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Os curiosos
sempre perguntam se um blimp pode realizar vôos por instrumentos.
Todos dirigíveis modernos, equipados com GPS e a tecnologia
básica embarcada em aviões civis, têm essa condição.
Mas a pergunta deveria ser: se o dirigível é feito
para ser visto e divulgar a marca de seu patrocinador, o que ele
irá fazer dentro de nevoeiro ou de uma nuvem mais baixa?
Ele também não atende apenas ao departamento de marketing.
Ele é, principalmente, um instrumento institucional. Maurici
Tadeu Ferreira dos Santos, Coordenador de Programação
e Relações Públicas representante do Dirigível
Ventura da Goodyear, exemplifica bem a missão de um dirigível
como o Ventura: “Você não vê escrito nele
frases como: ‘Compre pneus’. Você vê mensagens
institucionais, como: ‘Você já verificou o seu
pneu hoje?’. Afinal, é uma missão corporativa,
o objetivo é fixar a marca, não diretamente o produto.”
Em valores estimados pela Space Airhsips, um dirigível no
Brasil gera um retorno anual de, aproximadamente, US$ 3 milhões.
Mesmo à noite, graças à iluminação
interna – o Ventura tem duas lâmpadas de 1.500 watts
cada dentro de seu envelope – o dirigível marca presença
de maneira única. O custo de operação do Ventura,
segundo Maurici, é de aproximadamente R$ 2 milhões
por mês, o que inclui toda a equipe e equipamentos. E não
são poucas pessoas: a equipe que trabalha diretamente com
o Ventura no Brasil é composta por 27 funcionários
que trabalham em campo, em contato direto com o blimp, mais cerca
de 20 pessoas responsáveis pela área administrativa,
no escritório situado no Rio de Janeiro, e mais cinco pessoas
na Goodyear, no Departamento de Assuntos Coorporativos, totalizando
pouco mais de 50 funcionários. Todos são da Space
Airships, exceto Maurici, o coordenador, que presta serviços
diretamente à Goodyear, e as pessoas da própria Goodyear.
No Brasil, esse dirigível possui acordo operacional com a
Rede Globo de Televisão, sendo utilizado com sucesso na transmissão
de eventos esportivos, com ênfase nas partidas de futebol,
além do carnaval carioca e outros eventos de porte. Segundo
a Space Airships, a participação de dirigíveis
na cobertura de Jogos Olímpicos de verão e inverno
em todo o mundo passou a ser exigência das emissoras de TV,
interessadas na incomparável qualidade de imagens produzidas
por essas estáveis plataformas de transmissão. Um
dos mais desejáveis subprodutos da filmagem aérea
de eventos a partir de dirigíveis é a possibilidade
de retorno de mídia, através do intercâmbio
de imagens por exposição com emissoras de televisão,
que vem a multiplicar a visualização do produto. Ou
seja: “você usa nosso dirigível sem qualquer
custo para filmagens mas mostra o dirigível com nossa marca
durante a transmissão”.
O Ventura é utilizado para filmagens, fotografia aérea,
links (transmissão ao vivo) de eventos, com vantagens que
helicópteros não têm, como imagens mais estáveis.
Maurici compara: “O helicóptero têm um movimento
muito mais rápido, o dirigível tem uma latência,
uma inércia maior, quando o vento bate, o dirigível
demora mais para se mexer. Se você colocar dois monitores
com a mesma imagem para mim, eu, que trabalho há dez anos
com isso, posso dizer qual imagem é oriunda da câmera
de um helicóptero e qual é do dirigível, principalmente
se estiverem usando a mesma câmera”. Outra vantagem
é o menor ruído, especialmente quando parado no ar.
Para não interferir na captação das imagens,
os cabos usados para pouso e decolagem podem ser presos na gôndola
durante o vôo.
Dirigíveis maiores, como o A170, com até 170 mil pés
cúbicos de hélio, já têm painel eletrônico
mais avançado, usando tecnologia de plasma, e outras novidades
tecnológicas. Mas, embora mais evoluído tecnologicamente,
ainda utiliza o mesmo princípio adotado por Santos Dumont
em seus dirigíveis, o sistema de balonetes – utilizando
um ou mesmo dois dentro do envelope.
