Procura-se um culpado
 
   
Texto: Edmundo Ubiratan
    Freqüentemente logo após um acidente aéreo os principais meios de comunicação tratam de julgar e punir os pilotos pelo ocorrido. Não raro os jornais publicam notas onde um piloto ou especialista que preferiu não se identificar aponta as supostas principais causas de um acidente.

Na maioria dos casos, os primeiros a serem acusados são os pilotos, especialmente porque em muita das vezes eles não estão vivos para contar o que aconteceu.

Culpar o piloto logo após o acidente satisfaz a ânsia do grande público pela procura de um responsável e algumas vezes ajuda a imunizar empresas aéreas, fabricantes e órgãos de fiscalização. Sempre existiu na sociedade o conceito de que se alguma coisa errada aconteceu, existe um responsável por isso que deve ser punido.

Entretanto a punição em nada ajudara para prevenir novos acidentes. Caso o acidente tenha ocorrido por falhas de julgamento, podemos afirmar que o piloto não tinha qualquer intenção de causá-lo. E mesmo quando o piloto conscientemente executa um procedimento contrário às normas operacionais, ele não prevê o efeito negativo do seu ato. Nenhum piloto envolve-se em um acidente intencionalmente.

Mesmo neste caso devemos pensar se uma punição profissional será a solução para o problema, pois o piloto é sempre o elo final do complexo sistema que envolve a operação de uma aeronave e muitas vezes o erro começa em decisões administrativas, que aguardam apenas uma condição favorável para consumar uma tragédia.

Em 1989 um Boeing 737 decolou de Marabá para Belém e jamais chegou a seu destino. Ao invés de se afastar de Marabá pela proa 027, o avião vou no rumo 270. Mesmo tendo sido comunicada por um passageiro que o avião deveria estar fora da rota, a tripulação ignorou o aviso e cometeu ainda uma série de erros até realizar um pouso de emergência no meio da selva.

Imediatamente após a informação que a aeronave antes do acidente encontrava-se perdida em meio a Amazônia opinião publica tratou de culpar os pilotos que até hoje são tidos como os responsáveis pela tragédia que vitimou 12 pessoas.

È inegável os inúmeros erros cometidos pela tripulação, porém a investigação revelou que o planejamento de vôo da empresa aérea apresentava aos pilotos a informação de proa contendo quatro algarismos, sendo que o ultimo algarismo deveria ser considerado como decimal.

No caso o plano de vôo apresentava a proa 0270, que deveria ser lida como 027.0, o primeiro erro do piloto foi por desatenção e por lógica desconsiderou o zero da esquerda. Infelizmente o co-piloto copiou os dados inseridos pelo comandante repetindo o mesmo erro.

Uma série de outros erros contribuíram para a tragédia entre elas a falta de diálogo entre os pilotos, a ausência de controle radar, a apresentação do planejamento de vôo em quatro algarismo, etc.

O que indica que o acidente não ocorreu por uma falha isolada dos pilotos e sim por uma série de fatores contribuintes que no caso começou por um erro da empresa aérea. Erro que já havia sido identificado por outros pilotos e que não foi corrigido pela empresa.

Outro caso onde houve falha dos pilotos foi o acidente envolvendo um bombardeiro B-52 em junho 1994 onde o comandante apesar de ser um profissional extremamente qualificado, inúmeras vezes desrespeitou o manual de operações de aeronave, excedendo diversos parâmetros do vôo e jamais foi punido. Mesmo tendo por diversas vezes realizado tais atos na presença de inúmeros superiores que simplesmente ignoravam o fato de o piloto estar prestes a causar um grave acidente.

Vale ressaltar que não estamos eximindo a tripulação de sua responsabilidade, mas se tratando de prevenção de acidentes o sistema não pode ser vulnerável a erros primários como a distração ou desobediência dos pilotos.

O que desejamos mostrar é que uma série de fatores que contribuíram para a consumação do acidente e que acabaram sendo resumidos a falha dos pilotos. Afinal uma atitude de desrespeito à aplicação da disciplina não acontece do dia para noite, mas sim após uma prolongada indiferença por parte dos superiores.

Tragédia com pilotos no papel de vilão sempre irão atrair a atenção da opinião publica, mas a punição só dos pilotos não é solução para evitar que novos acidentes ocorram. O que deve existir é a busca para identificar as causas de um acidente e corrigir as falhas que o ocasionaram.

É importante que chefes, diretores, órgãos de fiscalização tenham consciência do poder de suas decisões na segurança dos vôos. Pois na maioria das vezes eles são os responsáveis pela formação da cultura do grupo que administram.
 
 

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