|
Ações
Humanitárias
Por: William Carlos de Oliveira
Quando começaram os ataques
de Israel ao Líbano, em julho passado, o governo brasileiro
se preocupou em resgatar os brasileiros e seus familiares que estavam
na região. A TAM teve importante participação
nesse processo. O primeiro vôo da TAM para o transporte de
brasileiros que estavam no Líbano foi realizado no dia 27
de julho. Este vôo (JJ 9970) partiu de Damasco, na Síria,
com destino ao Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São
Paulo. A tripulação técnica era formada pelos
comandantes Orlando Bombini Jr. e Edmir Kischi Tozzi e pelos co-pilotos
Caio Zink de Souza e Vitor Breno dos Santos Brasil, além
da equipe de comissários. O Airbus A330 que realizou essa
viagem transportou 260 passageiros, dos quais 35 eram crianças
de colo. Este avião retornou no mesmo dia para Damasco. Era
o vôo TAM JJ 9482 que seguiu para a região do conflito
sem passageiros, apenas com a tripulação técnica,
que estava composta da seguinte maneira: além de mim, Cmte.
William Carlos de Oliveira (Wilc), o Cmte. Jorge Luís Arbage
Brito e os Co-pilotos Augusto de Queiroz Almeida e Rubens Memari
Bertolucci. Todos éramos voluntários. O vôo
de retorno, TAM JJ 9970, com destino ao aeroporto de Guarulhos,
foi realizado dia 28/07/2006 e estava com 237 passageiros, sendo
12 crianças de colo. Este vôo tinha como tripulação
técnica os comandantes Marco Paulo Oliveira e Pedro Biagi
e os co-pilotos José Eduardo Batalha Brosco e Marcelo Alves
de Moraes Filho. Todas as viagens foram realizadas com um Airbus
A330, matrícula PT-MVD, que estava sub-arrendado para uma
companhia do Oriente Médio (Etihad). Como a devolução
desta aeronave para a TAM já estava programada para o final
de julho, a TAM decidiu trazer o primeiro grupo de brasileiros junto
com a aeronave. Em seguida, foi realizada uma nova viagem para trazer
mais brasileiros de volta ao País. A aeronave foi reintegrada
à malha aérea da TAM depois de realizar os dois vôos
da ajuda humanitária coordenada pelo Ministério das
Relações Exteriores.
Os comissários, que também se apresentaram voluntariamente
para contribuir com a missão humanitária organizada
pelo governo, fizeram um trabalho especial nos vôos de retorno
ao Brasil. Os passageiros estavam muito fragilizados e a sincronia
da equipe foi perfeita. A equipe de comissárias teve de preparar
uma grande quantidade de mamadeiras durante o vôo, já
que havia muitas crianças de colo entre os passageiros. Boa
parte das refeições servidas eram pratos à
base de massa, já que muitos passageiros não comiam
carne, em respeito a sua religião. Os comissários
também dedicaram boa parte do tempo para ajudar a cuidar
das crianças de colo e prestar assistência aos passageiros
que ainda estavam emocionalmente abalados pelos acontecimentos no
Líbano.
Durante o vôo de ida TAM 9482, efetuamos a etapa Guarulhos-Damasco,
direto e sem escalas, e o tempo de vôo foi de 14h16, com sobrevôo
do Oceano Atlântico e entrada no território Africano
pela região da divisa da Libéria e Costa do Marfim.
Posteriormente sobrevoamos Mali, Argélia, Líbia e
o Egito, depois sobrevoamos o sul da Grécia e Chipre para
evitarmos a região do conflito no Líbano. A chegada
na Síria foi feita pelo setor norte daquele país.
O vôo de retorno TAM 9970, dia 28/07/2006, de Damasco para
Guarulhos, efetuou basicamente a mesma rota, mas com escala na cidade
de Natal.
As permissões para sobrevôo envolveram negociações
com todos os países que estavam na rota realizada pelo avião
da TAM. As negociações tiveram a participação
do Ministério das Relações Exteriores. Essas
negociações permitiram que a TAM realizasse a missão
humanitária e trouxesse todos os 497 passageiros com total
segurança durante os dois vôos.
Todos os custos dos dois vôos realizados foram divididos entre
TAM e GOL. A operação dos vôos ficou sob responsabilidade
da TAM.
Fico muito feliz em trabalhar em uma empresa que valoriza o ser
humano, e que por conta disso, me deu a oportunidade de participar
de uma ação humanitária de tamanha relevância.
Um vôo repleto de emoções
Por: Marco Paulo Gimenez de Oliveira
O vôo TAM JJ 9970 foi realizado no dia 28 de julho de 2006,
saindo da cidade de Damasco, na Síria, com destino ao Aeroporto
Internacional de Guarulhos, em São Paulo, transportando um
total de 237 passageiros, sendo 12 crianças de colo.
A tripulação técnica estava composta da seguinte
maneira: Cmte. Marco Paulo Oliveira, Cmte. Pedro Biagi, Co-piloto
José Eduardo Batalha Brosco e Co-piloto Marcelo Alves de
Moraes Filho.
A aeronave utilizada foi um Airbus 330, prefixo PT-MVD. Este avião
foi deslocado de Abu-Dhabi, nos Emirados Árabes, onde estava
sub-arrendado para uma empresa local, e partiu para Damasco, na
Síria. Em seguida, decolou para Guarulhos, transportando
os brasileiros refugiados do Líbano. Depois, retornou para
Damasco para retirar mais passageiros da região e retornou
novamente para Guarulhos. Cada etapa durou aproximadamente 15 horas.
