Voando no Dornier
Sábado
04 de março
O primeiro vôo abordo do Do-24ATT, aconteceu de maneira
inusitada. No sábado, dia 04 de março, devido ao
tempo bom, fui até o Museu Aeroespacial para realizar um
novo ensaio fotográfico do avião. Assim aproveitava
o belo dia e ainda acompanhava os preparativos para o vôo
sobre o Rio de Janeiro, com amerrisagem na baía do Guanabara,
programado para o dia seguinte. Enquanto fotografava, acompanhava
os trabalhos para solucionar o problema no trem de pouso, que
inviabilizou o vôo programado para o domingo anterior. Devido
a uma pane hidráulica, o trem de pouso não recolheu,
fazendo com que a equipe trabalhasse durante toda a semana resolvendo
este e demais problemas que surgiram.
Naquele sábado um dos maiores problemas, foi um simples
pneu do trem principal direito, que estava esvaziando constantemente.
Por ser sábado era completamente inviável retirar
o pneu para um reparo, como também se mostrou difícil
conseguir na Base Aérea do Campo dos Afonsos, uma garrafa
de hidrogênio para poder calibrar o pneu. Após alguns
contatos, finalmente conseguiram a garrafa e puderam calibrar
corretamente aquele pneu problemático. Enquanto a equipe
do Mission: Dream, auxiliada pelo Marco Sarube, funcionário
do Musal, que durante todo o tempo auxiliou a aeronave no Rio
de Janeiro e que seria o co-piloto do nosso vôo de domingo,
realizava os últimos preparativos para o vôo de testes,
recebi do Iren Dornier, o convite para acompanhar esse curto,
mas importante vôo.
Pontualmente as 14:00 os motores foram acionados e iniciado o
táxi em direção a cabeceira 08. Enquanto
taxiávamos, os diversos monitores de cristal líquido,
exibiam imagens do trem de pouso. Todos os olhares se voltavam
para os displays. Depois de alinhado, foi realizado um rápido
check. Foi verificado o funcionamento perfeito de todos os sistemas.
Motores a pleno, freios liberados e a “Latina” começa
a ganhar velocidade, apesar de ser um avião com mais de
60 anos e estar equipado com três poderosos motores, a vibração
é relativamente pequena e o ruído é baixo,
mesmo sem contar com um moderno isolamento acústico. Após
a decolagem todos acompanhavam as imagens do recolhimento do trem
de pouso, a cada quadro exibido a ansiedade aumentava. Ao final
de alguns segundos os monitores exibiam apenas uma imagem preta.
Era sinal de que as três pernas do conjunto de trem de pouso
haviam sido recolhidas com sucesso. Todos respiravam aliviados.
Enquanto o avião curvava para a esquerda para entrar no
circuito de tráfego dos Afonsos, fui convidado a ir até
a bolha. Apesar da visão das janelas laterais serem excelentes,
nada se compara com voar tendo um ângulo de visão
de exatos 360º. O assento ali localizado tem capacidade para
duas pessoas, que podem viajar com relativo espaço, o único
problema é suportar por longas horas o sol irradiando sobre
o rosto e dentro de uma semi-esfera de acrílico. O calor
em todo o avião é demasiado, mas na bolha, mesmo
com a ventilação a sensação é
de que você esta voando em uma estufa.
Enquanto admirava a vista aérea do Campos dos Afonsos,
a tripulação realizava os últimos checks.
Após uma verificação completa de todos os
sistemas, o co-piloto iniciou um mergulho sobre o Museu Aeroespacial,
realizando um belo rasante sobre o pátio do Museu. Impossível
ficar indiferente ao assistir uma passagem baixa da bolha. Enquanto
passávamos sobre o museu, pessoas acenavam encantadas com
a cena. Realmente não é todo dia que se vê
um Dornier Do-24ATT passando a poucos metros sobre o Musal.
