|
Colisões
com aves não são nenhuma novidade para a aviação.
Desde os primeiros vôos se tem relatos de acidentes causados
pela colisão de aeronaves com pássaros. Um dos acidentes
mais famosos envolveu o norte-americano Calbraith Rogers, que perdeu
a vida após uma gaivota enroscar nos cabos de comando do
seu biplano.
Em 4 de outubro de 1960, um Lockheed Electra da Eastern Airlines
atingiu um bando de aves após decolagem, danificando três
de seus quatro motores. Devido à falta de potência,
o Electra estolou e caiu matando 62 pessoas.
Em 23 de novembro de 1962, um Vickers Viscount da United Airlines
colidiu com um bando de pássaros a seis mil pés e
a violência do impacto causou a separação do
estabilizador horizontal. Sem controle a aeronave caiu matando seus
18 ocupantes.
No mundo todo, diversas aeronaves, incluindo grandes aviões
de transporte, foram derrubadas devido a colisões com aves,
vitimando centenas de pessoas. Embora, na maioria das vezes, os
impactos produzam danos leves às aeronaves, cerca de 11%
dos incidentes geram conseqüências que podem afetar seriamente
a segurança do vôo.
No Brasil, embora nunca tenha havido um acidente fatal com aeronaves
civis, o problema tem se tornado cada dia mais sério. Entre
janeiro de 2003 e junho de 2004 foram reportados ao Centro de Investigação
e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos –
CENIPA 460 colisões, sendo que o número de ocorrências
nos grandes aeroportos brasileiros vem crescendo a cada ano.
Entre 1993 e 2003 foram registradas 244 colisões no Aeroporto
de Guarulhos e 191 no Aeroporto do Galeão. Mas o CENIPA estima
que apenas 20% das colisões são reportadas, o que
elevaria para aproximadamente 1500 o número de colisões
anuais!
Isso indica um problema ainda mais sério, especialmente porque
a presença de urubus e quero-queros é uma constante
nas imediações (e dentro) da maioria dos aeroportos
brasileiros.
Além do risco à segurança, as colisões
têm um custo financeiro elevado. Na maior parte dos casos
o motor é que sofre os maiores danos. O custo de recuperação
do motor de um grande avião comercial muitas vezes ultrapassa
os US$ 4 milhões. E é importante notar que os danos
materiais são apenas uma pequena parcela dos prejuízos
gerados. Para uma empresa aérea, a colisão de uma
de suas aeronaves com uma ave implica além dos valores gerados
com manutenção, também custos com estadia,
alijamento de combustível, perdas com serviço de bordo
e ainda criam uma imagem negativa da empresa.
Na maioria dos casos, as colisões são resultado do
uso inadequado do espaço urbano. A ocupação
desordenada e na maioria das vezes a ilegal ocupação
das áreas vizinhas aos aeroportos gera deficiências
na coleta, tratamento e destinação de resíduos
sólidos, que são jogados em lixões clandestinos
nas cercanias dos aeroportos, resultando numa abundante oferta de
materiais orgânicos que atraem grandes quantidades de aves,
especialmente urubus.
Para resolver esta ameaça a segurança aeronáutica
é necessário um trabalho envolvendo autoridades da
mesma, ministério público, entidades e técnicos
ambientais, autoridades aeroportuárias.
Após uma ativa participação do CENIPA, o Conselho
Nacional de Meio Ambiente, criou em 09 de outubro de 1995 a resolução
CONAMA nº4, na qual estabelece a Aérea de Segurança
Aeroportuária - ASA. Esta compreende uma área com
um raio de 20 quilômetros ao redor dos aeródromos que
operam instrumentos (IFR) e 13 quilômetros para aeródromos
que operam visual (VFR). O artigo 2º afirma que fica proibida
a implantação de atividades de natureza perigosa na
ASA que possa atrair aves, como abatedouros, curtumes, lixões
e cultura agrícolas, assim como qualquer outra atividade
que possa proporcionar riscos semelhantes.
Desde então o CENIPA vem trabalhando junto às administrações
municipais para conseguir sanar o problema. Mas na maioria dos casos
inicia-se um “empurra-empurra” sobre a responsabilidade
das áreas ao redor dos aeroportos.
Não raro, as prefeituras alegam que a responsabilidade pelas
áreas vizinhas aos aeroportos é da União já
que a maioria dos principais aeroportos é administrado pela
Infraero, que por sua vez alega que por se tratar de ocupação
ilegal a responsabilidade é do estado e do município.
Apesar dos percalços, em alguns locais os resultados já
começam a aparecer. Em 2003, um lixão ilegal próximo
ao aeroporto de Natal foi desativado, graças a um trabalho
conjunto entre a Infraero, Ibama e prefeitura.
Mas é importante frisar que as administrações
aeroportuárias também devem contemplar medidas para
evitar aves nas áreas internas dos aeródromos. Medidas
como manter a vegetação dentro de limites que não
atraiam aves, desinsetização das áreas internas
com objetivo de evitar pequenos insetos que possam atrair pequenos
pássaros até medidas como o uso de dispositivos sonoros
ou pirotécnicos para espantar aves.
Além da conscientização da sociedade que é
responsável pela solução dos problemas relacionados
à proliferação de focos de atração
de aves no entorno das áreas aeroportuárias.
|