Confesso estar mais ligado à aviação
comercial que a aviação executiva. Não por
falta de interesse, mas de oportunidade. A aviação
executiva é um mundo bastante restrito, especialmente por
envolver na maioria dos casos, grandes organizações
ou empresários, que tem nos aviões uma ferramenta
importante de trabalho. A possibilidade de voar para praticamente
qualquer parte do mundo, aliado ao sigilo proporcionado, são
os grandes atrativos desse segmento para o mundo empresarial. Por
tanto, não são todos os dias que pessoas comuns, alheias
ao mercado corporativo tem oportunidade de voar em aviões
privados. A oportunidade de realizar um ensaio em vôo no Dassault
Falcon 2000EX foi muito bem recebida. Porém, por envolver
um avião em uso por uma grande organização
brasileira, foi solicitado que em momento algum citássemos
o nome do proprietário ou detalhes da aeronave.
Nosso ensaio foi resumido em voar a aeronave no trecho entre o aeroporto
de Congonhas e Brasília. Não permitindo um ensaio
com um dutch roll, por exemplo. A única manobra que estávamos
previamente autorizados a realizar era uma descida de emergência,
em um mergulho de alta velocidade.
Ao chegar em Congonhas me deparei com um belo avião birretator
estacionado no pátio da aviação geral. O programa
Falcon 2000 foi anunciado em 1989, visando atender as exigências
do mercado que buscava um avião espaçoso com grande
alcance. O avião deveria ter alcance de 3.000 milhas náuticas,
com oito passageiros a mach 0.80. O primeiro vôo ocorreu em
1993 e homologação se deu em dezembro de 1994, quando
a então recém criada European JAA (Joint Aviation
Authorities), expediu o certificado de tipo, seguida da FAA (Federal
Aviation Administration) em fevereiro do ano seguinte. O avião
tornou-se um grande sucesso de venda da Dassault. Contudo, diversos
operadores buscavam as mesmas características do modelo,
com alcance suficiente para realizar vôos entre a costa leste
dos Estados Unidos e a Europa, sem escalas. Visando atender este
mercado a Dassault ampliou o alcance do Falcon 2000 em 800 milhas
náutica, voando a Mach 0.80 e com seis passageiros abordo.
Basicamente mantiveram o mesmo avião, equipando-o apenas
com motores mais potentes e com tanques extras capazes de levar
4.400 libras a mais de combustível.
Neste último, devido aos tanques adicionais do tipo belly
tank, o sistema de combustível sofreu algumas alterações,
como a adição de duas novas bombas (totalizando agora
quatro) e sistema digital de abastecimento. Os tanques são
pressurizados, permitindo que o fluxo de combustível continue
constante mesmo numa eventual falha das bombas, ainda que a pane
ocorra durante a decolagem. Outro ponto interessante é que
o Falcon 2000EX tolera uma assimetria de até 2.200 libras
entre os tanques das asas, não importando a fase do vôo.
O projeto 2000EX foi anunciado em 2000, o primeiro vôo ocorreu
em janeiro de 2002, e a homologação em maio de 2003.
Desde 2004 os Falcon 2000EX passaram a sair de fabrica com a moderna
suíte de aviônicos EASy (Enhanced Avionics System).
Entretanto, o avião deste ensaio por ser um modelo do primeiro
semestre de 2004, ainda não conta com esta suíte,
que de forma alguma o torna obsoleto se comparado com os aviões
mais recentes. Apenas tem um painel menos avançado, se é
que podemos chamar assim.
Logo ao me aproximar da aeronave notei o enorme uso da área
rule na parte traseira do avião. Que teve seu uso maximizado
visando melhorar a aerodinâmica e com isso reduzir o consumo
de combustível. As asas possuem um perfil bastante limpo,
sem o tradicional uso de vortex generators ou stall stripe. Um dos
grandes trunfos da família Falcon é justamente a grande
eficiência da asa. Tanto que graças ao uso de slloteds
slats e flaps fowler double slloted, o Falcon 2000EX possui em condições
normais Vmo de 370 nós e Vref de 110 nós.