Após a recuperação, entramos no procedimento
para pouso. Menos de 20 minutos após decolarmos estávamos
no solo, felizes pelo sucesso deste vôo.
Domingo
05 de março
Apesar do horário de decolagem estar marcado para
as 09:45, já havia movimentação ao redor
do avião desde as 08:00, sendo que os preparativos para
o vôo começaram efetivamente as 09:00. Em pouco mais
de 20 minutos, já tínhamos aprovado nosso plano
de vôo, que previa uma amerrisagem na baia do Guanabara,
com posterior decolagem e sobrevôo do Pão de Açúcar,
Cristo Redentor, e toda a orla de Copacabana na zona sul, até
a Barra da Tijuca e Recreio na zona oeste.
Como o pneu continuava com vazamento, tivemos um atraso de mais
de uma hora. E apesar da expectativa todos tentavam aparentar
indiferença com relação ao horário
de decolagem, mas é difícil esconder a ansiedade
para realizar um vôo destes. Afinal desde a década
de 1940, não havia mais ocorrido nenhuma amerrisagem na
baía do Guanabara. Além do simbolismo de estar abordo
de um Dornier e pousar na baia, havia ainda o fato deste ser o
primeiro avião a pousar na recém homologada hidropista
do Aeroporto Santos-Dumont. Existem estudos para que em curto
prazo o Brasil volte a contar com a hidroaviação.
As 11:16 decolávamos e novamente todos olhavam atentamente
as imagens do recolhimento do trem de pouso. Apesar da certeza
de que estava tudo certo, todos abordo só respiraram aliviados
quando a imagem ficou preta.
Optei por sentar próximo ao bordo de fuga das asas, exatamente
atrás dos fluturadores, pois ali teria uma perfeita visão
do momento do toque do avião com a água.
As 11:22 sobrevoavamos o Aeroporto Santos-Dumont, iniciando o
procedimento para pouso na baia. Conforme previsto iríamos
cruzar o aeroporto na radial 280 e em seguida iniciar uma curva
a direita para realizar duas passagens baixas sobre a baia, paralelo
ao Santos-Dumont. Estas duas passagens serviram para o reconhecimento
do local de pouso e para possibilitar que fossem realizadas fotografias
da aeronave por todos aqueles que assistiam o pouso a partir da
Escola Naval, localizada ao lado do Santos-Dumont. Sendo ali o
melhor local para acompanhar a amerrisagem.
Após a segunda passagem, o avião iniciou uma curva
a direita ganhando altura, voando sentido Pão de Açúcar,
visando realizar o circuito de trafego previsto para este tipo
de operação. O nosso procedimento era similar ao
utilizado para pouso na pista 02, a diferença é
que iniciávamos a perna base sobre a baia e não
sobre o bairro de Botafogo.
Exatamente as 11:30 tocávamos as águas calmas da
baia do Guanabara. Mas apesar das águas calmas, como o
toque é feito a 90 nós, o impacto é forte
e o barulho assusta os menos avisados. A sensação
é a mesma de estar pousando de barriga no asfalto, porém
devido à marola e a inércia, o avião é
arremessado ao ar até que no quinto toque ele consegue
ficar sobre a água. Esta seqüência toda dura
menos de 10 segundos, mas é tempo suficiente para perceber
toda a robustez do avião. A cada toque é possível
perceber toda estrutura dissipando o choque com a água,
mas sem mostrar qualquer sinal de torção. O Do-24ATT
mostra-se um verdadeiro bote voador. O único problema do
projeto é que o avião não conta com um leme
de direção para água, fazendo com que o controle
durante as operações de táxi seja um pouco
trabalhosa e ineficiente. Para mudar a direção é
necessário trabalhar apenas com a diferença do torque
dos motores e com o leme convencional.
Interessante foi observar a aproximação inicialmente
tímidas das embarcações que avistavam o avião
e a curiosidade despertada. Todos que se aproximavam perguntavam
a respeito do avião, do pouso e a origem do vôo.
