O Legado dos Dirigíveis
 
   
Texto e Foto: Solange Galante
    Enquanto que 2006 será o ano do centenário do primeiro vôo do 14 Bis, primeira aeronave mais-pesada-que-o-ar projetada, construída e pilotada por Alberto Santos-Dumont, poucos se lembram de outro grande legado do genial brasileiro.

Ao contrário dos irmãos Wright, considerados seus rivais na descoberta do avião, Santos-Dumont foi imbatível nos estudos dos aparelhos mais-leves-que-o-ar, especialmente os dirigíveis. Tendo despertado sua paixão ao ascender em um balão esférico em 1898, passeio que durou duas horas, o inventor mineiro desenvolveu mais de uma dúzia de balões dirigíveis dos mais diversos tipos, tamanhos, formatos e finalidades e demonstrou plenamente sua versatilidade não só contornando a torre Eiffel em Paris em 1901 mas também utilizando esse tipo de aeronave em passeios comuns, como visitas a amigos e restaurantes, o que também popularizou esse meio de transporte.

Paralelamente, também na Europa, o conde alemão Ferdinand Von Zeppelin também se dedicava às aeronaves mais-leves-que-o-ar. Mas Santos-Dumont e o Conde Zeppelin seguiram dois caminhos diferentes para desenvolver a mesma idéia. No caso dos projetos do alemão, os dirigíveis eram de estrutura rígida, isto é, o invólucro onde era colocado gás hidrogênio era composto de uma estrutura de duralumínio, coberta por tela, e com células de hidrogênio em seu interior, o que permitia a construção de dirigíveis imensos. No caso de Santos Dumont, cujos dirigíveis eram menores, a estrutura era não-rígida. Essa diferença significa que, caso o invólucro de ambos tipos fosse esvaziado, o de Santos-Dumont ficaria murcho e o de Zeppelin manteria seu formato graças ao esqueleto metálico.

Na paz e na guerra, balões e dirigíveis serviram para observações, bombardeios, patrulhamento costeiro, transporte de pequenos aviões (como o dirigível Akron da marinha norte-americana) e transporte de passageiros com muito luxo e conforto. No entanto, o acidente com o dirigível alemão Hindenburg (1937) parecia determinar o fim da era do mais-leve-que-o-ar, que também sentiu declínio diante da evolução do avião, aeronave muito mais versátil e veloz, tanto para a guerra quanto para o transporte comercial.

A Vitória dos Blimbs


Mas a tragédia do Hindenburg parece ter sido sentida muito mais na Alemanha, berço dos Zeppelins, do que nos próprios Estados Unidos, onde aconteceu. Isto porque este país já utilizava gás hélio para a ascensão de seus dirigíveis rígidos e não-rígidos, ao contrário do hidrogênio ainda usado pelos alemães. O alto poder inflamável do hidrogênio foi a causa principal do incêndio do Hindenburg. O hélio, gás mais raro – menos abundante na natureza – e mais pesado – ou seja, que desenvolve menos sustentação que o hidrogênio – era muito mais seguro, pois o hélio não é inflamável. Assim, dirigíveis, continuaram a ser utilizados normalmente nos Estados Unidos, único produtor do gás raro, embora não com a mesma ênfase ao transporte comercial de passageiros, como queriam os alemães.

Uma das empresas que apostou cedo nos dirigíveis foi a norte-americana Goodyear, conhecida mundialmente como fabricante de pneus, mas que já foi fabricante de dirigíveis também. Fundada em 1898, a empresa iniciou suas atividades aeronáuticas já em 1910. Começou produzindo tecidos emborrachados e pneus para aviões e para os chamados blimps, ou seja, os dirigíveis não-rígidos, em tudo semelhantes aos modelos utilizados e desenvolvidos por Santos Dumont. A Goodyear logo se especializou em construir blimps, apesar de também ter construído para a marinha norte-americana dois dirigíveis rígidos, o USS Akron e o USS Macon.

Há várias versões para o nome blimp, inclusive uma onomatopéica, referente ao som de uma pancadinha com o dedo no envelope inflado – e o primeiro a descobrir esse som teria sido o tenente Cunningham, da Marinha britânica. Em outra versão, os dirigíveis eram classificados em várias classes, usando-se o nome “limp”, que significa: mole, flácido. As classes eram: A-Limp, os dirigíveis semi-rígidos, uma mistura entre as concepções de Santos Dumont e Zeppelin; B-Limp, os não-rígidos, tipo Dumont, e C-Limp os rígidos, tipo Zeppelins. Assim, teria surgido a palavra BLimp.

O primeiro dirigível da companhia foi construído em 1912. Em meados de 1916, a empresa comprou sua sede em uma base aérea, localizadas no sudeste de Akron, Ohio, nos Estados Unidos, a mais antiga instalação de seu gênero no país. Em 1917, produzia dirigíveis e balões para as forças armadas dos EUA. Pouco tempo depois, em 1919, além de produzir dirigíveis, a Goodyear começou também a realizar seus próprios vôos.

Desde essa época, como grandes clientes da Goodyear, a Marinha e o Exército norte-americanos encomendavam dirigíveis para a realização de serviços auxiliares, como patrulhamento anti-submarino durante a Segunda Guerra Mundial e estampavam o nome da arma (US Army, US Navy) no invólucro da aeronave. Até que, em 1962, as forças armadas norte-americanas desativaram os dirigíveis para fins militares.

