Dornier Do-24ATT
 
 
 
   
 
Texto: Edmundo Ubiratan

Voando no Dornier

    
Sábado 04 de março

O primeiro vôo abordo do Do-24ATT, aconteceu de maneira inusitada. No sábado, dia 04 de março, devido ao tempo bom, fui até o Museu Aeroespacial para realizar um novo ensaio fotográfico do avião. Assim aproveitava o belo dia e ainda acompanhava os preparativos para o vôo sobre o Rio de Janeiro, com amerrisagem na baía do Guanabara, programado para o dia seguinte. Enquanto fotografava, acompanhava os trabalhos para solucionar o problema no trem de pouso, que inviabilizou o vôo programado para o domingo anterior. Devido a uma pane hidráulica, o trem de pouso não recolheu, fazendo com que a equipe trabalhasse durante toda a semana resolvendo este e demais problemas que surgiram.

Naquele sábado um dos maiores problemas, foi um simples pneu do trem principal direito, que estava esvaziando constantemente. Por ser sábado era completamente inviável retirar o pneu para um reparo, como também se mostrou difícil conseguir na Base Aérea do Campo dos Afonsos, uma garrafa de hidrogênio para poder calibrar o pneu. Após alguns contatos, finalmente conseguiram a garrafa e puderam calibrar corretamente aquele pneu problemático. Enquanto a equipe do Mission: Dream, auxiliada pelo Marco Sarube, funcionário do Musal, que durante todo o tempo auxiliou a aeronave no Rio de Janeiro e que seria o co-piloto do nosso vôo de domingo, realizava os últimos preparativos para o vôo de testes, recebi do Iren Dornier, o convite para acompanhar esse curto, mas importante vôo.

Pontualmente as 14:00 os motores foram acionados e iniciado o táxi em direção a cabeceira 08. Enquanto taxiávamos, os diversos monitores de cristal líquido, exibiam imagens do trem de pouso. Todos os olhares se voltavam para os displays. Depois de alinhado, foi realizado um rápido check. Foi verificado o funcionamento perfeito de todos os sistemas. Motores a pleno, freios liberados e a “Latina” começa a ganhar velocidade, apesar de ser um avião com mais de 60 anos e estar equipado com três poderosos motores, a vibração é relativamente pequena e o ruído é baixo, mesmo sem contar com um moderno isolamento acústico. Após a decolagem todos acompanhavam as imagens do recolhimento do trem de pouso, a cada quadro exibido a ansiedade aumentava. Ao final de alguns segundos os monitores exibiam apenas uma imagem preta. Era sinal de que as três pernas do conjunto de trem de pouso haviam sido recolhidas com sucesso. Todos respiravam aliviados. Enquanto o avião curvava para a esquerda para entrar no circuito de tráfego dos Afonsos, fui convidado a ir até a bolha. Apesar da visão das janelas laterais serem excelentes, nada se compara com voar tendo um ângulo de visão de exatos 360º. O assento ali localizado tem capacidade para duas pessoas, que podem viajar com relativo espaço, o único problema é suportar por longas horas o sol irradiando sobre o rosto e dentro de uma semi-esfera de acrílico. O calor em todo o avião é demasiado, mas na bolha, mesmo com a ventilação a sensação é de que você esta voando em uma estufa.

Enquanto admirava a vista aérea do Campos dos Afonsos, a tripulação realizava os últimos checks. Após uma verificação completa de todos os sistemas, o co-piloto iniciou um mergulho sobre o Museu Aeroespacial, realizando um belo rasante sobre o pátio do Museu. Impossível ficar indiferente ao assistir uma passagem baixa da bolha. Enquanto passávamos sobre o museu, pessoas acenavam encantadas com a cena. Realmente não é todo dia que se vê um Dornier Do-24ATT passando a poucos metros sobre o Musal.

Após a recuperação, entramos no procedimento para pouso. Menos de 20 minutos após decolarmos estávamos no solo, felizes pelo sucesso deste vôo.

    Domingo 05 de março

Apesar do horário de decolagem estar marcado para as 09:45, já havia movimentação ao redor do avião desde as 08:00, sendo que os preparativos para o vôo começaram efetivamente as 09:00. Em pouco mais de 20 minutos, já tínhamos aprovado nosso plano de vôo, que previa uma amerrisagem na baia do Guanabara, com posterior decolagem e sobrevôo do Pão de Açúcar, Cristo Redentor, e toda a orla de Copacabana na zona sul, até a Barra da Tijuca e Recreio na zona oeste.

Como o pneu continuava com vazamento, tivemos um atraso de mais de uma hora. E apesar da expectativa todos tentavam aparentar indiferença com relação ao horário de decolagem, mas é difícil esconder a ansiedade para realizar um vôo destes. Afinal desde a década de 1940, não havia mais ocorrido nenhuma amerrisagem na baía do Guanabara. Além do simbolismo de estar abordo de um Dornier e pousar na baia, havia ainda o fato deste ser o primeiro avião a pousar na recém homologada hidropista do Aeroporto Santos-Dumont. Existem estudos para que em curto prazo o Brasil volte a contar com a hidroaviação.

