| Na minha ainda curta carreira de piloto, posso
citar três fases prazerosas, cada uma quando voava um avião
diferente.
A primeira é a época das minhas primeiras instruções
no T-23 Uirapuru, o famoso “Zarapa”, no Aeroclube do
Brasil. Cada missão pré-solo do curso prático
de piloto privado era um desafio, até conseguir alcançar
o primeiro vôo sozinho na décima sexta hora. Era numa
tarde do dia 10 de outubro de 2004 e o aeródromo de Jacarepaguá
parecia ter parado no tempo só para os meus 20 minutos de
vôo, absolutamente nenhuma aeronave no circuito durante todo
o vôo, tive a pista daquele aeroporto, que hoje cresce muito
em número de vôos, só pra mim.
A segunda fase mais gostosa foi quando estava próximo de
completar a primeira centena de horas de vôo, já voando
o avião mais prazeroso de se voar, na minha humilde opinião,
o eterno Paulistinha. Simplicidade e arte no projeto, leveza e comandos
suaves, um planeio excelente, davam ainda mais gosto de praticar
toque e arremetida no fim de tarde. Parece que quando passei do
avião triciclo para um avião convencional (geralmente
o caminho no começo da instrução em aeroclubes
é inverso) praticamente aprendi a voar de novo. Era tudo
diferente, do acionamento com o “arranque” manual, ao
táxi depois de um pouso “três pontos”.
Tive a sorte de voar Paulistinha.
E por fim a terceira melhor foi a final, aprendendo a voar por instrumentos
no Seneca, na fase bi-motor. A sensação nas primeiras
horas é engraçada, você se vê taxiando
um avião enorme, em relação a tudo que você
já voou até o momento. Agora são seis lugares,
dois motores, um painel cheio de instrumentos, papéis de
planejamento, cartas de vôo, trem em cima na decolagem, etc.
Muda tudo! Quinze horas de vôo depois você tem uma carteira
na mão que diz: Piloto Comercial. É a satisfação
plena, principalmente na minha condição em que não
foi fácil pagar por todas as horas de vôo durante o
período de PP e PC. E principalmente depois dessa fase final,
é que você percebe a seriedade do que está se
propondo a fazer pro resto da vida. Voar é sério...
Eis então que surge a oportunidade de experimentar algo totalmente
novo, diferente. Voar no monomotor mais avançado dos dias
de hoje, o Cirrus SR-22 GTS Turbo. Mais uma vez: tudo muda.
o cirrus sr22 gts turbo
Por ser um vôo de ensaio, obviamente não tive
oportunidade de aprofundar meus conhecimentos sobre a máquina.
De imediato o que impressiona é o design do Cirrus, fuselagem
é do tipo monocoque, constituída basicamente em vibra
de vidro, com linhas suaves e estrutura aerodinamicamente limpa.
A asa tem uma característica interessante, o bordo de ataque
construído em titânio possui um prolongamento, denominado
cuff, diferenciando o perfil aerodinâmico
na região dos ailerons. Esse sistema tem a função
de melhorar o fluxo de ar na ponta das asas em altas velocidades
e retardar a separação do fluxo de ar em velocidades
próxima do estol, incorporando um perfil de maior sustentação
na área dos ailerons, permitindo assim um bom controle lateral
com elevados ângulos de ataque. É interessante notar
que essa solução também é empregada
no Piper Malibu e no Questair Venture. A razão é que
o projetista de ambos aviões, James Griswold, entrou para
a equipe da Cirrus em 1996, trazendo consigo esta solução
bastante original.
Outra característica interessante, especialmente tratando-se
de um monomotor, é o de-ice.
Que é fundamental para o Cirrus SR22 GTS Turbocharged, que
pode voar no FL250. O sistema quando acionado, bombeia uma solução
de glicol nos bordos de ataque da asa e do estabilizador horizontal.
O sistema tem autonomia de até uma hora e meia, tempo considerado
razoável para este tipo de avião.
As superfícies de comando são construídas em
alumínio, ainda que pareça uma divergência no
projeto, basicamente constituído em materiais compostos,
foi à solução mais prática encontrada
para simplificar o processo de construção. Além
disso, devido ao pequeno peso não afetam a performance e
ainda garantem maior durabilidade se comparadas a outros materiais.
E o acabamento é tão preciso, que não desafina
do restante do conjunto produzido em materiais compostos. Os flaps
são simples e acionados por um sistema elétrico, bastante
simples e prático.
