Se perguntarmos aos
inúmeros passageiros que embarcam diariamente no Aeroporto
Santos-Dumont qual sua maior lembrança quanto aos aviões
que operaram ali a maioria irá responder que sente saudades
de tipos como Lockheed Electra II [leia
mais], Vicker’s Viscount e talvez alguns lembrem dos
NAMC YS-11A, Douglas DC-3 e Lockheed Constellation. Mas possivelmente
nenhum deles ira citar um hidroavião, pois é quase
certo que nenhum tenha visto um hidroavião operando comercialmente
no Brasil.
Apesar de termos tido alguns aviões operando na bacia Amazônica
até os anos 70, poucos irão lembrar de algo que
ocorreu há tantos anos e em uma região normalmente
esquecida pela maior parte dos brasileiros que vivem no sul ou
sudeste.
Mas mesmo que poucos se recordem, ou mesmo saibam, durante quase
uma década a aviação comercial brasileira
teve praticamente apenas hidroaviões. Até o início
da década de 1940 era comum hidroaviões pousando
diariamente na baia do Guanabara, exatamente onde hoje esta o
Aeroporto Santos-Dumont.
As principais empresas brasileiras da época, como a VARIG,
Condor (posterior Cruzeiro do Sul), e Panair do Brasil, voavam
com hidroaviões, sendo que as duas últimas operavam
regularmente no Rio de Janeiro. Assim como a Pan American Airways
[leia mais]
e demais empresas internacionais.
Com certeza é difícil imaginar que a baia do Guanabara
já recebeu o maior hidroavião de seu tempo: o Dornier
X, um gigante bote-voador com 12 motores.
Mais difícil para muitos seria imaginar que no tão
esperado século XXI, em 2006, um Dornier Do-24, avião
da década de 1930, iria amerissar na baia do Guanabara.
Apesar do modelo em questão ser um Dornier Do-24ATT, extensamente
modificado, a amerrisagem dele nas águas da baia foi um
momento único para a aviação brasileira.
Afinal já se passavam mais de 60 anos desde a última
amerrisagem naquelas águas.
Breve resumo histórico do Do-24
Em meados de 1926, a Dornier recebeu um grande pedido da Marinha
Holandesa, para seus recém lançados Donier “J”
Wal, um pequeno bote-voador equipado com dois motores a pistão
na configuração “push-pull”. Desde 1925,
a Dornier patrocinava uma viagem experimental entre a Colômbia
e Palm Beach, na Florida, utilizando dois hidroaviões Dornier
Wal, comandada pelo experiente Comandante Fritz Hammer. A viagem
tinha como objetivo analisar a viabilidade de uma eventual linhas
ligando os Estados Unidos a Colômbia e também promover
a indústria aeronáutica alemã no continente
americano. Posteriormente um dos aviões utilizados nesta
viagem, foi o primeiro avião a operar na VARIG, que na
empresa recebeu a matrícula P-BAAA.
Com esses aviões a Marinha Holandesa, pretendia poder patrulhar
com maior eficiência suas inúmeras colônias,
especialmente as Antilhas Holandesas, localizadas no Caribe e
a Indonésia. Que ainda no século XX eram alvos constantes
de piratas.
Porém, no inicio da década de 1930, os Dornier Wal
já mostravam ser um avião antiquado e com pouco
alcance para cumprir as novas exigências das missões
de patrulha realizadas pela Marinha Holandesa.
Com isso a Marinha Holandesa realizou um requerimento para o desenvolvimento
de um novo avião capaz de atender as novas exigências
das missões realizadas.
Apesar da Fokker estar trabalhando em um novo avião, ele
ficava muito abaixo das exigências e o modelo desenvolvido
pela Sikorsky apesar de corresponder a praticamente todas as expectativas
da Marinha, o programa estava ainda em sua fase inicial, estando
longe ainda da certificação.
A única empresa a possuir um modelo capaz de atender as
exigências tanto técnicas quanto de tempo era Dornier
que há algum tempo vinha trabalhando no Do-18, uma versão
modernizada do Wal e desenvolvia o P.14 um avião totalmente
novo que estaria pronto a tempo de atender a Marinha Holandesa.
Devido as excelentes características do novo avião,
a Marinha Holandesa assinou um contrato para a compra de seis
unidades. O novo avião agora denominado Do-24 ficou pronto
em 1936, sendo que o modelo atendia basicamente a todos os requisitos
feitos pela Reichsluftfahrministerium – RLM, tendo com isso
sido também o modelo escolhido para substituir os Wal da
Luftwaffe.
Foram construídos quatro protótipos, o Do-24 V1
e Do-24 V2 para atender a RLM e os Do-24 V3 e Do-24 V4 para a
Marinha Holandesa.
