|
Freqüentemente
logo após um acidente aéreo os principais meios de
comunicação tratam de julgar e punir os pilotos pelo
ocorrido. Não raro os jornais publicam notas onde um piloto
ou especialista que preferiu não se identificar aponta as
supostas principais causas de um acidente.
Na maioria dos casos, os primeiros a serem acusados são os
pilotos, especialmente porque em muita das vezes eles não
estão vivos para contar o que aconteceu.
Culpar o piloto logo após o acidente satisfaz a ânsia
do grande público pela procura de um responsável e
algumas vezes ajuda a imunizar empresas aéreas, fabricantes
e órgãos de fiscalização. Sempre existiu
na sociedade o conceito de que se alguma coisa errada aconteceu,
existe um responsável por isso que deve ser punido.
Entretanto a punição em nada ajudara para prevenir
novos acidentes. Caso o acidente tenha ocorrido por falhas de julgamento,
podemos afirmar que o piloto não tinha qualquer intenção
de causá-lo. E mesmo quando o piloto conscientemente executa
um procedimento contrário às normas operacionais,
ele não prevê o efeito negativo do seu ato. Nenhum
piloto envolve-se em um acidente intencionalmente.
Mesmo neste caso devemos pensar se uma punição profissional
será a solução para o problema, pois o piloto
é sempre o elo final do complexo sistema que envolve a operação
de uma aeronave e muitas vezes o erro começa em decisões
administrativas, que aguardam apenas uma condição
favorável para consumar uma tragédia.
Em 1989 um Boeing 737 decolou de Marabá para Belém
e jamais chegou a seu destino. Ao invés de se afastar de
Marabá pela proa 027, o avião vou no rumo 270. Mesmo
tendo sido comunicada por um passageiro que o avião deveria
estar fora da rota, a tripulação ignorou o aviso e
cometeu ainda uma série de erros até realizar um pouso
de emergência no meio da selva.
Imediatamente após a informação que a aeronave
antes do acidente encontrava-se perdida em meio a Amazônia
opinião publica tratou de culpar os pilotos que até
hoje são tidos como os responsáveis pela tragédia
que vitimou 12 pessoas.
È inegável os inúmeros erros cometidos pela
tripulação, porém a investigação
revelou que o planejamento de vôo da empresa aérea
apresentava aos pilotos a informação de proa contendo
quatro algarismos, sendo que o ultimo algarismo deveria ser considerado
como decimal.
No caso o plano de vôo apresentava a proa 0270, que deveria
ser lida como 027.0, o primeiro erro do piloto foi por desatenção
e por lógica desconsiderou o zero da esquerda. Infelizmente
o co-piloto copiou os dados inseridos pelo comandante repetindo
o mesmo erro.
Uma série de outros erros contribuíram para a tragédia
entre elas a falta de diálogo entre os pilotos, a ausência
de controle radar, a apresentação do planejamento
de vôo em quatro algarismo, etc.
O que indica que o acidente não ocorreu por uma falha isolada
dos pilotos e sim por uma série de fatores contribuintes
que no caso começou por um erro da empresa aérea.
Erro que já havia sido identificado por outros pilotos e
que não foi corrigido pela empresa.
Outro caso onde houve falha dos pilotos foi o acidente envolvendo
um bombardeiro B-52 em junho 1994 onde o comandante apesar de ser
um profissional extremamente qualificado, inúmeras vezes
desrespeitou o manual de operações de aeronave, excedendo
diversos parâmetros do vôo e jamais foi punido. Mesmo
tendo por diversas vezes realizado tais atos na presença
de inúmeros superiores que simplesmente ignoravam o fato
de o piloto estar prestes a causar um grave acidente.
Vale ressaltar que não estamos eximindo a tripulação
de sua responsabilidade, mas se tratando de prevenção
de acidentes o sistema não pode ser vulnerável a erros
primários como a distração ou desobediência
dos pilotos.
O que desejamos mostrar é que uma série de fatores
que contribuíram para a consumação do acidente
e que acabaram sendo resumidos a falha dos pilotos. Afinal uma atitude
de desrespeito à aplicação da disciplina não
acontece do dia para noite, mas sim após uma prolongada indiferença
por parte dos superiores.
Tragédia com pilotos no papel de vilão sempre irão
atrair a atenção da opinião publica, mas a
punição só dos pilotos não é
solução para evitar que novos acidentes ocorram. O
que deve existir é a busca para identificar as causas de
um acidente e corrigir as falhas que o ocasionaram.
É importante que chefes, diretores, órgãos
de fiscalização tenham consciência do poder
de suas decisões na segurança dos vôos. Pois
na maioria das vezes eles são os responsáveis pela
formação da cultura do grupo que administram. |