A Hartzell de três pás na forma de cimitarra faz parte
da segunda geração de hélices de materiais
compostos do fabricante, com um desenho diferente de todas que já
vi, ela possui pontas mais finas e uma corda maior que sua antecessora,
proporcionando um grande aumento de eficiência. Outra evolução
foi que as novas pás passaram a ser constituídas de
carbono e kevlar, ao contrário da geração anterior
construída inteiramente em kevlar.
A aparência compacta do capô do motor formada por três
partes, duas inferiores e uma superior, não parece esconder
um motor de 310hp, equipado com dois turbos. Outra característica,
da engenharia primorosa da Cirrus é justamente o capô,
que apesar de compacto possui grande eficiência de coolong
drag, quanto na dissipação do calor gerado
pelo motor.
O motor Continental IO-550-N, está equipado com um sistema
Turbonomalizador Tornado Alley, duplo intercooler
e duplo turbocharged. É interessante
notar que mais uma vez a Cirrus inovou, dessa vez ao mudar alguns
conceitos relacionados à aplicação do Turbo
Charged. Ainda que este conceito tenha mais de quarenta anos, normalmente
a instalação do turbo acaba gerando uma série
de problemas operacionais, a maioria relacionada à redução
do TBO (Time
Between Overwaul) do motor. Para contornar este problema,
a Cirrus em parceria com a Tornado Alley, desenvolveu um novo sistema
de turbo, o Tornado Alley Turbonormalizing. O sistema utiliza dois
intercoolers, montados em conjunto com duas turbinas com uma válvula
reguladora absoluta de pressão e uma válvula de alívio,
que proporcionam pressão constante assim como nos modelos
tradicionais do turbocharged, porém, proporcionando uma redução
na temperatura dos gases de descarga. A válvula reguladora
de pressão durante a subida trabalha para manter a pressão
constante até o teto máximo de serviço do Cirrus
SR22 GTS Turbo, que é de 25 mil pés. O mais interessante
é que a Continental, fabricante do motor, comprometeu-se
a manter a mesma garantia encontrada nos motores aspirados. Isto
graças a este novo sistema, não prejudicar a vida
útil do motor.
Ao contrário da maioria dos aviões que conta apenas
com uma porta lateral, todos aviões Cirrus contam com duas
generosas portas se abrem para cima e para frente, no estilo asa
de gaivota, que ficou imortalizado em carros esportivos. Ao entrar
encontra-se um cockpit com tecnologia de dar inveja até em
pilotos de grandes jatos, aliado a um conforto fora de série.
Estado da arte em ergonomia. Tudo ali dentro é do melhor,
você se sente entrando num carro de luxo, novo, que literalmente
voa! A tendência automotiva no interior é bem evidente
nos aviões Cirrus, que conta com bancos de couro, cintos
muito confortáveis, fones da BOSE, que além de confortáveis
representam o que há de mais moderno em fones, com grande
redução de ruído, e excepcional qualidade de
áudio. No console central estão os aviônicos
da Garmin, compostos pelo painel de áudio GMA 340, dois GPS/NAV/COMM
GNS 430, um transponder GTX 327 totalmente digital.
primeiro vôo
No primeiro vôo, que seria para o ensaio fotográfico,
acompanhei tudo no assento da direita. O experiente comandante Sérgio
Beneditti, há mais de 30 anos na aviação, me
deu briefing de cada etapa, demonstrando o funcionamento dos displays
e me explicando o conceito de utilização de cada um.
O painel possui desenho limpo, de fácil leitura e fácil
acesso, estando todos os comandos ao alcance das mãos. A
sua frente alguns poucos switches, como os das duas baterias, dos
dois alternadores e do controle de iluminação. As
duas telas de LCD (Liquid Crystal Display) de 10.4 polegadas, baseadas
no conceito de glass cockpit, são um espetáculo à
parte. A da esquerda é o PFD (Primary Flight Display) FlightMax
Entegra, que integra os instrumentos de vôo, como horizonte
artificial, velocímetro, altímetro, entre outros,
num layout muito similar ao encontrado em grandes jatos comerciais.
A direita encontra-se o MFD (Multi-function display) Avidyne FlightMax
EX5000C. Logo ao ligar as baterias, o MFD faz um breve check para
o piloto, questionando se o mesmo verificou as condições
atmosféricas, se realizou o check externo do avião
e ainda se consumiu álcool ou drogas nas ultimas horas. Após
confirmar que tudo está de acordo, passa-se para a tela que
informa a quantidade de combustível disponível. Estas
informações são fundamentais para livrar o
fabricante da culpa por eventuais acidentes relacionados à
má operação, afinal nos Estados Unidos à
lei do consumidor é aplicada com rigor. Neste caso a Cirrus
oferece uma série de dados que alertam o piloto para qualquer
eventual discrepância com relação à operação
padrão.
