Espera
interminável. Quando, de repente, chega à fonia dos
pilotos um som. Talvez um dos mais lindos que aqueles guerreiros
pudessem ouvir. Attention all flghts! Attention all flights! [...]
Um som traduzido em mensagem, em melodia ou até mesmo em
poesia. Tão esperado e tão belo naquele momento, quanto
o barulho locomotivo do motor dos próprios P-47. [...] Do
not attack! Do not attack! […] Tão acalentador quanto
as vozes de familiares, reiterando, naquele momento. Tão
lindo, arrepiante e abençoado quanto a tudo que pôde
ser ouvido até aquele dia na vida de cada homem que serviu
aos propósitos de derrotar o regime que se pretendia impor
ao mundo.
Ouviu-se:
Attention all flights! Attention all flights!
Do not attack! Do not attack!
The war is over!
Return to your bases immediately!
Repeat: (e ele repetiu aquelas palavras).
A Guerra acabara naquele momento!
Mesmo descendo de seu P-47, vibrando naquele momento junto com Pessoa
Ramos, seu ala no vôo em elemento naquele dia, o então
2o Ten. Fernando Corrêa Rocha, bem como todos os pilotos,
nunca mais deixaram de ser aquela união homem-máquina,
Jambock-P-47.
Desceram trazendo consigo aquela energia latente por toda a vida,
catalisada pelo fato de ter sido exercida, de ter sido alimentada
pelo vôo. Energia nata, encubada na concepção,
no primeiro segundo de vida e manifestada no momento do vôo.
Condição sem a qual não poderiam ser pilotos
deste Esquadrão. Um privilégio exclusivo dos aviadores,
não importando a modalidade deste, do aerodesportista ao
piloto-de-caça. Energia sem a qual jamais poderiam voar é
o que modernamente se denomina Aerococus. Se não nasce com
essa lacuna para ser preenchida, no mínimo pelo sentimento
de amor pelo vôo, jamais conseguirá se encaixar em
um cockpit, vestir o avião, tornar o aparelho uma extensão
da mente e do corpo. Sabemos que, como os puros-sangue, as aeronaves,
às vezes, costumam se negar a voar se não se simpatizam
com o cavaleiro.
Após milhares de gritos de "Adelfi!", abraços,
gargalhas, é hora de regressar. Já era a hora. Os
pilotos do Senta a Púa foram os que mais cumpriram missões.
Seus amigos do 350th Squadron, após cumprirem poucas missões
eram mandados de volta aos Estados Unidos, enquanto nossos pilotos...
continuavam sentando a púa. Mas chegou a vez. Todos foram
mobilizados a retornarem à suas pátrias. Ases e P-47,
a maioria daqueles de navios e estes voando, é claro.
Mesmo possuindo engenho, projeto e nacionalidade estadunidense,
a versão P-47 Jambock foi naturalizada por nossos pilotos.
sem dúvida Tupiniquim! Tudo graças à adaptação
pelos pilotos do grupo, assim como pela admiração
e respeito conferido até hoje por pilotos entusiastas da
aviação brasileira.
Os anos foram se passando, ainda bem! P-47 sendo substituídos
por jatos em todas as forças armadas. Na FAB pelos Gloster
Meteor. Porém, ao contrário do que se viu nos EUA,
todos os P-47 foram abandonados. Aeronaves sempre ávidas
por voar, para se unirem novamente ao piloto, fadadas à condição
de sucata. Uma pena! Muitos exemplares não é sabido
nem o local do descarte, estão perdidos, outros estão
guardados precariamente em museus, que por mais que se esforcem
não conseguem conservar as aeronaves ante ao descaso dos
governantes, e não do Governo, pois a essência deste
se substância nos ideais pétreos de proporcionar ao
povo, em suma, condições para o bem estar, conforme
prevê programaticamente nossa Constituição Federal.