As 11:16 decolávamos e novamente todos olhavam atentamente as imagens do recolhimento do trem de pouso. Apesar da certeza de que estava tudo certo, todos abordo só respiraram aliviados quando a imagem ficou preta.

Optei por sentar próximo ao bordo de fuga das asas, exatamente atrás dos fluturadores, pois ali teria uma perfeita visão do momento do toque do avião com a água.

As 11:22 sobrevoavamos o Aeroporto Santos-Dumont, iniciando o procedimento para pouso na baia. Conforme previsto iríamos cruzar o aeroporto na radial 280 e em seguida iniciar uma curva a direita para realizar duas passagens baixas sobre a baia, paralelo ao Santos-Dumont. Estas duas passagens serviram para o reconhecimento do local de pouso e para possibilitar que fossem realizadas fotografias da aeronave por todos aqueles que assistiam o pouso a partir da Escola Naval, localizada ao lado do Santos-Dumont. Sendo ali o melhor local para acompanhar a amerrisagem.

Após a segunda passagem, o avião iniciou uma curva a direita ganhando altura, voando sentido Pão de Açúcar, visando realizar o circuito de trafego previsto para este tipo de operação. O nosso procedimento era similar ao utilizado para pouso na pista 02, a diferença é que iniciávamos a perna base sobre a baia e não sobre o bairro de Botafogo.

Exatamente as 11:30 tocávamos as águas calmas da baia do Guanabara. Mas apesar das águas calmas, como o toque é feito a 90 nós, o impacto é forte e o barulho assusta os menos avisados. A sensação é a mesma de estar pousando de barriga no asfalto, porém devido à marola e a inércia, o avião é arremessado ao ar até que no quinto toque ele consegue ficar sobre a água. Esta seqüência toda dura menos de 10 segundos, mas é tempo suficiente para perceber toda a robustez do avião. A cada toque é possível perceber toda estrutura dissipando o choque com a água, mas sem mostrar qualquer sinal de torção. O Do-24ATT mostra-se um verdadeiro bote voador. O único problema do projeto é que o avião não conta com um leme de direção para água, fazendo com que o controle durante as operações de táxi seja um pouco trabalhosa e ineficiente. Para mudar a direção é necessário trabalhar apenas com a diferença do torque dos motores e com o leme convencional.

Interessante foi observar a aproximação inicialmente tímidas das embarcações que avistavam o avião e a curiosidade despertada. Todos que se aproximavam perguntavam a respeito do avião, do pouso e a origem do vôo. Era impossível ficar indiferente a cena de um avião parado no meio da baia do Guanabara. Especialmente porque nenhum dos que assistiam aquela inusitada cena havia nascido quando os últimos hidroaviões operavam diariamente ali. Para todos, aquela era uma cena única e que merecia atenção especial. Ainda mais porque dois ultraleves que faziam vôos paquera sobrevoavam constantemente o Dornier.

Enquanto aguardávamos a decolagem do Cessna que iria levar o fotografo oficial do Mission: Dream, respondíamos os questionamentos feitos e sofríamos com o imenso calor. Apesar da previsão de ficar apenas 15 minutos na baia, acabamos ficando mais de 1:30 aguardando a decolagem do Cessna. Como estávamos a deriva e indo em direção a encosta da Escola Naval, o Iren Dornier, começou a ficar preocupado e optou por decolar mesmo sem ainda ter confirmação da decolagem do Cessna. Felizmente enquanto a Capitania dos Portos afastava as embarcações para podermos iniciar o acionamento dos motores, o avião paquera decolava do Santos-Dumont.

Inicialmente estava estabelecido que o avião deveria decolar da hidropista, que tem o comprimento exato das pistas “terrestres” do Santos-Dumont, ou seja, 1380m. Porém devido à posição do vento, nossa decolagem se deu em frente à enseada de Botafogo, quase 2000m à frente.

A corrida para decolagem foi tranqüila e apesar do choque da água com o casco, o avião praticamente não vibrava ou fazia qualquer barulho. O que escutávamos especialmente próximo a cabine era o ronco dos motores.
Interessante que enquanto corríamos para a decolagem a maior parte das embarcações que nos observavam nos acompanhavam. Com certeza para quem observava de fora esta foi uma cena única.

Decolamos poucos metros antes do Pão de Açúcar, que estava do nosso lado direito. Sendo que iniciamos uma curva para esquerda exatamente ao ficarmos paralelos com este famoso cartão postar do Rio de Janeiro.
Após a curva, o avião iniciou um mergulho para realizar uma passagem baixa sobre a baia, curvando sobre o Santos-Dumont para então iniciarmos a segunda fase do nosso vôo.

Voamos baixinho até sairmos da baia, onde iríamos iniciar uma curva de 180º para podermos ser acompanhados pelo Cessna que estava próximo ao Pão de Açúcar e voava em direção ao Corcovado onde seria feito primeiro ensaio fotográfico. Enquanto nos aproximávamos do Corcovado todos abordo observavam maravilhados a beleza do Rio de Janeiro, que apesar de todos os problemas sociais e de segurança ainda merece o titulo de Cidade Maravilhosa.