O Sérgio aciona o avião e eu não senti nenhuma
vibração. É tudo bem suave e com pouquíssimo
ruído. O berço do motor é fixo a estrutura
por seis pontos de fixação, que reduz ainda mais a
vibração. O MFD exibe os parâmetros do motor,
que são normalmente utilizados durante o acionamento. O check
de magnetos no ponto de espera é semelhante a qualquer avião
a pistão, a não ser pelo fato que o checklist é
digital e exibido no MFD.
Entre o táxi e o ponto de espera o Sérgio informa
inúmeros aspectos do Cirrus, dando algumas dicas sobre como
operar o avião. Talvez uma das maiores inovações
seja o CMax, que contém todas as cartas de vôo Jeppesen,
que são atualizadas automaticamente a cada 14 dias e são
exibidas justamente onde o piloto necessita, na altura dos olhos,
já que são projetadas no MFD e utilizando informações
providas pelo GPS, é indicada na própria carta a sua
posição. Você pode selecionar a carta do aeródromo
e terá na sua tela a indicação da sua posição
no solo, excelente para aquelas situações em que você
tem que pousar e agilizar para que outra aeronave na final não
tenha que arremeter porque você não conhece direito
o aeródromo e demora a se situar. O sistema funciona em todos
os tipos de carta, inclusive nas de aproximação por
instrumentos, o que te proporciona uma segurança ainda maior.
Existe uma porta USB na lateral do MFD para transferência
de conteúdo, seja para atualizar o bando de dados ou mesmo
realizar uma cópia de segurança.
Alinhado e pronto, Sérgio empurra progressivamente na manete
de potência e me explica que nesse avião é utilizado
full-power até o nivelamento. À medida que o giro
do motor sobe sinto que a potência ali não falta. Estávamos
apenas os dois a bordo e com meio tanque abastecido em cada asa.
Pouca pista utilizada e rapidamente o avião sai do solo.
A impressão é a de que ele engole o ar a sua frente,
sem pedir licença. Estamos a 90kts e a razão de subida
é o que mais me impressiona na decolagem. Estava um pouco
turbulento naquela manhã, mas ainda assim o vôo se
mantinha suave, sem vibrações.
O MFD passa a exibir o moving map, que exibe informações
completas do terreno, sendo baseado em informações
GPS. O moving map, é utilizado para planejamento, analise
e conferencia do vôo. Estando integrado ainda ao TAWS (Terrain
Alert Warning System), similar ao conhecido EGPWS, com tecnologia
de última geração. Contando com um banco de
dados completo com as características do terreno e obstáculos,
além de oferecer sinais áudio visuais. Estando também
equipado com o indispensável TCAS, que é normalmente
encontrado em aviões a jato equipado com EFIS. No caso do
Cirrus, o sistema recebe a denominação Skywatch, que
funciona exatamente da mesma maneira que o TCAS, apresentando os
dados no MFD e no display do GPS.
À nossa frente decolou o Maule que seria o paquera para as
fotos, sendo que para encontrá-lo bastou olhar no MFD o alvo
do TCAS desenhado no mapa móvel. Ao nivelar, mantivemos 160
nós até entrarmos na ala do Maule, para a sessão
de fotos. O comandante Sérgio variou a nossa posição
em relação ao paquera, realizando algumas curvas de
grande inclinação e um pouco de coordenação
de primeiro tipo. No final do vôo, já próximo
de Jundiaí, Sérgio me passou o comando do avião
para eu sentir um pouco o vôo.
A posição do braço que segura o stick de comando
é muito confortável, principalmente porque o SR-22
tem compensador elétrico para o profundor e também
para os ailerons, acionado por um botão redondo no stick.
É possível voar utilizando somente o botão,
o que eu confesso que me gerou um certo conflito entre escolher
comandar normalmente ou usar apenas o botão, pois existe
uma função onde o piloto comanda uma curva, por exemplo,
e dá apenas um toque no compensador para o lado da curva
e o sistema memoriza aquela atitude e a mantém. O que foi
inventado para reduzir os esforços do piloto durante o vôo,
no SR-22 foi aprimorado para reduzir ainda mais. É incrível!
