P-47 Thunderbolt
 
 
 
   
 
Texto: Rafael Ap. de Lima Peres
    Espera interminável. Quando, de repente, chega à fonia dos pilotos um som. Talvez um dos mais lindos que aqueles guerreiros pudessem ouvir. Attention all flghts! Attention all flights! [...] Um som traduzido em mensagem, em melodia ou até mesmo em poesia. Tão esperado e tão belo naquele momento, quanto o barulho locomotivo do motor dos próprios P-47. [...] Do not attack! Do not attack! […] Tão acalentador quanto as vozes de familiares, reiterando, naquele momento. Tão lindo, arrepiante e abençoado quanto a tudo que pôde ser ouvido até aquele dia na vida de cada homem que serviu aos propósitos de derrotar o regime que se pretendia impor ao mundo.

Ouviu-se:

Attention all flights! Attention all flights!
Do not attack! Do not attack!
The war is over!
Return to your bases immediately!
Repeat: (e ele repetiu aquelas palavras).

A Guerra acabara naquele momento!
Mesmo descendo de seu P-47, vibrando naquele momento junto com Pessoa Ramos, seu ala no vôo em elemento naquele dia, o então 2o Ten. Fernando Corrêa Rocha, bem como todos os pilotos, nunca mais deixaram de ser aquela união homem-máquina, Jambock-P-47.

Desceram trazendo consigo aquela energia latente por toda a vida, catalisada pelo fato de ter sido exercida, de ter sido alimentada pelo vôo. Energia nata, encubada na concepção, no primeiro segundo de vida e manifestada no momento do vôo. Condição sem a qual não poderiam ser pilotos deste Esquadrão. Um privilégio exclusivo dos aviadores, não importando a modalidade deste, do aerodesportista ao piloto-de-caça. Energia sem a qual jamais poderiam voar é o que modernamente se denomina Aerococus. Se não nasce com essa lacuna para ser preenchida, no mínimo pelo sentimento de amor pelo vôo, jamais conseguirá se encaixar em um cockpit, vestir o avião, tornar o aparelho uma extensão da mente e do corpo. Sabemos que, como os puros-sangue, as aeronaves, às vezes, costumam se negar a voar se não se simpatizam com o cavaleiro.

Após milhares de gritos de "Adelfi!", abraços, gargalhas, é hora de regressar. Já era a hora. Os pilotos do Senta a Púa foram os que mais cumpriram missões. Seus amigos do 350th Squadron, após cumprirem poucas missões eram mandados de volta aos Estados Unidos, enquanto nossos pilotos... continuavam sentando a púa. Mas chegou a vez. Todos foram mobilizados a retornarem à suas pátrias. Ases e P-47, a maioria daqueles de navios e estes voando, é claro.

Mesmo possuindo engenho, projeto e nacionalidade estadunidense, a versão P-47 Jambock foi naturalizada por nossos pilotos. sem dúvida Tupiniquim! Tudo graças à adaptação pelos pilotos do grupo, assim como pela admiração e respeito conferido até hoje por pilotos entusiastas da aviação brasileira.

Os anos foram se passando, ainda bem! P-47 sendo substituídos por jatos em todas as forças armadas. Na FAB pelos Gloster Meteor. Porém, ao contrário do que se viu nos EUA, todos os P-47 foram abandonados. Aeronaves sempre ávidas por voar, para se unirem novamente ao piloto, fadadas à condição de sucata. Uma pena! Muitos exemplares não é sabido nem o local do descarte, estão perdidos, outros estão guardados precariamente em museus, que por mais que se esforcem não conseguem conservar as aeronaves ante ao descaso dos governantes, e não do Governo, pois a essência deste se substância nos ideais pétreos de proporcionar ao povo, em suma, condições para o bem estar, conforme prevê programaticamente nossa Constituição Federal.
Descaso daqueles por não adotarem políticas de incentivo à memória de nossas forças armadas, da memória de um avião que colaborou por elevar o Brasil à posição de destaque junto às relações exteriores, especialmente junto à Organização das Nações Unidas. Somo hoje muito influentes em matéria de política internacional, somos responsáveis pelo Haiti, país desamparado e sem um líder. Sempre foram nossos Presidentes da República que discursaram em primeiro lugar abrindo cada Assembléia Geral da ONU, em New York, e ainda é assim que se procede. Uma solenidade que envolve todos os chefes de Estado das potências, uma assembléia magna! Ah, isso não é em vão. É reflexo de nosso prestígio quando a Força Expedicionária Brasileira, a FEB, o Esquadrão de Observação, o 1o ELO, e o Senta a Pua, conquistaram os olhos do mundo diante de seus brilhantes resultados junto às tropas aliadas.

O termo descaso pode soar bastante pejorativo, e é mesmo. Possuímos caças de interceptação na ativa dignos de antiquários, remontam aos idos de 1970. Aeronaves usadas para transporte de tropas com mais de 30 anos! Bases Aéreas desprovidas de aparelhos modernos para segurança e proteção ao vôo. Controles de vôos ainda feitos de maneira convencional, sem radar! Apenas o Sivam destoa deste quadro alarmante. Existem funcionários da Administração, nas três esferas, que tentam reverter caos, mas esbarram sempre no termo “não há orçamento”. Mas o que surpreende é o fato de haver também aqueles que não se empenham, de propósito, por achar que não é um assunto interessante à população.