Descaso daqueles por não adotarem políticas de incentivo
à memória de nossas forças armadas, da memória
de um avião que colaborou por elevar o Brasil à posição
de destaque junto às relações exteriores, especialmente
junto à Organização das Nações
Unidas. Somo hoje muito influentes em matéria de política
internacional, somos responsáveis pelo Haiti, país
desamparado e sem um líder. Sempre foram nossos Presidentes
da República que discursaram em primeiro lugar abrindo cada
Assembléia Geral da ONU, em New York, e ainda é assim
que se procede. Uma solenidade que envolve todos os chefes de Estado
das potências, uma assembléia magna! Ah, isso não
é em vão. É reflexo de nosso prestígio
quando a Força Expedicionária Brasileira, a FEB, o
Esquadrão de Observação, o 1o ELO, e o Senta
a Pua, conquistaram os olhos do mundo diante de seus brilhantes
resultados junto às tropas aliadas.
O termo descaso pode soar bastante pejorativo, e é mesmo.
Possuímos caças de interceptação na
ativa dignos de antiquários, remontam aos idos de 1970. Aeronaves
usadas para transporte de tropas com mais de 30 anos! Bases Aéreas
desprovidas de aparelhos modernos para segurança e proteção
ao vôo. Controles de vôos ainda feitos de maneira convencional,
sem radar! Apenas o Sivam destoa deste quadro alarmante. Existem
funcionários da Administração, nas três
esferas, que tentam reverter caos, mas esbarram sempre no termo
“não há orçamento”. Mas o que surpreende
é o fato de haver também aqueles que não se
empenham, de propósito, por achar que não é
um assunto interessante à população.
Isto é unânime a todos os setores da sociedade civil.
São hospitais falindo, ensino às crianças e
aos jovens hipossuficiente. É a miséria nas ruas,
contrastando com a riqueza do narcotráfico. Um orçamento
que misteriosamente se torna insuficiente. Aí já não
há “descaso”, pode ser encarado no Código
Penal e na Lei de Responsabilidade Fiscal como “algo mais...”
Dinheiro gasto de forma irresponsável, e pior, às
vezes, encaminhado a paraísos fiscais, para os números
das contas dos algozes de nosso povo. Mas pelo visto, ultimamente
as coisas estão mudando.
A aviação aguarda, urgentemente, também por
mudanças. A ANAC, Agência Nacional da Aviação
Civil, substituirá o Departamento de Aviação
Civil, com a mesma competência e poderes que hoje são
conferidos pelo Ministério da Defesa a este órgão.
Mas a data para sua criação e início de sua
administração ainda é indeterminada.
Corajosas são nossas companhias aéreas, deveriam voar
com o P-47 para agüentar as turbulências. Como conseguem
manter seus vôos, operando com taxas de ocupação
muitas vezes abaixo de índices rentáveis, suportando
impostos titânicos e combustíveis a preços que
fogem da realidade, se comparados com países como os EUA
e membros da Comunidade Européia, em que os tributos cobrados,
bem como o valor do combustível, tornam a aviação
uma atividade econômica bastante interessante aos olhos de
investidores que estejam dispostos a comprar ações,
fazer parcerias, se disporem a patrocinar atividades aéreas?
Como conseguem sobreviver às constantes crises, altas repentinas
do dólar, às incertezas do mercado? Agora mesmo vemos
uma recuperação fantástica, mas esperamos que
não ocorra outro “efeito sanfona”, ou seja, toda
expansão seguida de forte retração.
Que via crucis levou ao calvário Panair, Cruzeiro, Transbrasil,
Vasp entre outras. Temos a Riograndense, esforçando-se para
não sucumbir. É triste.
Vivemos em um país em que eventos aeronáuticos são
realizados com um orçamento vil, onde patrocinador é
um bicho bom de corrida. Somos a segunda maior frota de aviões
do mundo! Nossa cultura aeronáutica deveria ser maior, só
não é devido a estas dificuldades. Tem muita gente
que ama aviação, mas nunca voou em um jato. As passagens
ainda são muito caras. Uma injustiça com um país
que tem como patrono da aviação o ilustre Santos =
Dumont.