Eu pilotei até a final de Jundiaí, então o
comandante Sérgio assumiu novamente para um pouso tranqüilo,
apesar dos 17 nós de vento quase de través.
Após o ensaio fotográfico, chega à hora de
voar na esquerda, pilotando do acionamento ao corte. Dessa vez foi
assistido pelo chefe de treinamento da Cirrus do Brasil, comandante
Coppini. Revimos algumas funções do MFD, tais como
radar meteorológico. Visando operar sob quaisquer condições,
ainda está integrado um StormScope e um moderno sistema de
meteorologia denominado XM, que funciona através de um datalink,
fornecendo informações sobre as condições
em rota, com radar meteorológico e ainda a recepção
de dados METAR e TAF.
Com o check pré-vôo completo, fechei a porta e auxiliado
pelo comandante Coppini, iniciei o prático check-list eletrônico.
Utilizei a bomba elétrica de combustível para pressurizar
a linha, acionei os magnetos, selecionei mistura rica, e a cavalaria
voltou à vida. Executei o táxi sem problemas utilizando
apenas o freio diferencial e controlando a potência do motor.
No SR-22 é importante “brifar”
todos a bordo, a respeito da utilização do pára-quedas,
função que parece ser, um dos principais diferenciais
desse avião. É acionado através de uma alavanca
que fica no teto, praticamente no meio do cockpit, e possui uma
chave de segurança, retirada a cada vôo. Ele pode ser
aberto praticamente em qualquer situação de vôo,
e o avião vem ao chão, com uma razão de aproximadamente
1400 pés por minuto. A queda é amortecida pelo trem
de pouso, projetado para reduzir o impacto com o solo, nesse tipo
de emergência.
No ponto de espera realizamos os últimos checks e alinhamos.
Na decolagem é necessário estar atento ao forte efeito
hélice, sendo necessário aplicar o pedal direito para
compensar a forte tendência de guinar para a esquerda.
Estamos com três a bordo e com 62 nós, puxei levemente
o stick e com 76 nós decolamos mantendo uma razão
de subida de 1000 pés por minuto. A subida até altitude
de segurança foi em 90 nós e a subida em rota foi
a 110 nós, 2.660 RPM, mantendo potência máxima
e mistura rica até o nivelamento, segundo o Coppini, assim
obtém-se melhor rendimento devido ao turbocharged.
Decolamos e segui as instruções do comandante Copinni.
A sensação de pilotar o SR-22 é indescritível,
tudo nele é projetado para tornar a pilotagem muito fácil
e segura. Começamos um vôo reduzido, full-flap, e a
estabilidade do avião chama a atenção. Aproveitando
que estávamos em boa altitude e em vôo reduzido, fizemos
alguns estóis. O avião se recupera do estol muito
rápido. É possível aplicar comando de asa no
pré-estol, o que na minha concepção de teoria
de vôo até então era muito arriscado. Porém
o SR-22 não cai de asa ao ser comandada uma curva pelo aileron
no pré-estol. Obviamente foi um comando suave, nada que pudesse
gerar riscos. Durante todas as manobras o Cirrus apresenta excelente
estabilidade, com comandos permanecendo ativos mesmo com velocidade
abaixo de 60 nós. Durante todo o vôo à temperatura
na cabeça dos cilindros manteve-se excelente e pressão
manteve-se em 29 polegadas.
O retorno a Jundiaí foi todo feito no piloto automático.
A princípio o funcionamento do piloto automático me
pareceu semelhante aos outros, convencionais, a não ser pelas
informações que são mostradas no PFD, como
razão de subida, altitude selecionada, entre outros. O sistema
constantemente atualiza informações sobre o vento,
permitindo estimativas precisas sobre os waypoints selecionados.
Pousei com 80 nós, full-flap, na final. O pouso do SR-22
é bem tranqüilo, não é preciso brigar
muito com o avião para arredondar. O mais fácil a
se fazer é quebrar o planeio apenas levantando um pouco o
nariz, que ele toca suave à pista.
Após o corte do motor, ao sair do avião a primeira
coisa que passou na minha cabeça foi um contraste entre o
Paulistinha e o Cirrus, dois monomotores completamente distintos
um do outro. É possível chegar a pensar, durante um
vôo no SR-22, que não se está num monomotor,
e sim num grande avião comercial, tamanha a quantidade de
recursos tecnológicos embarcados. Esse vôo, para mim,
foi revolucionário. A sensação é diferente
de tudo que existe na aviação, só mesmo pilotando
um Cirrus para saber. |