Frutas e bastante líquido foram colocados a bordo. Os refugiados
estavam bastante debilitados, pois há vários dias
encontravam-se alojados em prédios públicos na capital
da Síria, dormindo em escolas e estádios em condições
precárias, com estrutura montada em caráter emergencial
para atender ao grande numero de pessoas que estavam naquela situação.
Uma rota direta da Síria para o Brasil implicava em sobrevôo
do território libanês. Tendo em vista os conflitos,
este espaço aéreo estava proibido para o sobrevôo
abaixo de 29.000 pés. (8.400 m de altura). Uma vez que a
cidade de Damasco, na Síria ficava a 55 km da zona de conflito,
foi necessário fazer um desvio para evitar o sobrevôo.
A opção escolhida foi então sobrevoarmos o
Líbano bem ao norte, setor oposto aos conflitos, de forma
que uma altitude mínima de 29.000 fosse alcançada
nesta posição de limite entre o Líbano e Chipre.
Por se tratar de uma distância pequena, foi necessário
uma saída estratégica com ascensão em órbita
ainda no território da Síria. O Airbus 330 estava
com sua capacidade de peso máxima (233 toneladas) tendo em
vista sua ocupação total de passageiros e com 80 toneladas
de combustível para que a etapa rumo ao Brasil fosse vencida.
As altas temperaturas que castigavam a região também
penalizavam a performance (44ºC no momento da decolagem). A
rota era protegida pela força de paz da ONU e este desvio
aumentou a viagem em aproximadamente 1 hora.
Após os desvios, a rota foi através do Mar Egeu e
do Mar Mediterrâneo. Sobrevoamos Chipre, Grécia e Malta,
em direção à África do Norte, rumo à
Argélia, num belíssimo cenário. Parte deste
trajeto foi durante a tarde, quando podíamos avistar as inúmeras
ilhas do Mediterrâneo e sobretudo as ilhas de Mikonos, Santorini,
Creta e a ilha de Patmos, famosa por ter sido o local onde o apostolo
João, discípulo de Cristo, em seu cativeiro nesta
ilha, recebeu a inspiração para escrever o livro bíblico
de Revelações. Próximo desta ilha, ainda no
mar Egeu, o lendário Ícaro teria caído apos
sair da Ilha de Creta e ter suas asas derretidas por voar muito
alto próximo ao Sol. Em seguida, já na África
do Norte, sobrevoamos o deserto do Saara, pelo setor oeste do Marrocos,
Mali, Mauritânia e o Senegal, para encontrarmos o Oceano Atlântico
próximo de Dakar. Neste ponto, passamos então a voar
em um espaço aéreo melhor, controlado com cobertura
de auxílios de navegação e comunicações
mais favoráveis, pois durante as horas que sobrevoamos o
Norte da África e África Central, tais condições
eram precárias e contávamos apenas com os equipamentos
de navegação de bordo. Devido à alta tecnologia
que nossa aeronave dispõe, foi possível efetuar este
trecho que durou quase cinco horas com segurança e confiabilidade.
As comunicações eram feitas apenas através
de procedimentos entre aeronaves, que chamamos ar-ar às cegas,
para que outras aeronaves na mesma rota ou suas adjacências
pudessem ter conhecimento de seus tráfegos essenciais. Durante
este trajeto, apenas uma aeronave fazia uma rota próxima
à nossa, permitindo estabelecer contato por meio deste procedimento.
No restante do trecho, o silêncio do rádio era total.
Entretanto tínhamos comunicações via satélite
com nossa empresa que monitorava nosso vôo durante todo o
tempo. A partir daí, já em vôo noturno, seguimos
rumo ao Brasil. Nosso pouso em Guarulhos foi por volta da meia-noite
do dia 28/07, após uma escala técnica em Natal para
reabastecimento.
Os preparativos para a escolha da rota destes vôos foram feitos
pelo departamento de engenharia da TAM juntamente com os pilotos
que efetuaram esta missão, levando-se em conta a experiência
prévia dos mesmos em rotas nesta região, em coordenação
com os espaços aéreos de cada país a ser sobrevoado,
sobretudo nas regiões de risco, onde rotas especiais de sobrevôo
foram criadas para tal contingência.
O vôo foi realizado numa atitude de solidariedade da empresa
para com nossos semelhantes que se encontravam em dificuldades num
país castigado pela violência da guerra. O vôo
foi repleto de emoções que se misturavam e se confundiam
entre tristeza e alegria. Tristeza pelo fato de que muitos dos passageiros
perderam suas casas, seus bens e seus entes queridos. Alguns se
perderam de seus familiares sem saber de seu paradeiro e imaginando
que talvez nunca mais poderão revê-los. Ao mesmo tempo,
os passageiros tiveram a alegria de serem resgatados e conseguirem
ter seus sofrimentos e suas próprias vidas poupadas. A partir
do retorno, também passaram a ter esperança, pois
podem recomeçar suas vidas ainda que longe de seus lares.
Para aqueles que moravam no Brasil, o alívio por poderem
voltar aos seus lares e reencontrar os seus familiares. Muitos outros
seguiriam viagem para Foz do Iguaçu onde a colônia
libanesa é grande. Após a decolagem na Síria,
muitos aplaudiam e festejavam sua saída entre risos e lágrimas.
O mesmo foi expressado na ocasião do pouso em solo brasileiro.
Para a nossa equipe, ter participado desta experiência foi
bastante gratificante. Todo o envolvimento, trabalho e tensão
foram recompensadores. Para a TAM, que busca no “espírito
de servir” uma razão de existir, esta iniciativa reforça
ainda mais o legado que nos deixou o nosso fundador, Cmte. Rolim
Adolfo Amaro. |