Como é possível a Embraer fazer as gigantes Boeing
e Airbus torcerem o nariz, fazer trocas constantes no posto de 3o
lugar com a Bombardier no quesito maior fabricante de aeronaves
do mundo, vender e entregar mais de 900 aeronaves ERJ em todo o
globo, mas não conseguir fazê-lo aqui! Os impostos
inviabilizam a transação, fica mais barato importar...
Mas, mesmo diante de todos esses espinhos, encontramos flores belas
e perfumadas. Vive neste terreno um povo insistente, feliz e de
bom coração. Um povo que não desanima, sempre
solícito e pronto para ajudar.
Brasileiro, que povo interessante, quem nunca reparou em alguém
pedindo informações na rua. Sempre aparece mais de
uma pessoa para ajudar nas explicações de quantos
quarteirões deve-se percorrer, virar à esquerda e
assim sucessivamente. No final, às vezes, não sabemos
em qual informação devemos seguir. A aviação
ainda vive aqui pois somos teimosos, somos como vegetação
de cerrado, somos torcidos, temos a casca grossa de tanto sol que
tomamos, mas sempre damos flores dignas dos ipês.
Somos inquebráveis. Eis aí a semelhança inexorável
que firma a empatia do P-47 com o brasileiro. Podemos comparar todos
esses obstáculos como Flaks e nossa vontade de vencer digna
da estrutura de Thunderbolt, ah podemos sim...!
Prova disto é a intenção de grupos que promovem
a aviação. Temos o pessoal da Expo Aero Brazil, do
Broa Fly-In, ABAAC, da AFA Pirassununga, da BASC, do MUSAL e claro
o “Eu amo Voar” Team.
Encontramos atitudes brilhantes como a do Museu da TAM em São
Carlos, que com brilhantismo restaura o P-47 Jambock, ou Thunderbolt.
Um aparelho voado por nossos avestruzes na Itália, que enfrentou
muita artilharia anti-aérea alemã, voado, inclusive,
pelo nosso Cmte. Rocha e, agora, renascendo como uma Fênix,
voltará a fazer pássaros se calarem e o tempo mais
uma vez tentar parar! Que exemplo. Imaginem se esta aeronave for
autorizada a voar mais uma vez. Cruzando o céu de Araraquara,
deixando um rastro de gasolina queimada, fazendo ficar ativo, com
seu motor sinfônico, o aerococus encubado em muitos jovens.
Imaginem esta aeronave na fonia. “Araraquara, aqui é
papa 47, aproximando-se pelo setor eco”. Imaginem ainda esta
aeronave tomando como referência o centro da cidade, precisamente
o relógio imponente da antiga fábrica Lupo, e dando
um rasante sobre o centro de nossa cidade, fazendo aquele relógio
quase parar, balançar suas asas ao passar sobre a avenida
Feijó, bem no través da casa do Cmte. Rocha, que felicidade
a dele! Será emocionante, haja lenços para conter
tamanha emoção de tantos que adoram esta aeronave
e torcem para que ela condecore o céu da Morada do Sol.
A torcida fica por conta da capacidade dos técnicos do Museu.
Contamos agora com aquele ideal dos mecânicos em Tarquínia
e Pisa sendo novamente inspirado nos mecânicos em São
Carlos. Um esforço que dará felicidade, aonde estiver,
àqueles mecânicos bem como aos construtores e projetistas
deste pássaro que está renascendo naquele hangar.
Novamente a sinfonia será regida. O P-47 rugirá de
alegria. Novamente o Brasil terá seus Jambocks queimando
muita gasolina, jogando pingos de óleo no pára-brisa
e lágrimas dos olhos. Só isto para recompensar tal
empreitada!