Outro ponto interessante é o tamanho do motor Pratt &
Whitney PW 308C, capaz de desenvolver 7 mil libras de empuxo cada
e dotados com dois FADECs (Full Authority Digital Engine Control).
Ao completar a “volta olímpica”, tenho a impressão
que o avião é bastante compacto, não parecendo
ter 20,21 metros de comprimento. Impressão que mudou imediatamente
após embarcar. Ainda que já tenha estado abordo de
outros modelos similares, não tinha realizado uma inspeção
pré-vôo, analisando cada centímetro do avião.
Deste ponto de vista, ao entrar na cabine se tem à nítida
impressão que ele é muito maior por dentro. A cabine
conta com o primoroso acabamento que é uma característica
marcante da Dassault e foi configurada para oito passageiros, conta
seis poltronas, com 20 polegadas de largura, que reclinam até
180 graus. Além de um espaçoso sofá montado
na lateral da cabine. No final da cabine está instalado um
amplo toalete, com acesso ao bagageiro.
Após conhecer brevemente a cabine de passageiros, chegou
à hora de conhecer o cockpit, que para quem gosta de aviação
é a parte mais interessante.
Como já citado, esta versão ainda está equipada
com a suíte Rockwell Collins Pro Line 4, que é composta
por quatro tubos EFIS 4000 de 7 ¼ por 7 ¼ polegadas;
três EIED de 3 por 3 polegadas, com tripla redundância;
EGPWS com windshear detection; dois FMS Rockwell Collins 6100, acoplados
em dois GPS de doze canais; TCAS II, dois IRS Honeywell Lasaref
IV; dois HF e Selcal. Como é tendência nos aviões
construídos nos últimos anos, os instrumentos stand-by
também são de cristal líquido, reunidos em
um único display denominado Secondary Flight Display. A segurança
e confiabilidade proporcionada pelos sistemas digitais, têm
eliminado os antigos instrumentos eletro-mecânicos, reduzindo
não apenas o custo de manutenção, mas especialmente
a carga de trabalho dos pilotos.
O sistema elétrico é de 28 volts (DC) alimentado pelos
geradores dos dois motores, mais a APU. Sendo que a APU pode ser
utilizada inclusive em vôo, até o FL 350.
Após revisarmos nosso plano de vôo iniciamos o acionamento,
que é bastante simples devido ao FADEC. Após ligar
as boost pump 1 e 2, colocar as manetes de combustíveis na
posição aberta, basta pressionar o start bulton. Toda
a seqüência de partida é realizada pelo FADEC,
que monitora todo o processo, sendo que em caso de alguma anomalia,
como por exemplo, hot start, ele aborta a seqüência de
acionamento. Neste caso especifico, quando a ITT estiver abaixo
dos 150ºC, uma nova partida é iniciada. Caso ocorra
uma nova hot start o processo é interrompido. O FADEC neste
caso possui outra função, bastante interessante, que
é o auto relight, que aciona as ignições do
motor caso eles apaguem devido a forte chuva. Apenas sinto falta
do EICAS, que não era incluso na suíte Pro Line 4.
Somente os modelos com o pacote EASy, que contam com o sistema.
Considero que num avião desses, o EICAS fundamental e deveria
fazer parte do projeto desde o desenvolvimento.
Seguindo a tendência dark cockpit, as luzes anunciadoras ficam
apagadas enquanto o sistema estiver operando normalmente. A Dassault
também optou pelo conceito onde os switches do over head
painel quando estão para cima, estão na posição
ligado, e para baixo, desligado. Este conceito é muito comum
na aviação militar, facilitando a visualização
da situação de cabine.