Para facilitar a coordenação entre os três aviões paqueras (dois ultraleves e o Cessna) ficou acertado que todas as curvas seriam realizadas pela direita.
Então iniciamos a aproximação ao Corcovado pela face leste (lado direito do Cristo), e ao cruzarmos com a imponente estátua iniciamos uma curva extremamente fechada, visando manter uma órbita de 360º ao redor do Cristo Redentor.

A seqüência de curvas mostravam toda a performance do avião, que apesar de pesar mais de 15000kg, e ter um jeitão desengonçado, tem uma pilotagem é extremamente dócil. Além da experiência do Iren, que a mais de dois anos vem voando quase que semanalmente vôos de longa duração no avião. A maioria das curvas eram de grande inclinação, exigindo um trabalho muito bem coordenado de “pé e mão”.

A presença do Dornier chamava atenção dos turistas que estavam visitando o Corcovado, e durante os mais de 10 minutos que ficamos circulando o Cristo, era possível acompanhar a agitação lá embaixo. Pessoas miravam suas câmeras para o avião, tentando fotografar aquele avião estranho que por algum motivo estava circulando o mais famoso ponto turístico do Brasil.

Como voávamos muito perto, era possível notar a admiração que o avião causava nas pessoas. Pais mostravam para os filhos o avião, os mais jovens usavam os telefones para tirar fotos, enquanto éramos a atração principal o Cristo era plano de fundo para a nossa seção fotográfica. Talvez por isso ele não tenha ficado muito enciumado. Afinal pela primeira vez os olhares não estavam voltados para ele ou para a belíssima vista aérea do Rio de Janeiro e sim para um bote voador. Para nós, a sensação de voar tão próximo do Corcovado fazia com que esquecêssemos os mais de 45ºC que fazia abordo e fazia com que todos disputassem as janelas para poder fotografar esta bela imagem.

Após a seção de fotos no Cristo, iniciamos um mergulho em direção a Lagoa Rodrigues de Freitas, para iniciamos o vôo pela orla carioca.

Apesar de morar a vários anos no Rio de Janeiro, sempre achei a vista da Estrada do Joá muito bonita, além de considerar aqueles viadutos paralelos à encosta com o mar abaixo um cartão postal não explorado pelo Rio de Janeiro, mas jamais havia pensado que um dia passaria voando próximo a Estrada do Joá mais baixo que os viadutos!

Ao chegarmos na Barra, estávamos a pouco mais de 10m da água, e apesar de ser comum aviões passarem a poucos metros da praia puxando faixas, a passagem do Dornier mais uma vez causou surpresa nas pessoas. A maioria olhava sem entender muito bem que avião era aquele.

Iniciamos uma curva para a esquerda assim que chegamos ao emissário submarino da Barra e voltamos paralelos a praia agora a pouco mais de 5 metros da linha d’água. Por estamos realmente muito baixos, com certeza algumas pessoas olhavam preocupadas, mas a maioria acenava. Já os surfistas olhavam o avião passando a poucos metros de suas cabeças. Durante todo o caminho até Copacabana a maioria das pessoas acenavam enquanto outras tiravam fotos.
Buscando os melhores ângulos e iluminação, fizemos quatro circuitos entre o Recreio e Copacabana, eventualmente passando sobre as ilhas próximas ao litoral. Inúmeras vezes nos encontrávamos com o Blimp da Goodyear que ajudava a dar um ar ainda mais romântico aquela tarde de domingo. E em todas as vezes que passamos as pessoas continuavam olhando admiradas, afinal o que faria aquele avião ali? Porque esta passando tantas vezes sobre a praia? Essas devem ter sido as perguntas mais freqüentes durante as mais de 2 horas que voamos sobre as praias cariocas. Mas a única certeza é que todos estavam encantados com o que viam.

Para fechar este histórico vôo, o Dornier aproou o Santos-Dumont e iniciou o procedimento de pouso para a pista 02, mas ao invés de pousar ele realizou uma passagem baixa sobre a pista, seguida de outra ainda mais baixa vindo pela cabeceira 20.

Mais tarde soube que na última passagem um dos controladores da Torre Santos-Dumont disse ao Dornier: “Se tivesse voado um pouco mais baixo você tinha arrancado meu balizamento”. Realmente foi uma passagem que fez jus ao adjetivo “baixo”.

Após esta última passagem pelo Santos-Dumont, iniciamos o procedimento para pouso na Base Aérea dos Afonsos. As 14:50 cortávamos os motores, encerrando um dos mais fantásticos vôos que já realizei.

Aonde quer que esteja o Dornier Do-24ATT faz com que todos olhem para ele. Um belo avião, que conseguiu reunir de maneira harmoniosa o clássico com o moderno. Fazendo dele muito mais do que o único exemplar do tipo existente no mundo. Existem inúmeros exemplares de aviões únicos ao redor do mundo, mas poucos conseguem ser tão carismático quanto este.