O Do-24 V3 e Do-24 V4 eram, respectivamente, o terceiro e o quarto
protótipo, porém foram os primeiros a voar, pois
deveriam atender prioritariamente ao pedido holandês. Os
aviões holandeses foram equipados com três motores
Wright Cyclone GR-1820-F52, enquanto as versões Do-24 V1
e Do-24 V2 foram equipados com os motores Junkers Jumo 205C. A
escolha dos motores Wright Cyclone, por parte da Holanda se deu
porque estes motores também equipavam os bombardeiros Glenn
Martin 139.
O primeiro Do-24 a voar foi o modelo V3, que realizou seu primeiro
vôo em 3 de julho de 1937, tendo realizado uma série
de vôos de testes entre julho e outubro. Em novembro o avião
recebeu a designação oficial Do-24K1, tendo sido
entregue a Marinha Holandesa no inicio de 1938.
Diversas versões seguiram o Do-24K1, sendo que após
diversas modificações foi lançado o modelo
Do-24T-1, que era equipado com os motores BMW 132N capazes de
gerar até 685Hp cada.
O Do-24ATT
Na segunda metade da década de 1970, a Dornier estudava
a viabilidade econômica de lançar um novo avião
anfíbio de grande capacidade. Para isso, utilizando como
plataforma um velho Do-24T-3 que havia servido até o iniício
da década na Força Aérea Espanhola como avião
SAR – Save And Rescue, a empresa iniciou o desenvolvimento
de uma versão avançada do velho e confiável
bote-voador.
O novo avião denominado como Do-24ATT Amphibian utilizava
basicamente apenas a fuselagem do antigo Do-24T-3 que recebeu
novas asas, feitas em uma única peça de alumínio
que dava uma maior resistência estrutural ao novo avião
e este passava a ser um avião anfíbio.
As modificações incluíram a instalação
de novos fluturadores que contavam agora com compartimento para
trem de pouso, um painel totalmente modernizado utilizando o que
havia de mais moderno em avionica até então, novos
suportes para as asas e passava a ser equipado com três
poderosos motores Pratt & Whitney PT6A-45B com 1173 shp cada.
Além de possuir maior alcance e capacidade de carga que
a versão original.
O novo avião fez seu primeiro vôo em 25 de abril
de 1983, porém apesar do excelente desempenho apresentado,
o novo avião não chamou atenção do
mercado, o que acabou decretando o fim do programa em menos de
um ano após o primeiro vôo tendo sido entregue ao
Deutsch Museum, onde ficou exposto até 2003, quando foi
transferido para as Filipinas.
Apesar de ter sido vendido em 1998 ao empresário alemão
Iren Dornier, neto do fundador da Dornier, Claudius, apenas em
2003 o avião foi removido para as Filipinas, país
onde vive Iren Dornier, para uma restauração e modernização.
O avião passou por uma série de modificações
que incluíriam a instalação de um moderno
sistema de navegação GPS e instalação
de um circuito de tv para monitorar diversos itens do avião
que é controlado por computador. Além de um moderno
sistema de entretenimento de bordo, que conta com seis monitores
LCD e ainda som 3D. O interior também recebeu atenção
especial, ganhando bancos de couro, similares aos utilizados em
aviões executivos como o Learjet, e detalhes em madeira
de lei.
A idéia era poder criar um avião capaz de dar uma
volta ao mundo com total confiabilidade e com o mínimo
de conforto para seus passageiros. Pois ele seria utilizado no
projeto Mission: Dream. O projeto idealizado por Iren Dornier
visa arrecadar fundos para a UNICEF das Filipinas e ainda divulgar
o nome Dornier. Apesar de não ter mais qualquer relação
com a antiga fabricante Dornier, Iren tem planos de lançar
em meados de 2008 um pequeno hidroavião, do tipo home-built
para duas pessoas. E acredita que, a médio prazo, possa
lançar um avião anfíbio multi-uso, com peso
máximo de decolagem na casa das 35 toneladas e alcance
superior a 2.500nm, que pode ser utilizado em missões de
patrulha, SAR, aviação comercial ou mesmo para uso
privativo.
O Do-24ATT, após receber as diversas alterações
necessárias e cumprir as exigências da Philippine
Aviation Authority - Autoridade de Aviação das Filipinas
foi homologado em fevereiro de 2004
Em março do mesmo ano, partiu para a primeira jornada da
volta ao mundo do Mission: Dream, que começou nas Filipinas
e terminou em Jamestown nos Estados Unidos, após passar
por mais de 19 paiíses. A segunda parte começou
em 2005, partindo dos Estados Unidos, rumo a América Latina,
África, parte da Europa, Ásia e finalmente Filipinas.
A previsão é que a jornada termine em meados de
2007.