Após o acionamento, fomos autorizados a taxiar até
a cabeceira 17. Enquanto realizei o táxi coloquei os flaps
em 20, senti que os freios comandados eletricamente são bastante
eficientes e sensíveis. Assim que fomos autorizados a decolar
levei as manetes para posição de decolagem, onde o
FADEC assume o restante do trabalho, fazendo os motores PW 308C
gerarem toda potencia disponível. Assim que deixamos o solo
fomos instruídos a manter a saída King e logo após
cruzar Sorocaba somos liberados a ascender direto para o FL 410.
Como estávamos com peso de 35 mil libras, e dois passageiros,
atingimos nossa altitude de cruzeiro em exatos 19 minutos, tendo
consumido exatas 1.010 libras de combustível. Em seguida
aceleramos para nosso cruzeiro de Mach 0.8.
Todos os controles primários de vôo são hidráulicos,
permitindo uma leveza surpreendente dos controles. Em caso de pane
total dos sistemas hidráulicos, os comandos passam a ser
mecânicos, devido a uma haste que interliga o manche e os
pedais as superfícies de controles.
O sistema hidráulico do Falcon 2000EX é composto por
dois sistemas independentes. O sistema um é operado por duas
bombas hidráulicas, uma instalada no motor número
1, que de acordo com o manual é denominado pump 1, hydr #1,
e outra bomba no motor número 2, que é o pump 2, hydr
#1. O sistema hidráulico dois possui uma bomba instalada
no motor 2, denominado pump 1, hydr #2, e uma bomba hidráulica
auxiliar acionada eletricamente. Esta última pode operar
ambos os sistemas durante a manutenção, bastando acionar
o switch correspondente instalado no cone de cauda.
Enquanto analisava nosso desempenho em vôo notei que o sistema
anti-ice é acionado automaticamente assim que entramos em
condições de gelo. É curioso notar que nenhum
Falcon necessita de proteção antigelo nos estabilizadores
vertical ou horizontal, devido a grande margem de segurança
adotada para estas superfícies. Ponto que considero positivo
nos projetos da Dassault.
Ainda que sem muita esperança, solicitamos ao controle
Brasília autorização para uma descida direta
e alta velocidade para o FL200 que havia sido autorizado. Para
nossa surpresa a solicitação foi concedida. O procedimento
utilizado é exatamente o mesmo da descida em emergência.
Então desacoplei o auto pilot e iniciei uma razão
de descida com 14 graus de nose down, com a VSI marcando próximo
dos 14 mil pés por minuto e muito próximo de atingir
a MMO.
Durante todo o procedimento não houve qualquer tendência
à perda de controle, mach tuck ou inversão dos comandos
dos ailerons, mantendo durante todo o tempo à eficiência
dos comandos.
Para não ultrapassar o nível de vôo autorizado,
acionei os speed brakes e reduzi o motor para idle. Mantivemos
o vôo normal até o pouso, onde após o toque,
os ground spoilers atuam automaticamente, auxiliando na frenagem.
Eles podem ser utilizados também em caso de decolagens
abortadas, uma segurança a mais neste tipo de operação.
Uso o reverso que se mostra bastante eficiente e pode ser usado
até os 20 nós, sem risco de FOD. Um ponto importante
é que sistema é atuado hidraulicamente e graças
a um acumulador se pode utilizar o reverso mesmo em casos de perda
total do sistema hidráulico.
Poucos metros antes de livramos a pista já estávamos
com os groud spoilers recolhidos e reversos fechados. Mantive
o controle através do steering, levando esta bela ave até
a posição de estacionamento designada e refletindo
sobre as excelentes qualidades da família Falcon.
O excelente projeto aerodinâmico e a integração
dos sistemas, aliado a grande autonomia de vôo, o tornam
um dos melhores aviões da categoria. Quando estava desembarcando,
um funcionário da empresa de catering comentou: “E
bichão bonito esse daqui hein!”. Com tantas qualidades
técnicas, tinha me esquecido desse detalhe, ele também
é um belo avião.