Muito antes disso, a Goodyear começou a fixar sua marca voando comercialmente com dirigíveis. Em 1925 a empresa passou a se dedicar a vôos comerciais, sob licença oficial do governo americano e se tornou, nos Estados Unidos, a primeira operadora comercial dos blimps. O primeiro dirigível civil da empresa foi o Pilgrim (“Peregrino”), que contava apenas com um motor. Seguiram-se a ele os dirigíveis Puritan, Volunteer, Mayflower, Vigilant e muitos outros. O primeiro a trazer painel luminoso foi o Defender, de 1930. De 1917 até 1996, quando a produção de blimps já se destinava apenas para ações institucionais da marca, a Goodyear construiu mais de 347 dirigíveis. As aeronaves serviam para seu uso próprio e para outros clientes, inclusive os militares, mas a maioria estava voltada, principalmente, às ações institucionais. Se os dirigíveis foram desaparecendo dos cenários de batalha e do transporte comercial de passageiros, eles se tornaram desde cedo grande sucesso institucional e de marketing.

Desde 1998 a Goodyear mantém um blimp – um de seus “embaixadores aéreos” – no Brasil, baseado em São Paulo. O primeiro foi o Spirit of the Americas, um A60, ou seja, com capacidade para 60 mil pés cúbicos de hélio. Ele mede 39,6 m de comprimento, transporta quatro passageiros e tem autonomia de 16 horas de vôo. Em 2003 veio, em seu lugar, o Ventura, 30% maior e designado A150, devido à capacidade para 150 mil pés cúbicos, ou 4.248 m3 de gás hélio. O Ventura pesa vazio 2.866 kg e é capaz de transportar, instalado na sua lateral esquerda, um painel luminoso (light sign) de 8 m X 16 m, formado por 82.626 LEDs (Light Emitting Diodes) que reproduzem simultaneamente animações e mensagens escritas ou em vídeo em até 256 cores. Devido a um dirigível que a Goodyear possuía, o Eagle, no qual foi colocado um dos primeiros painéis do mesmo tipo, quando estava sendo lançado o pneu Eagle, o painel foi apelidado de Eagle Vision, “visão de águia”.

Atualmente, embora não construa mais seus blimps, a Goodyear patrocina uma frota de três deles, servindo de instrumentos de relações públicas, divulgando sua marca e prestando serviços às comunidades. Além do Ventura, os outros são o Spirit of America – não confundir com aquele que esteve no Brasil – e o Spirit of Goodyear, ambos nos Estados Unidos.

O Ventura


O Ventura já se tornou parte da paisagem da cidade de São Paulo e atração coadjuvante de eventos esportivos. O único dirigível operando em toda a América Latina é prateado, azul e amarelo, mede 50,29 m de comprimento, 14,02 de largura e 16,76 m de altura. Seu envelope, ou invólucro para gás, é feito de uma combinação de vários plásticos, como o poliéster, coberto por camada dupla de neoprene e por adesivo plástico com o nome da Goodyear. Ele acomoda cinco pessoas além do piloto. Ao nível do mar, ele pode transportar por volta de 400 a 500 kg de carga útil e, em cidades mais altas como São Paulo, 200 a 350 kg. Voando a uma altitude de cerca de três mil metros, chega a 80 km/h e sua velocidade de cruzeiro é de 55 km/h. Cada um dos dois motores Lycoming IO-360 desenvolve 180 hp de potência e, graças ao passo reversível das hélices pentapás, o Ventura pode descer em espaços menores que os usados para dirigíveis comuns. Desde que está no Brasil, está matriculado como PR-ANA.

Em mais de 100 anos desde o início do desenvolvimento dos blimps praticamente nada mudou em sua forma de operação. Um dos legados de Santos-Dumont foi a utilização do balonete (do francês “balonet”), um “balão dentro do balão”, desenvolvido por ele. Trata-se exatamente de um balão com ar, usado para compensar a alteração no volume do hélio, que ocorre em função da temperatura, assim, mantém a pressão interna do envelope. Quem voa no dirigível pode notar à esquerda, uma janelinha no teto da gôndola pela qual pode-se ver o balonete inflando ou desinflando dentro do envelope. Teoricamente, o balonete pode encher de ar até ocupar 27% do total do volume do envelope, mas, na prática, nunca está nem totalmente cheio, nem totalmente vazio.

O balonete foi desenvolvido para evitar que quando o gás hidrogênio, utilizado nos primeiro dirigíveis de Santos-Dumont, se contraísse, o balão dirigível perdesse a pressão do invólucro e caísse pelo peso do centro de gravidade imposto pela nacele. Santos-Dumont chegou a ter problemas por isso e caiu algumas vezes por essa razão. A idéia é copiada dos peixes, que possuem a bexiga natatória, órgão que os auxilia a se movimentar na água.

O Ventura foi construído pela American Blimp Corporation e pertence à maior operadora de aeronaves mais-leves-que-o-ar, em todo o mundo, a The Lightship Group (TLG), formada em 1995 como uma parceria entre a Virgin Lightships (do grupo britânico Virgin) e a Lightship América, operadora norte-americana afiliada da American Blimp. Em 2002 a Virgin Lightships tornou-se afiliada da American Blimp, que passou a ter controle integral da TLG, baseada em Orlando, Flórida. A empresa que representa a TLG no Brasil é a Space Airships, empresa brasileira de propaganda aérea com dirigíveis. Para operar no Brasil, a TLG abriu a The Lightship Latin American (LLA) composta por Light TLG e Space Airships. Em seis continentes, além da marca Goodyear, outras clientes da TLG também embarcam nos grandes outdoors mais-leves-que-o-ar: Budweiser, Mastercard, Fuji, Mazda etc. A Goodyear adquiriu o Ventura por leasing com opção de compra depois de quatro anos.