Isto é unânime a todos os setores da sociedade civil. São hospitais falindo, ensino às crianças e aos jovens hipossuficiente. É a miséria nas ruas, contrastando com a riqueza do narcotráfico. Um orçamento que misteriosamente se torna insuficiente. Aí já não há “descaso”, pode ser encarado no Código Penal e na Lei de Responsabilidade Fiscal como “algo mais...” Dinheiro gasto de forma irresponsável, e pior, às vezes, encaminhado a paraísos fiscais, para os números das contas dos algozes de nosso povo. Mas pelo visto, ultimamente as coisas estão mudando.

A aviação aguarda, urgentemente, também por mudanças. A ANAC, Agência Nacional da Aviação Civil, substituirá o Departamento de Aviação Civil, com a mesma competência e poderes que hoje são conferidos pelo Ministério da Defesa a este órgão. Mas a data para sua criação e início de sua administração ainda é indeterminada.

Corajosas são nossas companhias aéreas, deveriam voar com o P-47 para agüentar as turbulências. Como conseguem manter seus vôos, operando com taxas de ocupação muitas vezes abaixo de índices rentáveis, suportando impostos titânicos e combustíveis a preços que fogem da realidade, se comparados com países como os EUA e membros da Comunidade Européia, em que os tributos cobrados, bem como o valor do combustível, tornam a aviação uma atividade econômica bastante interessante aos olhos de investidores que estejam dispostos a comprar ações, fazer parcerias, se disporem a patrocinar atividades aéreas? Como conseguem sobreviver às constantes crises, altas repentinas do dólar, às incertezas do mercado? Agora mesmo vemos uma recuperação fantástica, mas esperamos que não ocorra outro “efeito sanfona”, ou seja, toda expansão seguida de forte retração.

Que via crucis levou ao calvário Panair, Cruzeiro, Transbrasil, Vasp entre outras. Temos a Riograndense, esforçando-se para não sucumbir. É triste.
Vivemos em um país em que eventos aeronáuticos são realizados com um orçamento vil, onde patrocinador é um bicho bom de corrida. Somos a segunda maior frota de aviões do mundo! Nossa cultura aeronáutica deveria ser maior, só não é devido a estas dificuldades. Tem muita gente que ama aviação, mas nunca voou em um jato. As passagens ainda são muito caras. Uma injustiça com um país que tem como patrono da aviação o ilustre Santos = Dumont.

Como é possível a Embraer fazer as gigantes Boeing e Airbus torcerem o nariz, fazer trocas constantes no posto de 3o lugar com a Bombardier no quesito maior fabricante de aeronaves do mundo, vender e entregar mais de 900 aeronaves ERJ em todo o globo, mas não conseguir fazê-lo aqui! Os impostos inviabilizam a transação, fica mais barato importar...

Mas, mesmo diante de todos esses espinhos, encontramos flores belas e perfumadas. Vive neste terreno um povo insistente, feliz e de bom coração. Um povo que não desanima, sempre solícito e pronto para ajudar.
Brasileiro, que povo interessante, quem nunca reparou em alguém pedindo informações na rua. Sempre aparece mais de uma pessoa para ajudar nas explicações de quantos quarteirões deve-se percorrer, virar à esquerda e assim sucessivamente. No final, às vezes, não sabemos em qual informação devemos seguir. A aviação ainda vive aqui pois somos teimosos, somos como vegetação de cerrado, somos torcidos, temos a casca grossa de tanto sol que tomamos, mas sempre damos flores dignas dos ipês.

Somos inquebráveis. Eis aí a semelhança inexorável que firma a empatia do P-47 com o brasileiro. Podemos comparar todos esses obstáculos como Flaks e nossa vontade de vencer digna da estrutura de Thunderbolt, ah podemos sim...!

Prova disto é a intenção de grupos que promovem a aviação. Temos o pessoal da Expo Aero Brazil, do Broa Fly-In, ABAAC, da AFA Pirassununga, da BASC, do MUSAL e claro o “Eu amo Voar” Team.
Encontramos atitudes brilhantes como a do Museu da TAM em São Carlos, que com brilhantismo restaura o P-47 Jambock, ou Thunderbolt. Um aparelho voado por nossos avestruzes na Itália, que enfrentou muita artilharia anti-aérea alemã, voado, inclusive, pelo nosso Cmte. Rocha e, agora, renascendo como uma Fênix, voltará a fazer pássaros se calarem e o tempo mais uma vez tentar parar! Que exemplo. Imaginem se esta aeronave for autorizada a voar mais uma vez. Cruzando o céu de Araraquara, deixando um rastro de gasolina queimada, fazendo ficar ativo, com seu motor sinfônico, o aerococus encubado em muitos jovens. Imaginem esta aeronave na fonia. “Araraquara, aqui é papa 47, aproximando-se pelo setor eco”. Imaginem ainda esta aeronave tomando como referência o centro da cidade, precisamente o relógio imponente da antiga fábrica Lupo, e dando um rasante sobre o centro de nossa cidade, fazendo aquele relógio quase parar, balançar suas asas ao passar sobre a avenida Feijó, bem no través da casa do Cmte. Rocha, que felicidade a dele! Será emocionante, haja lenços para conter tamanha emoção de tantos que adoram esta aeronave e torcem para que ela condecore o céu da Morada do Sol.