Trabalho Coordenado
O Ventura tem três pilotos à sua disposição,
voando geralmente com apenas um deles, ou dois, no caso de viagens
mais longas. Mas eles não são os únicos “tripulantes”.
A equipe operacional – aquelas 27 pessoas – do Ventura
conta com pessoas de São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba
e até dos EUA. A equipe é basicamente dividida em
quatro grupos: os white shirts (camisas brancas), os tripulantes,
um mecânico e um cinegrafista. Os “camisas brancas”
são o coordenador de programação, os pilotos
e dois chefes de tripulação (crew chief). Os pilotos,
já experientes em aviação comercial ou militar,
fazem um curso nos Estados Unidos. Atualmente a equipe conta com
um piloto chefe, um line pilot e um junior pilot.
Os tripulantes são divididos em três tipos: junior
crew, crew e senior crew. Maurici responde diretamente à
Goodyear, o mecânico é da TLG e o resto da equipe é
da Space Airships. Como coordenador, Maurici é responsável
por gerenciar o que vai aparecer na TV Globo e a que horas, quantas
pessoas é preciso ter no campo para as operações
do blimp, a cor dos novos uniformes que vão ser usados, os
brindes, o atendimento à imprensa etc. Ele tem a visão
global da operação, como um diretor de teatro.
O mínimo de tripulação usado para ajudar o
Ventura a decolar é normalmente onze pessoas, mas se o vento
estiver forte no retorno –, porque na saída, se estiver
forte, o dirigível, que é muito sensível ao
vento, não parte – é preciso mais gente. Até
10 nós, a operação é considerada normal.
De 10 a 14 ou 15 nós, ele voa sem passageiros. E com ventos
acima de 15 nós não há vôo. Depende ainda
se o vento é unidirecional ou variável e com ou sem
rajadas. Nunca houve qualquer acidente ou incidente grave com a
equipe brasileira, mas o risco sempre existe, por isso o pessoal
é muito bem treinado.
Para dar suporte ao grupo, há uma frota composta por dois
caminhões, equipados com geradores elétricos e gasolina
de aviação, ferramentas e cabos de aço para
fixar o mastro de atracação no chão. Também
contam com duas vans e uma picape. Os veículos trazem também
componentes, peças de reposição e um motor
extra. Essa frota é fundamental, pois segue o dirigível,
por terra, em qualquer lugar onde estiver. Desta forma pode prestar
socorro caso haja algum imprevisto durante o vôo. Em viagens,
sempre planejadas minuciosamente e com bastante antecedência,
dirigível no céu e equipe, em comboio, na estrada
mantêm contato permanente por rádio. Se houver perda
de contato, dirigível e comboio terão que se reencontrar.
A viagem mais longa realizada até agora com o Ventura foi
para Salvador. Muitos convites são recusados, se não
houver locais adequados para pouso em caso de emergência durante
o trajeto, ou falta de segurança nos aeroportos de destino
onde o dirigível pernoitará.
Nos Estados Unidos e na Europa, há projetos para uma maior
utilização de dirigíveis, especialmente em
transporte de cargas e vôos turísticos. Sem dúvida,
apesar do sucesso do avião, as características peculiares
dos dirigíveis indicam que eles têm uma longa vida
útil pela frente.
Voando no Blimb
A van da Goodyear que me levou da portaria ao pátio do Parque
de Material Aeronáutico, o PAMA, de São Paulo, no
Aeroporto Campo de Marte, no antepenúltimo dia de 2005, me
deixou junto a um simpático casal de origem oriental que
compartilharia da viagem comigo. Eles haviam ganhado a viagem como
prêmio em um sorteio durante uma festa de fim de ano. Sem
dúvida, um presente único e diferente.
Fomos recepcionados pelo coordenador de programação,
o Maurici, e apresentados ao Cmte. José Eduardo Blaschek,
piloto-chefe da equipe e único instrutor de pilotagem de
dirigíveis da América Latina, que seria o comandante
do nosso vôo.
Mas, onde está a aeronave? O Ventura, ou, se preferirem,
o Papa Romeu Alfa November Alfa (PR-ANA) estava voando para uma
reportagem da revista Quatro Rodas, e ainda não havia regressado.