Como devem estar ansiosos os membros do Senta a Púa. Uma
vontade imensurável de ouvir novamente os 16 cilindros dispostos
radialmente retumbarem. A expectativa é grande, tão
grande quanto àqueles momentos de espera para decolagem,
tendo bombas de 500 libras sob as asas e uma missão a ser
cumprida, além de muito Flak a ser desviado.
Expectativa maior a do Cmte. Rocha, já que, como mencionado,
voou nesta aeronave e tem como separação poucos quilômetros
entre sua casa e o hangar da TAM. Quilômetros que torcemos
para que sejam diminuídos em poucos metros quando esta Fênix
Jamboquiana cruzar os céus sobre sua casa, fazendo aquele
relógio mencionado curvar-se, pois é bastante elevado
para que nosso P-47 passe e para que tal momento fique definitivamente
na memória de todos.
Vamos sentar a púa neste dia, será o dia da aviação
de caça, além do 22 de abril, para todos os brasileiros
que amam de paixão nossa pátria e nossa aviação.
"Ao ser convidado por Mateus Rocha,
grande amigo, uma das pessoas que conheço que
mais tem conhecimentos sobre o que é o Senta
a Púa e uma das mais teimosas e insistentes quando
o assunto é aviação, para escrever
sobre o P-47 Thunderbolt, fiquei bastante lisonjeado.
Não hesitei no momento, mas horas depois me deparei
questionando se conseguiria fazê-lo. Não
tenho muito conhecimento sobre a aeronave, mas acreditei
que se somados a experiência vivida anos atrás
com a leitura do livro Senta a Púa do Brig. Rui
Moreira Lima, bem como com o breve contato mantido com
o Cmte. Rocha durante o Eu amo Voar de 2004 e 2005,
e, claro, a admiração que sinto pela aviação,
poderia compor este texto.
Minha intenção, nas linhas que seguirão,
não é de fazer apologia à 2a Guerra
ao descrever as missões como se fossem uma apresentação
da Esquadrilha da Fumaça. Traduzo o ideal pacifista
de acabar com o regime tentado pelo nazismo.
A guerra, infelizmente, ainda é o meio ideal
encontrado pelos homem e pelos Estados para defender
seus interesses. Gandhi o fez de outra forma, buscou
a paz pela paz, mas o que vimos ultimamente é
que não aprendemos seus exemplos e ensinamentos.
Não há progresso sem ordem, é preciso
uma queda para que novos tombos não ocorram,
uma geada ou seca para que novos brotos nasçam,
é preciso trevas para que a luz seja levada,
um ditador para que libertadores sejam despertados.
Descrevo atendo-me aos pontos belos deste acontecimento,
cenas horrendas não são mencionadas. É
possível encontrar beleza em qualquer coisa,
e foi isto que foi narrado sobre dois dias na guerra,
seu fim e regresso dos pilotos ao Brasil.
Após breve narrativa, aproveitei o ensejo para
desabafar acerca do descaso que nossos governantes mantêm
junto à nossa aviação. Não
sobrou um P-47 voando, não sobraram Gloster Meteor,
entre outros caças que fizeram parte de nossa
Força Aérea. Pelo visto, não sobrarão
Mirage-III.
Este texto é minha colaboração
à aviação de caça brasileira,
ao Senta a Pua. Uma modesta redação, com
palavras extraídas do coração com
intuito de manter vivo na memória o que foi o
1º Esquadrão de Caça que atuou na
Itália, e o que esse fez ao Brasil e ao mundo!
É meu agradecimento ao Museu da Tam por restaurar
a aeronave em que o Cmte. Rocha, agora meu conterrâneo
voou, na Guerra.
Agradeço a Mateus pela oportunidade e por ceder
material transcrito com depoimentos do Cmte. Fernando
Correa Rocha."
Rafael Ap. de Lima Peres
Araraquara – 09.10.2005
*Agradecemos a atenção dispensada por
toda a equipe do Museu Aeroespacial que em todas as
vezes que foi necessário atendeu com profissionalismo
e carisma a equipe do Air onLine. |
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