sobe dos sistemas de calefação,
improvisados, mas eficientes dos pilotos. A movimentação
aumenta, briefings intermináveis de Nero Moura, transmitindo
instruções para mais um bem sucedido dia de missões
a serem cumpridas com o sucesso de costume.
Piloto sob a asa, mecânicos dando os últimos retoques.
Em instantes, homem e máquina se unirão. Um fenômeno
surreal, cheio de energia e emoção, invisível
aos olhos, mas sentido pelo coração. Uma união
fiel entre piloto e avião, sacramentada pelos laços
de afinidade entre a capacidade e a vontade natas do aviador, entre
o “desejo” da aeronave em voar, desejo este almejado
pelo seu projetista. Um momento sagrado... Como se fosse em um filme,
o piloto de caça, já sentado no cockpit, ao mentalizar
sua missão, em meio aos procedimentos do check-list, traz
à sua mente inconscientemente, na velocidade do pensamento,
tudo que já executou por toda sua jovem vida, e tudo que
ainda tem de fazer. Tudo se projeta em sua tela mental, conferindo
ao aviador mais ânimo e mais vontade de vencer a empreitada
a que fora designado.
Já não é mais possível divisar o que
é avião e o que é homem. O que se vê
é um só ideal patriota e humano, ideal brasileiro
e mundial. Um anseio da humanidade de ver um mundo livre dos propósitos
alemães e tedescos. Divisamos um ideal de paz, paradoxalmente
materializado em equipamento bélico pronto para ter seu motor
acionado. Neste momento, os pássaros cessam seus cantos,
em respeito ao Thunderbolt, em virtude desta maravilhosa união
aludida, bem como aos ideais de trazer a paz de volta à sociedade
mundial. O tempo, apesar de não parar, concede a impressão
de estar bem mais lento. É o momento! Os calços são
retirados, passo embandeirado, mistura rica, acelerador levemente
avançado... Magnetos "On"!
Como se fosse uma orquestra, todo esse conjunto homem-máquina
inicia sua música, sua sinfonia. Um estampido grave, digno
de surdos: A primeira explosão nos cilindros, constada pela
fumaça negra que brota pelos escapamentos.
Com o aumento das rotações, o motor soa a trombones
enérgicos, que, crescentemente, começam a conferir
um som de turbilhonamento de ar à hélice que também
vai ganhando velocidade, cortando o ar que ao escorrer pelas superfícies
aerodinâmicas também ganha um som apitado de instrumentos
de sopro. Que regência!
O Cmte. Rocha, rememorando estes momentos, descreve-os com mais
precisão e exatidão, ele refere-se ao motor, ao “energizer”,
além do som da partida como uma ambulância desesperada
de uma forma muito saudosa. Nos tempos hodiernos, poderíamos
dizer que este motor lhe “dá asas” como naquela
campanha publicitária. Descreve a ligação íntima
entre homem e máquina, mencionando que só há
vôo desde que o piloto tenha sido fabricado para o avião
e vice-versa.
| “Agora, você sabe, que esse
motor, ele começava com a rotação
dele, ou melhor, a partida dele, era um energizer, você
apertava o energizer ‘nhi, nhi, nhi, nhi...’
e aquele negócio ia assim, parecia que era uma
ambulância. Nessa hora, você começa
a imaginar uma porção de coisas assim,
menos tranqüilizantes, aí você aperta
o engage. Aí começam aqueles dois mil
e tantos cavalos: Papapapapa... e quando começa
a pipocar o avião e tal, você recebe dentro
de você uma energia que é causada por aquele
motor que está começando a funcionar e
tal, você já é outro homem. Aquela
intranqüilidade que o energizer provocava que parecia
o som de uma ambulância longínqua que vinha
se aproximando ‘hhoooooooo...!’. Aquilo
te dava uma impressão meio mórbida, mas
quando você aperta o engage e começa a
rodar aqueles dois mil e tantos cavalos, aí você
sentia no sangue, sentia no seu ser a potência
do avião, você apertava os seus ombros,
se sentia apertado por aqui (pela cintura) e tudo mais.
Você se sentia uma parte integrante da máquina,
e é exatamente nessa hora em que se o sujeito
não se sentir uma parte integrante, mas sim um
estranho, ele está roubado (perdido)!” |
|
Que bonito!
Aceleração e rotação estabilizadas,
é hora do táxi, cumprido com charme e elegância,
um gentlement. Alinhado na pista, chegou a hora da corrida. Cavalaria
descarregada, que assustador. Lá vão eles para a próxima
missão.
Pode parecer difícil imaginar todas estas cenas, com todos
os detalhes, mas vale a pena. Trata-se do avião que mais
orgulhou a Força Aérea Brasileira, que ajudou nossos
nobres pilotos a conquistarem medalhas de honra, que nem mesmo os
próprios pilotos da Força Aérea dos Estados
Unidos conquistaram. Aeronave que abreviou a guerra, graças
ao mutualismo dos pilotos, a coragem, a vontade, a motivação
e a perseverança digna de brasileiros. Aviadores de empenho
irmanal junto aos seus colegas de países aliados. Todos estes,
durante aqueles anos intermiáveis de guerra, abraçaram
a causa com todo o espírito de união entre as nações
aliadas. Apoio necessário. Reciprocidade de propósitos
entre os aliados que resultou no enfraquecimento das forças
inimigas resultando, finalmente, no dia em que a guerra terminou.
Neste dia, prontos novamente para decolagem, com aquele constante
ideal de por fim à barbárie nazi-fascista, já
enfraquecida àquela época e na iminência de
ter seu fim anunciado, seguem os P-47 Jambock, ou Thunderbolt, se
assim soar melhor, para mais uma missão.
Aceleração indo a pleno, motor vibrando de alegria,
ávido para por novamente todo o conjunto em vôo, encontramos
o então 2o Ten. Fernando Correa Rocha, pronto para voar.
Toda aquela energia mencionada, sentida apenas pela alma, agora
em seu ápice, aguardando a autorização para
decolar, aqueles pensamentos mil, pipocando na cabeça, pensamentos
de todos os tipos. São tantos que não é possível
saber quem está trabalhando mais, o motor, com seus pistões
comprimindo a milhares de rotações por minuto, ou
o cérebro com seus neurônios, realizando milhões
de sinapses pelo mesmo período. Que ansiedade! Por isso que
o tempo dá a impressão de estar parado.