Isso foi excelente, para podermos apreciar a dinâmica de sua
aproximação e pouso, que ocorreu uns 20 minutos depois.
A operação de um dirigível requer uma tripulação
numerosa e muito bem treinada. Isso não mudou desde o início
do século XX. Os cabos de aço da proa devem ser agarrados
pela equipe que, em completa coordenação entre si
e com o piloto, levam a aeronave até próximo do mastro
de atracação, onde um dos tripulantes, lá no
alto, engata a proa. Pronto, está seguro, mas a aeronave
se mantém parcialmente livre para balançar por razão
do vento, e por menor que seja a brisa, balança mesmo, feito
um barco ancorado no porto. De fato, ele se comporta muito mais
como um barco do que como qualquer outro tipo de aeronave das mais-pesadas-que-o-ar.
O movimento de vai e vem, mais ou menos intenso devido ao vento,
faz com que as rodas do trem de pouso sulquem o chão gramado,
formando trilhas.
Para eu fotografar seus detalhes de perto, ora a aeronave escapava
para o lado oposto como se, tímida, fugisse da minha lente,
ora, pelo contrário, se aproximava mais, fazendo com que
eu é que tivesse que recuar rapidamente como se a aeronave
estivesse realmente me ameaçando com seus cabos, gôndola
e motor, que podem machucar uma pessoa distraída. Mas não
há perigo desde que se fique atento, e sempre seguindo estritamente
as recomendações dos tripulantes.
Na decolagem, assim como no pouso, a tripulação forma
um “V” cujo vértice aponta para a direção
de decolagem, contra o vento. Um dos white shirts, um crew chief,
fica bem no vértice, comandando o restante da tripulação,
que está trajando camisas amarelas. Os dois cabos maiores,
da proa, são segurados e, após o dirigível
estar solto do mastro, ele é puxado como uma pipa para ser
afastado deste. Mas pode também acontecer de se realizar
uma decolagem na vertical, logo após a soltura. Foi o que
experimentamos, no vôo que realizamos. O Cmte. Blaschek explicou
que a temperatura do hélio estava 56 o F superior à
temperatura ambiente, que naquele momento era de 77 o – cerca
de 23,5 o C –, o que gerava muita sustentação.
O gás se expande enormemente, o ar do balonete sai e, se
o dirigível não ascender imediatamente, o hélio
pode se expandir ainda mais, havendo a necessidade de se liberar
e perder para a atmosfera parte do gás, lembrando que é
um gás caro. Cada grau Fahrenheit gera aproximadamente 20
libras de sustentação. Com a subida na vertical, evitou-se
a perda do hélio. Essa subida é semelhante a de um
helicóptero mas muito mais silenciosa.
Voar em uma aeronave mais-leve-que-o-ar, especialmente um dirigível,
é realmente uma experiência diferente. Quem conhece
e trabalha com eles é unânime ao dizer que o dirigível
faz com que a pessoa tenha uma relação diferente com
a natureza. Isso é particularmente experimentado por quem
pilota um dirigível. “Dirigível é um
estilo de vida”, diz o Cmte. Blaschek, que completa que é
preciso pensar em dirigível 24 horas ao dia. É preciso
ficar constantemente atento aos sinais do tempo: faz sol? Choveu
à noite ou não?
Até como está o comprimento de onda do sol, porque
diferentes comprimentos de onda interferem de maneira diferente
no hélio. Conforme esse comprimento de onda, o hélio
se comporta diferente. A temperatura do hélio, comparada
com a temperatura externa é o superheat, dependendo do superheat,
há alteração no lifting, a ascensão.
O piloto de dirigível precisa ser um piloto diferente, tem
que se antecipar aos movimentos do dirigível, se vier uma
rajada ele tem que saber o que fazer, e não adiantará
ir contra a rajada, não adiantará segurar o blimp,
ele terá que se antecipar ao movimento resultante, pois o
dirigível, pelo seu tamanho, é altamente sensível
às correntes de vento e sua inércia muito grande.
“Bateu um ventão aqui, então ele já está
pisando com a direita. Os pilotos são treinados para isso”
diz Maurici.