A torcida fica por conta da capacidade dos técnicos do Museu. Contamos agora com aquele ideal dos mecânicos em Tarquínia e Pisa sendo novamente inspirado nos mecânicos em São Carlos. Um esforço que dará felicidade, aonde estiver, àqueles mecânicos bem como aos construtores e projetistas deste pássaro que está renascendo naquele hangar. Novamente a sinfonia será regida. O P-47 rugirá de alegria. Novamente o Brasil terá seus Jambocks queimando muita gasolina, jogando pingos de óleo no pára-brisa e lágrimas dos olhos. Só isto para recompensar tal empreitada!

Como devem estar ansiosos os membros do Senta a Púa. Uma vontade imensurável de ouvir novamente os 16 cilindros dispostos radialmente retumbarem. A expectativa é grande, tão grande quanto àqueles momentos de espera para decolagem, tendo bombas de 500 libras sob as asas e uma missão a ser cumprida, além de muito Flak a ser desviado.

Expectativa maior a do Cmte. Rocha, já que, como mencionado, voou nesta aeronave e tem como separação poucos quilômetros entre sua casa e o hangar da TAM. Quilômetros que torcemos para que sejam diminuídos em poucos metros quando esta Fênix Jamboquiana cruzar os céus sobre sua casa, fazendo aquele relógio mencionado curvar-se, pois é bastante elevado para que nosso P-47 passe e para que tal momento fique definitivamente na memória de todos.

Vamos sentar a púa neste dia, será o dia da aviação de caça, além do 22 de abril, para todos os brasileiros que amam de paixão nossa pátria e nossa aviação.

"Ao ser convidado por Mateus Rocha, grande amigo, uma das pessoas que conheço que mais tem conhecimentos sobre o que é o Senta a Púa e uma das mais teimosas e insistentes quando o assunto é aviação, para escrever sobre o P-47 Thunderbolt, fiquei bastante lisonjeado. Não hesitei no momento, mas horas depois me deparei questionando se conseguiria fazê-lo. Não tenho muito conhecimento sobre a aeronave, mas acreditei que se somados a experiência vivida anos atrás com a leitura do livro Senta a Púa do Brig. Rui Moreira Lima, bem como com o breve contato mantido com o Cmte. Rocha durante o Eu amo Voar de 2004 e 2005, e, claro, a admiração que sinto pela aviação, poderia compor este texto.
Minha intenção, nas linhas que seguirão, não é de fazer apologia à 2a Guerra ao descrever as missões como se fossem uma apresentação da Esquadrilha da Fumaça. Traduzo o ideal pacifista de acabar com o regime tentado pelo nazismo.
A guerra, infelizmente, ainda é o meio ideal encontrado pelos homem e pelos Estados para defender seus interesses. Gandhi o fez de outra forma, buscou a paz pela paz, mas o que vimos ultimamente é que não aprendemos seus exemplos e ensinamentos. Não há progresso sem ordem, é preciso uma queda para que novos tombos não ocorram, uma geada ou seca para que novos brotos nasçam, é preciso trevas para que a luz seja levada, um ditador para que libertadores sejam despertados.
Descrevo atendo-me aos pontos belos deste acontecimento, cenas horrendas não são mencionadas. É possível encontrar beleza em qualquer coisa, e foi isto que foi narrado sobre dois dias na guerra, seu fim e regresso dos pilotos ao Brasil.
Após breve narrativa, aproveitei o ensejo para desabafar acerca do descaso que nossos governantes mantêm junto à nossa aviação. Não sobrou um P-47 voando, não sobraram Gloster Meteor, entre outros caças que fizeram parte de nossa Força Aérea. Pelo visto, não sobrarão Mirage-III.
Este texto é minha colaboração à aviação de caça brasileira, ao Senta a Pua. Uma modesta redação, com palavras extraídas do coração com intuito de manter vivo na memória o que foi o 1º Esquadrão de Caça que atuou na Itália, e o que esse fez ao Brasil e ao mundo!
É meu agradecimento ao Museu da Tam por restaurar a aeronave em que o Cmte. Rocha, agora meu conterrâneo voou, na Guerra.
Agradeço a Mateus pela oportunidade e por ceder material transcrito com depoimentos do Cmte. Fernando Correa Rocha."

Rafael Ap. de Lima Peres
Araraquara – 09.10.2005

*Agradecemos a atenção dispensada por toda a equipe do Museu Aeroespacial que em todas as vezes que foi necessário atendeu com profissionalismo e carisma a equipe do Air onLine.