Era impossível ficar indiferente a cena de um avião
parado no meio da baia do Guanabara. Especialmente porque nenhum
dos que assistiam aquela inusitada cena havia nascido quando os
últimos hidroaviões operavam diariamente ali. Para
todos, aquela era uma cena única e que merecia atenção
especial. Ainda mais porque dois ultraleves que faziam vôos
paquera sobrevoavam constantemente o Dornier.
Enquanto aguardávamos a decolagem do Cessna que iria levar
o fotografo oficial do Mission: Dream, respondíamos os
questionamentos feitos e sofríamos com o imenso calor.
Apesar da previsão de ficar apenas 15 minutos na baia,
acabamos ficando mais de 1:30 aguardando a decolagem do Cessna.
Como estávamos a deriva e indo em direção
a encosta da Escola Naval, o Iren Dornier, começou a ficar
preocupado e optou por decolar mesmo sem ainda ter confirmação
da decolagem do Cessna. Felizmente enquanto a Capitania dos Portos
afastava as embarcações para podermos iniciar o
acionamento dos motores, o avião paquera decolava do Santos-Dumont.
Inicialmente estava estabelecido que o avião deveria decolar
da hidropista, que tem o comprimento exato das pistas “terrestres”
do Santos-Dumont, ou seja, 1380m. Porém devido à
posição do vento, nossa decolagem se deu em frente
à enseada de Botafogo, quase 2000m à frente.
A corrida para decolagem foi tranqüila e apesar do choque
da água com o casco, o avião praticamente não
vibrava ou fazia qualquer barulho. O que escutávamos especialmente
próximo a cabine era o ronco dos motores.
Interessante que enquanto corríamos para a decolagem a
maior parte das embarcações que nos observavam nos
acompanhavam. Com certeza para quem observava de fora esta foi
uma cena única.
Decolamos poucos metros antes do Pão de Açúcar,
que estava do nosso lado direito. Sendo que iniciamos uma curva
para esquerda exatamente ao ficarmos paralelos com este famoso
cartão postar do Rio de Janeiro.
Após a curva, o avião iniciou um mergulho para realizar
uma passagem baixa sobre a baia, curvando sobre o Santos-Dumont
para então iniciarmos a segunda fase do nosso vôo.
Voamos baixinho até sairmos da baia, onde iríamos
iniciar uma curva de 180º para podermos ser acompanhados
pelo Cessna que estava próximo ao Pão de Açúcar
e voava em direção ao Corcovado onde seria feito
primeiro ensaio fotográfico. Enquanto nos aproximávamos
do Corcovado todos abordo observavam maravilhados a beleza do
Rio de Janeiro, que apesar de todos os problemas sociais e de
segurança ainda merece o titulo de Cidade Maravilhosa.
Para facilitar a coordenação entre os três
aviões paqueras (dois ultraleves e o Cessna) ficou acertado
que todas as curvas seriam realizadas pela direita.
Então iniciamos a aproximação ao Corcovado
pela face leste (lado direito do Cristo), e ao cruzarmos com a
imponente estátua iniciamos uma curva extremamente fechada,
visando manter uma órbita de 360º ao redor do Cristo
Redentor.
A seqüência de curvas mostravam toda a performance
do avião, que apesar de pesar mais de 15000kg, e ter um
jeitão desengonçado, tem uma pilotagem é
extremamente dócil. Além da experiência do
Iren, que a mais de dois anos vem voando quase que semanalmente
vôos de longa duração no avião. A maioria
das curvas eram de grande inclinação, exigindo um
trabalho muito bem coordenado de “pé e mão”.
A presença do Dornier chamava atenção dos
turistas que estavam visitando o Corcovado, e durante os mais
de 10 minutos que ficamos circulando o Cristo, era possível
acompanhar a agitação lá embaixo. Pessoas
miravam suas câmeras para o avião, tentando fotografar
aquele avião estranho que por algum motivo estava circulando
o mais famoso ponto turístico do Brasil.