Dos três pilotos de dirigível atuando hoje no Brasil,
dois deles são oriundos da FAB. O Cmte. Blaschek, que foi
coronel na FAB, pilotou aeronaves C-115 Búfalo e é
categórico ao afirmar que o piloto, independentemente da
experiência anterior, tem que aprender a respeitar o dirigível,
praticamente esquecendo os tempos de piloto de avião. Ele
pilota dirigíveis há nove anos, tendo acumulado quatro
mil horas de vôo só com os mais-leves-que-o-ar. Já
em 30 anos como piloto da FAB voou três mil horas em avião.
O comandante, à esquerda, como em um avião, pilota
sem manche nem joystick mas roldanas ao lado da poltrona, semelhantes
a duas grandes rodas de cadeira de rodas, e nada é hidráulico.
Pedais comandam os grandes lemes, em duas derivas fixas, uma dorsal
e uma ventral, e as roldanas cuidam dos profundores, em dois estabilizadores
horizontais fixos – a empenagem tem formato de cruz. Além
dos instrumentos comuns a um avião leve, o Ventura possui
aparelhos peculiares aos blimps: manômetros para verificar
a pressão do invólucro e medidor de temperatura do
gás hélio. Se os motores pararem, o gigante simplesmente
flutua e o gás é liberado aos poucos para a aeronave
descer suavemente, com total segurança.
Havia momentos em que avançávamos como golfinhos,
numa seqüência de pitch down e pitch up, porém
mais devagar. Tudo devido ao hélio. Aquecido, o gás
se expande e aumenta a sustentação. Resfriado, o hélio
se contrái e diminui a sustentação. Os vôos
ocorrem a cerca de 500 m do solo, ou três mil pés de
altitude. A visão da cabine é panorâmica, quase
360 graus, e ver São Paulo do alto e sem pressa é
incrível. Chegamos a voar a apenas 14 kt de velocidade no
solo (VS).
Ao contrário do helicóptero, com aquele barulho infernal
quando está pairado, o dirigível pode ficar os motores
reduzidos e, aproando-se o vento, paradinho no céu. Característica
importante nas filmagens aéreas. Mas, apesar disso, falta
ao dirigível flexibilidade operacional para tarefas que exigem
maior agilidade, velocidade, pouso em áreas restritas etc,
mas nada que comprometa sua qualidade para onde for requisitado.
O nosso passeio, previsto para durar entre 45 min e uma hora, levou
duas horas cravadas por que o casal que nos acompanhava quis sobrevoar
a casa em que residiam, e residiam em Tamboré! Uma ligação
pelo celular colocou a família para fora para todos acenarem
para o dirigível. Demos várias voltinhas por lá
e eu, braço apoiado fora da janela, tomando vento no rosto
e curtindo a paisagem, ficava imaginando o frissom da passagem dos
Zeppelins por São Paulo na década de 30 – quando
até o Hindenburg esteve em São Paulo.
Maurici já sabia do que só então descobri:
os cães é que ficam agitados com o blimp, ficam latindo
e abanando as caudas para ele. Impossível imaginar o que
pensam daquele balão gordo voando bem acima deles. Afinal,
quem não repara em um dirigível? Por isso que o piloto
do Ventura nem precisa, como fazem os colegas voando helicóptero,
ficar continuamente informando sua posição no céu,
para evitar colisões... Muitos pilotos até usam o
dirigível como ponto de referência: “Estou decolando
do heliponto à direita do dirigível da Goodyear...”
E quem não viaja junto, ao vê-los flutuando placidamente
no céu, de maneira vagarosa e silenciosa? Aquela forma meio
lúdica, como se fosse um balão de festa infantil solto
ao vento, esconde muito trabalho e muito investimento. O resultado
é levar o presente ao passado: uma viagem com um aparelho
mais-leve-que-o-ar é a forma mais romântica de se voar,
seja pela lembrança dos tempos menos estressantes, em que
São Paulo de muitas décadas atrás via passar
Zeppelins em seu céu. Seja pela admirável falta de
pressa ou mesmo a completa interação com o meio ambiente
e a natureza.
Por isso tudo, esse “objeto estranho no ar” se presta
muito bem às atividades institucionais. E a Goodyear descobriu
isso bem cedo, enquanto Demoiselles ainda conquistavam os céus
europeus.
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