Como voávamos muito perto, era possível notar a
admiração que o avião causava nas pessoas.
Pais mostravam para os filhos o avião, os mais jovens usavam
os telefones para tirar fotos, enquanto éramos a atração
principal o Cristo era plano de fundo para a nossa seção
fotográfica. Talvez por isso ele não tenha ficado
muito enciumado. Afinal pela primeira vez os olhares não
estavam voltados para ele ou para a belíssima vista aérea
do Rio de Janeiro e sim para um bote voador. Para nós,
a sensação de voar tão próximo do
Corcovado fazia com que esquecêssemos os mais de 45ºC
que fazia abordo e fazia com que todos disputassem as janelas
para poder fotografar esta bela imagem.
Após a seção de fotos no Cristo, iniciamos
um mergulho em direção a Lagoa Rodrigues de Freitas,
para iniciamos o vôo pela orla carioca.
Apesar de morar a vários anos no Rio de Janeiro, sempre
achei a vista da Estrada do Joá muito bonita, além
de considerar aqueles viadutos paralelos à encosta com
o mar abaixo um cartão postal não explorado pelo
Rio de Janeiro, mas jamais havia pensado que um dia passaria voando
próximo a Estrada do Joá mais baixo que os viadutos!
Ao chegarmos na Barra, estávamos a pouco mais de 10m da
água, e apesar de ser comum aviões passarem a poucos
metros da praia puxando faixas, a passagem do Dornier mais uma
vez causou surpresa nas pessoas. A maioria olhava sem entender
muito bem que avião era aquele.
Iniciamos uma curva para a esquerda assim que chegamos ao emissário
submarino da Barra e voltamos paralelos a praia agora a pouco
mais de 5 metros da linha d’água. Por estamos realmente
muito baixos, com certeza algumas pessoas olhavam preocupadas,
mas a maioria acenava. Já os surfistas olhavam o avião
passando a poucos metros de suas cabeças. Durante todo
o caminho até Copacabana a maioria das pessoas acenavam
enquanto outras tiravam fotos.
Buscando os melhores ângulos e iluminação,
fizemos quatro circuitos entre o Recreio e Copacabana, eventualmente
passando sobre as ilhas próximas ao litoral. Inúmeras
vezes nos encontrávamos com o Blimp da Goodyear que ajudava
a dar um ar ainda mais romântico aquela tarde de domingo.
E em todas as vezes que passamos as pessoas continuavam olhando
admiradas, afinal o que faria aquele avião ali? Porque
esta passando tantas vezes sobre a praia? Essas devem ter sido
as perguntas mais freqüentes durante as mais de 2 horas que
voamos sobre as praias cariocas. Mas a única certeza é
que todos estavam encantados com o que viam.
Para fechar este histórico vôo, o Dornier aproou
o Santos-Dumont e iniciou o procedimento de pouso para a pista
02, mas ao invés de pousar ele realizou uma passagem baixa
sobre a pista, seguida de outra ainda mais baixa vindo pela cabeceira
20.
Mais tarde soube que na última passagem um dos controladores
da Torre Santos-Dumont disse ao Dornier: “Se tivesse voado
um pouco mais baixo você tinha arrancado meu balizamento”.
Realmente foi uma passagem que fez jus ao adjetivo “baixo”.
Após esta última passagem pelo Santos-Dumont, iniciamos
o procedimento para pouso na Base Aérea dos Afonsos. As
14:50 cortávamos os motores, encerrando um dos mais fantásticos
vôos que já realizei.
Aonde quer que esteja o Dornier Do-24ATT faz com que todos olhem
para ele. Um belo avião, que conseguiu reunir de maneira
harmoniosa o clássico com o moderno. Fazendo dele muito
mais do que o único exemplar do tipo existente no mundo.
Existem inúmeros exemplares de aviões únicos
ao redor do mundo, mas poucos conseguem ser tão carismático
quanto este.